Confira a trajetória de Hernandes Dias Lopes

“Larguei os meus sonhos e projetos pessoais, atendi imediatamente a voz de Deus e fui para um seminário”

Um pastor que define o seu ministério como primeiro amor de sua vida e que vive o amor a Deus de corpo e alma. Este é Hernandes Dias Lopes, pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória. Com 30 anos atuação na igreja da capital do Espírito Santo, Hernandes fala sobre como tudo começou, suas motivações, a importância da família e o bem sucedido lado escritor desse proclamador das Boas Novas do Reino de Deus.

Já havia desde jovem a vontade de servir ao Pai?
Nasci em uma família evangélicos, presbiteriana. Como meus pais moravam na roça, saí de casa para estudar com 12 anos. E graças a Deus, nunca vivi longe da igreja, mesmo . E minha conversão mesmo aconteceu aos 17 anos.

Como o jovem nascido em Nova Venécia acabou cursando Teologia no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas? Conte como foi essa trajetória até lá. O que o fez tomar essa decisão?
Meu grande sonho desde criança era ser advogado ou político. Sempre sonhei estudar. Com 18 anos, tirei um título e me filiei a um partido. Queria caminhar nessa direção. Porém, não sabia que quando minha mãe estava grávida, me esperando, ela tinha ficado muito doente. E ficou registrado que se Deus a curasse e preservasse a minha vida, me consagraria para ser pastor. Aos 19 anos de idade, Deus fez uma obra milagrosa na minha vida, através de uma conversa com o presbítero J32é, da igreja de Nova Venécia. E através daquela conversa, tive a convicção do meu chamado. Larguei os meus sonhos e projetos pessoais, atendi imediatamente a voz de Deus e fui para um seminário.

Após terminar o curso, foi empossado pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Bragança Paulista. Como definiria essa etapa da sua vida?
Trabalhei na igreja por três anos como seminarista, depois fui ordenado pastor, no dia 17 de janeiro de 1982. Atuei lá por mais alguns anos. Foi um tempo maravilhoso, no qual pude ver a graça de Deus, a confirmação do chamado, o crescimento da igreja, conversões. Foi algo que marcou a minha vida. O ministério foi meu primeiro amor.

Como foi esse início de ministério?
Meu grande projeto, desde o começo, era trabalhar com alegria, intensidade, com entusiasmo. Sempre levei o ministério muito a sério, fazendo com coração, dedicação, com meu ser completo. O que motivava era servir a Deus, pregar com paixão. Me dediquei a isso de corpo e alma.

Como surgiu a oportunidade de ser pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória?
A forma como Deus fez foi maravilhosa. Eu substitui em Bragança o pastor João Campos Avillano. Fui ordenado, fiquei em Bragança e ele foi para São Paulo. Já a igreja de Vitória estava em 1984 em uma transição pastoral. E o conselho da igreja convidou o pastor João para pregar. Ele veio e viu que era uma igreja jovem, dinâmica e grande. Ele então reuniu o conselho e disse “Olha, não sou pastor para essa igreja, mas tenho um pastor para indicar”. E indicou o meu nome. Eu ainda muito jovem, em uma igreja grande, de referência no Estado e no Brasil. A igreja tinha vários outros candidatos, mas por graça de Deus, eu fui o pastor escolhido. E agora em 2014, completo o meu trigésimo ano na Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória.

Em que momento surgiu o “Hernandes escritor”? O que pensava na época em que escrevia o seu primeiro livro?
Sempre gostei muito de estudar e também de escrever. Comecei a escrever as pastorais e meus sermões, na época à mãos, já que não havia computador. Um irmão da Igreja Metodista, Eloi Espíndula, falava sempre que eu precisava escrever. Um dia, esse irmão chegou ao meu escritório e colocou sobre a minha mesa um recibo bancário. Então ele disse: “olha, eu depositei a metade do valor do seu primeiro livro. Você arranje a outra metade, escreva o livro e publique”. Aquilo me encorajou bastante. Escrevi e publiquei “Batismo de Fogo” em 1992, por conta própria, e em menos de um mês o livro já tinha se esgotado. Fomos para uma nova edição, e depois para o segundo livro, terceiro, quarto e por aí foi. A partir daí as editoras se interessaram pelo trabalho. Hoje, são 124 livros, sendo 121 publicados.

O senhor é considerado fenômeno editorial pelo mercado. Tinha idéia de que alcançaria número tão significativo de obras?
Não, não tinha ideia para onde Deus me levaria com esse projeto. Creio que se estou hoje no universo da literatura cristã no Brasil, tenho que agradecer pela graça a Deus. Levei livros para o país inteiro e fora dele, tem obra que será publicada até no Japão. Fico muito feliz e agradeço a Deus. Isso é tudo a graça dEle na minha vida.

