Perdão. O que é isso?

Descubra o que é de fato o perdão e conheça seu efeito libertador na vida de quem decide ter essa experiência

O que leva uma mulher a perdoar o assassino que matou seu marido durante um assalto, deixando três filhas pequenas e roubando-lhe todos os seus bens? Que força é essa que sai de dentro de um menino que perdoou a própria mãe biológica, depois de sofrer agressões físicas por mais de dez anos, o que lhe custou a perda do baço, a queima dos lábios, a língua cortada e 45 cirurgias no rosto de tanto apanhar? Zenaide e Renato são exemplos vivos do que a poderosa palavra “perdão” pode fazer na vida de quem decide se soltar da prisão do passado e experimentar a fantástica liberdade de ser feliz, e com um impressionante diferencial: sem esperar sequer que seus ofensores lhe peçam perdão. Eles sabem,
na prática, que qualidade de vida, saúde, prosperidade e alegria dependeram da escolha entre nutrir raiz de amargura ou desconectar o outro das algemas da culpa e seguir adiante totalmente livres daquela situação.

A história de Zenaide testemunha os benefícios do perdão que lhe renderam a cura de um câncer e a reconstrução de sua vida, tornando-a uma profissional de sucesso no Brasil e no exterior como psicóloga, consultora em administração e conferencista internacional na área motivacional. No rosto de Renato, mostrado recentemente no programa “Fantástico”, da Rede Globo, o sorriso simples, leve e admirável, prova que é possível superar traumas sem exigir vingança.

Eles descobriram que o perdão é uma ação que libera o ofensor da culpa e o ofendido da dor, e que perdoar não é esquecer mas lembrar do episódio sem sofrimento, sem raiva, com um coração sarado de qualquer ferida e, principalmente, cheios de esperança no futuro. Esses dois casos de perdão incondicional explica o que a psicóloga Zenaide Monteiro chama de ação e decisão que libera para a vida. Foi ela a mulher que perdoou o assassino de seu marido, e é ela quem ensina a perdoar de coração.

“Perdão tem a ver comigo, não com o outro. Eu decido perdoar independentemente de o outro pedir, querer, merecer, reconhecer, enfim a reação dele não importa. Eu decido me libertar e seguir em frente sem me importar mais com o acontecido, quem me feriu não me domina mais. Você sai daquela cena recorrente, passa o caso para Deus sem querer ensiná-lo a resolver da sua nossa maneira. Para muitos é difícil perdoar porque somos humanos e culturalmente somos ensinados a vingar, desdenhar, nos colocar acima dele.

Confundimos perdão com acerto de contas. Esperamos que o outro venha, reconheça que errou, se humilhe, peça mil desculpas, pague-nos o que deve… aí então nós bondosamente (e por cima) decidiremos se… e como iremos aceitar (e até impor condições) para retomar o relacionamento. Isso não é perdão. Isso é acerto de contas. Perdoar é muitas vezes ficar com o prejuízo. A palavra perdão é uma perda grande, perdão é o aumentativo de perda. Você escolhe perder, escolhe o prejuízo só para ficar bem com o outro, com Deus e consigo mesmo.

O Espírito de Deus me mostrou que, se eu sendo uma mulher instruída em cinco faculdades, privilegiada economicamente e bem colocada no mercado de trabalho, mesmo assim decidi aprender luta marcial para apertar o pescoço do rapaz que matou meu marido, o que pensar então daquele rapaz sem Jesus, revoltado com a vida e talvez drogado e desesperado diante do assalto que praticava? Pela primeira vez eu estava pensando nessa possibilidade. Essa foi a cena que Deus me mostrou para me dizer que o criminoso não passava de uma vítima e que ele, assim como eu, também era alvo de Sua graça”, argumenta a psicóloga Zenaide.

