Simplesmente Crer

Fé é algo que confunde cientistas e estudiosos, mas que se explica de forma simples pela crença na soberania do Deus Altíssimo e pela glorificação mesmo em meio à tribulação.

*Por Sânnie Rocha

Quando entrou no navio para um cruzeiro de férias com a família pela Europa, em 2010, a consultora Isabel Berlinck, membro da Igreja Cristã Maranata, não imaginava a experiência grandiosa que teria com Deus. Saiu apenas com um direcionamento dado por Ele de que durante a viagem seriam atalaias – vigilantes que tocavam trombetas para anunciar a vinda do rei, que nesse caso representa o anúncio do Evangelho e a volta de Jesus. O que ela não sabia é que a maior tragédia da sua vida aconteceria e seria ao mesmo tempo a maior alegria, algo para nunca mais esquecer. Após embarcar no Rio de Janeiro e chegar à Espanha, toda a família resolveu descansar na cabine depois de um passeio: todos – mãe, pai e os dois filhos – na mesma cama. Ao acordar com frio, Isabel olhou no chão e viu o filho Arthur, na época com 8 anos, caído. “Coloquei a mão nele chamando-o para deitar na cama e levei um susto. Meu filho estava roxo, frio e não respondia. Ele tinha caído da cama e batido a cabeça na mesa de cabeceira. Só saí em disparada para o corredor e pedi socorro, para que alguém me ajudasse. Ali começava o meu desespero, e ao mesmo tempo a glória de Deus era exaltada grandiosamente”, recorda.

Ao ouvir os gritos, um cardiologista brasileiro entrou na cabine e disse que o menino sofrera traumatismo craniano. Foram 30 convulsões enquanto a equipe médica tentava reanimar o garoto e decidir o que fazer no meio do oceano. O grupo de profissionais dava como impossível a sobrevivência da criança, mas caso isso acontecesse, previa sequelas irreversíveis.

“A nossa única atitude foi ajoelhar no meio daquele monte de gente na cabine e clamar Àquele, Único que poderia resolver a situação: Deus. Oramos com toda a fé e entregamos nosso filho nas mãos do Senhor dizendo que fosse feita a vontade dEle na frente de todo mundo. Simplesmente uma enfermeira da equipe, vendo a nossa posição, saiu da cabine, foi até o comandante e pediu que ele retornasse com o navio para um lugar onde um helicóptero pudesse transportar Arthur para o hospital. O comandante nos contou que virou o manche com uma facilidade até um ponto onde houvesse condições de pegá-lo e não entendeu o que aconteceu”, relata a mãe.

Arthur foi içado por uma cesta, juntamente com o pai, da embarcação para a aeronave. “Eu só olhava aquela cena com as pernas bambas, mas sem me desesperar, apenas dizendo ao Senhor, em lágrimas, que a vontade dEle prevalecesse. Voltei para a cabine com meu filho Davi, na época com 4 anos, e ali orava e clamava pedindo forças a Deus e que Ele cuidasse de tudo”.

Isabel passou quatro dias sem notícias, apenas recebeu um fax que informava a chegada dos dois ao hospital. Até que veio um novo comunicado, também via fax, avisando que o menino deixaria a internação, pois já estava tudo bem. Mas, ainda assim, não era fácil a espera. Mal sabia ela que Arthur já chegara ao hospital bem, conversando com os médicos e que, por essa razão, havia recebido alta tão rapidamente. Ninguém entendia como um traumatismo craniano tinha se revertido daquela maneira, sem cirurgia ou intervenção.

“Nesse período, em meus dias de angústia sem notícia, eu só glorificava a Deus. A todos que me visitavam em busca de notícias do meu filho no navio, eu só dizia que o Senhor estava com ele. Ficavam surpresos com a minha postura e tentavam entender o que eu tinha de diferente. Passei a falar de Jesus a todos que não O conheciam, me senti como Paulo em suas viagens. Hoje tenho a confirmação de que a situação aconteceu para que fôssemos mesmo atalaias, assim como o Espírito Santo descreveu antes da nossa saída para a viagem. Quando voltamos, fomos informados na igreja que o Senhor havia orientado que todos orassem por nós durante a jornada. Foram 40 dias de oração e, enquanto passamos por aquele vale, tinha uma igreja intercedendo por nós. Várias pessoas que estavam naquele navio hoje tiveram sua experiência e estão servindo a Deus. Tive meus momentos de desespero em silêncio, mas tentei sempre levar no meu coração a certeza de que Ele faria o melhor”, destaca.

Por trás do milagre

A história de Isabel e de tantas outras pessoas que passaram por situações difíceis e viram sua fé se manter firme demonstra que a convicção na soberania de Deus e a glorificação a Ele, mesmo em meio à tribulação, são a chave para o agir divino por trás de milagres.

