O que Deus quer de mim?

Todos nós temos um chamado de Deus, uma missão. Como saber o que Ele separou, como tarefa para você em Sua obra?

Uma das decisões mais importantes da vida do cristão é o seu chamado. Entender o que Deus quer que façamos e como ser útil no Seu Reino é uma questão que passou pela mente de todos nós pelo menos uma vez na vida e que para muitos se perpetua por muitos anos. Assim como a escolha profissional, da carreira a seguir, a compreensão da ordem divina em relação à vocação pode se tornar uma das tarefas mais árduas e difíceis da nossa jornada. Porém, quando identificada e obedecida, o resultado pode ser surpreendente.

Muitos homens e mulheres da Bíblia marcaram a história do povo de Deus quando responderam sim à Sua voz. Moisés foi despertado para tirar sua nação da escravidão do Egito; Josué, para liderar o povo de Israel em direção à terra prometida; Jonas, para pregar em Nínive, um lugar estranho às alianças de Deus; os 12 apóstolos, para estarem ao lado de Jesus e serem os primeiros fundadores de sua Igreja; João Batista, para converter os filhos de Israel mostrando quem era o verdadeiro Messias; e Paulo, para ser apóstolo aos gentios e sofrer pelo nome de Cristo.  A ação desses personagens é inquestionável e provoca, no mínimo, uma reflexão a respeito da obediência e da utilidade dos cristãos da Igreja contemporânea.

Assim como essas figuras bíblicas de peso, todos têm um chamado para servir onde está ou em outro local; com a sua profissão ou em outra atividade; em ministérios comuns ou diversos. Mas o que fazer quando não se sabe sequer por onde começar? O que Deus quer de mim? Como fazer uma escolha acertada do serviço a ser executado? Como me colocar à disposição para o meu chamado? Que pistas podemos seguir para ter certeza do chamado que recebemos?

“Atender o chamado de Deus é basicamente mudança de atitude, tanto no serivr à sua igreja, quanto no trato secular” – Irisângela Gambardela Nunes Teixeira, médica

O primeiro passo é entender que todos os crentes são chamados e que não há distinção entre quem serve na limpeza, na recepção, no ensino, na música da igreja ou em uma atividade evangelística fora do seu país. Não diferença entre um e outro quando o assunto é a convocação de Deus para servir ao próximo, à igreja, à família, a sociedade, à nação.

O pastor batista Édson Klitzke, de Vila Velha (ES), explica que em Mateus 28:19-20, encontramos um chamado para fazermos discípulos do Senhor em todas as nações e “essa missão é para todos os crentes em Jesus, independentemente de sua idade ou tempo de conversão”, diz. Antes de subir aos céus, Jesus designa que todos deverão ser testemunhas dEle em todos os lugares até os confins da terra (At 1.8). Além disso, somos todos chamados para servir “porque somos criação de Deus para fazermos boas obras” (Ef 2:10).

Nesse contexto, o chamado não depende da profissão ou do talento, mas da disponibilidade de trabalhar em qualquer local. Porém, alguns cristãos acreditam que só podem servir a Deus pregando (verbalmente) o Evangelho. A expressão “ganhar almas para Jesus” não pode ser usada para frustrar aqueles que não têm o dom de pregar. Zaqueu era cobrador de impostos e não mudou de profissão após o encontro com o Messias, mas passou a servi-lO onde estava e com o que sabia fazer.

É por isso que o Pr. José Ernesto Conti, de Vitória (ES), explica que, mais importante do que o tipo de chamado recebido, é atender a essa convocação para ser testemunha de Cristo naquilo que se sabe fazer. “Cometemos o erro de achar que pregar, fazer milagres ou falar em línguas é algo muito mais nobre do que visitar enfermos ou subir o morro para distribuir folhetos. Todo salvo é chamado para ser testemunha, não é opção, é obediência. Qualquer coisa a ser feita na obra de Deus precisa ser realizada com alegria e prazer, e não como um peso ou aflição”, ressalta.

O Pr. Levi Araújo, de São Paulo, defende que o segundo passo é assimilar que é possível ser útil no Reino desempenhando atividades cotidianas, numa atitude de obediência ao chamado, pois para o cristão não há separação entre tarefas secular e espiritual. “Somos todos discípulos de Jesus de Nazaré ‘disfarçados’ em todo tipo de profissão.”

O chamado verdadeiro
Uma boa maneira de aguçar a percepção do chamado é cumpri-lo inicialmente onde estamos e com o que possuímos em mãos,a exemplo do menino que tinha apenas cinco pães e dois peixes que foram multiplicados por Jesus para matar a fome de uma multidão. Sendo fiel no pouco e com o que se sabe fazer é a dica até se descobrir a perspectiva única e maior da vocação, como foi na história de José do Egito, que obedeceu onde estava até que chegou a governar outro país. Essa experiência nos leva a concluir que, se Deus o chamou para ser um missionário transcultural, é preciso antes ser um missionário obediente no seu local de trabalho, na igreja local, e entre as pessoas que conhece no bairro onde reside.

O Pr. Édson Klitzke ensina que “a resposta a respeito de um chamado não surgirá só na ida para uma outra cidade, estado ou nação, pois isso já deverá estar no coração do cristão e onde ele estiver”. “Existem pessoas que só se veem fazendo a vontade de Deus longe de suas realidades hoje e, com o tempo, percebem que estavam enganadas. Uma questão que nos chama atenção é que o chamado específico e individual vem de forma direta e inquietante ao coração, até que se cumpra.”

O chamado pode acontecer durante uma experiência sobrenatural (teofania) com a Palavra de Deus; em um momento devocional ou numa ministração; num ambiente secular de trabalho ou lazer; num culto a sós ou numa celebração em que o Senhor o convoque para essa obra, não tendo dúvidas de que falou à sua vida, pois os sinais se tornam cada dia mais claros e contundentes ao inundarem a alma, o coração e a mente, propiciando plenitude de paz. “A sensibilização à voz do Senhor vem sempre como uma resposta a uma necessidade do tamanho do nosso envio, conforme a resposta de Isaías: ‘Eis-me aqui, envia-me a mim’’’, frisa o pastor.

Em outras palavras, o profeta disse: “Sou o que o Senhor pode contar neste momento, diante desta circunstância que o povo está vivendo. Eu sou esta pessoa que o Senhor convoca”. Essa experiência de chamamento aconteceu há pelo menos 700 anos antes de Cristo, mas continua valendo para os cristãos de hoje que entendem ter um chamado que desejam descobrir e obedecer.

Levi Araújo dá uma dica fundamental para quem quer descobrir seu chamado e como ser útil para a igreja e a sociedade. Afirma que o Espírito Santo testifica que somos filhos de Deus e que por Ele fomos chamados. “Essa confirmação do Espírito acontece por meio de Cristo e do Seu Corpo, que é a Igreja. Mas na maioria das vezes só descobrimos o nosso chamado específico no processo do dia a dia e na vida como ela é. Os nossos dons espirituais estão diretamente ligados ao chamado pessoal. Eles se misturam.

“Somos todos discípulos de Jesus de Nazaré disfarçados em todo tipo de profissão” – Levi Araújo, pastor da igreja Batista

Se você souber qual o seu talento e dom, saberá também como pode servir e ser útil porque fará isso com o que conhece e o que tem de melhor, dado por Deus. Seria incoerente e absurdo se não estivessem ligados. Deus já pensou nessa ligação óbvia”, ensina.

A vocação sempre antecede o chamado e todas as vezes se torna muito clara para a própria pessoa, família, Igreja e amigos. Ou seja, quem está ao nosso redor vai perceber a vocação e o chamado que temos, constituindo-se assim um sinal de confirmação da designação dada por Deus. Em resumo, a vocação é o conjunto de estruturas humanas e espirituais denominadas de talentos e dons.

Podemos entender que o chamado é coletivo, para todos que compõem a Igreja do Senhor Jesus em todos os cantos da terra. Mas é também específico e individual. Em Atos 13:1-4 está registrado um chamado específico e designado no campo pessoal, neste caso a Paulo e Barnabé. Da mesma forma, vemos um chamado individual a Abraão (Gn 12: 1-2), Moisés (Êx 3:1-12) e Josué (Js 1:1-9), entre outros. E alguns chamados são diretos, individuais e intransferíveis, como o do profeta Jonas (Jn 1.1-3; 3.1-4).

O Pr. Édson Klitzke explica que no chamamento individual, existe uma designação direta para a pessoa vocacionada exercer como e onde Deus desejar. “Para isso existem chamados pastorais, missionários, educacionais, sociais, multiculturais, etc.” No chamado coletivo cada um contribui com os seus dons (Rm 12.6-8; I Co 12.1-11) e também para executar uma proposta específica do chamado divino para a Igreja.

Chamados e acomodados
As igrejas possuem muitos membros vocacionados e chamados com dificuldades para dizer sim por causa dos interesses pessoais. Muitos deles querem fazer a vontade de Deus, mas no tempo que acham conveniente. Desejam usar os dons, mas do jeito e da forma que querem e onde decidirem que valha a pena. Querem ajudar a Igreja local, os pastores e os campos missionários, mas sem a responsabilidade e fidelidade necessárias. Por que isso acontece? Seria desobediência? Falta de entendimento ou comodismo?

Na visão do Pr. Levi Araújo, as igrejas carecem de mão de obra por razões que vão além do comodismo. “Tem a ver com a ignorância e com a confusão que fazemos sobre o papel da Igreja como o principal agente do Reino de Deus e a integralidade da sua Missão e da atuação na história no contexto onde vivem.” O pastor sugere uma reflexão sobre a Igreja que Deus quer. Para isso, indica leitura e estudo do livro “A Comunidade do Rei”, de Howard Snider, para que essa confusão seja desfeita.

Se a pessoa tem uma vocação e apresenta um chamado, para que ela seja útil precisa antes ser generosa e sensível ao outro, inicialmente em sua comunidade cristã de base para depois ganhar o mundo. Precisa ser orientada e acompanhada por sua igreja e seu pastor.
Klitzke afirma ser muito arriscado ter pessoas dizendo que tiveram uma experiência com Deus “na semana” e se viram sendo convocadas para ainda “este mês”  irem para o seminário ou para algum campo missionário. Essas pessoas normalmente tentam mudar o mundo e não permitem se modificar. Com o tempo, é certo que haverá frustrações, decepções e esfriamentos espirituais.

O Pr. José Conti afirma que cabe à igreja ensinar e preparar seus membros para atenderem ao chamado. “Boa parte da culpa por existir muitos cristãos que não obedecem ao seu chamado está nas igrejas e nas lideranças que não pregam e ensinam essa ordem. Infelizmente muitos exaltam a conquista da vitória, a busca da bênção, da unção, do milagre, ou pregam sermões meramente existenciais. O papel do cristão é carregar todos os dias sua cruz, é ter compromisso com a verdade de Cristo. Mas isso muitas vezes não é pregado ou ensinado. Todos estamos neste ‘barco’ e não podemos, à semelhança de Jonas, decidir dormir no porão quando há uma tempestade lá fora”, adverte o Pr. José Conti.

A missionária e enfermeira obstetra Marineide Mendes Bastos, aos 11 anos de idade, em Goiás, teve clareza do seu chamado quando participava de um grupo de meninas (Mensageiras do Rei). “O Espírito Santo tocou-me e pude com clareza receber a missão de ser enfermeira e missionária. Meu campo de atuação foi em hospitais, igrejas e outros projetos. Deixei uma clínica (PA) que coordenava e fui atuar no CAS (Centro de Atendimento Social) da igreja. Estou em processo de conclusão do curso de Psicologia porque ao trabalhar com pessoas envolvidas com substâncias psicoativas e também acompanhamento de familiares desgastados, Deus ampliou a minha visão de Reino e percepção do sofrimento humano. Atualmente, sirvo como missionária da Sepal (Servindo aos Pastores e Líderes) do lado do meu esposo. Acompanhamos pastores e líderes no pastoreio mútuo e estou envolvida com mentoria de mulheres e palestras em congressos e outros eventos”, conta a missionária.

Um bom exemplo de quem atendeu ao chamado de Deus e usa a profissão para servir é o da médica Irisângela Gambardela Nunes Teixeira, da Igreja Betânia, Vila Velha (ES). “O meu chamado é o do serviço para aqueles que necessitam das habilidades e dos dons dados a mim por Deus; quando trato com carinho e amor as pessoas que me procuram em meu consultório e nos demais locais onde me relaciono profissionalmente.  Atender o chamado de Deus é basicamente mudança de atitude, tanto no servir à sua Igreja, quanto no trato secular.”
Deus sempre surpreende a quem obedece ao seu chamado. Exemplo prático foi o do discípulo Pedro e seus amigos (Lc 5:9-11), que ficaram perplexos com o resultado da pesca. A obediência deles lhes rendeu muito mais do que uma pesca extraordinária. Jesus chama Pedro para uma nova missão: “De agora em diante você será pescador de homens (Lc 5:10)”. Ele e os outros deixaram tudo e O seguiram.

Na Bíblia encontramos pessoas que foram surpreendidas após decidirem servir a Deus onde estavam, como a menina serva de Naamã, curado da lepra; o garoto dono dos pães e peixes que Jesus multiplicou; ou a família Lázaro, Marta e Maria, que hospedavam Jesus em sua casa e presenciaram milagres.

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