Se isso é uma verdade especialmente para os cristãos e se a Bíblia é repleta de textos aconselhando e determinando a prática do perdão, por que será que para muitos é tão difícil perdoar? Por que será que mesmo estando em meio a uma população mundial de quase 7 bilhões de pessoas podemos ainda ficar preso a uma única pessoa por causa da falta de perdão? O pastor Lucio Barreto, líder de mocidade na Igreja Batista Lagoinha, em Belo Horizonte, explica que as Escrituras, em Mateus 5:23-26 , revelam que o perdão é o beabá do cristianismo.

“Prova disso é que já entramos para o cristianismo através do perdão. Só quem já foi perdoado pode perdoar. O que nos impede de dar perdão está registrado em Rom. 12:19. Infelizmente, a gente quer receber e não dar, o orgulho endurece a pessoa e enche-a de razão. Na oração do Pai Nosso, pedimos que Deus use conosco a mesma regra que estamos usando com os outros. Isso é muito sério. Passe vergonha por cinco minutos na vida, mas resolva o problema que ficou para trás. Podemos ter relacionamentos tristes e difíceis, mas nunca pela nossa dureza e sim pela dureza do outro”, exorta o pastor Lucio Barreto.

A pastora Ezenete Rodrigues, líder de intercessão no Ministério Diante do Trono da IB na Lagoinha, está à frente do Ministério Restaurando Vidas, em Minas Gerais. Em janeiro ela pregou sobre o tema “Liberando Perdão”, quando disse que as pessoas não têm noção da prisão a que se submetem por falta de perdão. “A ministração do perdão sobre alguém promove cura até de doença física”. Para ela, esperar que o tempo trate de nos fazer esquecer é uma armadilha. “O tempo faz esquecer a fenda, mas ela continua ali causando prisões e dores; todo pecado confessado é pecado perdoado, a mágoa e dor são liberadas somente pelo perdão.

É importante externar e verbalizar isso porque quando se põe para fora se liberta. A falta de perdão impede a gente de fluir, crescer e ter vida plena na presença de Deus. Deus nos capacita a perdoar por meio do Espírito Santo, Ele tem o remédio para as feridas e nos dá vidas livres pelo perdão”, disse a pastora.

José do Egito não esqueceu o que seus irmãos fizeram contra ele e, no dia do encontro, ele chegou a dizer: “Eu sou José, aquele que vocês venderam lembra? Mas não se preocupem, estou bem e vou ajudá-los”. É por isso que a psicóloga Zenaide Monteiro defende que quem perdoa não esquece. Perdoar não é esquecer, é lembrar do episódio sem dor e sem prisão. Perdoar também não é estímulo para a injustiça, nem concordância com os erros cometidos, também não significa que não fomos machucados, não minimiza a ação negativa, apenas te libera, te desprende e ao outro também daquela situação.

É claro que nem sempre teremos a chance de verbalizar o perdão, como numa situação em que o ofensor morreu, mas sempre que for possível o ideal é que procure a pessoa e diga que a perdoou, mas cuidado para não transformar essa rica oportunidade num acerto de contas, caso contrário continuará presa a ela”, adverte Zenaide.

Perdão, conversão dos sentimentos

A poesia em canção de Luiz Arcanjo define o que é perdão. “Perdão é a canção do amor perdoar é se libertar. É quebrar  correntes de alguém. É deixar o outro levantar. É abrir mão de toda razão. Não negar socorro ao seu algoz. Dar a outra face e ir mais além. Se setenta vezes precisar, vezes sete se preciso for, perde a conta os que querem a paz, quem perdoa rega a flor do amor. Perdão sara a ferida da desilusão, ascende a luz do breu na escuridão, lava a alma de quem não quer mais a mágoa. Perdão, só pode dar quem já cresceu. Tem mais razão o que perdoa. Perdão muda as estações, no inverno reacende a cor.  O perdão é o troféu do herói que venceu o monstro da dor. Só usando as armas do amor, ressurgiu do fundo do pó. E calou a voz do seu eu, se humilhou e fez-se bem maior”.

