O sexo e a plenitude do casamento

A Bíblia deixa claro que o sexo deve ser um prazer saudável entre o casal, a sustentação para  a intimidade

Dentro ou fora da Igreja, sexo é um tema tabu  desde que o mundo é mundo. No país, segundo a  pesquisa Estatísticas do Registro Civil,  realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia  e Estatística (IBGE), 341,1 mil pessoas se  separaram em 2014. Uma parcela significativa desse expressivo grupo é formada por casais  cristãos, que cortam o laço conjugal na maioria  das vezes devido à insatisfação na relação sexual com seus parceiros.

Por essa razão, Comunhão, em sua missão de debater as mais diversas pautas à luz da Bíblia,  consultou especialistas para tentar elucidar as  dúvidas que pairam entre homens e mulheres sobre  um assunto tão íntimo. A falta de cumplicidade e  principalmente do prazer com o ato sexual é  responsável por destruir o casamento, uma união  que foi determinada por Deus. Muitas das vezes,  os pares sequer percebem que esse é o fato que  gera desgaste e precisa de atenção e muita  conversa para aparar as arestas até que se chegue  a um acordo sobre o que pode contentar um ao  outro “entre quatro paredes”.

As discussões em torno do sexo entre os casais são sempre referentes à frequência com que se deve praticá-lo e ao que pode ou é proibido  durante o ato. E, com isso, os muitos tabus vão tomando cada vez mais território e tornando a  convivência mais distante e sem graça. Como isso  aconteceu?  É o que explica o pastor e médico Calvino  Coutinho Fernandes em seu livro “O Cristão e o  Prazer Sexual”. “O sexo começou a ser tabu no início da era cristã, com a grande influência da  Igreja nos poderes do Estado”, ressalta.

Assim também pensa a palestrante Fabiana Bertotti, autora de “Submissa? Todos Têm um Dono”. “Se a gente levar em conta a naturalidade  com que o povo judeu falava do assunto, ou mesmo  a explicitada maneira em Cantares, é possível  notar que este não era um problema na sociedade  teocrática hebreia. Mas ao estudar mais sobre os  costumes romanos e a mistura de paganismo e cristianismo no terceiro século da nossa era,  vemos que começa a existir uma série de regras, uma vez que a luxúria dos povos pagãos não faz  sentido para a pureza sexual dos primeiros  cristãos. Dá para entender esse como o período do  surgimento desses tabus”, destaca.

A partir da época mencionada, os casais passaram  a receber o sexo como promíscuo e vulgar, que não é agradável aos olhos de Deus, que deve  ser abominado, sujeito apenas à procriação e a  atender aos desejos um do outro de vez em quando,  para cumprir um contrato social. Mas é no prazer de se unir em uma só carne que o Pai quer ver os  casamentos, e isso só é possível com conversa e  consenso.

“Sexo bom é o sexo consentido, quisto pelas duas  partes, onde um consegue conhecer o outro e está  disposto a suprir as necessidades do outro, bem  como investir na sua própria. E sem dúvida, a intimidade do casal, demostrada na cama, só é possível se ela existe com diálogos sólidos e constantes. É uma abertura de pensamento, que culmina no sexo, pois é triste ouvir de mulheres que elas nunca tiveram um orgasmo, ou de maridos que suas esposas são como bonecas infláveis de tão sem expressão. No entanto, muitos não se abrem, não dizem o que gostam ou o que não aceitam na cama. Isso cria as frustrações, os traumas e um sexo ruim”, alerta.

Mas, afinal, o que pode ser feito na intimidade do casamento e que vai atender àquilo que foi decretado quando homem e mulher foram criados, além da necessidade de procriar? Pr. Calvino afirma que é claramente abordado na Bíblia o sexo como fonte de satisfação dos cônjuges, recomendando a abstinência como mais breve possível. “São muitas passagens ricas e maravilhosas como o livro de Cantares, Provérbios 5:18 e  outras mais”, cita.

Assim também comenta o Pr. Junior Fanticelli, líder do Ministério Casados Para Sempre no Espírito Santo. A relação sexual, defende, tem que ser algo prazeroso, que necessita contemplar os dois lados, com intimidade, conversa e o amor que os uniu. “Temos ensinado aos casais que o prazer deve ser para os dois. Não devo me submeter a qualquer situação na cama que me deixe com sentimento ruim, que me deprecie ou que coloque minha honra de lado. Mas é fundamental que o casal converse sobre isso, seja aberto. Marido e mulher precisam ser diretos e sinceros um com o outro e deixar de lado protocolos e padrões. A melhor forma de abordar um assunto é abandonando nossas armas e se render a um diálogo maduro e saudável”, orienta.

