Pastor de pastores: duplo ministério

A postura de líder exemplar da igreja tira do pastor o direito de ser uma pessoa comum, que, como tal, precisa ser pastoreado para exercer a plenitude de seu ministério

“Ninguém cuidou da minha alma”. O desabafo do Rei Davi, um pastor de ovelhas, registrado no Salmo 142:4, traduz o sentimento de milhares de pastores de todas as épocas. Visto como o anjo da Igreja, quase assexuado e imune aos interesses humanos, é comum o pastor sentir-se forçado a assumir uma imagem de super-homem, criada não por ele, mas pelo próprio rebanho. Despreparada para reconhecer e tratar das necessidades e problemas mais íntimos de seu líder e sua família, a Igreja corre o risco de lançar sobre os ombros do pastor uma carga que nem mesmo o Supremo Pastor, Jesus Cristo, o obriga a carregar: ser 100% exemplo em 100% do tempo.  Esse é um mito que tem desafiado os homens mais renomados do mundo cristão a quebrar sem destruir a ideia teológica que a Igreja construiu acerca de seu pastor.

Pastor, bispo, apóstolo, anjo da Igreja… Muitos são os títulos com forte teor de responsabilidade atribuídos aos líderes que cuidam da igreja. Mas quem cuida do pastor? Quem o aconselhará? Quem estará disposto a ouvi-lo sem levar consigo uma sentença? A quem recorrer? Muitas vezes sem respostas para essas e outras perguntas, o pastor se isola num mundo onde nem mesmo sua família pode entrar.

Tarde de quinta-feira. Sobre a mesa um telefone, uma Bíblia e uma caixinha de lenço de papel. Sentado em sua cadeira de rodinhas, ele espera a chegada de seu “paciente” espiritual para oferecer atendimento pastoral. Mas quem abre a porta dessa vez não é um membro comum da igreja, à procura de ajuda e conselhos.

Quem abre a porta do gabinete pastoral para ser ouvido e chorar suas amarguras é um colega de ministério, um outro pastor, precisando dividir seus problemas pessoais de ordem ministerial, financeira, familiar, espiritual, emocional, sexual ou profissional.  Essa cena tem se tornado tão comum que muitos têm se levantado e implantado projetos, congressos, retiros, que servem de socorro para uma classe tão visada. A diferença é que, nesses encontros a ordem é falar apenas das dificuldades, frustrações, medos e sonhos.

Um dos idealizadores dessa iniciativa é o pastor Jasiel Botelho, missionário do Seminário para Líderes e Pastores (Sepal) e pastor na Missão Jovens da Verdade, em São Paulo. “Nos nossos encontros, temos uma máxima: ‘Compartilhe suas tentações para não precisar confessar os seus pecados’. Fazemos isso para amenizar a solidão do pastor, que não compartilha com a esposa porque ela adoecerá emocionalmente se souber dos problemas de ministério; não divide com o colega obreiro, por temer que ele use sua fraqueza contra ele;  e não leva ao conhecimento da igreja, porque ela poderá se escandalizar quando descobrir que o pastor é um homem comum, que sofre e precisa de ajuda, e não somente um homem de Deus pago para cuidar da igreja, e que não pode desistir, custe o que custar”, explica Jasiel.

Segundo ele, essa cobrança velada se torna uma armadilha para o pastor porque ele é um ser humano como qualquer outro, com suas virtudes e fraquezas, e o que se exige dele, do seu comportamento, é um peso para toda sua família. “Essa história de ‘anjo da Igreja’ cria uma imagem assexuada do pastor, mas ele também passa por tentações. A Bíblia diz que Jesus Cristo em tudo, tudo, foi tentado, e o pastor também é tentado e provado. Quando uma mulher, membro da igreja, está com problemas conjugais, geralmente deseja falar pessoalmente com o pastor, porque somos de uma cultura machista.

Ao ouvir as histórias dessa mulher mal amada, o pastor pode ser levado a fantasiar e sentir-se atraído por ela. Por  outro lado, o próprio pastor, que é, ao mesmo tempo, réu e vítima, faz parte de uma cultura que desenvolvemos de um Deus castigador e legalista, e passa a sofrer duplamente, porque não desenvolvemos plenamente a teologia da graça, com raras exceções. Nossos pastores creem no Deus que exige santidade absoluta. Com isso, ficam sem confidentes…”, alerta o pastor Jasiel.

Como possível solução para esses casos, ele aponta pelo menos dois caminhos, que em seu próprio ministério têm dado certo: o primeiro é o ministério compartilhado com sua esposa e o outro é a valorização dos chamados “velhos na igreja”. “A Bíblia nos mostra a figura do líder mais experiente, que é o ancião da igreja, que cuida dos pastores mais novos. É o princípio do mais velho cuidar do mais novo. Entretanto, na nossa cultura, o velho é visto como inútil e nossa sociedade está nas mãos dos jovens. Mas quero dizer que a Bíblia não descarta o velho, pelo contrário, o valoriza. O pastor dever falar com nosso Supremo Pastor, Jesus Cristo, sobre seus problemas, mas também deve procurar outro pastor para conversar e chorar”, aconselha.

