Por que orar no monte?

Alguns irmãos costumam subir o monte como uma forma de estar mais perto de Deus. Porém, será que essa prática tem base bíblica?

Cristão que é cristão sabe muito bem que, sem oração, a vida não avança. Isso porque o “combustível” que fomenta a intimidade com Cristo é a oração. Quanto mais a pessoa ora, mais entende o que o Senhor deseja para a sua vida. Os grandes homens da Bíblia tiveram esse discernimento. Foi assim com Moisés, Abraão, Noé e outros.

Que tal subir ao monte para orar? É desta forma que vários cristãos fazem, inspirados pelo que Jesus fazia quando queria ficar a sós com o Pai (MT 14.23; Lc 9.18). Para Cristo, não seria possível orar livremente em casa, pelo assédio constante do povo, e menos ainda dentro das sinagogas (Lc 6.12; 22.44), onde não era bem-vindo. Mas, por que Jesus escolheu orar no monte? A resposta está em Mateus 8:20, referenciado também em Lucas 9:58: “E disse Jesus: as raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Então Jesus subia ao monte para orar sozinho porque não tinha um quarto onde podia se isolar e orar. Ele subia ao monte para orar e, geralmente, fazia isso sozinho.

Quando decidiu chamar mais alguém (Pedro, João e Tiago), Ele o fez por saber que era o momento da transfiguração. Podemos encontrar várias passagens bíblicas que falam sobre o assunto (Lucas 6:12; Lucas 9:28). O maior sermão já pregado, o “Sermão da Montanha”, não podia ter sido proferido por outra pessoa que não Jesus, o maior montanhista. Os homens sempre subiram em locais altos para se achegarem a Deus. Foi assim na igreja primitiva e é assim nos dias de hoje.

A dúvida é antiga. No evangelho de João 4: 20-24, encontramos Jesus falando com uma mulher samaritana, que lhe indagou: “Nossos pais adoravam neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.” Em resposta, o Mestre disse: “Crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem”.

Momento único

Longe dos misticismos, o fato é que aqueles que já passaram pela experiência garantem ser um momento único de intimidade com Deus e mover do Espírito. Assim relata, por exemplo, o pastor Frederico Teodoro, da Comunidade Evangélica Sedentos de Ti, que classifica o monte como um lugar de retiro.  “Toda vez que Jesus subiu ao monte foi para falar com Deus, buscar Sua presença, não simplesmente para buscar poder. O poder é consequência de uma busca por Deus”. De acordo com ele, se a pessoa buscar e adorar Deus, independentemente de onde estiver orando, o poder do Senhor se manifestará, inclusive no monte.

O pastor conta que é um adepto das subidas aos montes e diz que os discípulos de sua igreja também fazem o mesmo. “Para mim, o monte é um lugar onde ganho intimidade com Deus, passo a conhecer quem é de fato o Senhor”, concluiu. Já para o pastor Marcos Campos, da igreja Assembleia de Deus Fonte de Esperança, subir ao monte pode se tornar uma filosofia de vida. “Não existe nada de místico. Trata-se de um momento para se separar e buscar a face de Deus”. Ele cita que a Palavra ensina a orar sem cessar. “A oração no monte é o momento de buscar a Deus sobre todas as coisas, porém é importante frisar que não há tempo determinado para isso. Subimos ao monte porque queremos ouvir a voz de Deus, mas podemos fazer isso a todo tempo e em qualquer lugar”.

O pastor relata que tanto ele, quanto a sua congregação, costumam subir ao monte. “Quando se separa esses momentos de oração, a igreja cresce. Geralmente subimos ao monte quando temos um propósito, quando queremos uma resposta de Deus. Mas só subimos porque queremos um lugar separado para orar a Deus. Não é nada místico”, avalia.
Embora Jesus tenha preferido as montanhas para suas orações e ensinamentos, essa atividade não é uma regra. Não é uma doutrina bíblica. Desde a vinda de Jesus, Ele deixou claro que o local não importa, mas o que importa é, sim, o coração (João 4:20-24).

O pastor Nelson Júnior, da Igreja de Cristo em Vitória, lembra que quando Jesus ia ao monte, não era por ser um lugar espiritualmente especial, mas para fugir da multidão que o cercava. Ele revela que já orou no monte muitas vezes, quando era mais novo. “Havia aprendido que as pessoas que subiam ao monte recebiam poderes ‘especiais’ e eram tidas como mais ‘espirituais’. Infelizmente, até hoje conheço muitos crentes que pensam assim, o que é uma pena. Espiritualidade não se mede por essas coisas”.

Ele destaca que subir ao monte não pode ser tomado como uma ordem de Cristo. “Creio na importância de se separar um tempo de adoração e intercessão. Isso eu entendo, concordo e pratico. Porém, se é no monte, na praia ou no deserto, isso não é o mais importante”, disse. Jesus recomendou orar sem hipocrisia. Em Mateus 6:5-6,  Ele diz: “E, quando orares, não sejas como os hipócritas (…). Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que te vê em secreto, te recompensará publicamente”.

Jesus orientou a orar em secreto. Isso pode ser feito tanto no monte quanto no quarto, ou no ônibus, ou no carro. Quando pessoas não compreendem o que estão lendo, criam “doutrinas” baseadas em textos fora do contexto. Subir ao monte não é uma doutrina bíblica, não há menção a isso nas Escrituras. Trata-se de uma busca individual, que cada igreja administra de uma forma.

Ministério?

Subir ao monte, para o missionário André Assis Gomes, de 35 anos, já é uma rotina, um ministério. Dessas experiências, guarda momentos inesquecíveis. O testemunho de André é o de uma pessoa que se dedica à oração e à intercessão. Chegou a ficar 40 dias no monte somente à base de água. Conta que faz isso porque sente um desejo imenso de estar perto de Deus. “Há três anos eu subo ao monte. Já fiquei 14, 21 e até 40 dias lá. Gosto de estar intercedendo pela minha família, por minha igreja É uma forma de retribuir todo o amor que Deus dispensou a mim”.

André afirma que já orou em quase todos os montes da Grande Vitória e alguns do interior. “Deus me resgatou das drogas há cinco anos e me chamou para o ministério de intercessão. Pego a minha Bíblia, a minha água, e subo ao monte toda a sexta-feira. Sei que a igreja que ora é mais forte e unida. Hoje, muitas pessoas não separam tempo para orar, têm preguiça. Infelizmente o evangélico está economizando oração e as consequências têm sido drásticas”, alertou.

Assim como André e muitos outros, estar no monte tem somente um objetivo, buscar e ouvir a voz de Deus. Seja no quarto, no templo ou no monte, Deus está pronto a ouvir os Seus filhos. Deus é onipresente, existe em todo lugar ao mesmo tempo. Portanto, estará com você sempre, quando e onde você estiver com Ele.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.