O sentido da Páscoa

Nem coelhinho nem chocolate. Há um sentido maior, um significado único em se comemorar a Páscoa. É a vitória da libertação sobre a escravidão, do perdão sobre o pecado, da vida sobre a morte!

É só passar o carnaval que as propagandas de ovos de chocolate começam a invadir os intervalos das programações de TVs. As grandes marcas de que oferecem o produto se reinventam a cada ano para criar sabores, recheios e embalagens a fim de atrair o público consumidor. Afinal, é Páscoa! E quem resiste a essa delícia à base de cacau, açúcar e muito marketing?

Assim como o Natal, a Páscoa também virou, principalmente no Ocidente, uma tradição mercadológica. Na atual crise, gerou até uma oportunidade para que muitos tenham renda extra, com ovos caseiros, trufas e bombons tentadores. E não há nada de mau nisso. Porém, a ocasião representa bem mais que um trabalho temporário ou a entrega aos prazeres gastronômicos. É libertação, morte e vida para quem crê em Cristo Jesus. É uma linda história de amor entre Deus e Seu povo, que começou por volta de 1445 a.C, no Egito, e teve seu ápice na morte e na ressurreição de Jesus, em Jerusalém.

Libertação
Depois dos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó passarem mais de 400 anos em escravidão no Egito, o Senhor ouviu o clamor dos hebreus e resolveu libertá-los. Moisés foi incumbido da missão e por muitas vezes alertou o faraó para que libertasse a sua gente. Mas o mandatário, mesmo já tendo visto nove pragas, permaneceu irredutível. Até que Deus enviou a 10ª e última: a morte dos primogênitos.

Tendo em vista que a derradeira mazela chegaria ao mesmo lugar onde estavam os egípcios e os seus ecravos, a ordem divina foi para que cada família hebreia tomasse um cordeiro macho, de um ano de idade e sem defeito, e o sacrificasse. Eles iriam se alimentar da carne do animal, mas o sangue teria outra finalidade.

“Páscoa significa passar por cima. Foi, no Antigo Testamento, o momento em que Deus liberta Seu povo do Egito. Eles mataram um cordeiro, aspergiram o sangue nos umbrais das portas, e quando o anjo da morte passou, os hebreus receberam o livramento. A morte não entrou nas casas marcadas. Logo depois saíram do Egito. Isso se tornou uma tradição a ser relembrada para sempre”, explicou o pastor batista e professor de Teologia Kenner Terra. A partir daquele momento na história, o povo de Deus iria celebrar a Páscoa ano após ano, a cada primavera (no Oriente Médio), obedecendo às instruções, reunindo a família para comer o cordeiro, com pães sem fermento e ervas amargas, narrando a história do êxodo, a saída milagrosa do Egito, como um estatuto perpétuo (Ex 12:14).

“É um memorial para que Israel jamais esquecesse que Deus os havia libertado do cativeiro e cumpriria Sua palavra de dar uma terra que mana leite e mel. A Páscoa faz parte da identidade de Israel como povo e de toda a vida da nação. Até em nossos dias ela ainda é celebrada da mesma maneira que Deus ordenou a Moisés e conforme está registrado na Bíblia”, disse o pastor José Ernesto Conti, da Igreja Presbiteriana Água Viva.

A história, porém, não parou no Antigo Testamento. Algo muito mais poderoso estaria por vir. O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, seria entregue como sacrifício na missão do Pai de resgatar Seu povo de outra escravidão: a do pecado e da morte. “O simbolismo da Páscoa é a mensagem para o Novo Testamento, e toda a obra da cruz se baseia no evento da Páscoa judaica. Jesus não apenas é morto na Páscoa, mas também simboliza o próprio Cordeiro pascal (I Corintios 5:8), que tira o homem do cativeiro do pecado e lhe devolve a única oportunidade de retornar ao paraíso, sua salvação. Diferente do judeu, que celebrava um acontecimento que havia ficado no passado, hoje a Igreja festeja aquilo que ocorrerá no futuro, ou seja, o dia em que cearemos novamente com Cristo, em nossa chegada à eternidade”, ressalta Conti.

Significado
Para o pastor Kenner, a Páscoa foi desconfigurada em seu sentido. “Deveria ser vista pelos cristãos como o ‘não’ de Deus para qualquer tipo de sistema que gera a violência e a morte. A ressurreição de Jesus é Deus dizendo para as forças do caos: ‘Eu sou o Deus da ressurreição e da vida.’ A morte de Jesus é o símbolo da violência, do martírio causado por um sistema desorientado, corrompido. Jesus morreu e ressuscitou para nos salvar, mas é a salvação do quê? Só da alma? Não é só isso, mas nos salva de todo e qualquer sistema pecaminoso, de toda e qualquer estrutura que negue a vida, que a desumaniza. E isso deveria levar os cristãos a se posicionar, denunciando e anunciando. Denunciando o quê? Esse sistema de racismo, homofobia, pobreza, corrupção, violência contra a mulher. Quantas mulheres precisam da Páscoa? A Páscoa é o ‘sim’ de Deus para a justiça”, afirmou.

Para o pastor Kenner, a sociedade seria diferente, e os cristãos fariam bastante diferença se entendessem a ocasião num sentido mais amplo e social. “Não é uma abordagem nova, o problema é que nós temos um posicionamento teológico muito conservador. Imagine um grupo de pessoas que entende a Páscoa a partir dessa perspectiva, o perigo que isso seria para os sistemas corruptos? A Páscoa ainda não é compreendida de maneira como deveria ser. É inaceitável termos tamanha porcentagem de crentes no Estado e ainda assim sermos o segundo que mais mata mulher”, desabafou.

Começa em casa
Se não há um entendimento correto, esse ensinamento precisa começar em casa, com a família, a partir da ministração dos pais. E é isso que tem feito a missionária Kátia Zwahlen. Mãe de duas crianças – João, 4 anos, e Lílian, 1 ano e 10 meses – ela e o esposo, Markus Zwahlen, não deixam de contar a elas a história da Páscoa. “Eu só preciso ensinar o certo. Falo de Jesus, sobre o verdadeiro sentido da Páscoa, e o João já sabe que Páscoa é Jesus que morreu e ressuscitou. E não só contamos para ele, mas também para todas as crianças do projeto social que trabalhávamos. Fazíamos ceia com as crianças, com leite e biscoito, para que elas entendessem. A ceia traz a lembrança de que Jesus se entregou por nós, e esse ato tornou possível o relacionamento direto com Ele.”

Questionado sobre o que achou dos ensinamentos sobre a Páscoa, João respondeu: “Eu achei bom porque achava que a alegria tinha fim, mas Jesus morreu e ressuscitou!”. Para Kátia, a resposta é a confirmação de que quanto mais cedo se instruir os pequenos sobre a verdade, menos interferência haverá dos padrões do mundo. “Eles só serão influenciados pela mídia ou por outras crianças se em casa não ouvirem a verdade”, frisou.

Já para o pastor Conti, a maior verdade que a Páscoa pode ensinar para a Igreja é que há esperança. “A Igreja vive em um mundo hostil e desafiador. O cristão é desafiado todos os dias a manter-se íntegro e incontaminado das coisas do mundo, assim como a Igreja deve ser sal e luz no meio das trevas. As dificuldades em atingir essas duas metas tem deixado muitos de nós, cristãos, desanimados e até desiludidos se alcançaremos aquilo que Deus nos prometeu. Como o povo de Israel, a Igreja de hoje está atravessando seu ‘deserto’, e muitas ocasiões, em vez de pensar em seu destino (céu), semelhantemente a Israel, continua murmurando, lembrando as ‘cebolas do Egito’, fazendo e adorando outros deuses. Mas Deus continua a derramar em nosso coração a esperança de que chegaremos um dia à nossa terra prometida. Celebrar a Páscoa é injetar esperança no povo de Deus.”

E, embora haja um calendário fixo para a comemoração – neste ano cai em março –, que essa celebração de morte ao pecado e vida em Cristo seja feita a cada dia, em cada circunstância, para cada desafio no meio da Igreja que pertence ao Cordeiro.

A matéria acima é uma republicação da Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

 

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