A privacidade do pastor é uma outra necessidade pouco usufruida devido aos constantes chamados que recebe, mesmo em dias de folga. Dar atenção aos filhos dentro e fora da igreja, assumindo ora o papel de pai, ora de pastor, é outro desafio dentro do ministério. O pastor Jasiel Botelho ressalta que outras queixas e riscos muito comuns de pastores relacionam-se à vida familiar e profissional.

“Pastores não valorizados, às vezes com baixos salários e impedidos de exercer outra atividade, estão sujeitos a, posteriormente, entrarem para a lista dos que precisam ser pastoreados na área do desapego aos bens materiais. E pastores com necessidades em sua família, como por exemplo, a educação de seus filhos, não estarão felizes para desenvolver um ministério com leveza e segurança.  Abaixo de Deus vem a família, mas muitos pastores fazem da igreja sua ‘amante’ e têm problemas no casamento. Todos exigem o que ele não pode dar, por isso ele acaba criando uma imagem de que tem que ser sóbrio, não pode brincar nem chorar, para não ficar ‘queimado’, exigências que vão deixando-o muito sozinho”, destaca.

Três dias de mentoria, oração e compartilhamento

O projeto Amigos de Ministério, liderado pelos pastores Jasiel Botelho, Ariovaldo Ramos e Ziel Machado, consiste em três dias de encontro, em que os pastores que são pastoreados recebem um serviço de mentoria, oração e compartilhamento. “Nos oito encontros que já realizamos, ouvimos os pastores e cuidamos de suas famílias. Estudei alguns projetos que já existiam e fiz algumas adaptações. Assim nasceu o Amigos do Ministério, onde ensinamos o pastor a ser um líder humilde, a desapegar-se das coisas desse mundo e a procurar um amigo para compartilhar”, relata o pastor Jasiel.

70 pastores sendo pastoreados no ES

O Pr. Gedimar Araújo, da Igreja Evangélica Ágape, em Santo Antônio, Vitória, faz parte da corrente de sacerdotes chamados para este ministério específico. Ele coordena o Ministério de Apoio a Pastores e Igrejas no Espírito Santo, sendo também colíder nacional. É um ministério interdenominacional que existe desde 1992 e já soma mais de 70 pastores sendo pastoreados no Estado.

Eles descobrem os pastores geralmente via relacionamento, fazem retiros e clínicas de mentoria para pastores e líderes, em que explicam as necessidades mais urgentes que surgem. “A partir das clínicas que oferecemos, formam-se grupos de pastores que serão pastoreados. Sabemos que o pastor é alvo de ataque de Satanás e que, uma vez derrubado, a igreja sofrerá. É por isso que os pastores precisam muito de assistência, caso contrário serão um fracasso, apenas profissionais de púlpito. Nos encontros, trabalhamos o caráter e a rotina devocional dele. Já fizemos uma clínica aqui no Estado e temos outras duas previstas para 2012”, disse.

Ministério voluntário inspirado por personagens bíblicos

O Pr. Carlos Augusto, da Igreja Batista em Celina, Nova Venécia, desenvolve um ministério espontâneo e voluntário de pastoreio de pastores. Ele cita personagens bíblicos que exerceram pastoreio de outros líderes, como Jesus e os discípulos, Moisés e Josué, Ester e Mordecai, Paulo e Timóteo, entre outros.

“Certeza de conversão, chamada para o ministério, amor e ética são os principais requisitos para exercer o ministério de pastorear pastores. Quando somos vocacionados para isso, as situações simplesmente acontecem. Comigo essa experiência surgiu ao longo do meu ministério.  Sinto-me feliz e realizado em ajudar outros colegas. A família do pastor, às vezes, não sabe de uma determinada dificuldade, mas ajuda em oração”, pontua o Pr. Carlos Augusto.

Com experiências diferentes em seus ministérios, os pastores Jasiel Botelho, Gedimar Araújo e Carlos Augusto são unânimes em afirmar que pastores comprometidos com a obra divina precisam da compreensão e apoio da igreja. Para pastorearem zelando pelas almas de suas ovelhas, sobre as quais terão que prestar contas a Deus (Hebreus 13:17b), precisam receber pastoreio a fim de exercerem seus ministérios com alegria, e não gemendo (Hebreus 13:17c).  Quando a igreja atingir está maturidade no entendimento, nunca mais pastores precisarão repetir a expressão solitária do Rei Davi: “Ninguém cuidou da minha alma”. Antes, dirão, como Paulo a Timóteo 3:1: “Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja”.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita