Terceira idade: a igreja precisa ouvi-la

Quando o assunto é experiência de vida, não há como negar. Doutores e especialistas podem ser procurados e questionados sobre o problema em questão, mas a resposta, na prática, é bem mais facilmente obtida quando se pergunta a uma pessoa de mais idade. E isso cabe normalmente em qualquer área da vida: na família, no trabalho, na vida conjugal, nos relacionamentos, no estudo e na igreja.

Ao contrário do que muitos pensam, o envelhecer não pode ser encarado com pessimismo e falta de propósitos. Ao contrário, é uma fase da vida em que se assume um novo papel, uma nova função. A pessoa torna-se, quase automaticamente, fonte de conselhos e sinônimo de sabedoria.

Segundo o Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há no Brasil 14.081.480 pessoas acima de 65 anos e no Espírito Santo esse número é de 249.617, o que representa 7,1% da população capixaba. Estima-se que dentro de 30 anos, a terceira idade brasileira alcance os 20 milhões de pessoas.

Diante desse cenário, o mundo, aos poucos, tem prestado mais atenção no crescimento dessa faixa etária e desenvolvido atividades e programas para essas pessoas, e isso acontece, sobretudo, nos países desenvolvidos. Mas e a Igreja, o que tem feito? A Bíblia manda valorizar os mais velhos. Em Levítico 19:32, por exemplo, há a seguinte ordem: “Diante das cãs te levantarás, e honrarás a presença do ancião, e temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor”.

Abraão recebeu as maiores bênçãos de sua vida quando já estava com 100 anos (Gênesis 21) e Deus declara em vários trechos da Bíblia que Ele cuida de seus filhos seja em qualquer fase da vida: “Até a vossa velhice eu serei o mesmo e, ainda quando tiverdes cabelos brancos, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei” (Isaías, 46:4). E, para destacar a importância de se respeitar e ouvir os mais velhos, o Pai ressalta em Jó 12:12: “Com os anciãos está a sabedoria, e na longura de dias o entendimento”.

“Quando precisamos de alguém que tenha força, nós procuramos os jovens. Mas quando precisamos de conselho e experiência, vamos sempre aos mais velhos. Experiência é uma junção do que você errou e do que acertou ao longo dos anos vivos, e isso é próprio dos mais velhos, dos avôs e das avós”. A afirmação é do pastor Oscar Domingos de Moura, que tem 80 anos, e é presidente da Convenção das Assembleias de Deus no Estado do Espírito Santo e Outros (Cadeeso). O pastor Oscar é pai de nove filhos, avó de 25 netos e seis bisnetos.

“Eu coordeno 2 mil pastores pela Cadeeso e, mesmo com a minha idade, eles sempre me procuram para pedir conselhos. Com 80 anos, eu já vi muita coisa, já vivenciei muita coisa e hoje sou muito procurado para orientar sobre a igreja, sobre a família. Até as crianças me procuram… Na minha família, então, nem se fala. Os filhos e netos sempre vêm conversar comigo, e isso é muito bom”, declara o pastor.

Valor reconhecido
No entanto, será que essa tem sido a realidade nos lares e igrejas? A terceira idade tem recebido o seu reconhecimento, tem tido espaço, pode falar, opinar, aconselhar? Muitas vezes, os mais velhos são deixados de lado, como se não tivessem mais forças nem mesmo para conversar, mesmo estando mais dispostos do que muitos jovens e adolescentes.

“Já se foi o tempo em que a imagem dos idosos estava somente ligada aos almoços de domingo, à velha cadeira de balanço, óculos na ponta do nariz, roupas de lã antiga, jeitinho manso de falar e histórias de quando os tempos eram diferentes. Hoje, mais do que nunca, os avós assumem um papel muito importante na educação de seus netos e também na sociedade. Na Bíblia, os textos sugerem que a tarefa principal dos mais velhos era deixar um exemplo de integridade e piedade e repassar um legado de fidelidade espiritual às gerações posteriores”, diz o escritor americano David Merkh, que está lançando o livro “O legado dos avós”, pela Editora Hagnos, junto com D. Mary-Ann Cox, sogra dele.

David Merkh destaca que Enoque é o primeiro grande exemplo de avô na Bíblia. Gênesis 5:21-24 diz que Enoque “andava com Deus”. “Ele vivia constantemente na presença do Criador. Não é coincidência que seu bisneto, Noé, fosse a única outra pessoa no Velho Testamento descrita nos mesmos termos. O legado do bisavô estendeu-se até a pessoa escolhida por Deus para salvar a humanidade, Noé”, afirma.

Já no Novo Testamento, o exemplo é de uma pessoa da Terceira Idade é Lóide, avó de Timóteo, um jovem pastor, discípulo do apóstolo Paulo. “Nessa época, as pessoas idosas eram tratadas com grande honra e respeito. Já em I Timóteo 5:4-8 está escrito que as viúvas deveriam ser cuidadas pelos filhos ou netos e que alguém que recusava fazê-lo era pior que um ímpio. Precisamos resgatar essa cultura de respeito e honra e beber da fonte de sabedoria das gerações anteriores”, alerta o escritor.

