Tentação ou provação?

Para alguns, o limite é muito tênue, e para outros, fica clara a diferença. Mas para que você tenha vitória em sua vida espiritual, é necessário saber identificar e entender que há benefícios na provação e ao se resistir à tentação.

Em Gênesis 22, Deus prova a fidelidade do Seu servo Abraão, pedindo-lhe que sacrificasse seu único filho. O patriarca obedeceu, passou pela experiência sem reclamar, acreditando somente que o Senhor daria o escape, seja para a situação ou para o coração. A fé de Abraão foi aperfeiçoada – esse era o objetivo divino. Em Tiago 2.4 lemos que a fé produz paciência, tão necessária no mundo atual: “Sabendo que a prova da vossa fé, produz a paciência”. Vemos que a provação não é algo ruim, pois desenvolve a mansidão, é um aprendizado. Muitas são as passagens bíblicas onde se veem heróis da fé passando por momentos de provação e sendo vitoriosos. Mas o amor de Deus sabe qual o limite de cada filho, como afirma o apóstolo Paulo em Coríntios 10.13: “Mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o meio de saída, para que a possais suportar”. Na provação Deus não ultrapassa as energias dos Seus filhos.

Se a provação é algo que leva a desenvolver a fé, a tentação é um perigo, uma possibilidade de se afastar das nossa convicções. Pedro adverte que o cristão deve estar atento. “Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo, o diabo, anda em volta de vocês como um leão que ruge, procurando alguém para devorar” (I Pd 5.8-10). E João reforça que quem origina a tentação é o diabo: “E, acabada a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O traísse” (13:2).

Mas a tentação não é pecado, pois o próprio Jesus foi tentado, como lemos em Mateus 4:1. “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”. Mas Ele não cedeu e respondia com a Palavra de Deus. Em Tiago 1.14 temos: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”, que segundo o dicionário Aurélio é “inclinação a gozar os bens terrestres, particularmente os prazeres sensuais”.

O cuidado com esses perigos é ressaltado em João 2.15-16: “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não são do Pai, mas do mundo”. O dicionário define concupiscência da carne (fome, sexo, conforto entre outros), dos olhos (desejos, dinheiro, bens, cobiça) e soberba da vida (ambição ao poder e ao prestígio). Mas e quando se cede à tentação, está tudo acabado? O que se deve fazer? Salomão nos ensina em Provérbios 28.13. “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e as deixa alcançará misericórdia”.

Provação eleva, tentação derruba

O pastor presbiteriano, conferencista e doutor em Teologia Hernandes Dias Lopes afirma que o cristão não deve reclamar ao passar por provação, mas sim ter a percepção de que esse teste é para o seu amadurecimento, embora possa causar temor e angústia.
Ele lembra que Jó foi provado por Deus, ao permitir que satanás tirasse os bens, os filhos, e até causasse sofrimento físico. “Jó não tinha noção do que acontecia nos bastidores e por isso fez perguntas”, lembra Hernandes. O pastor ressalta que, para o crente alcançar vitória na provação, é necessário ter discernimento, entender o propósito de Deus com aquela situação e acolher com maturidade os ensinamentos, que são para o seu bem e o seu crescimento.

Quanto à tentação, Hernandes aponta três fontes: o maligno, a própria cobiça do homem (seu ser interior) e o mundo (sedução). “É diferente da provação, que é um aprendizado. A tentação vem para derrubar, destruir e levar ao pecado”.  Ele explica que a tentação ataca os pontos fracos e as áreas de maior vulnerabilidade de cada um. “O perigo está quando a pessoa se acha invulnerável à determinada situação, blindada, colocando a fé em si mesmo”.

Entre as tentações deste século, o pastor acredita que estão: o sexo, com sua janela mais aberta, colorida e atraente; o poder; e as lideranças políticas e midiáticas, que se tornam espelhos, estabelecendo padrões. Mas algumas dessas lideranças não estão comprometidas com valores éticos e cristãos.

Ultrapassar

O psicólogo e pastor da Igreja Morada de Camburi, Erasmo Vieira, explica que a provação é uma circunstância desagradável pela qual a pessoa passa, mas é ao mesmo tempo pedagógica para qualquer um. “O sofrimento, a dor, o momento cruel traz ensino, pode demorar a chegar, mas vai chegar”. Ele sugere que ao ser provada a pessoa não aja com desespero, mas que aproveite o momento para aprender. “A palavra, quanto à provação, não deve ser vencer, mas ultrapassar”, ensina.

O mesmo termo “ultrapassar” pode ser utilizado ao se falar em tentação. “Tentação é tudo que ultrapassa os valores estabelecidos, sejam eles culturais, familiares, morais e religiosos”, explica.

O pastor afirma, ainda, que não existe uma idade para vencer a tentação, porque ela ataca os pontos mais vulneráveis e as áreas mais frágeis da vida de cada um, por isso é necessário estar alerta. No Brasil atual, indica, as maiores armadilhas para o cristão estão relacionadas aos valores. “Diante do conceito de que os fins justificam os meios, temos o poder e o dinheiro, onde se acredita que se pode tê-los de qualquer forma”. Outra grande tentação ressaltada são os prazeres, que não se localizam apenas nas questões sexuais, mas em geral, como, por exemplo, a alimentação: o proibido pelo médico passa a ser uma tentação.

Crescimento

O psicólogo e pastor da Igreja Batista da Mata da Praia, Marcelo Aguiar, ressalta que não se deve confundir tentação com provação, uma vez que: “Da tentação ninguém pode reclamar, pois como nos ensina Tiago, ela jamais procede de Deus, embora o Senhor pode, sim, enviar-nos provações, e isso deixa alguns cristãos confusos com relação ao amor divino”.

Marcelo afirma que mesmo o cristão não gostando das provações, não se deve ignorar o fato de que elas prestam um favor ao crescimento espiritual. “Portanto, não há lugar para queixas, assim como não há motivos para duvidarmos do amor de Deus”, afirma.

Ele vê o pecado ou o cair na tentação como uma gestação. “A concepção do pecado é um processo semelhante ao da gravidez. Por isso, todos precisam examinar o coração com honestidade e responder: Há algum pecado sendo gerado neste exato momento? Existe ira transformando-se em mágoa? Há atração virando concupiscência? A nossa tranquilidade pode estar se degenerando em acomodação? Existe uma satisfação se metamorfoseando em orgulho? Estaremos nós, porventura, grávidos de pecados?” Resistir à tentação não é algo fácil para ninguém, pois até mesmo os grandes homens de Deus, como Abraão, Davi e Pedro, tiveram “os seus momentos de vacilo espiritual”, fala o pastor Marcelo. “A carne atua em nosso interior, empurrando-nos na direção da queda; o mundo opera ao nosso redor, tentando fazer com que nos conformemos aos seus costumes; e o diabo procura seduzir-nos, como já fazia no Jardim do Éden”, ratifica.

Ele acredita que uma atitude humilde e cuidadosa ajuda a prevalecer tanto na provação, como na tentação, e cita Paulo, em I Co. 10.12: “Aquele, pois, que pensa estar em pé, olhe não caia”. E mais: “Quando alguém diz “Isso nunca acontecerá comigo”, está pisando em um terreno perigoso”.  “Há muitas tentações no mundo atual para os cristãos, e nenhuma delas é especialmente nova. Talvez o grande desafio resida na facilidade com que os pecados podem, hoje, ser cometidos. Os avanços da tecnologia e o relaxamento moral da sociedade têm contribuído para que a presente geração de cristãos se acomode”, alerta o pastor Marcelo, que ressalta: “A luta contra o pecado é um combate acirrado, uma verdadeira guerra”.

Prazer

Para a executiva com formação em Direito e Ciência da Religião e membro da Igreja Metodista Central de Vila Velha Fátima Mariante, a provação fortalece a fé. “É um exercício de disciplina para nosso aperfeiçoamento, para então sermos aprovados por Deus. Afinal para ser aprovada em algo, a pessoa passa por um teste”. Ela acredita que, embora no momento da provação haja sofrimento, e o ser humano não gosta de sofrer, lembra que é apenas por um momento e a vitória é para sempre. . “Fui provada, continuo sendo e eu glorifico a Deus por isso, pois significa que Deus está desenvolvendo o meu potencial, está realizando o projeto de vida dEle em mim e isso é muito bom, significa vida”.

Fátima cita Mt 4.1 e João 13.2 ao afirmar que tentação é satânica e carnal. “Ela visa a tirar-nos da dependência de Deus, por isso vem sempre recheada de prazeres, que nos impulsionam a cometermos pecados como vemos em Romanos 7.18-19. Quando não resistimos à tentação, satanás atinge seu objetivo, que nos é separar de Deus”.
“Devemos ficar atentos para não cair em tentação. Ela semprevisou e visa ao mal para tirar-nos da dependência do Senhor”. A executiva aconselha que, ao ser tentado, o cristão deve pedir força ao Senhor, orar muito e buscar ajuda com o pastor ou líder.

Dia a dia

O mestre em educação e geógrafo Idelvon Poubel frisa o cuidado que se deve ter com relação à tentação e à provação, que estão presentes no dia a dia dos cristãos. “A tentação é um artifício muito utilizado de maneira oportunista pelo maligno a partir das fragilidades da natureza humana, na área financeira, afetiva, intelectual, sexual, físico-corporal, entre outros, com o objetivo de minar a fé e a vida cristã”.

Já a provação, pontua Idelvon, é um momento, em que o crente tem sua fé colocada à prova, levando-o a se questionar sobre o agir de Deus em sua vida. “Devemos ter ciência de que tudo que acontece ocorre dentro da permissão dEle, como foi no caso de Jó”.
Para o educador, deve-se ter uma posição de dependência e reconhecimento da soberania de Deus. “O cristão deve atentar que o nosso tempo não é o tempo de Deus. Devemos ter uma escuta sensível ao que Deus quer que aprendamos com a provação, que Ele nos permite passa, por nos amar”.

Um dos problemas da tentação na atualidade, para Idelvon, é acessibilidade. “A forma como as tentações se apresentam hoje e até mesmo a banalização daquilo que julgamos como tentação, essas sim, adquirem novas roupagens, principalmente, com as facilidades do mundo digital portátil”.

Idelvon acredita que se vence a tentação por meio de fé, família, igreja e trabalho. “Quanto mais nos afastarmos de Cristo, quanto mais deixarmos de estudar a Sua Palavra, tomando-a como regra de fé e prática cotidiana, quanto mais deixaremos de congregar com aqueles que buscam uma vida íntegra e reta diante do Deus das Escrituras Sagradas, mais estaremos abrindo a guarda para que os oportunismos do maligno se apresentem das mais variadas formas de tentação”.

Provação                                                          

  • Vem de Deus (Gn. 22.1)
  • Visa a fortalecer a pessoa (Tg. 2.4)
  • Busca desenvolver o melhor em nós (Sl. 40.1)
  • Aproxima do padrão moral de Deus (Tg. 1.4)
  • Prova a fé (I Pd. 4.12-13)

Tentação

  • Vem do diabo (I Pd. 5.8-10)
  • Visa ao mal (Tg. 1.13)
  • Busca desenvolver o pior em nós (Tg. 1.14)
  • Afasta do padrão moral de Deus (Rm. 7.18)
  • Leva à perdição (I Tm. 6.9)

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.