Por que, Deus?

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Crer é acreditar que Deus cuida. É entender que, nos piores momentos, Ele não nos abandonou.

Embora o sofrimento faça parte da vida humana, ninguém quer passar por ele. E, para um servo de Deus fiel à Sua Palavra, pode ser muito difícil algumas vezes entender como o Senhor permite que passemos por experiências tão difíceis na vida. Para o pastor João da Penha, da Missão Evangélica Cristo Vive, em Vitória (ES), questionar Deus quanto ao sofrimento é a atitude imediata de qualquer pessoa.

“Na mente está a certeza que o sofrimento vivido é algo que não conseguem suportar. Além disso, fazem comparações com outras pessoas e não conseguem entender e aceitar que foram atingidos naquela área. A pessoa questiona muitas vezes por que justo com ela aconteceu aquele fato. Na maioria das vezes, culpam não somente Deus, mas também pais ou parentes”.

Ruth Pereira Brito, 47 anos, professora, superou um trauma de infância sem culpar Deus pelo que aconteceu. Aos 11 anos ela sofreu uma violência doméstica, cometida pela própria mãe que, descontrolada, a feriu com cacos de vidro. Ficou dias internada e a mãe chegou a ser presa, denunciada por maus tratos.

“Até os 21 anos tive que estar na frente do juiz comprovando que estava bem em família novamente. Sou a mais velha de seis irmãos e a Justiça passou a acompanhar minha família de perto. Todos éramos crentes. Mas, ainda nova, sabia que Deus tinha um plano naquilo. Entrei num propósito de oração e jejum e foi uma experiência incrível. Deus me tratou, nunca deixei de amar minha mãe e defender minha família. Não vale a pena ter mágoas. O inimigo atentou contra o relacionamento mais perfeito depois do relacionamento com Deus, que é o vínculo materno, mas o Senhor me ajudou a superar tudo e até o último dia de vida de minha mãe eu a amei e cuidei dela”, conta.

Neiva Mello Kwaguchi, berçarista, há 10 anos teve diagnosticado um câncer de mama. Ela ficou muito abalada, pois até então não havia tido nenhum problema de saúde e nem havia casos de câncer na família. Sendo recém-convertida ao Evangelho, Neiva ficou confusa no início, mas logo entendeu que Deus tinha um plano para ela. “Quando temos um problema, só pensamos em nós mesmos, esquecemos do mundo e temos tendência para a revolta. Mas Deus me ensinou muito em meio a esse sofrimento. Além de me curar, fortaleceu minha fé”, considerou.

A recuperação de sua filha depois de sofrer um grave acidente de trânsito fez Geruza Favoretti Thompson, comerciante, reavaliar o tempo que dedicava à família. Há seis anos a vida em família passou a ser outra, depois do acidente. Sua filha poderia nunca mais movimentar a mão, mas durante as várias cirurgias e provações, Geruza e sua família vivenciaram uma comunhão mais profunda com Deus. “No começo não entendia por que aquilo estava acontecendo, parecia que Deus estava me provando. O acidente sacudiu a gente. Minha filha se recupera até hoje e muito bem. Só temos a agradecer. Valeu a pena confiar no Senhor durante todo o tempo”, falou.

A dor

No livro “Cura pela Palavra” (Editora Betânia), Marcelo Aguiar conta que um rei tinha o hábito de caçar na floresta, acompanhado de seu conselheiro. Certo dia, ao disparar a arma, esta explodiu e lhe arrancou um dedo da mão direita. Ele perguntou ao conselheiro como Deus deixara isto acontecer. O conselheiro respondeu citando Romanos 8:28. Irritado com a resposta, o rei mandou encarcerá-lo.

Tempos depois, o rei foi feito prisioneiro por selvagens que iam sacrificá-lo à sua divindade, mas notaram faltar-lhe um dedo. Como não podia ser uma oferta agradável, decidiram soltá-lo. O rei entendeu o que acontecera e mandou soltar o ex-conselheiro, que havia acertado em sua resposta. Se ele não tivesse perdido o dedo, teria perdido a vida. Mas perguntou-lhe como Deus deixara que ele, o rei, fosse injusto, e o encarcerasse. O ex-conselheiro respondeu que se não tivesse sido encarcerado, teria acompanhado o rei, e como não lhe faltava parte alguma do corpo, ele teria sido sacrificado. Nos dois casos, Deus agiu acertadamente. O pastor Marcelo usa esta história para aplicar Romanos 8:28: “Pois sabemos que todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles a quem Ele chamou de acordo com o seu plano”.

Para o pastor Tércio Rocha Pinto, da Igreja Presbiteriana de Andorinhas, Vitória, por caminhos estranhos e de modos que nos parecem errados, Deus tece seu plano e faz com que seu povo seja abençoado. “Muitos de nós podemos, sem querer racionalizar fracassos, lembrar de episódios negativos que serviram para nosso benefício mais tarde. Nem sempre entendemos o que Deus está fazendo, mas devemos entender que a história não termina enquanto Ele não coloca o ponto final”.

Jesus, que é nosso maior exemplo de superação do sofrimento, certa vez disse a Pedro: “Agora você não entende o que estou fazendo, porém mais tarde vai entender!” (Jo 13.7). E, segundo o pastor João da Penha, o apoio espiritual e profissional é muito importante para ajudar uma pessoa a enfrentar a dor. “A pessoa precisa se sentir acolhida, amada e aceita. Trabalhar sua espiritualidade é fundamental, mostrando-lhe o amor de Deus e as promessas de vitória contidas na Bíblia”.

