Teologia: um chamado à vida, à prática e ao discipulado

Foto: Arquivo pessoal

Para o teólogo Roney Cozzer, a Bíblia é leitura para a vida inteira. “É preciso leitura, estudo constante e oração sempre”.

Apaixonado pelo estudo da Palavra de Deus desde os 14 anos, o teólogo Roney Cozzer, 35 anos, de Vitória (ES), é autor de 22 livros e dois capítulos de livros. O último deles, “Dificuldades bíblicas”, foi lançado recentemente e traz um caminho para entender pontos difíceis das Escrituras sagradas.

Roney já ministrou palestra em 400 igrejas de vários estados do Brasil sobre o estudo da Bíblia. “A Bíblia é leitura para a vida inteira e não para ficar entre os livros da estante, mas à mão, sempre. É preciso leitura, estudo constante e oração sempre. Este é o caminho”, disse.

Atualmente, Roney é professor do Instituto de Educação Cristã Crer e Ser, na capital do Espírito Santo, além de coordenar o curso de Teologia a distância da Faculdade Unilagos,m em Araruama (RJ), onde mora atualmente.

Em entrevista exclusiva à Comunhão, o teólogo fala de seu último lançamento, da importância da Teologia para a vida do cristão e no ensino da educação cristã das igrejas evangélicas do país. Confira

Comunhão – Como começou a sua sede por conhecimento da Palavra de Deus?

Roney – Vem desde a infância. Lembro-me que comecei a ler aos seis anos de idade, e na adolescência, entre 11 e 12 anos, meu pai me deu de presente um exemplar da Bíblia, na versão Almeida Revista e Corrigida. Até então eu só possuía aquele Novo Testamento com Salmos e Provérbios que era distribuído pelos Gideões Internacionais. Ficava ansioso para ter uma Bíblia completa, que contivesse mais livros para que eu pudesse ir além na leitura. Foi uma fase de minha vida inesquecível para mim. Eu diria que a minha relação com a Bíblia foi e tem sido ontológica! Quando ingressei no processo seletivo para um programa de mestrado profissional em Teologia, em Curitiba, haviam duas linhas de pesquisa. Uma delas era “Leitura e Ensino da Bíblia”. Não deu outra. A minha escolha estava feita. Minha dissertação de mestrado foi intitulada assim: “Contribuições da Leitura Popular da Bíblia para a formação integral do indivíduo: uma proposta de ensino a partir da educação cristã e sua cosmovisão”. Confesso que minha experiência pessoal com a Bíblia exerceu grande influência em meu interesse de pesquisa durante o mestrado, que, inclusive, a dissertação deve se transformar em livro.

O senhor acabou de lançar um livro discutindo as “Dificuldades Bíblicas”. Acredita que existem muitos cristãos que tenha dificuldades em entender a Bíblia? Por que?

Sim e isto é normal, visto que a Bíblia foi produzida em ambientes sociais, culturais, políticos e religiosos muito distintos do nosso, o que, naturalmente, refletiu no texto bíblico. É o sitz im leben da Exegese, isto é, “o lugar da vida” ou “lugar vivencial” que gera os textos bíblicos. É preciso “voltar” à ele para que possamos de fato entender os textos bíblicos. Negligenciar esse pano de fundo implica em não compreender adequadamente a Bíblia. Outro fator é que a Bíblia foi escrita em línguas diferentes da nossa. Isto reflete de modo significativo nas traduções bíblicas. Figuras de linguagem que são empregadas, hebraísmos, determinados termos que nos parecem estranhos, enfim, são vários fatores. Um exemplo interessante de como as pessoas por vezes interpretam equivocadamente passagens bíblicas é o caso de Marcos 10.25 onde podemos ler: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Almeida Corrigida Fiel). É muito comum encontrarmos explicações para o que seria esse “camelo” e essa “agulha”. Mas camelo e agulha ali são exatamente isto: camelo (animal) e agulha (de costura). Alguém poderá objetar: “Mas isto não faz o menor sentido! Um camelo passando pelo fundo de uma agulha?” De fato, se a passagem for lida ao pé da letra, não fará o menor sentido, assim como não faz o menor sentido em nossa língua dizermos que “Fulano bateu as botas”, ou dizer que “Está chovendo canivetes”. São figuras de linguagem que usamos em nosso idioma. Mas elas nunca devem ser interpretadas ao pé da letra. No livro Dificuldades Bíblicas não é uma obra exaustiva sobre o assunto. A obra é para ser lida “num tapa só”. Mas isto foi intencional. A ideia é que ele seja uma obra objetiva sobre o assunto e apresente de modo direto princípios e observações que vão ajudar o leitor da Bíblia a entender melhor passagens difíceis da Bíblia, empregando uma linguagem simples e direta. Neste esforço, “me coloco ao lado” ou “procuro seguir o exemplo” de grandes autores cristãos como Paul Ricouer, Carlos Mesters, Milton Schwantes, Antonio Gilberto, dentre tantos outros que tenham produzido grandes obras, legaram-nos livros pequenos com mensagens edificantes.

