Para que pensar no hoje?!?!

Com este título, estou procurando demonstrar um enfoque equivocado de um segmento de nossa liderança evangélica – considerar a salvação como um fim em si mesma, com a preocupação apenas do preparo da pessoa para a eternidade.

Esta visão reducionista do Evangelho acaba fazendo com que tudo na Igreja se centralize na salvação, na evangelização e no trabalho missionário, de modo que a única missão da Igreja é salvar o pecador perdido do lamaçal do pecado. Chamo isso de salvacionismo.

É um soteriocentrismo (do grego “soteria”, salvação): tudo converge para a doutrina da salvação de modo que ela se torne num fim em si mesma e o centro da vida humana, como a principal mensagem da Bíblia. Não estou desvalorizando a salvação ou o trabalho missionário, mas buscando o significado mais profundo por trás disso tudo.

Se a salvação é fim em si mesma, então nascemos para sermos salvos. Se nascemos para sermos salvos, então poderemos estar fazendo Deus culpado pelo nosso estado pecaminoso. Veja a incongruência do salvacionismo.

A mensagem bíblica é que nascemos para a glória de Deus (Isaías 43.7), isto entendo que significa que nascemos para viver em comunhão e amor com Deus, conosco mesmos, com o próximo e com o ambiente que nos cerca. Nascemos, portanto para o cotidiano, para a vida.

Com a entrada do pecado no mundo, no Éden, nos rebelamos contra nosso Criador e nos afastamos de Seu convívio, deixando de viver para a sua glória e alegria (Romanos 3.23 – carecemos da glória de Deus, temos falta dela). Passamos, então a viver para nós mesmos. Passamos a governar a nossa vida conforme o curso deste mundo.

Assim, a salvação é um meio para consertar nossa vida, nosso relacionamento com Deus e nos trazer de volta para o estado original de onde nos afastamos em Adão (Romanos 5.12ss). A salvação, então, é um conserto. Ao sermos salvos fomos reposicionados na ordem das coisas criadas, por isso somos considerados por Deus como novas criaturas (2 Coríntios 5.17).

O salvacionismo, sendo assentado no enfoque jurídico (Cristo morreu por nós) e escatológico (para nos dar o céu no futuro), perde a beleza desta faceta cosmológica de nossa restauração.

Uma vez restaurados, nossa vida deve ser reposicionada no mundo em que vivemos por meio da obtenção dos valores do Evangelho e da renovação de nossa mente promovida pela impregnação da Palavra de Deus como referencial para a vida cotidiana (Romanos 12.1,2 e 2 Timóteo 3.16,17).
Jesus veio nos dar vida abundante (João 10.10).
Isto significa que o cristão deve viver o Evangelho já, no aqui e no agora; em vez de ser consumidor da realidade, deve ser participante de sua construção histórica. O dia a dia deve ser tingido pela visão cristã de vida expressa pelos valores cristãos descritos no Novo Testamento.
Quando evangelizarmos as pessoas com esta visão integral do Evangelho, conseguiremos ir construindo uma Igreja mais efetiva e participante do mundo, não como esponja ou mesmo como óleo, mas como sal da terra e luz do mundo (Mateus 5), com vida contagiante no cotidiano.
Lourenço Stelio Rega

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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