Fazendo uma análise da sua bibliografia, qual foi o tema que mais abordou? E qual é o que mais se sente a vontade para falar a respeito?
Meus temas são muito variados, de comentários sobre livros da Bíblia a família, passando por aconselhamento, prática pastoral e encorajamento. Cada livro para mim é como se fosse um filho. É uma coisa muito marcante, você entregar um livro novo. E ainda mais marcante é ver o retorno, com as pessoas dizendo o quanto foram abençoadas, relatos bonitos de conversão, de pessoas que estavam presas e foram alcançadas na cadeia. Tudo isso me empolga profundamente.

Qual são os seus livros de destaque? E o que acha que levou a obra a alcançar tamanho destaque?
Pela graça de Deus, nós temos alguns livros que são chamados de best-sellers, com mais de 100 mil exemplares vendidos. É o caso por exemplo de “Mães Intercessoras”, ou da série das gotas – de sabedoria, de consolo, de paz, de alegria – que estamos chegando na casa dos 200 mil exemplares. Temos livros que são referência no país nas suas respectivas áreas, como o “Pregação expositiva”, ou o “De pastor a pastor” e “Paulo, o Maior líder do Cristianismo”. Uma influência muito boa que percebemos é com os livros de comentários. Milhares de pastores pelo Brasil usam esses livros para multiplicar as mensagens que escrevi nessas obras. Isso é maravilhoso. Temos hoje, pela graça de Deus, mais de 1,5 milhão de livros vendidos.

Um defensor da família e seus valores, você casou-se com Udemilta Pimentel e construía a sua. Em que momento a conheceu e quando perceberam que compartilhavam dos mesmos sonhos?
A minha história com minha esposa é muito bonita. Na verdade, foi amor à primeira vista. A conheci no dia 19 de julho de 1986. Ela veio de Iúna para uma grande concentração que fizemos no Álvares Cabral e um amigo nosso em comum disse a ela que eu que estava querendo conhecer uma moça de Deus. Ele nos apresentou e depois do evento ela voltou para a casa. Liguei para ela e fui visitá-la. Começamos a namorar no dia 28 daquele mês e nos casamos em 28 de março de 1987. Nos conhecemos, namoramos e noivamos em oito meses. Só nos encontramos 19 vezes nesse tempo, e desde que a vi pela primeira vez, nunca tive dúvidas. Já estamos para completar 27 anos de casados e temos dois filhos, Thiago e Mariana.

Os temas família e casamento, aliás, também marcaram algumas de suas obras. Qual é o seu ponto de vista da importância do conceito tradicional de família para a sociedade?
Esse é um assunto que tenho escrito e pregado com freqüência no país e fora dele. Há uma necessidade grande de enfatizarmos a importância do casamento, de valorizar a família, de investir nos filhos. Nenhum sucesso vale à pena se for construído sobre os escombros da família, que é o nosso maior patrimônio. Hoje, aqueles que correm atrás de sucesso, glória, fama e dinheiro, esquecendo da sua família, até conseguem alcançar seus objetivos em alguns casos, mas são metas vazias, sem sentido.

Com todas as mudanças nas relações entre homens e mulheres, acha que a instituição casamento foi mudando ao longo do tempo? É possível, para um casal cristão se adaptar a essa nova realidade – sobretudo da mulher – sem deixar de seguir o que determina a Bíblia em relação ao papel de cada um?
A Palavra de Deus é atemporal. Não tem a história de que servir para uma cultura e não servir para outra. A Palavra tem princípios eternos, que devem reger a família ao longo dos séculos. Deus é o criador e estabeleceu não só a família como critérios para que a família viva em felicidade. Sempre que o homem conspira contra esses princípios, ou quer mudá-los, está caminhando rumo ao desastre, entra em uma rota de colisão.

O país precisa ou está preparado para uma teologia própria e baseada em sua cultura?
Não creio em Teologia Brasileira, Americana ou qualquer outra. Acredito sim em Teologia Bíblica, na exposição das Escrituras, na verdade eterna. Não existe a Teologia Brasileira, existe a Teologia da Palavra, que está acima de qualquer cultura. O ponto mais importante que devemos observar é: não é a cultura que determina a verdade de Deus. Mas é a verdade dEle que filtra e julga a cultura.

A sua 121° obra, que trata de 1 Timóteo, é também a 28ª a comentar um livro das Escrituras. Como esse livro poderá beneficiar líderes e igrejas?
As cartas pastorais, de Paulo a Timóteo, são verdadeiras aulas de prática pastoral. Paulo, já no final da vida, passa orientações práticas para o jovem pastor Timóteo. Fala sobre como se comportar na igreja, como lidar com falsos mestres, como lidar com a questão das autoridades, com a oração, com o dinheiro, com a questão da liderança na igreja, a obra social. Esse livro da Bíblia é oportuno e vital para a vida dos pastores e das igrejas contemporâneas.

Como vê a questão do discipulado no meio editorial brasileiro? O mercado está bem servido de obras que edificam?
Nós vivemos uma época maravilhosa, de abundante literatura evangélica. Mas temos coisas boas e muita coisa ruim também E temos que ter o filtro para saber distinguir o que é bom do que não é: literatura hoje de péssima qualidade, com teologia distorcida, orientações não comprometidas com a Palavra de Deus. Assim como temos material valioso e que edifica. Sempre precisamos aprender mais, ler mais, avançar mais e estudar mais. A Bíblia é inesgotável e poderíamos produzir muito mais. O Brasil está apenas arranhando a superfície da área de leitura. O país tem cerca de 3 mil livrarias, para mais de 5 mil municípios. Enquanto isso, só a cidade de Paris, na França, tem 3 mil livrarias. O brasileiro está acordando agora para a leitura e o povo evangélico lê mais que os não evangélicos. O campo é imenso e a necessidade é maior ainda.

Articulista da Comunhão, o senhor participou de uma série de sucesso da revista: “Ladrões da Alma”. Qual deve ser a postura do cristão quando se depara com esses “ladrões”?
Eu tratei de quatro ladrões de alegria, que são as circunstâncias da vida, os relacionamentos pessoais, a preocupação com o dinheiro e a ansiedade. Esses problemas nos assaltam continuamente, nenhum de nós está imune, vacinado, livre deles. É um desafio constante. De uma hora para outra, pode surgir uma circunstância difícil e roubar a sua alegria. Nos relacionamentos, uma pessoa que esteve ao seu lado a vida toda se volta contra você, e o que era fonte de alegria se transformar em lágrimas. Ás vezes, a questão financeira pega também, seja motivada pelo fato da pessoa ter muita prosperidade ou passar muito aperto. E a ansiedade nem preciso dizer, como pode atrapalhar a vida de alguém. A única maneira de lidar com os problemas é conhecer a Deus, ter intimidade com Ele. É somente na presença dEle que temos uma vida de alegria.

Mais que exercer o papel de líder espiritual de seu rebanho, o pastor atualmente precisa ser gestor, palestrante, conselheiro e, em alguns casos, publicitário. No seu ponto de vista, os pastores devem encarar as demandas dessa nova Igreja?
Creio que Deus chama o pastor e dá dons a ele. Nem todo pastor tem todos os dons. São coisas distintas. Ás vezes uma pessoa que uma excelente performance na área de administração, não atua de forma tão desenvolvida no púlpito. Podemos ter um pastor com o dom de mestre, que não tem uma boa retórica e eloqüência para pregar. Ás vezes, o pastor que é excelente conselheiro, não tem dom para trabalhar na área de missões ou vice-versa. Acho o pastor precisa conhecer seus dons, aceitá-los com alegria, não ficar frustrado se ele não tem todas as habilidades em todas as áreas. Agora, o que ele precisar fazer, como mordomo de Deus, é ser fiel naquilo que o Senhor o chamou para fazer.

Falando sobre o desenvolvimento das igrejas: como evitar a estagnação, e crescer com qualidade e não apenas em quantidade? Como restaurar o fervor espiritual e fazer do compromisso com o Evangelho uma referência da igreja?
Hoje estamos assistindo uma distorção lamentável na Igreja Evangélica Brasileira. Por um lado, uns debandaram para liberalismo teológico, e a Igreja caminha a passos largos para uma derrocada. Temos o liberalismo quando a pessoa não crê na infalibilidade da Palavra de Deus, quando começa colocar a razão acima da revelação das Escrituras. Por outro lado, temos uma Igreja que reúne multidões, mas que está caminhando para o misticismo, para o sincretismo religioso. Que substituiu o Evangelho para um Evangelho de mandingas, de práticas muito semelhantes ao ocultismo, mantendo as pessoas prisioneiras. É copo de água ungido, toalha, rosas e assim por diante. E temos ainda os que vivem uma ortodoxia doutrinária, intocável, mas que é morta, seca, árida. Então, qual é a proposta para a Igreja? Não existe outra: se manter fiel ás Escrituras e ser piedosa; é o binômio ortodoxia e piedade. É teologia de vida, credo e conduta. Em outras palavras, é preciso ter luz na cabeça e fogo no coração. Buscar fervor sem fidelidade a Palavra de Deus gera misticismo; buscar conhecimento sem temor, gera racionalismo. As coisas não estão em oposição, precisamos de teologia saudável e vida cheia do Espírito Santo. Esse é o caminho para a Igreja.

Para o senhor, quais os desafios que a Igreja Evangélica terá que enfrentar nos próximos anos?
O primeiro desafio para a Igreja é não se secularizar. De não corre atrás do mundo, com o propósito de ganhá-lo. Isso é tolice. A Igreja só terá êxito quando for absolutamente diferente do mundo. O segundo desafio é de passar para as próximas gerações o Evangelho genuíno e puro, conforme pregado pelos apóstolos. A cada três gerações uma Igreja entra em algum processo de apostasia: a geração que nasceu no Egito, morreu no deserto. A geração que nasceu no deserto entrou na Terra Prometida. E a geração seguinte já não conhecida mais a Deus. O terceiro desafio é permanecer firme na Palavra e ao mesmo tempo buscar o fervor, o avivamento espiritual. O quarto é não apenas defender a verdade, mas proclamar essa verdade. Não é possível só criticar o que está errado, é preciso fazer o que é certo.