Como os líderes ministeriais podem contribuir para mudar esse quadro?

Foto: Arquivo pessoal

Acredito que esse quadro de “analfabetismo funcional bíblico” em nossas igrejas pode ser significativamente reduzido na medida em que os líderes fomentam o ensino sadio e equilibrado da Palavra nas igrejas que presidem. É preciso desenvolver mais programas de Educação Cristã nas igrejas e em pessoas, mais do que em estruturas. Precisamos investir mais na Escola Dominical do que em eventos esporádicos, que custam fortunas aos cofres das igrejas e não impactam tão profundamente a vida das pessoas. Nossas igrejas gastam fortunas com shows, mega-vigilhões, enquanto seus programas de educação cristã e ensino teológico estão falecendo. É lamentável! Precisamos lembrar que Jesus investiu seus melhores esforços num grupo muito menor de discípulos, ensinando-os pacientemente. Esse grupo menor, depois, seria conhecido como aqueles “que têm alvoroçado o mundo” (Atos 17.6). A Igreja deve trabalhar o caráter das pessoas mais do que suas emoções. E o ensino é que possibilita isto. Essa é uma construção que demanda recursos, pessoal qualificado para tal e estruturas funcionais. Infelizmente, percebe-se que é uma tendência, especialmente nas igrejas de matriz pentecostal, não investir na formação de mestres e doutores. São eventos que lotam a igreja, mas não trazem resultados efetivos para o Reino de Deus. Perceba a “mecânica” de funcionamento de muitos ministérios hoje: preferem investir naquilo que “enche igreja”, mas nunca despendem recursos para qualificar seus professores e obreiros.  Muitos pastores não perceberam a importância de se investir em pessoas, na formação de mestres e doutores nas igrejas que lideram. É um quadro que precisa ser mudado urgentemente.

A Escola Bíblica Dominical é uma ferramenta necessária para a exposição e o aprendizado da Palavra de Deus. Acha que além dela o contato diário com a Bíblia e a comunhão com Deus ajuda a entende-la melhor?

A Bíblia é livro de devoção e isto é histórico. Como ler o livro de Salmos, por exemplo, e não perceber isto? Sigo na trilha de autores como Craig Keener que reconhecem a importância da relação com Deus para o entendimento das Escrituras, sem prescindir, é claro, de ferramentas e princípios interpretativos. Falando sobre contato diário com a Bíblia, que embora eu a receba como livro de Deus, Palavra de Deus, reconheço também que ela é livro humano, escrita por homens e para ser lida por homens obviamente. Assim, ela não foge à regra: se for lida de modo aleatório, sem aplicação de métodos de estudo e sem sequencialidade e cuidado, sua interpretação ficará comprometida.

Qual maior dificuldade “temática” hoje apresentada na Bíblia que tem trazido muitas dúvidas entre os cristãos e consequentemente servido de contradições e até mesmo de discórdias entre líderes nas igrejas?