Carinhosa e compreensivamente, as pessoas devem ser lembradas de que os atos de injustiça que promovem o sofrimento procedem de homens (gente que faz mau uso do livre-arbítrio que recebeu de Deus), e não de Deus. Mas, por que Deus não impediu?, perguntam alguns. De fato, há ocasiões em que Deus impede que sejamos feridos. Entretanto, se Ele fizesse isso sempre, não haveria liberdade no mundo, pois Deus estaria constantemente interferindo e evitando que as escolhas dos homens tivessem suas conseqüências.

O que o sofrimento ensina

A missionária Elisama Gonçalves, 31 anos, que atuava no Timor Leste, Indonésia, em recente entrevista à imprensa, comentou sobre o assassinato de seu irmão, Aurélio Edgar Gonçalves Brito, 27 anos, ocorrido em 2006. Enquanto dirigia, Edgar foi atingido no pescoço por uma lança e morreu ao volante, antes mesmo de chegar ao hospital. Eles voltavam de um culto, quando um grupo de timorenses atacou o carro em que estavam.

Elisama nasceu em lar cristão, seus pais são da Assembléia de Deus. As raízes missionárias vêm de seu pai, o já falecido pastor Aurélio Gonçalves da Silva. Ele foi missionário durante 50 anos, abrindo várias igrejas no norte de Minas Gerais. Edgar, já estava no Timor havia dois anos, atuava como voluntário da Igreja Assembléia de Deus no projeto “Vida Nova”. O missionário se dedicava à alfabetização de crianças e adultos nas aldeias timorenses e à evangelização e pregação da Palavra de Deus.

Para Elisama, lidar com a perda do irmão não está sendo fácil até hoje. “Desde sua morte, em novembro, fica latente em minha cabeça que missões é sacrifício – é dar, deixar, perder, abrir mão. Mas nunca imaginei que custasse a vida de um de nós dois no campo missionário. Missões é isso. E preço a pagar, é o que Cristo fez na cruz por nós”.

Marcas de Cristo mais profundas é o que Elisama está adquirindo em sua vida. “Mesmo diante das lutas, temos certeza que é bom estar com Deus. Mas confesso que comecei a refletir: por que sentimos tanto quando uma pessoa vai viver a plenitude? Por que sofremos tanto? Será que não é porque estamos presos, mesmo que seja com o nosso ministério, com as coisas seculares, com aquilo que fazemos, com as pessoas aqui na Terra? Isso me faz pensar que precisamos estar desprendidos e mais preparados para a nossa Casa Celestial! Se o assunto fosse abordado por nós com freqüência, as perdas seriam menos dolorosas”.

É possível conhecer Deus ainda mais por meio do sofrimento. Assim como disse Jó, no capítulo 42:1-5: “Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te vêem”. De acordo com o pastor Tércio Rocha, sofremos porque vivemos num mundo decaído, mas Jó, por exemplo, que chegou a amaldiçoar o dia em que nasceu, entendeu que seu sofrimento foi para seu próprio aperfeiçoamento (Hb 12:11).

Sofre-se porque se vive num mundo imperfeito, porque se é pecador, porque se fazem escolhas erradas, porque hás estruturas de iniqüidade e também porque é uma maneira de Deus revelar a Sua vontade. Ele usa o sofrimento para disciplinar: “Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (Hb 12:11); “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra… Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119:67,71).

Deus usa o sofrimento para revelar o Seu amor (Sl 130), pois por meio dele aprende-se a orar como Ele deseja, com o coração quebrantado: “Das profundezas clamo a ti Senhor; ouve, Senhor, a minha voz! Estejam atentos os teus ouvidos às minhas súplicas!”. E ainda aprende-se a ter esperança: “Espero no Senhor com todo o meu ser, e na sua palavra ponho a minha esperança. Espero pelo Senhor mais do que as sentinelas pela manhã”; “Ponha sua esperança no Senhor, ó Israel, pois no Senhor há amor leal e plena redenção”.

O texto de Gênesis 3:14-19 esclarece que o sofrimento humano não fazia parte do plano original de Deus para a humanidade. “Podemos assim dizer que os males da humanidade não são da vontade absoluta de Deus, mas na grande maioria das vezes o resultado de escolhas humanas”, falou o pastor João da Penha.

Não há meio de se entender o sofrimento enquanto não se entende a Deus. Muito mais importante do que apontar trechos na Bíblia é aplicá-los, vivenciá-los e crer no que eles dizem. Impressiona o número de pessoas que se dizem fiéis, tementes a Deus, que dizem crer nEle, mas vivem em constante estado de ansiedade e revoltam-se com o Senhor ao menor sinal de problema.

Crer é mais que mera admissão intelectual de fatos e conceitos. Crer é descansar em Deus. Não basta aparentar entusiasmo, porque muito entusiasmo é mera euforia. Crer é acreditar que Deus cuida. É entender que, nos piores momentos, Ele não nos abandonou. Deus nunca deixou de estar no controle da história, porque Sua Palavra diz que “todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles a quem ele chamou de acordo com o seu plano”.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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