Reconstruindo os laços da família

Não há mais entendimento no lar? Pedir perdão, perdoar e colocar em prática algumas atividades simples, como comer juntos à mesa, podem ajudar.

“Família é a base de tudo”. “Meu lar é o meu porto seguro”. “Devo tudo à minha família”.
Quantas vezes você já ouviu ou disse alguma dessas frases? É consenso mundial a importância da família na vida de qualquer pessoa, mesmo aquelas mais descrentes dessa instituição.

Criada por Deus nos primórdios da humanidade com objetivo puro (“frutificai e multiplicai-vos”, Gênesis 1:28), a estrutura pai, mãe, filhos e seus desdobramentos começou, no entanto, a dar sinais de desajuste logo no início, com uma quebra de confiança entre Adão e Eva, e ainda um conflito seguido de homicídio entre Caim e Abel, motivado por ciúme. As consequências de lares desfeitos são visíveis e danosas à sociedade: adultos desajustados e emocionalmente perturbados, crianças e jovens sem direção, perda de valores éticos e humanitários, consumo de drogas, instabilidade, violência, degradação.

E, mesmo sendo plano de Deus e um dos maiores desejos do homem, viver em paz em família – definida normalmente como conjunto de pessoas unidas por laços afetivos e/ou sanguíneos e que costumam morar juntas – cada vez mais tem se mostrado um desafio diário. A realidade em milhões de lares hoje em dia é marido que não entende mais a mulher, pais que não conversam com seus filhos, irmãos que brigaram e estão há anos sem se falar, filhos que não aceitam determinações dos pais e não querem mais ter contato com eles.

São pessoas que, aos poucos ou de repente, decidiram apenas viver sob o mesmo teto, mas sem cultivar nenhum tipo de relacionamento afetivo ou compromisso com as atividades coletivas. Ou então desfizeram definitivamente o laço familiar e literalmente se afastaram. O vínculo familiar, tão importante, parece já não existir e, pior,a sensação é de que é impossível reconstruí-lo. No entanto, isso não é verdade.

Um dos primeiros passos é entender o que levou à ruptura.  Talvez uma simples conversa possa recolocar as coisas em ordem. A forma como as pessoas lidam com os problemas e os desentendimentos, porém, costuma ser o grande entrave nessa manobra. “O fato é que o conflito em si não é o problema. A dificuldade em lidar com o conflito é que tem trazido estragos aos relacionamentos. Somos treinados para evitar o conflito a todo custo, achando que é isto que mantém a paz. Mas o que promove e mantém a paz é a resolução dos conflitos. A Bíblia diz: ‘No que depender de vós, tende paz uns com os outros’ (Romanos 12:18). A interpretação corrente é abrir mão da posição para comprar a paz. Mas, definitivamente, não é isso que resolve”.

O alerta é do pastor Dinart Barradas, da Universidade da Família, que pontua dois principais motivos que levam à quebra de laços entre parentes: a hipocrisia e a dureza de coração. “A hipocrisia solapa a confiança e é a maior inimiga da transparência nos relacionamentos. Por sua vez, a dureza de coração é a maior inimiga da restauração familiar. Ela impede o ofensor de assumir responsabilidade sobre seus atos e também o ofendido de liberar perdão a quem o ofendeu”, destacou.

Já Josué Gonçalves, terapeuta familiar e pastor sênior do Ministério Família Debaixo da Graça, com sede em São Paulo, acrescenta outros tópicos a essa lista: falta de diálogo, falta de tempo com qualidade, falta de perdão e, sobretudo, falta de compromisso com a Palavra de Deus.

Ele faz um alerta específico aos casais: “Na maioria das vezes, quando o casal não vive bem, esse desajuste se reflete na vida e no relacionamento com os filhos. O casamento é a espinha dorsal da família. A restauração de uma família ou casamento que ruiu passa, inevitavelmente, pelo caminho do perdão”.

O bom convívio familiar é tão importante aos olhos de Deus que um dos 10 mandamentos fala sobre isso: “Honra teu pai e tua mãe para que se prolonguem os teus dias na terra” (Êxodo 20:12). E ainda há dezenas de citações bíblicas enfatizando como é essencial para o homem a vida em família, como a primeira parte de Efésios 4, que lista algumas orientações essenciais para viver bem com pais e filhos, dentre elas: “E vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor”. Já em I Timóteo 5:8, o apóstolo Paulo ressalta que o cuidado dos entes é um espelho da fé: “Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente”.

Ações pequenas, mas essenciais

“Após três anos sem querer olhar para a minha irmã, por causa de mentiras que ela contou sobre mim, Deus colocou no meu coração o perdão. A partir daí, tivemos que retomar coisas simples do dia a dia, como assistir televisão ou fazer as refeições juntas, dormir no mesmo quarto, escovar os dentes uma ao lado da outra e até mesmo rir juntas de uma história engraçada. Coisas tão simples, mas que não fazíamos mais. No início foi até estranho, meio forçado, mas estávamos com muita saudade”, descreveu uma jovem secretária de 23 anos, moradora de Cariacica, membro de uma igreja da Assembleia de Deus.

O relato descreve bem a mudança de comportamento necessária para, aos poucos, retomar a harmonia do lar. Pequenas, mas primordiais ações, fazem toda a diferença. A psicóloga e psicopedagoga Leila Jane Proença, da Igreja Batista em Riviera da Barra, em Vila Velha, explica que algumas curtas expressões, como “bom-dia”, “boa-noite” e o surpreendente “obrigado” (ou “obrigada”), têm o poder de mudar o “clima” de um ambiente, sobretudo de uma casa.

“Um beijo nos filhos, no marido, na esposa e nos irmãos, incrivelmente torna os laços mais fortes. Mesmo que forçadamente, é válido começar ou recomeçar a fazer. A princípio, a família vai estranhar, mas carinho e amor devem ser coisas naturais e logo todos vão estar contagiados por eles”, pontuou a psicóloga.

A psicanalista clínica Euzilene Martins, da Igreja Presbiteriana da Glória, em Vila Velha, acrescenta à receita atividades simples, como fazer um passeio, jogar bola no quintal, sair para tomar sorvete, andar de bicicleta, limpar e cuidar da casa. “A princípio, isso tudo parece óbvio, e essas atitudes são com frequência negligenciadas no seio familiar. Para manter ou reconstruir os laços familiares, é preciso rever alguns valores. Determinar o que é mais importante em sua vida é essencial. Depois disso, desenvolver um relacionamento individual com cada membro da família fará com que todos se sintam valorizados, amados e desenvolvam a autoconfiança”, afirmou Euzilene.

Comunicação é o segredo

Outras orientações vêm do pastor norte-americano Jaime Kemp, diretor do ministério Lar Cristão, também com sede em São Paulo. Segundo ele, as famílias não estão reconhecendo a importância do compromisso de manter intimidade emocional e espiritual nos relacionamentos. Com isso, os laços se tornam frágeis, fáceis de desatar.

“A comunicação é falha ou inexistente. A boa comunicação é a chave para um casamento e família saudáveis. Além disso, o compromisso é o combustível da família. O problema é que a família de hoje está com a agenda supercheia, sem tempo para orar juntos, brincar juntos. Para muitos, isso não é prioridade.  Mas as prioridades de Deus para nossos relacionamentos são: pessoas antes de coisas, lar antes de profissão, cônjuge antes dos filhos, filhos antes dos amigos, cônjuge antes de si mesmo e espírito antes da matéria”, alertou Jaime Kemp.

Em algumas situações o relacionamento familiar parece ser ainda mais difícil, como quando ocorre um divórcio ou quando um membro não é convertido a Cristo. “Eu, por exemplo, sou fruto do terceiro casamento da minha mãe, que se casou quatro vezes.Portanto, sou filho de divórcio. Deus me deu a capacidade de superar muitos ‘trancos e barrancos’ dentro do meu lar. Já quando um dos membros não é cristão, o que é temente a Deus deve sempre procurar manter a unidade familiar. Será um testemunho de que Cristo é uma realidade em sua vida”, disse.

Jaime Kemp aponta que, pela graça e poder de Deus, é possível conquistar harmonia e paz no lar, mas para isso ele lista três coisas: ter Cristo como Senhor; reconhecer que cada membro da família está em “construção” e que, portanto, ter paciência é essencial; e compreender a imensa importância e impacto da humildade e perdão nos relacionamentos.
Perdão é com certeza a palavra-chave no processo de reconstrução dos laços familiares, assim como o apóstolo Paulo orientou em Colossenses 3:13: “Suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros”. Sem o perdão não há como dar o primeiro passo.
Depois dele, as pontas dos laços familiares começam a se unir até ficar completamente claro que eles nunca deveriam ter sido desfeitos.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.