Devi Titus: em prol da família

“Maturidade é desenvolvida com a combinação de intimidade e obediência. Mas precisamos saber onde Deus quer obediência. A Bíblia é o nosso guia”

Reconhecida como uma das melhores escritoras do planeta, Devi Titus possui um ministério que contribui na restauração da dignidade no lar, além de ajudar homens e mulheres a experimentarem uma vida com propósito.

Também é a fundadora da chamada Mansão Mentorial (Mentoring Mansion) e, através dessa iniciativa, já recebeu mais de mil mulheres para se hospedarem “em sua casa” por quatro dias, a fim de lhes ensinar princípios bíblicos e práticos sobre o lar.

Devi também criou ao lado de seu marido, Larry, o Ministério Global do Reino (Kingdom Global Ministries), cuja missão é dar apoio a outros ministérios ligados à instituição. Esse compromisso resulta em milhares de igrejas, escolas e orfanatos estabelecidos ao redor do mundo. Nesta entrevista exclusiva à Comunhão, a escritora da editora Mundo Cristão fala sobre família, Igreja e intimidade com Deus.

Em seu mais recente livro, “Obediência e Intimidade – O segredo para uma vida plena com Deus”, notam-se muitas experiências de sua vida contadas no decorrer dos capítulos. O que a motivou a escrever sobre esse tema e qual a relação dessa escolha com sua trajetória?
Meu marido, Larry, já estava trabalhando em um ministério em tempo integral quando nos casamos. Certo dia me dei conta de que era perfeitamente possível conhecer Jesus, saber sobre Ele, sem completamente conhecer Deus Pai de um jeito íntimo, pessoal e não religioso. Meus pais eram pessoas de Deus, e ir à igreja fazia parte da rotina familiar. Íamos à igreja várias vezes por semana.

Decidi seguir a Cristo quando tinha 15 anos e me tornei esposa de pastor apenas alguns anos depois. Enquanto amava e liderava as pessoas em nossa crescente igreja, eu sabia que, em muitos aspectos, estava mais sendo zelosa ao fazer o que se esperava de mim do que servindo a Deus e amando-O intimamente do fundo do meu coração. Muito da minha vida espiritual era vivido publicamente.

Eu sabia que deveria haver mais. Afinal, Jesus é o único caminho para conhecer a Deus. Mas o que significa conhecer a Deus? Esse era o meu questionamento. Minha compreensão se desenvolveu lendo o livro de Oseias. Meu jeito prático de pensar levou-me a traçar um paralelo entre meu relacionamento íntimo com meu marido e meu relacionamento íntimo com Deus. Eu entendi que, se eu negligenciasse meu tempo pessoal com Larry da mesma forma que eu negligenciava a busca de Deus, nosso relacionamento seria superficial. Então, eu fui à prática. Eu exercitei o “prosseguir” em conhecer ao Senhor. Pesquisei a palavra hebraica que definia “conhecer” e criei um sistema que funcionou para mim. Eu mesma pratiquei os passos e etapas que descrevo no livro. E provei a mim mesma que a Palavra de Deus era verdadeira. Ele veio a mim como “a chuva serôdia que molha a terra” (Oseias 6:3).

O que é preciso então?
Obediência e intimidade são como a galinha e o ovo. O que vem primeiro? Intimidade deveria me levar a crescer em compromisso, que por sua vez deveria me levar a um desejo de obedecer a tudo que Deus deseja de mim. Certamente, porém, se eu não estou obedecendo, intimidade é a última coisa que eu nem sequer vou pensar a respeito. Da mesma maneira, quando não obedecia a meus pais, eu não queria estar perto deles. Eu escrevi sobre o meu caminho para conhecer a Deus e viver uma vida mais bem-sucedida, porque eu sei que, se eu pudesse ter essa experiência, aplicando orientações simples, outros também poderiam. Tenho tanto prazer em dizer aos outros o que tenho aprendido!

A Igreja cresceu, o Evangelho se difunde nos meios de comunicação como nunca, e o segmento cristão está em alta. Na contramão da ascensão do cristianismo está a apatia espiritual das pessoas, mostrando uma realidade diferente e provando uma fé de aparências. Assim, onde se encaixam os temas centrais do livro?
Podemos medir a verdadeira efetividade do modo de fazer igreja do século 21 por seus frutos nas vidas dos indivíduos. Luzes piscantes, telas coloridas, música ritmada e sermões breves não estão levando os indivíduos à presença ou ao coração de Deus. Tudo isso pode ser muito inspirador e cheio de significado, cheio de vida e entusiasmo, além de ser motivador.

Mas somente se você já conhece a Deus. Estudos mostram que um alto percentual de pessoas que responde a um convite para conhecer a Cristo raramente cresce até a maturidade cristã. Não há conteúdo suficiente sendo dado nesse ambiente chamado igreja atual para dar maturidade. Maturidade é desenvolvida com a combinação de intimidade e obediência. Mas precisamos saber em que Deus quer que lhe obedeçamos. A Bíblia é o nosso guia.