O líder do Ministério Geração Calebe (voltado para treinamento, cursos e palestras para líderes de terceira idade e para idosos no Brasil), Joílton Oliveira, ressalta que há, de modo geral, uma indiferença quanto ao cuidado com as pessoas dessa faixa etárias nas igrejas. “Na maioria dos casos, não estamos preparados para o envelhecimento de nossos membros. Infelizmente, cada vez que ‘um novo mover’ passa pelas igrejas, muitas dessas pessoas são colocadas de lado, abandonadas. Eu vejo organizações pelo mundo todo reunindo idosos, criando oportunidades deles poderem sair, passear, conhecer novos lugares e pessoas, fazer ginástica e coisas do tipo. No entanto, as nossas igrejas, que deveriam ser as primeiras a ensinar respeito aos mais velhos, simplesmente parecem fingir que eles não existem”, afirma Joílton, que também coordena o Ministério Maturidade Ativa da Igreja Batista do Méier, no Rio de Janeiro.

Ainda há muito que fazer
O pastor da Igreja Adventista Central de Vitória, Euzélio Vaz Filho, conta que os anciãos da igreja têm um papel fundamental nas atividades e eles estão em praticamente todas as comissões, inclusive há um grupo formado por 12 anciãos, que é sempre procurado para aconselhamento. “Eles são o alicerce da igreja e devem ser os conselheiros espirituais. Devem ser sempre procurados quando há um problema, seja na igreja ou na família. Mas temos que ter a preocupação de que não é toda pessoa mais velha que é conselheira. Há muitos que não têm esse dom, mesmo com toda a experiência de vida”, declara.

Segundo ele, a igreja desenvolve várias atividades com os integrantes da chamada Terceira Idade, desde cultos a passeios, que são, aliás, muito concorridos. “Nós saímos com eles, passamos um dia passeando ou até mesmo um final de semana. São momentos muito prazerosos porque eles conversam, brincam, se divertem. Nessas horas, a gente enxerga ainda mais como essas pessoas estão dispostas a trabalhar e como elas devem ser mais usadas pela família e pela igreja. Infelizmente, tenho visto que a terceira idade tem sido esquecida pela igreja de forma geral. Há muita atividade para a juventude, mas para os avós não. Eles são o alicerce da igreja e devem ser os conselheiros espirituais.”, destaca o pastor.

Na Igreja Batista do Ibes, em Vila Velha, a atenção aos mais velhos não é destinada apenas a encontros para louvor e adoração a Deus. Também são realizados passeios aventureiros e aula de ginástica. Três vezes por semana, um grupo da terceira idade se reúne na igreja para exercitar o corpo, sendo coordenado por um professor de Educação Física, membro da igreja. Além disso, eles saem para caminhadas e escaladas, como, por exemplo, no morro da Fonte Grande, na Pedra da Cebola e no Parque Botânico da Vale.

“A disposição deles é de dar inveja em qualquer um. É uma alegria muito grande ver os anciãos da nossa igreja integrados, participando de tudo. Temos que valorizar mais essas pessoas, valorizar a alegria, o conhecimento e a sabedoria delas. Eu, como pastor, tenho sempre buscado orientação com os mais velhos. Eles são a história da igreja, passaram por mais alegrias e dificuldades do que eu, então, tenho muito a aprender com eles”, ressalta o pastor da Igreja Batista do Ibes, Paulo Antônio Drago.

Entretanto, um serviço que a igreja presta para a terceira idade e que é motivo maior ainda de orgulho é o de transporte. Todos os domingos, de manhã e à noite, a Kombi da igreja sai de casa em casa buscando os vovôs e vovós para o culto. E, após a celebração, leva-os de volta. No meio da semana, o veículo é usado também para levar os idosos para consultas médicas, fisioterapia, ensaios de corais, reuniões de homens e senhoras e outras programações.

“E eu, graças a Deus, sou o privilegiado de ser o motorista dessa Kombi. Há oito anos faço esse trabalho, que, para mim, é um ministério. Por domingo, eu percorro cerca de 80 quilômetros e, nesse trajeto, eles brincam o tempo todo. Eu aprendo muito com os mais velhos. Você aprende sobre maturidade, paciência, como enfrentar problemas financeiros, cresce espiritualmente, porque ouve experiências de curas, aprende a orar mais pelos filhos. Tenho um carinho muito grande por todos eles”, conta emocionado Gilberto Gomes Fonseca, 53 anos, que é motorista aposentado.

Ainda há muito o que fazer com a terceira idade nas igrejas e nos lares. Se, de um lado, eles precisam de atenção e atividades, por outro, os adultos, jovens, adolescentes e crianças só têm a ganhar com a experiência já adquirida pelos avós ao longo dos anos.

Conselhos de quem já vivenciou diferentes fases na igreja, de quem acompanhou crises na família e se alegrou com vitórias alcançadas devem ser ouvidos e repassados, assim como Davi descreveu no Salmo 78: “O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a nossos filhos. Contaremos às vindouras gerações os louvores do Senhor e o Seu poder e as maravilhas que fez. Ele ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e, por sua vez, os referissem aos seus descendentes”.

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