“Para estabelecermos uma fé com princípios sólidos, precisamos desenvolver uma fé bíblica. Uma fé que emerge em primeiro lugar do conhecimento do Deus que se revela nas Escrituras. O Deus que é Onisciente, Onipresente e Onipotente, pois somente conhecendo a Deus e Seus atributos é que surgirão princípios básicos e fundamentais de nossa fé. Assim, não tenho dúvidas de que o conhecimento de Deus e de Seus propósitos é essencial para nossa fé. Quando adquirimos esse conhecimento, veremos que o ponto central de nossa fé será a glória de Deus, e não a nossa glória e conforto. A fé que busca a glória de Deus é aquela que nasce de um coração que conhece e reconhece os grandes feitos do Senhor”, explica o Pr. Epaminondas Lopes, da Igreja Presbiteriana.

De acordo com ele, na vida prática, alguns princípios são consequências desse conhecimento correto da fé bíblica. “Segundo o escritor de Hebreus, certeza e convicção são essenciais na caminhada de fé (Hb 11:1), pois já sabemos quem é o nosso Deus”. Em Jó 42.2, encontramos a maravilhosa declaração de que o nosso Criador tudo pode. Não podemos deixar de falar que a consequência

do conhecimento de Deus e de Seus propósitos nos leva a um relacionamento marcado pela certeza e pela convicção da ação poderosa e sobrenatural do Pai. Desse modo, diante dos desafios de nossa caminhada, nossa fé deve ser marcada também pela perseverança que nos leve a orar sem cessar (1 Ts 5.17). Jesus nos ensinou a orar sem esmorecer, contando-nos a parábola do juiz iníquo (Lc 18.1-8). Finalmente, fé tem a ver com fidelidade, Deus é fiel, nós precisamos de caminhar em fidelidade diante do nosso Deus, esperando sem enfraquecer nossa fé”, acrescenta.

É nessa fidelidade que caminha também Dalete Curcio Rosa Campelo, membro da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV). Acometida de uma doença genética, a síndrome de Alport, que provoca a perda gradativa das funções renais e auditivas, ela tem passado por um tratamento difícil, com idas e vindas de internações, inclusive na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), a ponto de pedir uma alta do hospital para casar e voltar para lá depois da cerimônia.

Mesmo com as tribulações, Dalete busca trabalhar e estudar. Hoje está cursando Letras, depois de estar entre as 500 melhores médias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “As internações eram trimestrais e cada vez foram ficando piores, com mais gravidade. Em agosto de 2013, fui participar de um processo seletivo, pois mesmo com o diagnóstico da doença eu sempre tentei fazer tudo que uma pessoa com saúde fazia, inclusive trabalhar. E durante a seleção foi solicitada uma audiometria. Eu já tinha mais de 62% de perda auditiva. Fiquei perplexa, dali em diante eu não iria conseguir emprego na minha área (call center). Fui fazer exames mais detalhados, pois eu não acreditava que a minha audição havia sido afetada pela Alport, e após várias avaliações com diversos especialistas, foi confirmada a perda auditiva. Como sempre, Deus controla todas as coisas, coopera em nosso favor e me fez conhecer médicos maravilhosos em uma instituição de ensino. Como meu caso é raro, os acadêmicos têm interesse em realizar o acompanhamento. Com isso, tornei-me a cerejinha do bolo da faculdade. Até drenagem linfática devido à retenção de líquidos eu faço lá”.

Em maio de 2014, quando estava no Centro de Vitória, Dalete parou de ouvir de repente. “Foi horrível, achei que a bateria dos aparelhos tivesse acabado. Corri para casa, pois sentia medo em não ouvir. Tive perda total da audição e precisei fazer transplante. Depois disso, ainda fui internada com uma infecção nos rins novamente. Sentia dores; não falava com vergonha de a voz sair alta. Fiquei 10 dias internada, e minha mãe me acompanhou, pois por ser deficiente não podia mais ficar sozinha. Tive alta e, no quinto dia, fui fazer a prova do Enem. Eu estudava em casa e nos hospitais quando estava internada, porque não tinha cursinho para mim.

Fiz a prova e obtive uma das maiores pontuações do país, ficando entre as 500 melhores. Ou seja, Deus nos capacita em todo tempo e nos coloca como vaso de honra para que sejamos reconhecidos como merecedores de Suas promessas. Tenho sido usada pelo Senhor, pois ao dar meu testemunho percebo o quanto as pessoas diminuem o poder do Criador, às vezes passam por situações tão banais e permitem que a tristeza fale mais alto do que o amor e a misericórdia de Deus”, salienta.

O segredo da oração

O segredo para se manter de pé nessas situações, para Dalete, está na oração. “É o nosso combustível. Sempre sou enfática em dizer que oração mais obediência, mais fé é igual a milagre. Precisamos entender e aceitar os propósitos de Deus. Ter intimidade com Ele nos coloca em lugares onde nunca imaginamos estar, mas precisamos ter reverência. Deus não trabalha sobre ameaças e imposições. Seja ousado, entregue a Deus os seus problemas,e Ele fará o melhor por você”, afirma.

Toda essa força que rodeia Dalete também é retratada no livro “A Vida é Dura, Mas Deus é Fiel”, da escritora norte-americana Sheila Walsh (editora Thomas Nelson). A autora explica que esse é um processo diário, que deve ser praticado com manutenção através da oração.

“A Palavra em Hebreus 11:1 é ‘Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem’. A vida cristã é uma vida baseada na fé e naquilo que é realizado por Jesus Cristo. Fé é muito diferente de pensamento positivo, é buscada no que esperamos que possa acontecer, mas a fé em Cristo é definida pelo que Cristo já fez por nós. Porque o que Ele fez na cruz para termos paz com Deus não é baseado em bom comportamento, mas na crença nEle. Como Paulo escreveu para a igreja em Roma: ‘Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus’ (Romanos 5:1 e 2)”.

Para Sheila Walsh, nos momentos difíceis, na maioria das vezes é comum desanimar, esquecendo essa promessa eterna, mas é preciso pensar que Deus não abandona os Seus. “É nesse momento que nos agarramos na fé, acreditando que Deus está nos preparando para algo maior. Deus prometeu a Sua paz quando estivermos passando pelo vale. Antes de ser crucificado, Jesus disse a Seus discípulos: ‘Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo’ (Jo 16:33). Paz não é a ausência de problemas, mas a presença de Cristo na sua vida”, enfatiza.

Nos tempos turbulentos, ouvir a Deus muitas vezes se torna mais difícil. O que fazer nessas situações? Segundo o Pr. Sérgio Queiroz, autor do livro “Gloriosas Ruínas” (editora Mundo Cristão), muitos pensam em desistir, mas essa não é a solução. A maneira certa é ter paciência para aguardar o que está por vir. “Deus também fala através do silêncio dEle. Isso não significa que o Senhor não esteja ouvindo a nossa súplica e a nossa dor por meio das orações. Nessas horas, o que nos cabe é agir de acordo com a Palavra de Deus e esperar a intervenção soberana do Altíssimo”, disse.

Em qualquer momento, do mais simples àquele mais tenebroso, o Pr. Epaminondas orienta que a saída é sempre orar sem cessar. E, muitas das vezes, a correria da vida faz com essa ação seja deixada de lado. “Perdemos muitas bênçãos por não orarmos mais, mas só podemos explicar olhando para a bondade, a misericórdia, o amor, a graça, a soberania e o poder de Deus. Só não podemos esquecer que essas mesmas qualidades do nosso Deus são encontradas nos momentos de silêncio dEle. O tema tratado nessa questão está dentro da graça comum. Mesmo o não crente tem essas experiências, ainda que não as atribua a Deus, mas somente Ele sustenta toda a criação”, observa.

Sempre conosco

Em muitas dessas condições, os cristãos se perguntam sobre a razão para serem provados. Mas tal situação não é uma regra, de acordo com o Pr. Marco Pohl, do Ministério Hombridade, da Universidade da Família (UDF). Mesmo assim, acrescenta, é preciso ter atenção para aquilo que o Pai tem preparado. “Deus me provou de várias formas, mas sofri um processo por não ouvir rapidamente e por lutar contra um projeto dEle.

Quando somos provados, ou preparados para algo, isso gera em nosso coração confiança. E quando estivermos no projeto de Deus e as dificuldades vierem, nunca virão ao coração questionamentos. Deus é Deus e sempre está conosco por onde quer que andarmos, é promessa e é preciso crer. A Bíblia nos fala que Deus é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ele falou a Abraão que sua descendência seria como a areia do mar como as estrelas do céu, mas olhe que curioso: sua esposa era estéril, sua nora também, a mulher de Jacó idem, mas todos confiaram em Deus, e Ele fez. Abraão tentou fazer algo pela sua própria razão, mas gerou muitas dificuldades e sofrimentos. Como ver? Como detectar? Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Há muitas coisas acontecendo em nossos dias, são sinais claros da vinda de Jesus, mas estamos vendo? Estamos enxergando? Apenas cremos”, orienta.

Como aconteceu com Abraão, não é fácil enxergar os projetos de Deus nem passar por todas as provas, mas elas existem, segundo conclui o Pr. Epaminondas, da Igreja Presbiteriana. “Cada servo do Senhor encontra-se em um nível espiritual. A necessidade de passar pelo vale vai depender de dois fatores: onde estamos caminhando espiritualmente e qual o projeto de Deus para nossa vida. Quanto maiores os projetos de Deus para nós, maior será o preço que pagaremos. Foi assim com os servos do passado.

Por isso é importante colocar os valores transitórios deste mundo no seu patamar correto. O servo de Deus precisa ter a perspectiva correta de qual é o seu bem maior. Muitos servos consideram vale aquilo que é refugo: ‘Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo’ (Fp 3:7,8)”, finaliza.

Enfim, a fé precisa estar baseada em Jesus Cristo e tudo que Ele fez na cruz para a nossa salvação. A partir daí, é um processo diário, por meio da oração na certeza de que todo o seu projeto para toda a vida aqui será realizado, independente da resistência para enfrentar aquilo que Deus traçou. Isso faz toda a diferença para uma vida cristã de milagres.

Dica de leitura

A Vida é Dura, Mas Deus é Fiel
Sheila Walsh
Thomas Nelson

Gloriosas Ruínas
Sérgio Queiroz
Mundo Cristão

Fé, Visão e Destino Profético
José Satírio dos Santos
CPAD

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.  

 

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