A profundidade no relacionamento verdadeiro com Deus é fator essencial para uma verdadeira transformação e obediência que emanam dessa entrega e intimidade? Como isso é possível?
Essas questões são profundas. Rebelião e intimidade não são faces da mesma moeda. Elas não coexistem. Uma criança aprende a obedecer aos pais, daí um dia eles poderão desfrutar da intimidade um do outro – isto é, proximidade. Eu não gosto de pensar obediência a Deus como uma série de regras religiosas a serem seguidas. Em vez disso, obediência é observar um conjunto de padrões, exemplos, que irão tornar a vida mais abundantemente melhor e frutífera se nos submetermos a eles. Não é isso que pais amorosos fazem? Infelizmente, há muita disfunção nos sistemas religiosos criados pelo homem. Deus nos deu um exemplo em Jesus. Ele viveu Sua vida de um jeito que pode ser imitado. Se definirmos os princípios que Jesus demonstrou, qualquer pessoa em qualquer cultura pode elevar o seu padrão de vida para incluir amor, paz, alegria e realização.

Quais os frutos da relação intimidade x obediência?
Intimidade e obediência criam uma vida satisfeita com Deus porque mudam o nosso foco. A autorrealização não é mais o ponto central. A amargura é substituída pelo perdão. A murmuração é vencida pela gratidão. O criticismo é substituído por elogios. Minha natureza é esmagada pelo amor de Deus. Muda a forma como eu vejo outros. Essas coisas me libertam para ser mais cheia de alegria, paz e esperança. O medo não me prende mais porque eu estou nas mãos do Pai, sabendo que Ele tem o melhor para mim.

Quais são os desvios sutis de conduta capazes de corromper a integridade da nossa comunhão com o Criador?
O egoísmo é um separador de relacionamentos. A atitude defensiva é a inimiga número um para a intimidade. O egoísmo é sempre autoprotetor e defensivo. Pare para ouvir as suas conversas. Você argumenta e reclama? Esses são comportamentos sintomáticos de pessoas autocentradas, que pensam que suas ideias são as melhores, por isso elas têm que argumentar para provar seu ponto de vista. “Fazei tudo sem queixas nem discussões” (Filipenses 2:14). A Palavra é tão prática e nos dá a melhor instrução para alcançar os melhores resultados em nossas vidas. Além disso, a autopiedade abre as portas para todos as emoções negativas: raiva, ressentimento, amargura, ódio e medo. Esses são fatores de separação em todos os relacionamentos, com as pessoas e com Deus.

Ser íntimo de alguém requer tempo e esforço para conhecer e ser conhecido como você realmente é. E com Deus, acontece da mesma forma? Como investir em tempo de qualidade com Ele?
Um relacionamento requer três ações básicas: ter unidade, falar e ouvir. Elas são essenciais, para desenvolver tanto um relacionamento com Deus quanto com os outros. Esses requisitos nunca mudam. Não estou certa de que todos os cristãos entendem que cristianismo é um compromisso de crescer em relacionamento com Deus pelo ato de conhecer a Cristo e seguir o Seu modo de vida.

Em sua carreira como escritora e conferencista, seus temas mais trabalhados são a santidade e a dignidade do lar. Em que aspecto a intimidade com Deus pode ajudar homens e mulheres a viverem uma vida com propósito, no ponto de vista da instituição família?
Um viver altruísta. O ambiente familiar prospera quando consideramos o que é melhor para a outra pessoa. O ambiente familiar é também o maior campo de ensaio para o viver egoísta. A mistura de personalidades, fases de vida, realidades sociais e econômicas, tudo isso muda a atmosfera familiar. É importante entender que Deus nunca muda, mas nós sim. Ele é nossa fonte de força e nos capacita para ter entendimento, sensibilidade e discernimento para sempre ajustar cada membro da família à Sua vontade. Ter unidade sem perder individualidade e ter individualidade sem perder a unidade é um objetivo importante a ser alcançado em relacionamentos familiares saudáveis.

Em Romanos 7:19, Paulo escreveu: “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo”. O verso trata de uma realidade na vida de muitas pessoas: a obediência parcial.  O que significa e quais os perigos dessa conduta na busca de uma intimidade plena com Deus?
Se eu fosse descrever intimidade com uma palavra, seria proximidade. Intimidade ou proximidade de Deus não é uma corrida que você vence. Deus é infinito, e proximidade com Ele só pode ser desenvolvida. “É nova a cada manhã…”, disse o salmista.
A intimidade com Deus não nos isola quando caímos ou cometemos erros. Entretanto, Deus tem provido a forma de não sermos presos pelo erro do qual Paulo fala. Para Paulo, ele não vivia em pecado, mas admitia fazer coisas que desejava não ter feito. Deus nos liberta da culpa do pecado e das consequências de nossa desobediência nos dando uma oportunidade para admitir nossos erros.

