Reforma protestante: Cinco séculos de história

Por que podemos em nossos dias nos encantar com as maravilhosas composições de Johann Sebastian Bach?

Por que muitas nações usufruem dos benefícios da democracia representativa? Por que existem universidades antigas e renomadas com as de Harvard e Princeton? Por que a Bíblia nos últimos séculos se tornou disponível a centenas de povos e etnias que não a conheciam? Essas são algumas perguntas, entre muitas outras, cuja resposta é, no todo ou em parte: “por causa da Reforma Protestante”.

A Reforma foi o grande movimento de renovação e restauração da Igreja ocorrido na Europa, no século 16, sob a liderança de homens como Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, João Calvino, entre outros. Eles se convenceram de que a Igreja do seu tempo, embora surgida nos primórdios da era cristã, havia se afastado em aspectos importantes dos ensinos de Jesus e de Seus apóstolos, contidos no Novo Testamento.

Para eles, o entendimento da salvação, a espiritualidade e o culto do final da Idade Média não mais faziam justiça ao Evangelho, à mensagem cristã.Seu ponto de partida foram a redescoberta e a nova valorização da Escritura, a fonte original e legítima da fé cristã.

A Palavra de Deus, inspirada e normativa, deveria servir de critério supremo para determinar as convicções e práticas da Igreja. No que diz respeito ao relacionamento com Deus, os reformadores insistiram que a salvação é totalmente uma dádiva da graça de Deus, a ser recebida somente por meio da fé, sem a necessidade de qualquer colaboração ou complementação humana. Eles também entenderam que todo cristão verdadeiro é um sacerdote ou ministro de Deus, não dependendo de nenhum intermediário humano, mas somente de Cristo.

A Reforma não pretendia dividir a única Igreja que existia no Ocidente, mas o seu compromisso com o Evangelho levou a esse resultado. A nova liberdade de estudar a Bíblia também gerou diferentes interpretações de certos pontos doutrinários, produzindo diversas correntes no novo movimento: luteranos, reformados suíços, anabatistas (também na Suíça) e anglicanos.

Embora tenha sido um fenômeno primordialmente religioso, a Reforma teve importantes desdobramentos políticos, econômicos e sociais. Os principais reformadores trabalharam em estreita cooperação com os magistrados ou governantes civis, daí terem ficado conhecidos como “reformadores magisteriais”.

Gerações mais tarde, seus ensinos e práticas levaram à separação entre Igreja e Estado e ao desenvolvimento das modernas instituições democráticas.  A Reforma Protestante cultivou valores que resultaram em grande prosperidade econômica para as nações que a abraçaram, bem como notáveis progressos nos âmbitos da ciência, da arte e da ética social.

Foi particularmente valiosa sua contribuição para a educação, a partir do pressuposto de que as pessoas também deviam glorificar a Deus mediante o cultivo da mente, da vida intelectual. Sem deixar de reconhecer que a Reforma teve suas falhas e limitações, os protestantes ou evangélicos veem muitos motivos para celebrar e render graças a Deus pelo quinto centenário do seu movimento.

Alderi Souza de Matos é doutor em Teologia (Th.D.) pela Universidade de Boston, professor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (São Paulo) e historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil.