Razão, o deus deste século

Li recentemente um artigo de Leonardo Sakamoto cujo texto, ancorado na “laicidade” do Governo, expressava toda a sua indignação com o fato de alguns prédios públicos, como a sede do Supremo Tribunal Federal (STF), possuírem crucifixo ou qualquer símbolo religioso. Ele afirma que qualquer ação em prol dessa ideia é a “derrota da razão”.

Talvez caiba aqui uma pergunta ao Sakamoto: quem, na história, mais contribuiu para a humanidade: a religião ou a razão? É lógico que sei da importância da razão, mas a pergunta é: ao longo da história, quem mais teve importância? Quem, de fato trouxe maiores e melhores padrões, éticos e sociais para a humanidade? Se for a razão, serei o primeiro a dizer: abaixo a religião! Mas, a não ser que seja parcial ou tendencioso, tenho dúvidas se Sakamoto e seguidores do racionalismo teriam coragem de comparar os benefícios de cada uma das correntes para a humanidade.

Ao declarar que a religião é o ópio do povo, Karl Marx tinha certeza de que a influência dela é tão grande e poderosa que, compará-la à substância de ação entorpecente, foi o mínimo que ele poderia imaginar. Responda-me racionalmente: que tipo de sociedade teríamos se não fosse a religião? Qual seria o comportamento do homem, se ele não tivesse uma divindade para prestar contas? Seriam as regras estabelecidas pelas leis de Deus (não matar, roubar, adulterar, cobiçar, etc) tão incompatíveis com nossa sociedade? Desculpe, Sakamoto, por mais que “endeuse” a razão, você não tem razão!

Tolerância & ecumenismo
Quando eu era adolescente, uma das primeiras ondas que varreram no meio das igrejas evangélicas foi o ecumenismo. Hoje, pouco falamos disso em nossas igrejas, mas naquela época, abordar esse tema era chamar os crentes para a briga. Para os evangélicos, ecumenismo era a porta do pecado, era a antessala da heresia e a Igreja do inferno. Apesar disso, muitas denominações, tradicionais em sua maioria, caíram nas garras desse conceito. Daí porque até hoje muitos pentecostais ainda acreditam que presbiterianos são hereges e incrédulos.

Agora que “presbiterianos, batistas, metodistas, etc” já caíram na conversa do ecumenismo, a música mudou. O novo “canto do demônio” tem outro nome: tolerância. E o pior: as Igrejas (agora, até as pentecostais) estão caindo.

Se você não for “tolerante” com as outras manifestações religiosas, inclusive as de matriz africana, com outro tipo de fé, mesmo que seja ateu, você se torna um fundamentalista religiofóbico (que seria bom, se não fosse tão pejorativo).

Reconheço que algumas Igrejas conseguiram passar incólumes pela onda ecumênica, mas tenho medo de que a onda da “tolerância” vai derrubar muitas e também os líderes em nossos dias, começando pela inibição da pregação do Evangelho (se tolero as outras crenças, não posso converter seus fiéis). Aí é que vem a grande dúvida: “Como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?”. Foi mais fácil vencer o ecumenismo.

É Pior ser honesto
Confesso que já esperava uma atitude dessas dos nossos políticos. Afinal, o lugar onde trabalham chama-se de “Casa das Leis” e, se são eles que as fazem, por que não criar uma que os inocentem dos crimes praticados? É verdade que, ao optar por essa conduta, há duas consequências. A primeira é que os parlamentares reconhecem que cometeram os crimes; e a segunda é que, mesmo tendo praticado os delitos, não querem pagar por eles. Não tenho dúvidas de que há, até no meio político, muitos que não concordam com seus pares e que são vozes dissonantes. Infelizmente, são minoria e raramente a grande mídia lhes dá espaço.

Sem preconceito, mas por que só eles devem ser inocentados de seus crimes? Por que não inocentar quem roubou um banco, ou quem destruiu uma escola, ou mesmo quem matou uma pessoa? Afinal, quando um político recebe um suborno, significa que quem lhe pagou a propina fará uma escola com materiais de péssima qualidade, que vai construir um hospital com equipamentos ruins que levarão os doentes à morte.

Estou com vontade de enviar uma proposta para os deputados e senadores: façam uma lei que declare criminoso quem é honesto, quem cumpre seu dever, quem paga todos os impostos, quem nunca adulterou nem matou ninguém. Na verdade, foi esse o grito do grande Rui Barbosa quando disse que o homem chegaria a desanimar da virtude, rir da honra e ter vergonha de ser honesto. Acho que esse Rui era profeta, só que a profecia não precisava se cumprir tão rapidamente.

Pr José Ernesto Conti

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita