“Todo pastor precisa ser pastoreado”, ressalta Gedimar

“Todo pastor precisa ser pastoreado. Todo pastor enfrenta situações difíceis em casa, na igreja e na vida pessoal”

Natural de Colatina, Gedimar de Araújo, pastor da Igreja Evangélica Ágape, é líder nacional do Ministério de Apoio para Pastores e Igrejas (Mapi). Casado com Wanda Scherrer de Araújo e pai de Marcus Vinícius e Paulo Victor, ele é formado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte em Recife. Há 23 anos, atua no pastoreio de pastores e tem capacitado líderes igrejas de todo o Brasil.

Em que circunstâncias decidiu fazer parte desse novo ministério? Quando tive contato com o Mapi, eu estava à procura de ajuda ministerial. Estava frustrado com o ministério em minha igreja local e precisava ser orientado. Mas, descobri logo de cara que precisava primeiro de ajuda para mim, pois eu mesmo nunca tinha sido discipulado por alguém e nunca havia sido cuidado de verdade.  Comecei no primeiro grupo de discipulado do Mapi, aqui no Estado. Quem liderava o grupo era o saudoso Deneval Mendes, que pastoreava a Assembleia de Deus do Aribiri e a Missão Cristo Vive. Ali eu recebi ajuda para a minha vida e para o meu casamento.

No âmbito pessoal, quais planos o senhor gostaria de realizar? Creio que já alcancei sonhos pessoais em vários níveis. Mas o que eu gostaria de fazer era poder me dedicar a produzir material de formação para a Igreja brasileira. Sei que tem muita coisa boa no mercado. Sei que temos muitos autores bons. Mas eu amo escrever e ensinar. Gostaria de poder dedicar uma parte do meu tempo a produzir material para pequenos grupos, para formação de liderança, para capacitação dos pastores.

Qual é a importância da família na vida de um pastor que pretende ter êxito em suas funções? Trabalhamos com círculos, que expressam que cada pastor precisa de três grupos pequenos ao seu redor para ser saudável. O primeiro é um grupo de pastoreio de pastores: quem cuida do pastor? Um grupo pequeno de pastoreio de pastores é indispensável para um pastor ser saudável, pois cuida dele de forma preventiva e nas horas das crises o acompanha e apoia. O segundo é um casamento sólido: o pastor que negligencia sua própria família mina seu ministério e vida. Por isso temos ensinado que todo pastor precisa de apoio para seu casamento e para sua família. E o terceiro é uma equipe de liderança saudável: um pastor sem uma verdadeira equipe não é saudável em seu ministério. A mudança de um modelo pastor-cêntrico (e egocêntrico) é uma mudança de paradigma. A família do pastor é seu primeiro ministério e onde ele deve vivenciar tudo aquilo que deseja para a família dos demais membros da igreja.

Como avalia a sua trajetória na liderança do Mapi? Quais as maiores conquistas do ministério? Estamos num processo de transição de liderança no Mapi, que começou em 2011 e terminará no final deste ano. O líder fundador do Mapi no Brasil é o missionário David Kornfield, que serviu na Sepal por quase 20 anos, mas devido a uma necessidade familiar precisou regressar aos Estados Unidos. David agora está plantando o pastoreio de pastores no Paraguai, Bolívia, Colômbia e Venezuela. Devido a isso, ele precisou deixar de liderar o Mapi no Brasil para poder se dedicar a esse novo desafio. Como eu tenho caminhado na liderança do ministério há muitos anos, fui designado para dar continuidade ao trabalho, agora liderando o ministério no Brasil. Dentre as várias conquistas do Mapi, eu destaco: ter um modelo claro de discipulado quando ninguém falava disso no Brasil; ter lançado em 1994 um livro sobre grupos familiares antes mesmo de qualquer onda de células; ter ajudado a consolidar a questão dos dons e ministérios; ter começado a falar sobre equipes pastorais; e agora estar catalisando um movimento de pastoreio de pastores nas denominações.

O Mapi tem como visão “Cada pastor com um mentor; cada igreja com liderança saudável”. Como vê a importância do trabalho desenvolvido pelo ministério de apoiar e capacitar pastores brasileiros? O Mapi foi precursor de várias ações que auxiliavam os pastores. Nosso propósito sempre foi o de capacitar os pastores para o desenvolvimento de suas vidas e ministérios. Não existe pastor saudável sem uma equipe saudável. Ao mesmo tempo, não existe igreja saudável com pastor e liderança doentes. Tudo começa pelo pastor e pela liderança principal da igreja. Essa equipe precisa vivenciar o DNA daquilo que a igreja se tornará. O Mapi tem conseguido apoiar pastores em 16 estados do Brasil e tem possibilitado a esses pastores acesso a materiais e treinamento de qualidade a um baixo custo.
Isso porque os nossos líderes são voluntários e não recebem nada para realizar o trabalho de ajudar os pastores.