Pode tudo?
Assim também são sustentados por  alguns grupos religiosos, apesar de alvos de  questionamentos. Sexos oral e anal são sempre destacados nos congressos e nos seminários realizados pelo Casados Para Sempre, principalmente pelos homens. Nesse ponto, o Pr. Junior é taxativo.

“Nós sempre nos fazemos três perguntas: Isso é de fato importante para mim? Meu cônjuge fica feliz  e concorda? Fará diferença no prazer e na  satisfação do ato sexual? Em primeiro lugar, isso  deve ser acordado entre o casal, com um diálogo maduro e respeitoso. Agora, é constrangedor ouvir  uma pessoa perguntar a seu pastor o que o cônjuge gosta na cama. Pessoal, acorde, não é? Quem tem que saber o que seu parceiro gosta é você,  conversando e entendendo as necessidades um do  outro. Para ser direto: da porta do meu quarto  para dentro, minha denominação e suas  interpretações doutrinárias não entram! Só há  lugar para o Senhor Deus, logo, não há que se  falar em proibições, mas sim em respeito, honra e  pudor. A Bíblia não é um tratado sexual, no qual  seus autores estavam preocupados em dizer isso  pode e isso não pode, é pecado ou não. Talvez o  maior problema desse tema na vida da Igreja hoje sejam líderes criando doutrinas sobre o que eles  não gostam ou não praticam. Resumindo, se eu não gosto de sexo oral, levo o  tema para a Bíblia e faço a Bíblia dar respaldo  ao que eu não aprovo”, frisa.

Mesmo assim, para o Pr. Junior, existem ressalvas importantes para os casos de sexo oral e anal que devem ser analisadas para determinar a  necessidade ou não da prática. “A ginecologia  mostra a importância do sexo oral para a plena  lubrificação e o estímulo do aparelho sexual,  principalmente da mulher. Não raro atendemos casais que a esposa não gosta mais do sexo e,  após o acompanhamento, vemos que ela sentia dores horríveis por falta de lubrificação adequada e  dada a ansiedade do esposo e, logo, a causa da falta de desejo. No caso do homem, sobretudo aos que têm ejaculação precoce, trata-se de uma ferramenta que pode ser utilizada para prolongar  a atividade sexual do casal. O sexo oral em nossa concepção não deve ser um fim em si mesmo e precisamos entender que ele deve ser utilizado, e bem utilizado, nas preliminares, gerando o mais profundo e duradouro prazer no cônjuge. Já o sexo anal, questiono-me se o homem nasce com o desejo  de fazê-lo com a mulher, ou na verdade ele é resultado de uma construção social, onde nos círculos de amizades ouviu, viu ou foi incentivado a fazê-lo. Porque até onde a história registra, essa era uma prática com fins punitivos, depreciativos, e nem sempre com concordância do outro. Além do mais, o nervo esfíncter, que controla o movimento do ânus ao longo do tempo, perde sua função, e muitas mulheres têm seríssimos problemas para reter suas  necessidades fisiológicas, a ponto de usar fralda geriátrica. Isso não me parece que traz edificação e prazer, mas não tenho pretensão de encerrar o tema, apenas no nosso caso em particular não praticamos tal ato, pois desde o  início do casamento concordamos sobre isso”, disse.

O tempero que falta
É dessa forma franca e sincera que vivem Edilene Cabral, membro da Igreja Cristã Filadélfia, e seu marido. Casada pela segunda vez, ela lembra que  quando iniciou o novo matrimônio, o esposo de imediato quis conversar sobre sexo, algo que não fazia no relacionamento anterior.

“Assim, tudo passou a fluir bem na nossa relação, e falamos muito sobre isso, sem reservas ou constrangimentos. Meus problemas com isso eram tantos que só fui ter o meu primeiro orgasmo aos 26 anos. Já era mãe. E foi com o meu marido, porque a gente se curte muito. Sempre falo para as mulheres que me perguntam como consigo ter um relacionamento sexual que satisfaz a meu marido e a mim que é preciso espantar a frigidez pensando nele e no ato sexual durante o dia. Sempre faço isso. Durante o meu trabalho, quando sinto vontade, penso nos nossos momentos de sexo, e isso aumenta meu desejo para estar na cama com ele, ter desejo de ter uma relação sexual gostosa  e saudável. Sair sozinhos também reacende o desejo. E não é só isso. Meu marido é carinhoso, atencioso, sabe como tratar uma mulher. Muitas são as vezes que na hora do almoço passo em casa, encontro com ele e damos um abraço caloroso. Começamos a falar algumas coisas no ouvido que servem de tempero para terminamos no sexo à noite. Isso é erótico, sensual e necessário para as mulheres.  “Porque homem é visual, está sempre pronto, mas nós precisamos desse aquecimento”, ensina.