São muitos temas, mas eu destacaria uma (que abordo no livro): a das supostas contradições da Bíblia. Cremos na inerrância bíblica, mas as pessoas por vezes confundem isso com inerrância das traduções bíblicas. A inerrância bíblica referencia aos autógrafos, não às traduções que, como bem sabemos, são passivas de erro. E aqui ouso discordar do exegeta Uwe Wegner que entende que essa doutrina acaba por não levar a sério a encarnação da Palavra de Deus. Pelo contrário. Tenho lido durante anos teólogos ortodoxos que insistem na doutrina da inerrância e posso assegurar que a crítica de Wegner se mostra injusta, de certo modo. Entendemos que a inerrância adequa-se de modo perfeito ao ato revelatório de Deus por meio das Escrituras. O Deus perfeito e inerrante traz ao mundo uma mensagem perfeita e inerrante por vias humanas. Nosso entendimento da Bíblia alia-se à Cristologia do Novo Testamento, que o descreve como divino e humano ao mesmo tempo. Uma vez entendida a doutrina da inerrância, é possível evitar o preconceito de rotular como erro aquelas passagens que, embora difíceis, podem sim ser esclarecidas à luz da Exegese e da Hermenêutica.

E como melhorar esse contexto?

Não acredito que este tema em particular, que mencionei acima, seja motivo de discórdia entre pastores, mas creio que é um assunto que merece nossa mais cara atenção, especialmente numa era notadamente marcada pelo ceticismo, incredulidade e pelo crescimento do pensamento liberal. Diferentemente de muitos colegas meus, não demonizo o Liberalismo Teológico. Penso que ele traz significativas contribuições, mas sou crítico do seu racionalismo exacerbado, que acaba conduzindo ao que foi chamado no passado de “ateísmo cristão”.

Desvendar as escrituras sagradas em seus pontos mais árduos não é uma tarefa fácil. O que é preciso fazer para se alcançar o conhecimento bíblico e praticar seus conselhos?

A Bíblia é leitura para a vida inteira. Não é um livro para ficar entre os livros da estante, mas à mão, sempre. É preciso leitura, estudo constante e oração sempre. Este é o caminho. E vale destacar que não seremos capazes de esgotá-la com o tempo de vida que temos. É importante frisar que realizar bons cursos teológicos, frequentar os programas de ensino da igreja e ler autores sérios, que dedicaram tempo à pesquisa bíblica e teológica são atitudes que fazem parte da rotina de quem deseja realmente compreender bem as Escrituras. A popularização da internet representa uma grande possibilidade neste sentido e um grande desafio. Há ferramentas disponíveis gratuitamente que nos ajudam na aquisição do saber, mas há muita bobagem também. Um bom curso de Teologia dará ao estudante os referenciais para que ele aprenda a pesquisar, de fato.

A bíblia diz que “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Acha que todo cristão precisa estudar Teologia para entender a verdade contida nas “Escrituras sagradas”? Por que?

Não creio que o conhecimento elementar da Bíblia seja um private da Academia Teológica. Isto me pareceria arrogante, principalmente como alguém que pesquisou e escreve sobre Leitura Popular da Bíblia. Aqui, faço minhas as palavras do exegeta Uwe Wegner: o povo pode não ter treinamento acadêmico para lidar com os textos bíblicos, mas tem saber teológico. Acredito que um conhecimento mais profundo das Escrituras requer sim um estudo mais especializado, que conta com textos adequados, fontes certas e tempo necessário despendido à pesquisa. O cristão precisa sair do elementar para o mais fundo. A própria Bíblia infere isto em algumas passagens.

Durante todo esse tempo atuando no ensino da Palavra de Deus como um teólogo e estudioso da Bíblia, qual a experiência mais marcante em sua vida pessoal que teve com Deus e o que aprendeu com isso? Poderia descrevê-la?

Confesso que escolher uma dentre tantas boas experiências que tive com o Pai não é fácil. Mas lembro-me de que há vários anos, quando congregava numa pequena igreja, um ministério independente chamado “Igreja Missionária Caminho do Céu”, um pastor da Assembleia de Deus veio visitar nossa “igrejinha” em um de nossos cultos, acompanhado de um obreiro. Éramos em pouquíssimas pessoas. Minha mãe liderava nossa igreja. Quando o irmão começou a pregar e olhou para mim e disse: “Deus me mostra que esse adolescente receberá de Deus uma palavra tão profunda, que as pessoas ficarão maravilhadas ao ouvi-lo. Deus lhe chamou para o ministério da Palavra e ele te levará a muitos lugares”. Àquela época jamais imaginava o que Deus haveria de fazer em minha vida. E só uma mente divina poderia descrever fatos que nem ainda haviam acontecido. Tudo convergiu para que de fato eu trilhasse no caminho de um ministério voltado ao ensino da Palavra, seja pelo ensino, internet ou escrita. Já são vários livros escritos, praticamente 400 igrejas em que proferi palestras, em alguns estados do nosso Brasil. Se eu pudesse voltar no tempo e dizer para aquele garoto, lá na “igrejinha” apelidada de “forninho micro-ondas” que funcionava na periferia, filho adotivo de pai analfabeto e mãe que não chegou a concluir o ensino fundamental” que ele escreveria livros, faria mestrado em Teologia e visitaria outros estados ensinando a Palavra, ele provavelmente não acreditaria. Deus seja louvado!

O senhor já publicou várias obras, quais delas acha mais fundamental para a vida do cristão?

São livros introdutórios, obras simples, mas preparadas sob um desejo sincero de contribuir com meus leitores. Indicaria dois livros em especial. O primeiro, “Bíblia: o livro incomparável”, e “Educação Cristã: o desafio de ensinar os valores cristãos na Pós-modernidade”.

O senhor hoje é administrador e professor do Instituto de Educação Cristã “Crer e Ser”, que traz ensino teológico para cristãos. Quais as maiores dúvidas dos alunos que frequentam as aulas e quais os resultados obtidos para quem frequenta?

Meu trabalho de ensino continua, de certo modo intenso, já que estamos lançando nosso Curso Básico de Teologia na modalidade EAD (Educação a Distância). Com isto, tenho gravado vídeo-aulas e trabalhado na elaboração e adaptação do nosso conteúdo para a nossa plataforma de ensino a distância. Ao longo dos anos, tive mais de mil alunos em salas de aulas espalhadas pelo Espírito Santo. Lecionei em igrejas e seminários. Um interesse sempre recorrente era justamente o de entender melhor a Bíblia. Por isto mesmo, em minha dissertação de mestrado, que reflete essa experiência docente, procurei indicar a possibilidade de que a Hermenêutica seja “transposta” dos livros especializados e da Academia Teológica para a vida prática da Igreja: no ensino, na pregação e na leitura devocional da Bíblia. Estou convencido de que todo pregador, professor de Teologia e educador cristão é um hermeneuta. Por exemplo, em 1 Coríntios 15.29 que alude ao “batismo pelos mortos”, como entende-la? Há um princípio hermenêutico que orienta a que passagens obscuras da Bíblia, como é o caso desta, sejam explicitadas por comparação com passagens mais claras. Considero o assunto principal em tela na passagem bíblica e o comparo a outras passagens onde ele é abordado de forma mais clara e contundente. Naturalmente, há vários outros princípios que poderíamos elencar, mas este já serve para ilustrar o que procuro esclarecer. Mas o entendimento adequado pode ser obtido pelo leitor da Bíblia na medida em que ele se apropria e aplica esses princípios interpretativos das Escrituras. O resultado dessa frequência às aulas e dedicação ao estudo teológico é o interesse crescente na medida em que o aluno vai fazendo novas descobertas e prossegue percebendo o quanto não sabia até então. Isto é maravilhoso! O “não saber” tem sido meu “amigo íntimo” ao longo desses anos, impulsionando as pessoas ao aprendizado. O interesse pelo conhecimento começa quando percebemos que não o temos e que precisamos dele. Uma das maiores finalidades do ensino teológico é os saberes que adquirimos por meio do aprendizado teológico. Teologia deve ser um chamamento à vida, à prática, ao discipulado e não à ostentação, à arrogância, ao ensinamento.


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