Como funciona o trabalho de ser “pastor de pastores”? Um pastor, nesse contexto, também é ovelha? Todo pastor precisa ser pastoreado. Todo pastor enfrenta situações difíceis em casa, na igreja e na vida pessoal. Mas muitos pastores acham que não são mais ovelhas. Muitos acham que não precisam de ninguém, pois é Deus quem trata deles. Tenho atendido muitos pastores que precisam ser ouvidos, valorizados, animados. Muitos estão vivendo crises na igreja, pensando em abandonar o ministério. Cuidar deles é mostrar que eles são “gente” e que vão sentir medo, vão ficar confusos, vão perder a esperança, como qualquer ser humano normal. Trazer de volta essa humanidade é imprescindível para uma pessoa que descambou para o caminho da “deificação”. Nenhum pastor fala que é Deus, mas muitos agem como se fossem. Eles se entregam tanto ao ministério que se esquecem do que Paulo orientou em Atos 20.28 – NVI: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a Igreja de Deus, que Ele comprou com o Seu próprio sangue”. A ordem é clara, cuidem de vós e do rebanho. Portanto, o cuidado da vida do pastor é uma ordem bíblica que não pode ser desobedecida sem consequências.
As consequências estão aí por toda parte na vida de pastores enfermados.

Quais características apontaria como essenciais para quem deseja exercer o pastorado? Antes de tudo, o pastor deveria se perguntar: “Eu fui chamado e vocacionado por Deus para o ministério?” Uma coisa é ser designado por Deus, outra coisa é você ser “visto” pelos homens. Muitos vão para o ministério por motivações erradas, achando que no ministério terão poder, fama e dinheiro. Isso não é verdade. O ministério é o contrário disso. Nas sábias palavras do apóstolo Pedro (1 Pe 5.1-4): “Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória”. Pastorear é dar cuidado integral às pessoas. É zelar pela vida daqueles que Deus nos confiou. É estar pronto a dar a própria vida pelo rebanho.

O nível dos pastores brasileiros caiu nos últimos anos, quando se fala em conhecimento das Escrituras? Vejo que existem muitas distorções. No Mapi não estamos tão preocupados com os títulos ou os cursos que alguém tenha. Isso é importante e complementa, mas não é tudo. Existem pastores com muito conhecimento, mas pouco caráter. Existem pastores com muito carisma, mas pouca verdade. O tripé carisma, caráter e competência é o que faz um pastor ter um ministério abençoado. A ausência de conhecimento bíblico não começa no ministério. Na verdade, começa na igreja que não desperta o interesse das pessoas pela leitura bíblica.
 
Quais são os maiores impedimentos para um pastor buscar cuidado para sua própria vida? Podemos encontrar algumas facilidades e situações propícias ao cuidado pastoral, mas normalmente temos encontrado resistências. Algumas delas são externas e outras até mesmo internas. Em primeiro lugar, pastores tendem a ser individualistas, andar só e ter um espírito competitivo. E quebrar esse paradigma da independência para se entregar à interdependência é incrivelmente difícil. Muitos nem querem; outros querem, mas não sabem como fazer. Existem também desconfiança, medo de transparência e autossuficiência. É uma imagem a proteger e a falta de outros pastores transparentes leva a maioria de pastores a não se arriscar em criar relacionamentos comprometidos e saudáveis. Em terceiro lugar, temos a tirania do urgente. Pastores estão sobrecarregados, ativistas e lhes falta tempo. A maioria de pastores tem muita dificuldade em dizer “não”. A lista de coisas para fazer sempre é maior ao final do dia do que ao início.  Então, onde encontrar tempo para cuidar de si mesmo? Para um grupo de pastoreio de pastores?

Em quarto lugar, temos a batalha espiritual: resistência da carne, dos valores do mundo e do diabo. O mundo grita que andar só é sinal de maturidade, que precisar de outras pessoas é demonstração de fraqueza. O diabo faz tudo para nos manter isolados, sabendo quão fácil é nos derrotar assim, sabendo quão vulneráveis somos ao pecado. Também aponto a questão da insegurança. Colocamos máscaras, não sabemos andar com a face descoberta (2 Co 3.12-18). Sendo assim ninguém realmente nos conhece. Não nos conhecendo, não conseguem nos amar. Não sendo amados, ficamos inseguros.

E por fim, temos o orgulho: muitos pastores realmente acreditam que não precisam ser pastoreados. Claro que não usariam a palavra “orgulho”. Usariam palavras como força, maturidade, graça, espiritualidade, dependência de Deus.

Um estudo recente aponta que os pastores são vistos como menos confiáveis nos dias de hoje. Entre os motivos para isso estão: postura de propriedade sobre a igreja, falta de ética, baixa capacidade de liderança e inteligência emocional deficiente. Como deve ser conduzido o trabalho de recuperação da credibilidade pastoral? Isso passa pela necessidade de o pastor se submeter à liderança de outra pessoa. Qualquer pessoa entregue a si mesma vai se complicar. Ela se torna o único padrão, o dono da verdade. Quem pode confrontar o pastor? Isso é loucura, é insano. Pastor precisa prestar contas de sua liderança a alguém de carne e osso. Ele precisa ser admoestado e corrigido. Ele precisa ser trazido ao equilíbrio. Eu confio em pastor que tem outras pessoas acima dele. Pastor que é solitário tem a tendência a virar “lobo”. “Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho.

E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos”. (Atos 20.29 e 30). Paulo esclarece aos presbíteros de Éfeso que, ao ficarem sozinhos, eles enfrentariam muitos problemas.

Um ditado diz que “a palavra convence, mas o exemplo arrasta”. Na sua opinião, falta ao líder da igreja dar o bom testemunho capaz de arrastar o rebanho?
Vamos deixar Paulo responder a essa pergunta: “Ordene e ensine estas coisas. Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza”. (1 Tm 4.11-12). Nós geramos segundo a nossa espécie. Aqueles que nos seguem reproduzirão o que somos. Tem muita aparência, tem muito glamour, tem muito holofote no ministério, falta a evidência de uma vida transformada. É triste saber que existem pastores que pregam verdades que eles não vivem.
 
Como as pressões do cargo podem atrapalhar a trajetória do pastor? Fugindo da tirania do urgente. Procurando a essência que está em nós – Cristo. Investindo naquilo que é fundamental, como: vida com Deus; tempo para a família; descanso sabático; caráter tratado. O pastor precisa treinar líderes que possam realizar a obra e a quem possa delegar tarefas. Pastor não pode trabalhar sozinho, fazer tudo sozinho. Muitos pastores e famílias pastorais têm sido afetados de forma negativa pelo ministério pastoral. Tem pastores que são heróis do lado de fora de casa e vilões dentro de casa. Ele é aclamado pela multidão, mas sofre de solidão. Ele ajuda todo mundo, mas jamais pede ajuda. Essa cultura precisa mudar.

Quais os maiores desafios para se chegar a uma Igreja saudável? Claro que a resposta a essa pergunta é muito complexa. Não existe uma fórmula mágica ou única, mas eu creio que a chave é ter pastores e líderes saudáveis. A Igreja precisa investir em seus pastores. Permitir que os mesmos possam receber apoio e ajuda. Investir financeiramente para o preparo e o cuidado do pastor. Esse investimento acaba retornando para ela mesma, pois um pastor saudável vai gerar um ministério saudável, e isso abençoa a Igreja.

Quais são os benefícios do pastoreio de pastores? As seis ideias a seguir vêm de uma observação de Efésios 4.11-16, que fala que a função pastoral pode também ser aplicada ao pastoreio de pastores.  Pastores que são pastoreados ganham benefícios. O primeiro é o trabalho em equipe, ganhando graça, sabedoria e experiência através do caminhar com outras pessoas, com os chamados de Ef 4.11.

Pastores têm uma tendência à solidão e a fazer tudo sozinhos. Muitos trabalham baseados na identidade de servo e não de filho. Não sabem ou não gostam de delegar para outros as tarefas que não são suas prioridades. Têm dificuldade para dizer não. A seguir, temos o fato de o pastor ser equipado ou capacitado. O papel do pastor é equipar os santos, mas quem capacita-o para que ele faça isso cada vez melhor? Muitos pastores sabem pregar e ensinar, mas sabem bem pouco sobre como capacitar os santos para a obra do ministério. A palavra grega aqui é katartismos: consertando ou remendando (Mc 1.19), encaixando, preparando plenamente (NVI), equipando, restaurando (Ga 6.1), aperfeiçoando (Era). De novo, apenas podemos dar o que já recebemos e continuamos a receber. Em terceiro, vem o amadurecimento, em conhecimento, em habilidades relacionais, habilidades ministeriais e caráter. Ninguém é saudável sozinho. Ninguém é maduro sozinho. No pastoreio ouvimos perspectivas sábias que são diferentes das nossas. Recebemos de dons a personalidades diferentes das nossas e crescemos com pessoas que estão em nossa frente em uma área ou outra.

Também podemos apontar a sabedoria (Tg 3.16, 17) e a saúde emocional. Elas são possíveis através de estabilidade e firmeza sem rigidez, e interdependência, buscando pontos referenciais ao fazer decisões. Ganhando uma perspectiva divina, ouvindo a Deus com outras pessoas maduras. Outro benefício é a habilidade de resolver conflitos, desenvolvendo a habilidade de falar a verdade em amor, confrontar de tal forma que ganha o irmão (Mt 18.15). A vida pastoral é cheia de conflitos!  Que bênção ter um grupo onde dá para ouvir conselhos e crescer em nossa habilidade de amar verdadeiramente e falar a verdade em amor! E por fim, há conexão, com o pastor sendo auxiliado, ajustado e unido ao resto do Corpo. Ele aprende a não se sentir responsável sozinho e buscando ajuda e envolvimento de todos, sendo parte de algo maior.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.