Pátria (mal) amada

Quem assistiu ou participou das manifestações de junho do ano passado pôde acompanhar a adesão em massa da população e de parcela considerável da Igreja, que foi às ruas para protestar contra a corrupção no Brasil. Muitos líderes evangélicos levaram suas congregações, com cartazes, faixas e gritos de ordem, e num só dia, mais de 100 mil pessoas se uniram em passeata, de Vitória a Vila Velha, ocupando a Terceira Ponte e exercendo o direito e o dever cidadão de lutar por um país melhor.

Mais de um ano se passou desde então, e agora, às vésperas de mais uma eleição no país, a atuação do cristão e da Igreja na sociedade volta à discussão. Mais por causa de acordos “duvidosos” entre lideranças religiosas e políticas do que por um debate consciente sobre o papel do cristão na sociedade.

É perceptível que a Igreja tem se ausentado de debates de cunho coletivo relevantes, o que é o oposto do que a Bíblia ensina e retrata em vários exemplos, a começar da ordem de ser mordomo do meio ambiente, dada em Gênesis, ainda no jardim do Éden (Gn 1 e 2), a busca por justiça social e pelo fim da violência e da desigualdade (nos livros dos profetas Isaías, Jeremias, Amós e Miquéias, entre outros), a responsabilidade para com as autoridades (1 Tm 2), e o envolvimento em cargos e setores políticos, como no caso de José no governo do Egito (Gn 37-47) e de Daniel na Babilônia (livro de Daniel), entre outros exemplos. “A Igreja tem sido omissa com as coisas deste mundo, já que ‘nossa pátria’ está no céu. Isso é um erro doutrinário que felizmente está, ainda que lentamente, sendo corrigido. Ainda há muita liderança evangélica que continua omissa nessa questão”, afirmou o pastor José Ernesto Conti, da Igreja Presbiteriana Água Viva, em Vitória, e presidente do Fórum Político Evangélico.

Para ele, é fundamental que os cristãos compreendam que Deus os chamou para ser sal e luz do mundo. Não menos do que isso. O pastor João Carlos Marins, da Igreja Batista Filadélfia, faz coro. Secretário-executivo da Rede Amor e Compaixão, que desenvolve projetos sociais no Estado, ele defende que se trata de uma visão distorcida sobre o Evangelho que faz com que a Igreja Evangélica não se envolva tanto em questões sociais.

“Sou do tempo em que a Igreja atribuía as coisas da cidade ao diabo. Participar da política? É do diabo. Jogar futebol? É do diabo. A Igreja passou a abrir mão de ter contato com as vertentes da cultura. Hoje, nossa participação é muito pontual. No Carnaval fazemos evangelismo. Na eleição, nos envolvemos. Hoje, a Igreja não sabe, não tem muita segurança com a forma que ela pode participar. Claro que existem, no nosso meio, pessoas consistentes, firmadas, que sabem o que fazer, mas uma boa parte fica excluída ou foi orientada por suas denominações a manter distância para não se contaminar”, explicou Marins.

Para ele, ainda falta o entendimento do Evangelho integral, que abarca o ser humano e o meio em que vive por completo, no seio das igrejas contemporâneas. “O livro de Tiago diz que ‘a fé sem obras é morta’. Precisamos equilibrar fé e obras. O que acontece é que boa parte da Igreja é consumista, para quem a Palavra de Deus se torna um fast-food. Não tem uma convivência diária com a Palavra. Então, ela vai jogar lixo na rua, vai usar água em excesso, não vai dar passagem ao idoso, não vai ceder o lugar no ônibus, não vai devolver o troco errado, não vai conter a fúria em um momento de discórdia. São coisas muito pequenas, mas a transformação começa por elas”, afirmou.

E é exatamente a falta de envolvimento da igreja que faz o mal prevalecer, segundo o pastor Conti. “A omissão do cristão, como cidadão, tem levado o ‘espinheiro’ a governar sobre as ‘árvores’, como disse Jotão (Juízes 9). Creio que faz parte das obrigações de um pastor alertar suas ovelhas para que escolham conscientemente seus candidatos e assim possamos ter uma política que realmente engrandeça nosso país. A omissão da ‘figueira’ e da ‘videira’ mostra muito claramente que as consequências para o povo são drásticas.
Por mais que nosso alvo seja a salvação das almas, não podemos deixar a condução da política ser exercida por ‘espinheiros’”.

Vanguarda
No entanto, nem sempre a igreja foi apática aos temas de interesse público. Houve um tempo em que a presença da igreja evangélica na sociedade era tão maciça que representava um setor de vanguarda, bem à frente em todas as discussões sociais, culturais, políticas e religiosas do país. Documentos eclesiásticos da década de 1960 de igrejas históricas, principalmente das igrejas Batista, Metodista, Presbiteriana, mostram uma participação ativa das denominações na política, luta por reforma agrária, orientações de pastores para que seus membros se envolvam com questões sociais, com o problema da pobreza, e com a cobrança às autoridades. “Não era iniciativa de um setor, era uma decisão oficial da cúpula da denominação, era o credo social de muitos evangélicos do Brasil”, afirmou o diretor -presidente da Faculdade Unida, Wanderley Pereira da Rosa.

