Pastor também é ovelha

Chamados por Deus para apascentar, os líderes Ministeriais também precisam ser cuidados, tendo apoio da família, da igreja e de outros pastores

Muitas vezes tidos como “super-heróis”, os pastores, afinal, também podem ser considerados como ovelhas? Sim, os líderes ministeriais estão sob o cajado do Senhor. E mais, eles têm fragilidades, dificuldades, medos, precisam de ajuda e da família e de compartilhar suas experiências a fim de desenvolver com plenitude seu trabalho. Segundo o líder nacional do Ministério de Apoio para Pastores e Igrejas (Mapi), Gedimar de Araújo, pastor é “gente como a gente”. “Ele é ovelha quando enfrenta crise no casamento e não tem um grupo de apoio para receber ajuda. Também é ovelha quando enfrenta crise financeira e não pode se abrir com ninguém com medo de ser julgado. É ovelha quando fica emocionalmente fragilizado por problemas na igreja. É ovelha quando se sente incapaz e mal preparado para um desafio ministerial novo. O único problema é que ele não pode se mostrar frágil para o rebanho, pois tem medo de perder o respeito ou de ser trocado por outro”. Ariovaldo Corrêa, coordenador do Mapi, afirma que o homem atrás do púlpito é uma ovelha, porém que nem sempre permite ser cuidada. “Em virtude de suas necessidades, vulnerabilidades e lutas, o pastor é uma ovelha que corre riscos. Ele tem todas as fragilidades de uma ovelha comum, porém, sua situação é agravada pela sobrecarga (pensa que precisa se sacrificar pela igreja), pela vulnerabilidade (procurando se mostrar sempre forte, acaba não se protegendo como deveria) e pelo orgulho (por ser um líder, tem dificuldade em fazer amizade, trocar experiências e principalmente se abrir com outros colegas)”.

De acordo com o pastor Jorge Linhares, presidente da Igreja Batista Getsêmani, em Belo Horizonte, o pastor precisa ser pastoreado. “Com um mentor, ele torna-se melhor do que é, fica mais eficiente. Fazendo uma citação bíblica, enquanto Davi era pastoreado por Samuel, ele se tornou um matador de gigante. Grandes líderes que deixaram de ter mentores caíram”, disse. Gedimar afirma que por duas vezes a Bíblia, no Novo Testamento, ordena aos sarcedotes que cuidem de si mesmos antes de cuidar da igreja. “Porém, essa determinação é negligenciada pela maioria dos líderes, trazendo consequências terríveis para eles, para a família, para a igreja e até mesmo para o mundo. A primeira passagem é em Atos 20.28, que diz: ‘Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a Igreja de Deus, que Ele comprou com o Seu próprio sangue’. Perceba que é um mandamento sequencial, cuide de si e do rebanho. A segunda passagem é I Tm 4.16: ‘Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes’”. Em geral, as dificuldades enfrentadas pelos líderes no dia a dia não são compartilhadas. De acordo com Gedimar, há “fortalezas” que os pastores erguem e que acabam reforçando sua solidão. “A autossuficiência, pois acreditam que não precisam de outras pessoas; o coração endurecido por feridas, por ter presenciado muito sofrimento ou pelos muitos estudos; o perfeccionismo, a fim de manter altas exigências para si mesmo e para outras pessoas; a entrega exagerada, quando perde sua individualidade; e a passividade, que o mantém livre das responsabilidades”, enumera.

Autossuficiência
Numa pesquisa realizada no I Encontro de Pastoreio de Pastores da Aliança Brasileira de Pastoreio de Pastores (ABPP), em 2012, foi perguntado aos líderes ministeriais quais eram suas dificuldades ou impedimentos para experimentarem o pastoreio ou a mentoria em suas vidas. As cinco principais razões foram: dificuldade de confiar em colegas (88%), falta de tempo (68%), falta de motivação ou visão (49%), não entendimento como isso funciona (37%) e não sentimento da necessidade de se abrir (32%). “Precisamos superar essas barreiras para buscar ajuda. Nenhum pastor é autossuficiente. Salomão já nos ensinou sobre isso em Ec 4.7-12. É preciso vencer o medo de se expor e de receber ajuda. O pastor cuida de todo mundo, mas geralmente ninguém cuida do pastor”, alertou Gedimar. Ele defende, ainda, que todo sacerdote precisa ser cuidado e pastoreado para não adoecer emocional, espiritual e ministerialmente. “A queda de muitos líderes e o abandono ministerial mostram que não podemos andar solitários. Somos um grupo de risco e precisamos buscar ajuda enquanto há tempo. A troca de experiência é saudável e necessária. Mas muitos pastores acabam tendo uma visão errônea sobre seus colegas.

