Pastor João Brito: A polêmica da boneca

O pastor João Brito Costa Nogueira, da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV), é bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (RJ), em Ciências Sociais pela Universidade Católica de Cachoeiro e em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

É casado com Dorcas Marione, pai de Kátia, Deivisson e Renan e avô de Thiago e Gustavo. Nesta entrevista, o líder ministerial, alvo da polêmica envolvendo a boneca Abayomi, esclarece o motivo de ter mandado retirá-la do mural do Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) localizado no espaço da Igreja.   E também conta como aconteceu o episódio que gerou protestos, apontando verdades e mentiras divulgadas pela mídia.

Como e quando aconteceu o acordo com a prefeitura da capital para que o prédio da igreja abrigasse a escola municipal?
Em 2014, fomos consultados pela Associação de Moradores do Bairro Jardim da Penha, pela Secretaria de Educação e por vereadores que representavam o bairro. A própria prefeitura nos solicitou, porque havia um clamor dos moradores para que fosse criado um Cmei no bairro. Eles procuraram em muitos lugares e não encontraram nenhum local que pudesse abrigar com certo conforto o Cmei. Conversamos e fizemos acordos. Fiz isso a pedido, para cumprir formalidade, pois, para que a prefeitura usasse o nosso espaço, era necessária uma manifestação positiva da igreja.

Qual foi o acordo?
Não foi alugado todo o patrimônio. Cedemos menos de 20% do complexo de salas da nossa igreja em regime de uso compartilhado. Algumas salas seriam usadas pelo colégio, das 6h às 18h. A partir das 18h, a igreja usaria as salas normalmente. Nos sábados e domingos, seria para uso da igreja. O Cmei utiliza 10 salas, sendo três de uso exclusivo dele: secretaria, diretoria e cozinha. As demais salas e o berçário são espaços compartilhados com a igreja.

A boneca estava no espaço compartilhado?
Eu nem chamo de boneca, chamo de símbolo de orixá. Ela foi colocada numa sexta-feira, no fim de expediente, porque o Cmei usa até as 18h, de segunda a sexta. O fato é que colocaram em um lugar bem de destaque, bem na entrada principal, o que não era usual para aquele tipo de cartaz. Na frente, o espaço é mais usado para avisos. Aquele símbolo religioso de orixá causou incômodo aos crentes que iam chegando.

O senhor deu ordem para retirá-la?
Eu mandei que fosse retirada e entregue ao vigia da escola. A igreja não retirou, nem guardou ou escondeu, nada disso. Tirou do quadro e entregou ao vigia da escola para que ele entregasse a quem de direito da escola fosse. Mas, na segunda ou terça-feira, já tinham denunciado para o Sindiupes (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo), para outras organizações, com discurso completamente deturpado. Eu não mandei tirar uma boneca, porque não a olhei dessa forma, mandei tirar um orixá. Não retiramos nenhum outro cartaz, e existem muitos outros sobre cultura africana. Não temos nada contra isso, porém aquela não é apenas uma cultura, é o símbolo de orixá. E eles fizeram aqueles protestos sem nunca me procurarem.

Como encarou a acusação de racismo?
Como pura maldade. Não sou racista. Nunca nem falei a cor da boneca. Fizeram todo um movimento, numa falta de ética tremenda. Tenho na igreja pastores e funcionários que são afrodescendentes. Eles deram uma conotação racial porque há um acordo de que, em funcionando o Cmei nas dependências de um templo batista, a igreja não faz na escola abordagem de cunho religioso. Nós não entramos lá para ensinar as crianças a cantarem cânticos evangélicos ou orarem, nem mesmo o Pai Nosso. Por outro lado, há um acordo de que a escola, que é laica por lei, não faça nenhum tipo de abordagem religiosa, você está me entendendo? Se fizessem um estudo sobre cultura nordestina e falassem sobre o Padre Cícero, que é da minha terra, o Ceará, não teria problema a abordagem dessa figura histórica do Nordeste, mas pegar a estatueta do Padre Cícero e colocar na entrada principal da igreja já deixaria de ser cultura e passaria a ser objeto cultual. Eles sabem que era só me procurar” e dizer: “Pastor, o que aconteceu que o senhor tirou o quadro?”. Mas ninguém me procurou. Eu soube através do movimento.

Por que a boneca confronta a Bíblia?
As bonecas são feitas para serem utilizadas como amuletos. Pesquisei e sei que até a confecção dessas bonecas ocorre através de um ritual especial. Eu tenho teses de mestrado e doutorado da PUC que mostram isso.

Vai manter a parceria com a escola?
O que você acha de uma escola que tem cerca de 20 professores, e todos serem castigados por causa de um? A Secretaria de Educação e a igreja convivem tranquilamente e, por causa de um incidente, não vamos acabar com toda uma história de quatro anos. Não vamos dizer “não” a uma comunidade que precisa dessa creche. Uma comunidade que nos respeita, da qual fazemos parte. As quase 300 crianças não merecem o castigo. Não é uma questão de orgulho, mas a igreja cedeu o espaço porque nos foi pedido. Eles nos pagam aluguel e não fazem mais do que a obrigação. No aluguel estão embutidas as contas de água e luz, porque a EDP e a Cesan não fazem dois relógios no mesmo prédio. A comunidade gostaria que a prefeitura adquirisse uma área, construísse um Cmei. Isso teria meu apoio.

Que lições o senhor pôde tirar?
Se eu sou um homem de Deus, tenho que fazer exatamente o que Daniel fez no passado: não tem governo, não tem sindicato, não tem ninguém que me faça curvar diante de uma estátua, diante de um orixá. E eu creio que a comunidade, principalmente a evangélica, não deve se dobrar. Minha postura foi dentro de uma ética que eu esperava que o colégio tivesse, porque não se pode ir para dentro de um templo e querer uma prática que confronta os ensinamentos da ética cristã batista, neste caso, especificamente. Seria bom ver o que está sendo ensinado, porque esse projeto inclui uma prática que eu não concordo: crianças de zero a 5 anos podem fazer massagem em dupla ou em grupos? Será que os pais sabem que na programação existe isso? E outras coisas mais. Na fabricação dessa boneca, além do significado cultural, que é até interessante, há o significado religioso.

Foi uma perseguição à Igreja?
Sim, através de uma armação, basicamente de uma professora que, usando a desculpa de cultura, travestiu religião como se fosse cultura. Nós não somos contra, absolutamente, ensinar cultura afro, afinal de contas quem de nós não é descendente de afro, não é verdade? O problema é que usaram a cultura para colocar um símbolo religioso, que é conhecidamente uma orixá na cultura religiosa afro-brasileira. Eu nunca falei de raça, eu falei de orixá. Eu tenho as gravações da manifestação com frases: “Ah, o pastor Brito é um babaca”. Outro fez gesto obsceno para câmera, na manifestação do Sindiupes. Não tem como um sindicato de professores se comportar daquela forma.

Recebeu palavras de apoio?
Muitas. A Convenção Batista fez um registro. Os pastores evangélicos fizeram moção de apoio. No domingo pela manhã, a igreja reuniu mil pessoas e à noite, quase 800. Havendo bom senso e deixando de lado esses deslizes, não há problema. Se as pessoas que assim agiram precisarem conversar comigo, as portas do gabinete estão abertas!

Veja o vídeo da entrevista com pastor Brito