E não só nessa época, mas, segundo o pastor Silas dos Santos Vieira, da Batista de Santo Antônio (Vitória), a forte presença da Igreja começou a ser sentida ainda no século XIX. “As igrejas estabeleceram hospitais, escolas, instituições de vanguarda, de primeiro nível.
As melhores escolas eram as evangélicas, os hospitais eram de ponta. Havia uma presença maior da igreja na sociedade”, afirmou o pastor.

Foi nesse período, em 1934, que foi criada a Confederação Evangélica do Brasil (CEB), um organismo que contava com a participação de quase todas as denominações e pastores para um diálogo comum e cooperação. “Era um lugar de discussão comum, de debate.

Os pastores daquela época estudavam o Brasil e depois se perguntavam o que a fé cristã tinha para dizer sobre aquele contexto. Não precisa ser cristão para agir eticamente, mas como posso fazer isso como cristão? Até as revistas de escola dominical eram produzidas em comum acordo. Uma só, para todo mundo”, afirmou Wanderley.

No entanto, o cenário mudou com o golpe militar, em 1964. Com a chegada dos militares ao poder, discutir problemas sociais, ainda que na Igreja, era sinônimo de ser comunista e perseguido pelo regime. Diversos pastores foram presos, e seminários, fechados. “Onde hoje funciona a Faculdade Unida era um seminário, que foi fechado com todos os pastores-professores demitidos”, lembrou Wanderley. “O golpe militar foi um divisor de águas. As missões americanas que atuavam no país começaram um discurso de satanização da política, e muitas igrejas aderiram ao militarismo, foram parceiras do regime militar.

Os líderes que antes defendiam uma participação social da igreja foram rotulados de comunistas e presos. A CEB, fundada em 1934, acabou sendo fechada em 64. Criou-se, a partir de então, uma cultura nas igrejas de não participação política, nem social. E começou a ser pregada uma mensagem de espiritualidade abstrata, desencarnada da terra, pregação só sobre o céu, que tudo na terra era ruim”, acrescentou o pastor Silas.

Como consequência disso, as igrejas se retraíram nos templos.  “Hoje perdemos muito a nossa atuação política de transformação. Passamos a ser adesista e clientelista. Hoje há vários políticos evangélicos, mas a atuação é pífia, baseada em troca de favores com o Governo e com a Igreja”, afirmou. “Com o fim do regime e a abertura política e democrática, o que começou a ouvir era que ‘irmão vota em irmão’. Os candidatos evangélicos que aparecem não fazem proposta para os interesses do país, mas sim os interesses domésticos da Igreja. O que vemos hoje em termos de envolvimento político do evangélico é o pior possível, a maioria faz a gente passar vergonha, vota num projeto em troca de uma concessão de rádio.

Hoje a Igreja não tem participação social nem política, mas já existiu um período em que ela estava preocupada em ajudar o país a ser mais justo”, afirmou o diretor da Faculdade Unida. “Qual a consequência de uma faca que perdeu o corte? Não serve para nada. O sal, que Jesus fala, se não salga para nada mais serve se não ser jogado fora.

O papel da Igreja na sociedade é profético. Não no sentido de adivinhação, mas de denúncia, de  confrontar os reis e os sacerdotes. Essa é a principal função da Igreja, que também ajuda na construção da cidadania”, acrescentou Wanderley.

Esperança
Preocupada com a pouca adesão das igrejas em questões sociais, a Aliança Evangélica lançou a cartilha “Os Evangélicos e a Transformação Social: cultura cidadã e democracia participativa”, a ser trabalhada nas congregações em reuniões ou encontros da escola bíblica dominical. Já, logo de início, o material traz a contribuição da Igreja para a formação da democracia brasileira: “A rigor, a Igreja nunca saiu das ruas. O seu chamado sempre foi para fora das quatro paredes, abraçando as causas identificadas com a Paz, a Justiça e a Alegria do Reino de Deus.”

A cartilha oferece embasamento teórico, além de sugerir a pesquisa, a avaliação e o envolvimento do povo de Deus na promoção da liberdade e na luta pelo direito de todos. Ela se propõe a ser uma ferramenta para que a Igreja Evangélica hoje seja mais participativa e mais cidadã. “Já levei a cartilha para ser estudada nas células e nas mensagens de domingo da igreja.

Tenho trabalhado a questão do voto consciente. Não faço campanha, mas bato na tecla de que não se pode vender o voto, de ser responsável na hora de ir às urnas, de acompanhar o político não só na eleição, mas de conhecer seu mandato”, afirmou pastor Silas. Além de participar de vários movimentos sociais, o pastor Silas incluiu como meta da igreja a participação nos Oito Objetivos do Milênio (ODM), das Organizações das Nações Unidas (ONU) em sua comunidade. “Tento levar a igreja, os ministérios, as instituições evangélicas a aderirem”.

O templo de sua igreja também serve como cenário para o desenvolvimento de projetos sociais e até escola de balé para a comunidade. Apesar de muitas lideranças religiosas considerarem que a Igreja está aquém de todo seu potencial, ainda há esperança. Isso porque a Bíblia relata histórias da mesma igreja como  uma grande mobilizadora social – a Igreja Primitiva, por exemplo. Os encontros semanais, reuniões, cultos são também oportunidades, hoje encontradas, para se desenvolver uma consciência ética social, e não somente individual. E o templo, normalmente usado só nos finais de semana, pode se tornar, por exemplo, um catalisador de ideias, debates e atividades na comunidade para que a Igreja cumpra seu papel de farol e de atalaia da sociedade.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita