Um investimento infalível

De fato, a oração é o melhor meio possível de externar nossos medos.

Os historiadores hão de olhar para o ano de 2008 como um tsunami financeiro cuja onda deixou milhões de pessoas sem casa, provocou falências e liquidou empregos. Como se estivessem competindo para abandonar os princípios básicos do capitalismo, os governos jogaram dinheiro em bancos, companhias de investimento e grandes seguradoras, numa tentativa de restaurar a confiança e estancar o fluxo de capital.

Durante um dos períodos mais voláteis, uma semana em que as bolsas de valores de todo o globo caíram por volta de US$ 7 trilhões, recebi um telefonema de um editor da Time. “Você escreveu um livro sobre oração, certo?”, ele disse. “Diga-me, como uma pessoa deve orar durante uma crise como essa?”. No decorrer da conversa, chegamos a um modo de orar em três estágios.

O primeiro estágio é simples, tal como um grito instintivo: “Socorro!”. Para alguém que encara uma demissão no emprego ou uma crise na saúde, ou assiste às suas reservas previdenciárias desmoronarem, a oração oferece uma saída para expressar o medo e a ansiedade. Tenho aprendido a resistir à tendência de editar minhas orações, de modo que pareçam sofisticadas e maduras. Acredito que Deus quer que nos acheguemos a ele exatamente como somos – e não importa quão infantil possamos nos sentir. Um Deus consciente de cada pardal que cai certamente sabe o impacto dos momentos de crise financeira sobre os frágeis seres humanos.

De fato, a oração é o melhor meio possível de externar nossos medos. Como um modelo para orações em tempo de crise, olho para Jesus na noite do Getsêmani. Ele se jogou no chão por três vezes, suou tanto que, de seu corpo, saíam gotas como de sangue e se sentiu “angustiado, com tanta tristeza até a morte”. No meio daquela angústia, entretanto, sua oração mudou do desesperado “afasta de mim este cálice” para o resignado “faça-se a tua vontade”.

Nas cenas de traição que se seguiram, Jesus foi a pessoa mais calma ali presente. Seu período de oração o aliviara da ansiedade, reafirmara sua confiança no Pai amoroso e lhe dera coragem para encarar o horror que o esperava.

Se eu oro com a intenção de ouvir tanto quanto falo, posso entrar num segundo estágio, o da meditação e reflexão. Então, se tudo o que guardei em vida virtualmente desapareceu, que posso esperar no meio da catástrofe? Um tempo de crise mostra uma boa oportunidade de se identificar a fundação sobre a qual construímos nossa vida, se foi sobre a areia ou a rocha. Se eu deposito minha máxima confiança numa seguradora ou na habilidade do governo em resolver meus problemas, certamente vou assistir à inundação de meu chão, e as paredes vão desmoronar.

Um amigo costumava dizer que a Bíblia faz três perguntas principais sobre dinheiro. A primeira é: como você o obteve, de maneira legal e justa ou por meio de exploração? A segunda, o que você está fazendo com ele, satisfazendo luxúrias desnecessárias ou ajudando os necessitados?; e, em terceiro lugar, o que ele está fazendo com você? Aliás, algumas das parábolas e ensinos mais incisivos de Jesus vão direto ao ponto central da última pergunta.

Diante do colapso financeiro, talvez passemos a tirar o pó de palavras fora de moda, como cobiça, moderação, integridade e confiança. Mas quando os executivos forram seus bolsos à custa de empregados e ações, os bancos fazem empréstimos especulativos com pouca probabilidade de liquidação da dívida e quem pede emprestado foge dos contratos de boa-fé, o sistema inevitavelmente entra em crise. Uma economia funcional se mantém firme por uma fina teia de confiança. Se você duvida, visite um país em que seja preciso pagar subornos para que algo aconteça e onde se tenha de contar o troco depois de cada compra.

Na mesma semana que a saúde global encolheu por volta de US$ 7 trilhões, a taxa de inflação do Zimbábue bateu um recorde de 231.000.000%. Em outras palavras, se você havia poupado Z$ 1 milhão (1 milhão de dólares zimbabuanos) na segunda-feira, na terça esse montante valia Z$ 1,58. Este fato surpreendente me leva ao terceiro e mais difícil estágio da oração em meio à crise: preciso da ajuda de Deus para tirar meus olhos dos meus próprios problemas, a fim de que olhe com compaixão para os verdadeiramente desesperados.

Jesus nos ensinou a orar nestes termos: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, e nós sabemos que o céu não inclui sem-tetos, indigentes ou famintos. Quando as ações da bolsa afundaram a uma profundidade desconhecida, não pude deixar de pensar nos hospitais, asilos, creches, agências missionárias e outras instituições não-lucrativas, todas muito dependentes da dádiva de doadores.

Que testemunho seria se, em 2009, os cristãos resolvessem aumentar suas doações para a construção de casas para os desabrigados, combater a Aids na África e anunciar os valores do Reino a uma cultura decadente, conduzida por celebridades? Esta resposta desafia todo o sentido comum e lógico – a menos que, é claro, levemos a sério a lição moral de Jesus naquela simples parábola a respeito de como construir casas sobre uma fundação firme.

Philip Yancey é um escritor e jornalista cristão americano.

Artigo publicado originalmente no site Cristianismo Hoje em dezembro/10. Os conteúdos da Cristianismo Hoje, a partir de maio/17, estão incorporados, com autorização, à plataforma da Revista Comunhão (Next Editorial)

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