Existem passagens na Bíblia que são erradas de serem aplicadas a nós hoje?

“É preciso reconhecer o que é permanente e válido para nós, e o que é temporal, local e cultural”

Sim, certamente sim! Este assunto é delicado, e reconhecemos isto, mas há muitos teólogos cristãos, comprometidos realmente com as Escrituras, que reconhecem que há limites para a aplicação de determinadas passagens bíblicas ao nosso contexto, até pelo fato de muitos preceitos bíblicos brotarem de contextos históricos e culturais muito diferentes do nosso e, portanto, serem aplicáveis apenas àqueles contextos e àquele momento histórico.

Particularmente, estou convencido de que doutrinas fundamentais da fé cristã são universais, atemporais e aplicáveis a qualquer povo em qualquer cultura, mas reconheço também que há muitos preceitos eclesiais, que praticamos em nossas igrejas, que são construtos nossos, e que precisam ser relativizados e revistos.

Consideremos, por exemplo, a questão de usos e costumes, motivo de muita polêmica em nossas igrejas. Baseando-se equivocadamente em determinadas passagens da Bíblia, muitos líderes assumiram uma postura excludente em relação a cristãos no interior de diversas denominações. Infelizmente, não poucas pessoas sofreram com isto, e a Bíblia foi (e ainda é em alguns casos) usada para legitimar determinadas posturas nesse sentido.

Outra aplicação histórica de passagens bíblicas que vem sendo feita, a meu ver, de maneira muito equivocada, é a que envolve a questão do divórcio. Baseando-se em passagens como Mateus 19 e Deuteronômio 24, muitos cristãos condenam ao Inferno pessoas que se divorciaram e casaram novamente, quando estes textos nem estão realmente falando de divórcio como conhecemos em nossa cultura. Nesta hora, é necessário distinguir entre o que é preceitual e entre o que é local, específico e atrelado àquele momento histórico. É o que se chama na Exegese de Sitz im leben, o “lugar vivencial” que dá origem ao texto bíblico.

Neste último caso, na questão do divórcio, o preceito é claro e é permanente: a vontade de Deus é que o casamento nunca acabe, como Jesus diz em Mateus 19: “O que Deus uniu não separe o homem”. O problema começa daí para frente quando criamos uma série de preconceitos, abordagens reducionistas e assumimos posturas excludentes em relação às pessoas que passaram por isto em nome de “defender a Bíblia”. Por isto, concluo dizendo que é preciso reconhecer o que é permanente e válido para nós, e o que é temporal, local e cultural. A Bíblia nos apresenta as duas coisas. A distinção se dará mediante a leitura constante e estudo sério, usando ferramentas da Hermenêutica e da Exegese.

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