Sonhos. Mensagens do cérebro ou do céu?

Todo mundo sonha, mesmo que não se lembre. Mas, às vezes, nossos sonhos são inspirados por Deus. Como distinguir a procedência dessas fantásticas aventuras noturnas?

Madrugada de domingo. Ana Luísa, 19 anos, estudante talentosa em busca de uma carreira promissora, sonhou que viajava para outro país, onde teria sucesso como analista de sistemas. Sobressaltada com o sonho, que parecia tão real, a jovem saiu em busca de uma resposta para aquela mensagem, que poderia mudar para sempre sua vida. Ela indagava: “Será que é Deus falando comigo? Ou será que isso é fruto da minha imaginação, já que sonho acordada com a chance de me dar bem trabalhando no exterior?”

Assim como Ana, muitos procuram respostas para os sonhos. Falando cientificamente, durante o sono, com o corpo em estado de inércia e a irrigação sanguínea do cérebro diminuída, tudo pode parecer estar paralisado. Mas é nesse período que um novo mundo se abre para nós, deixando para trás a lógica.

Os mecanismos de censura da consciência dão lugar às fantasias, liberadas ao sabor da espontaneidade ou dos estímulos. Esse fenômeno é o que chamamos de sonho, uma experiência que faz brotar na mente cenas e pensamentos os mais diversos. O sonho ocorre porque algumas de nossas faculdades mentais estão trabalhando, continuamente, para resolver todos os problemas e proporcionar uma situação de equilíbrio.

Estudioso do assunto, Rafael Lopes da Silva, da Igreja Batista Getsêmani, em Minas Gerais, em seu livro “Entendendo os Sonhos”, afirma que parece que a mente trabalha inconscientemente até encontrar uma resposta e fazê-la aflorar à nossa consciência. “O nosso cérebro é um supercomputador que grava, continuamente, as impressões do mundo ao nosso redor. Na memória, essas impressões são associadas a inúmeras possibilidades. Uma lembrança pode despertar outra e assim por diante, e podemos nos perder em devaneios sem fim”, escreveu Rafael.

O psiquiatra Ulisses Moreira Santos, da Igreja Batista Filadélfia, em Vitória, argumenta que enquanto dormimos o cérebro não descansa; pelo contrário, permanece ativo. Ele explica que, no processo de adormecer, as ondas elétricas mudam, variando em frequência (ondas alfa, beta, teta, delta) até chegarmos ao sono profundo, passando por aproximadamente quatro a seis ciclos de sono (60 a 110 minutos cada, aproximadamente) em um indivíduo adulto com sono normal. “O corpo é regulado por elementos químicos, dos quais se destacam os hormônios, e por impulsos elétricos, emanados por uma ‘pilha’ de 3V com 3 kg a 4 kg de peso, chamada cérebro, que se conecta, através da medula, a todo o corpo.

O inconsciente é mais de 95% do cérebro ativo; apenas de 3% a 7%, chegando raramente a 12%, da atividade do cérebro é que são processados pelo consciente. O ato de sonhar destina-se a que o inconsciente descarregue as tensões. Existe inclusive uma memória distinta, que repete eventos ou espaços em vários sonhos. E a ação do seu sonho dependerá do seu último pensamento antes de ‘desligar’. Assim, pense positivo e terá bons sonhos”, recomenda.

Enquanto se dorme, sonha-se reativando as ondas cerebrais e… mantendo-se a vida!  “Quem não sonha pode continuar diminuindo a respiração, a frequência cardíaca e o tônus muscular, entrar em coma e morrer. Após dormir bem, acorda-se disposto, porque o sono tem funções nobres”, diz o psiquiatra.

Deus fala através dos sonhos

A Palavra de Deus, perfeita para tratar de tudo o que ocorre em nossas vidas, não poderia deixar de fora os sonhos. E as experiências dos sonhadores relatadas na Bíblia mostram as grandes riquezas que estes podem conter.

O escritor e professor da FEA/USP, José Carlos Marion, em sua obra “Deus Fala Através dos Sonhos”, afirma que se pode dizer que a ideia de Deus se revelar ou se comunicar através de sonhos começa com Jacó, neto de Abraão, com quem Deus fez uma das alianças mais importantes do Velho Testamento.

Considerando uma história que seu avô, Abraão, contava (sobre o sonho de Abimeleque, em Gen. 20), Jacó sabia que Deus podia falar em sonhos. E um dia aconteceu. Jacó, ameaçado por seu irmão, Esaú, por ter roubado a bênção da primogenitura, fugiu. No caminho, ao anoitecer, dormiu e sonhou (Gen 28:12-15). E Jacó continuou sendo abençoado por Deus através dos sonhos (Gen 31:9-13).

Todavia, foi o filho de Jacó, chamado José, quem utilizou melhor as instruções vindas através de sonhos. José certamente aprendeu com seu pai sobre a importância dos sonhos e aperfeiçoou-se principalmente no que tange à sua interpretação.

No Novo Testamento, o primeiro sonhador aparece logo nos capítulos iniciais do livro de Mateus. O grande protagonista dos sonhos é outro José, o marido de Maria. O pastor Winter do Nascimento da Rocha, vice-presidente da Assembleia de Deus Nova Aliança em Vitória e presidente da Associação de Missões e Evangelismo Mundial, lembra que José teve um sonho precisamente quando se preparava para deixar secretamente Maria (porque ela estava grávida), e nesse sonho apareceu-lhe um anjo do Senhor que lhe disse para não se preocupar, pois o que em Maria estava gerado vinha do Espírito Santo (Mt. 1.18-25).

Os magos vindos do Oriente, após terem encontrado o menino Jesus e O adorado, receberam um sonho em que o Senhor lhes disse para não tornarem a passar por Herodes (Mt. 2:12); o rei queria saber sobre o menino Jesus, pois intentava matá-lo.

Ímpios e falsos sonhadores

Usar o sonho para comunicar-se com os Seus profetas não impedia que Deus falasse nessa mesma situação também a outras pessoas, até aos ímpios. Exemplo disso são os sonhos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, interpretados pelo profeta Daniel nos capítulos 2 e 4.
Já os falsos sonhadores que se diziam profetas eram reprovados por Deus. Em Jeremias 23:25-29, lemos palavras incisivas denunciando os falsos profetas. Que tem a palha com o trigo?

A palha é a casca do trigo, sua “embalagem”. O sonho pode conter a Palavra de Deus, assim como a palha pode conter o trigo. O sonho é uma linguagem. Mas o sonho não é, necessariamente, a Palavra de Deus. Por isso, o profeta que tivesse um sonho teria de contá-lo como apenas sonho (Deut. 13: 1-5).

Em seu livro, o escritor Rafael Lopes afirma que os tipos de sonhos narrados na Bíblia podem ser divididos em três categorias, conforme sua interpretação. Quando Deus fala diretamente e de forma explícita, como em Gênesis. 20:3-8 (Deus dialoga com Abimeleque sem nenhuma necessidade de interpretação). Deus fala com Jacó em Gn. 28:2-15 e 31:11-13; com Salomão em Gibeom (1 Reis 3:5-15); com José  (Mat. 2:13) e em (Mat. 2:19-23), sempre de forma direta.

Outra categoria são os sonhos simbólicos, mas com sentido tão claro que não requerem interpretação. Em Gênesis 37, José relata um sonho que teve. O sentido do sonho foi tão evidente para os irmãos de José que eles reagiram prontamente à mensagem e passaram a odiá-lo.  Há ainda os sonhos simbólicos que dependem da revelação de Deus. Nessa categoria, encontramos o sonho do padeiro e do copeiro de Faraó, quando José estava na prisão, no Egito (Gn. 40); e os sonhos do rei do Egito foram interpretados por José.

Como discernir sonhos inspirados dos falsos

Uma maneira de avaliar a procedência do sonho é conferir se está de acordo com a Bíblia. Ainda que haja uma revelação que coincida com detalhes da sua vida, não se deixe levar por tal revelação, pois o astuto inimigo pode operar sinais e prodígios para nos enganar (2 Tessalonicensses 2:8-10).

Pastor Winter afirma que Deus jamais contradiria a Sua própria Palavra. “Os sonhos de Deus sempre estarão em harmonia com as Sagradas Escrituras, pois Deus não nos revelará nenhuma nova doutrina. Tudo que não condiz com as Escrituras é ‘pretexto’”, alerta ele.
Para interpretar um sonho, o primeiro passo é compreender o contexto, o histórico em que ele está inserido. Na verdade, cada sonho tem um pano de fundo na vida real que precisa ser identificado. Ele está ligado a fatos, a estilo de vida, a atitudes, a decisões, a épocas…
Rafael Lopes diz que, de maneira geral, nós sempre somos o personagem principal dos nossos sonhos. Se sentirmos que há mensagem para outra pessoa em nosso sonho, devemos contá-lo de uma maneira descomprometida, simplesmente como um sonho, deixando isso bem claro para o ouvinte – e, se for um sonho vindo de Deus, certamente irá tocar o destinatário.

O pastor Winter do Nascimento considera todas as possibilidades: “Alguns dizem que os sonhos são apenas lampejos vindos da parte inconsciente do nosso cérebro; outros, que estes são como descargas elétricas, com a função de aliviar a sobrecarga mental cotidiana. Se são ou não descargas elétricas, Bíblia não lida com os sonhos pelo lado científico, Deus apenas usa os sonhos, quando quer, para comunicar-nos mensagens, visões e orientações para nossa vida. Mas também podem ser simplesmente sonhos que retratam as preocupações do dia a dia. Há um texto em Eclesiastes 5.3 que diz: ‘Porque, da muita ocupação vêm os sonhos…’”.

Os sonhos são dados aos homens também nos dias atuais. Através da Nova Aliança, todos os que creem em Jesus Cristo recebem o Espírito Santo. Há algumas promessas no Velho Testamento de que isso aconteceria: “E há de ser que depois, derramaria meu Espírito sobre toda a carne e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos e os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28) e (Isaías 44:3).

Portanto, sonhos podem surgir no cérebro como fruto de experiências diárias, imaginárias ou mensagens do céu enviadas enquanto dormirmos. Biblicamente não é errado buscar sua interpretação, desde que seja na dependência de Deus. Finalmente, devemos submeter os sonhos ao julgamento do ensino geral das Escrituras, confrontando-os com o que conhecemos a respeito de Deus. Siga estes passos e…bons sonhos!

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.