As verdades contidas nesta composição de Luiz Arcanjo são definidas pela psicóloga Zenaide Monteiro como uma espécie de conversão, de troca de sentimentos ruins por sentimentos bons. “Quando sofremos alguma decepção (afronta, frustrações de expectativas), sentimos raiva. A raiva é uma emoção que necessita de estímulo externo para que aconteça (dor, traição, mentira). A raiva surge com muita intensidade mas passa logo, se não for alimentada. Se alimentada pode evoluir para ódio, ou seja, deixa de ser apenas uma emoção para se transformar em sentimento que não precisa de estímulo para acontecer.

Esse sentimento se incrusta e fica ali, corroendo como ferrugem. Podemos odiar uma pessoa, uma situação específica, por toda nossa vida. Portanto, uma emoção dá origem a um sentimento, e os sentimentos sempre envolvem uma ou várias emoções.
Digo sem medo de errar que o perdão é libertador porque é uma ação realizada para si mesmo. Te liberta do passado e te dá paz. Você deixa de ser refém dos sentimentos e das emoções, assumindo o controle dos mesmos e por tabela, da sua vida. Quando Deus perdoa e você não, você frustra a graça de Deus como se estivesse tentando mostrar para o Senhor que Ele não entendeu o quanto você ou outro é ruim e que por isso não merece perdão. Aceitar o perdão é caminhar deixando tudo para trás”, disse a psicóloga.

Segundo Zenaide, algumas pessoas possuem um temperamento mais propício para o rancor, a vingança, o mau humor, a inveja, a grosseria…O primeiro passo a fazer para mudar isso é se conhecer, já que o perdão é libertador por ser uma ação a nosso próprio favor, é assumir que possui esses sentimentos ou essas emoções incomodativas e decidir (até com ajuda profissional, se necessário) mudar isso. O equilíbrio emocional se dará na medida que se evoluir nesse todo conhecimento.

Quando a inveja, o ciúme, a raiva, o mau humor forem paulatinamente trabalhados, mudanças visíveis irão sendo geradas. “Todos podem ficar escravos da falta de perdão: tanto quem feriu como quem foi ferido. Todos somos passíveis de sentir e alimentar sentimentos negativos. Sentimos e pronto. O que realmente importa é o que fazemos a partir do que sentimos. O apóstolo Paulo diz em Romanos 7: 18 e 19 sobre o bem que queremos fazer e não fazemos e o mal que está sempre presente em nós. O salmista afirma no Salmo 51:5 que em pecado formos concebidos…então todos têm dentro de si o mal e o bem, esperando para ser alimentado, motivado. O que fazemos (ação) a partir dessas motivações (emoções, sentimentos negativos) é que consiste e caracteriza o pecado. Por isso é que Deus aceita a ira (emoção), mas não a vingança (ação).

Quem não perdoa a si próprio ou ao outro, ferindo e sendo ferido, se torna escravo. Carrega curtindo aquele sentimento pesado e danoso, eternamente. Claro que estamos falando aqui da parte emocional. Sabemos que somos formados por corpo, alma e espírito (III João 2). As três áreas precisam estar bem, para que estejamos bem. A nós compete administrar e decidir sobre as emoções (livre arbítrio). Deus não mexe aí. A parte espiritual é com Ele, e a conversão a Deus, como o nome já diz converte, muda os rumos das pessoas tornando-as espiritualmente melhores”, diz a psicóloga.

Por isso, ela afirma que quanto a temperamento (lado emocional) a resposta é sim para as diferentes capacidades de perdoar. Quanto à conversão a Deus (lado espiritual), que também reflete em mudanças, a resposta é não para a capacidade de perdoar condicionada ao temperamento de cada um. Resumindo: Deus dá a todos a capacidade de perdoar, mas a decisão e domar o temperamento é função de cada um de nós.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

Compartilhe