É comum o ser humano interpretar as verdades absolutas e as orientações de Deus à sua maneira, justificando atos que representam desobediência. No contexto da racionalização, quais as consequências disso?
Lembre-se, Deus sempre tem em mente o melhor para nós. Todos os Seus estatutos e princípios são para o nosso bem. Mesmo quando o Seu povo era tão rebelde, Deus sempre provia um meio para eles retornarem a Ele. Viver em obediência simplifica nossa vida. Viver as consequências do pecado é que complica a vida. Modernizar-se a ponto de abrir concessões não vai trazer bons resultados à sua realização pessoal, nem alegria aos seus relacionamentos, nem produtividade aos seus negócios. Mas, quando colocamos Deus em primeiro lugar, a vida se torna de fato mais fácil. Menos estresse, mais paz. Menos rejeição, mais amor. Menos caos, mais ordem. Deus nos fez para prosperarmos assim.

Rebeldia e arrogância são dois fatores de risco para a intimidade plena com Deus. Como fugir de uma vida tomada por esses erros?
O principal sintoma da arrogância é a autoexaltação. A nós são dadas duas escolhas: nos humilharmos ou sermos humilhados por Deus. Eu escolho a primeira. É mais fácil. Como a Bíblia é prática! Quando for se sentar numa sala, não busque os melhores lugares. Encontre um lugar nos fundos. Não socialize apenas com os abastados, mas escolha conhecer os pobres também. Humildade, submissão, entrega, sacrifício e serviço são alguns atributos da vida guiada pelo Espírito. Essas são qualidades que escolhemos por nós mesmos. E quando virmos a cara feia do ego aparecendo, devemos dizer “não” e fazer algo concreto para diminuí-lo.

No livro, um capítulo inteiro é dedicado à expressão “yada”. O que significa? Onde encontramos sua aplicação na Bíblia e em que ponto ela infere em nossa vida?
“Yada” é a palavra hebraica para “conhecer”. É usada em Gênesis 4:1: “E Adão conheceu a Eva e Eva concebeu”. Eu fui primeiramente impactada por essa palavra em Oseias 6:12-16: “Prossigamos em conhecer (yada) ao Senhor, a Sua saída é como a manhã e Ele virá a nós como a chuva serôdia molhando a terra”. Foi essa passagem que me inspirou a criar os passos para ativar a multiplicação em nossas vidas, e aprendi daí as etapas que deveriam ser incluídas em minha vida de modo a prosseguir ao “yada” com Deus – conhecê-lO tão intimamente que minha vida será uma reprodutora de vida para os outros.

Seu trabalho, em grande parte, é voltado para a restauração da família, e a mulher tem um papel muito importante nesse processo. Atualmente, neste mundo onde a maioria das mulheres têm uma profissão que as obriga a passar muitas horas longe de casa e dos filhos, a senhora acha que a família tem ficado de lado?
Estudos provam que é melhor para uma criança ser cuidada por sua mãe do que por outra pessoa. Então, por que é tão difícil para as mulheres ficarem em casa para amar e ensinar seus filhos?  Porque é um trabalho difícil e não recompensa imediatamente. É mais fácil se afirmar trabalhando fora de casa do que fazer o trabalho de casa. O grande mal-entendido é que temos que escolher ou um ou outro, o lar ou a carreira. Não. Se uma mulher escolhe uma carreira, ela ainda tem responsabilidades em casa com seu marido e filhos.  Eles vêm primeiro. Isso requer elevar nossos valores familiares ao nível máximo em nossas prioridades, mesmo se a mulher trabalha fora de casa.

As famílias de hoje em dia, que vivem a correria do cotidiano, estão cada vez mais distantes do conceito “lar”? Como resgatar isso?
As famílias não têm ideia de que “o lar é onde o coração é formado”. Tem havido um total desligamento entre a relevância da atmosfera familiar e o coração humano. Assim, as pessoas acabarão sendo feridas, endurecidas e obstruídas pelo lar, ou se tornarão sensíveis, seguras e protegidas pelo lar. Eu tenho conscientizado sobre a importância do lar, de as pessoas comerem juntas e de se conectarem nas conversas. A tecnologia tem criado atmosferas de solidão, não de união.

Considerações finais e mensagem para os leitores da revista Comunhão.
Finalmente, a cruz tem que ser o centro de sua vida. Ser bom, positivo, não é o bastante. É impossível ser suficientemente autocapacitado para manter-se firme na vida sem Jesus. Ele ama você. Morreu pelos seus pecados. Levantou dos mortos para lhe dar vida. Creia nisso pela fé. Também saiba que você poderá trazer paz e intimidade aos seus relacionamentos se prosseguir conhecendo ao Senhor. Ele virá a você como a chuva serôdia molhando a terra (Oseias 6). Seu amor próprio não é o bastante, mas o amor de Deus é insondável. Creia que você é amado e viva sua vida de modo que as outras pessoas acreditem que elas são amadas também. Faça tudo sem reclamar ou discutir. E honre seu pai e sua mãe – perdoe-os. Eles simplesmente não sabiam. Você viverá uma vida longa, e tudo irá bem com você (Êxodo 20:12).

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