Os pastores Fabrício e Cris Barcellos escreveram o livro “Homem Ferrari e Mulher Fusca”, em que abordam as diferenças entre homens e mulheres de um modo objetivo e divertido para que os casais possam usá-las como tempero para uma relação mais saborosa e saudável.

“Tudo que Deus faz é perfeito, então devemos entender dentro da plenitude do sexo as diferenças que temos entre o homem e a mulher. É perceptível que a esposa leva um tempo maior para chegar ao ápice do prazer. No corpo do marido e da esposa existem as partes erógenas, e elas devem ser usadas. Se não fosse assim, Deus não faria essas regiões, e a mulher não levaria um tempo maior para chegar ao orgasmo. A esposa tem necessidade de ser namorada, e geralmente o marido já se encontra pronto. Por isso que precisamos entender as diferenças que Deus fez entre o homem e a mulher e as ferramentas que Ele  mesmo proporcionou para gerar alegria entre o casal. A perversão sexual, a impureza e a torpeza tratadas na Bíblia, trazendo para a linguagem de hoje, seriam: relacionamentos extraconjugais (adultérios); uso de filmes pornográficos para aquecer a relação; fortalecimento do sexo grupal e bestial; trocas de casais, etc. Tudo isso para destruir toda a pureza do casamento e do relacionamento do casal. O sexo no casamento é um presente de Deus, é algo feito para o casal ter alegria e contentamento”, defende o Pr. Fabrício.

Foi por não entender os desejos da esposa, e nem mesmo por controlar os seus, que João (nome fictício) quase levou sua união conjugal à derrocada, chegando a ficar um ano e oito meses em casa separado da esposa. Nesse tempo, não havia relação sexual entre os dois, mas existiam traições (do lado dele), a partir do envolvimento com mulheres na família e com amigas. Detalhe: João e a companheira já eram evangélicos e atuantes na igreja à época. Ele lembra que a enxergava como um objeto que deveria ser usado quando e como quisesse.

A recusa o deixava irado, e assim se sentia na razão para buscar outras mulheres que satisfizessem o que não conseguia encontrar em  casa: sexo com prazer. “O instinto de homem, macho, me fazia buscar na rua. No decorrer dos dias houve crise conjugal. Eu e minha esposa casamos muito novos, até que na insistência da prática sexual como eu queria ela  abriu as pernas e me disse: ‘Quer me estuprar?  Então faça, porque não sinto mais nada por você’. Aquilo foi como uma pedrada em mim, mas também foi como descobri que precisávamos de tratamento. Fui orando, pedindo a Deus que resgatasse o nosso casamento e nos curasse. Tudo foi mudando. Eu e ela percebemos e amadurecemos a ponto de compreender que até mesmo um lençol e um  travesseiro limpo, um perfume na cama, fazem diferença. Descobri que eu não a tratava como uma herdeira de Deus, mas como objeto sexual. Hoje, na cama, aprendi a amar aquilo que eu tinha como carne. E posso falar? O sexo está muito melhor do que quando eu corria como louco atrás de quantidade,  e não de qualidade”, garante.

Por fim, o pastor e médico Calvino Fernandes acrescenta algo para as mulheres que apresentam frigidez. “Isso é resultado muitas vezes de uma educação repressora que confunde desejo e prazer com pecado. Quando falo de educação, incluo aí o componente “exemplo dos pais”, pois nós educamos mais pelo nosso comportamento relacional do que pelo nosso discurso. Relacionamentos conjugais que usam sexo como modo de manipular ou como  moeda de troca também podem levar à diminuição do desejo. Raiva, rancor, ódio, dores na relação são capazes de desaguar na monotonia, no sexo mecânico e no baixo desejo. Explorações sexuais também podem deixar feridas. Para superar todas essas mazelas humanas, os casais precisam cuidar todos os dias da sua relação conjugal com um diálogo aberto, constante, que pode levar a uma intimidade real. A verdadeira intimidade é constantemente regada por um namoro frequente, que vai manter a chama da paixão acesa por toda a vida. Afinal, sexo/sexualidade é um prazer dado por Deus”, finaliza.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.
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