Eles acabam vendo os outros pastores como concorrentes e não como companheiros de jornada. Temos muito que aprender uns com os outros, e o pastor que perde a capacidade de aprender vai parar de crescer. Para que essa troca de experiência possa acontecer de forma aberta e transparente, é preciso que se desenvolva um relacionamento comprometido e pessoal. Só assim os pastores terão coragem para trocar experiências vividas. Por isso, indico que todo pastor tenha um grupo de pastores com o qual se reúne com freqüência desenvolvendo amizade e companheirismo”. Ariovaldo Corrêa concorda, afirmando que é preciso trocar experiências e receber o apoio dos colegas. “Assim como aconteceno mundo empresarial e profissional, o pastor também precisa admitir que não sabe tudo e que pode aprender muito com outros que têm a mesma função. A troca é uma alternativa muito interessante até para que se evite cair em certos problemas que se repetem muito na vida ministerial”.

Mais apoio
Além da mentoria, é fundamental o apoio das famílias e de uma equipe pastoral. Segundo Gedimar, há “círculos” ao redor dos líderes que sustentam seu ministério. “Todos eles são importantes para que o pastor seja saudável. A primeira estrutura é a familiar. Sem uma família saudável, o pastor não desenvolverá um ministério eficaz. A segunda estrutura é uma equipe pastoral saudável. Nenhum pastor é saudável sozinho, precisa de uma equipe de liderança ao seu redor. E a terceira estrutura é um grupo de pastoreio de pastores, onde ele possa receber cuidado e pastoreio para sua vida”. A prova de que a estrutura familiar, o apoio da igreja e os estudos são importantes está no bom trabalho que vários sacerdotes desenvolvem. Eles, assim como os especialistas, indicam, estudam, dividem suas angústias e têm família e equipes pastorais ao seu lado.

O pastor Luciano Santos, presidente da Associação de Pastores de Vila Velha e titular da Igreja Batista Missão Avivada, em Cristóvão Colombo, Vila Velha, costuma dividir suas experiências e dificuldades. “Primeiramente, divido minhas angústias e medos com Deus. Minha esposa participa de todos os meus desafios também, atuando como uma auxiliadora legítima. Outras pessoas também participam dos meus momentos: minhas filhas, meus pais, meu discipulador, meu mentor espiritual, minha sogra, minha irmã, meus pastores auxiliares, minha equipe de líderes e a igreja. É claro que não compartilho todas as minhas angústias com todos, mas para cada situação eu avalio quem tem maturidade para me ouvir, me entender e me instruir. Não camuflo meus desafios, pois as ovelhas não podem ter a impressão de que o pastor é alguém sem desafios”. Marcelo Fraga, pastor da Igreja Batista Atos, em Santo Antônio, Vitória, está entre aqueles que seguem o caminho indicado por quem entende do assunto. E ressalta que, para enfrentar as dificuldades, divide sua vida em sete áreas e conta com a ajuda de mentores espirituais. “Tenho o hábito de pensar em minha vida em sete grandes áreas, que chamo de a ‘Roda da Vida Saudável’: Espiritual (QS), Emocional (QE), Físico (QF), Mental ou Intelectual (QI), Relacional (QR), Propósito (QP) e Ministerial (QM).

O cansaço mental e emocional, que traz como consequência o cansaço físico,é mais frequente no meu caso. O ministério exige bastante da mente e das emoções em decorrência dos constantes desafios enfrentados e flutuações emocionais das atividades. Por isso, divido minhas inseguranças com minha esposa, Gabriella, e com três mentores: David Kornfield, que me acompanha desde 1998 e que me discipulou como um ‘pai espiritual’; Gedimar de Araújo, a quem considero um irmão mais velho e com quem compartilho minhas lutas e medos mais constantes; e Josué Campanhã, um tio para completar a ‘família’ e que me auxilia em decisões de liderança. Creio que todo pastor precisa ser pastoreado (Atos 20:28). O pastor, sendo bem cuidado, cuida bem de sua família e do rebanho”. Assim também é o pastor Simonton Araújo, presidente da Missão Praia da Costa, Vila Velha. “É muito bom contar com conselheiros, mentores e equipes. É uma grande estupidez não se abrir para ouvir. Diz a Palavra que ‘na multidão de conselhos é que há sabedoria’.

Trabalhamos com ministérios, e penso que é bom ouvir a opinião de cada grupo. Conto com aqueles que amam a igreja. Tenho uma enorme gratidão pelo pastor Oliveira Araújo”. Para Ariovaldo Corrêa, mais importante do que resolver os problemas é desenvolver um trabalho preventivo. “Há muitas vidas e lares destruídos em virtude da corrida solitária dos sacerdotes. Eles nem imaginam os perigos que correm por optar em caminhar sozinho. O trabalho de convencer e encorajar o pastor a prover cuidado para si, sua família e liderança é muito difícil. Ainda existe muita desconfiança e medo. Quanto mais pudermos fazer para esclarecer e conscientizar, mais pastores serão saudáveis e firmes, e mais ovelhas serão salvas direta e indiretamente”.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.