O Preço do chamado

*Fabiana Tostes

Deus é missionário. E Ele tem chamado Seus filhos para seguir Seus passos. Seremos a geração que responderá a esse chamado?

“Que o Cordeiro, que foi imolado, receba a recompensa do Seu sacrifício.” Foi com essas palavras que dois jovens cristãos, de apenas 20 anos, do movimento dos Irmãos Morávios se despediram de suas famílias ao embarcar num navio para a obra missionária, em meados do século 18. Ao descobrirem que havia uma ilha ao leste da Índia com dois mil escravos africanos que iriam morrer sem nunca terem ouvido falar de Cristo, a dupla não teve dúvida: tomou a decisão de ir até eles.

A ilha pertencia a um britânico, ateu, que ao ser procurado pelos dois jovens não permitiu que eles fossem como missionários pregar a esse povo sofrido. Então, os dois moravianos se venderam como escravos, pagaram a viagem com o valor “do negócio”, para viverem na ilha até a morte, nessa condição de cativos, apenas pela oportunidade de poder pregar aos africanos. Nunca mais eles veriam suas famílias. Mas o chamado do Cordeiro foi mais forte e por este estavam dispostos a entregar a própria vida.

Não há como conceber missões sem se tratar de renúncia, de abnegação, de um preço a ser pago. São histórias de pessoas comuns, e na maioria das vezes anônimas como esses dois moços crentes da Igreja de Morávia, que impactaram comunidades e o mundo por meio da obediência de seguir o “ide” de Jesus. Pessoas que se entregaram como sacrifício vivo, desbravando florestas habitadas por tribos canibais, cuidando de feridos em zonas de guerras e conflitos, indivíduos que se arriscam em áreas insalubres e tomadas por epidemias. São aqueles que sobem os morros e favelas ao som de tiroteios e que muitas vezes não descem. São os que abrem mão da família, da vida pessoal, do país, da cultura, da língua, do costume, porque entendem que há uma missão a ser cumprida. São os que se lembram dos esquecidos, como no exemplo de Jesus.

Exemplo do céu
A vinda, a vida e o sacrifício de Cristo são a personificação da evangelização em campo: aquele que deixa seu lar e se entrega por amor a um povo. E o Messias é tido como exemplo do maior missionário que já existiu, segundo as palavras do apóstolo Paulo: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens”. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Filipenses 2: 5-8).

E além de mostrar com sua própria vida, Jesus ensinou sobre o que estava em jogo ao decidir servi-lO: ter uma vida de renúncia e abnegação. E Ele falava isso em Seus sermões e para o pequeno grupo de discípulos. Palavras como: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24) ou “Se alguém vem a mim e ama seu o pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo. Da mesma forma, qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lucas 14: 26-27, 33).

Jesus também não escondeu de Seus discípulos que tempos difíceis estavam por vir, com perseguições e sentenças de morte aos Seus fiéis: “Então eles os entregarão para serem perseguidos e condenados à morte, e vocês serão odiados por todas as nações por minha causa” (Mateus 24:9).

Embora não sejam ouvidos em muitas igrejas hoje, esses discursos continuam sendo o requisito para aqueles dispostos a servir ao Filho de Deus. E talvez sejam esses fatores – abnegação e perseguição – a razão de a conta nunca fechar e registrar um número de missionários absurdamente pequeno para a demanda global. “O contingente é insuficiente, principalmente quando comparamos com a quantidade de cristãos no país. Nosso envio é muito aquém”, disse o secretário de missões da Igreja Assembleia de Deus do Aribiri, em Vila Velha, Jaciel Ferreira Leite. Segundo cálculos do IBGE, referentes a 2014, os evangélicos são 25% da população brasileira, ou seja mais de 51 milhões de pessoas.

Para Jaciel, que se prepara para estar também à disposição da obra, o que afasta muitos a dizerem sim ao chamado é a questão da abnegação. “Missão é renúncia, e muitos não querem deixar a zona de conforto, tudo aquilo que projetaram de carreira para aceitarem o ‘ide’ do Senhor. Poucos têm disposição para largar tudo.”

Dados da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) indicam que a Igreja nacional envia um missionário para cada grupo de 6.500 evangélicos (esses números são de uma pesquisa feita há 10 anos. Um novo levantamento está sendo preparado). Tal desempenho é baixo se comparado a outros países – Mongólia, por exemplo, tem um evangelista com esse perfil para cada grupo de 222 cristãos; Canadá, um para cada 696; Coreia do Sul, um para cada 918. Em 2012, a instituição realizou um estudo com 40 líderes representantes de diversas organizações evangélicas (como Comibam, Sepal, Movimento de Lausanne) sobre as principais razões que impedem a Igreja brasileira de enviar missionários transculturais.

Entre algumas causas listadas, estão: a teoria da prosperidade; falta de disposição para o sofrimento, como resultado de uma teologia equivocada; o fato de missões ter se tornado um departamento, e não a razão de ser da igreja; o “jeitinho brasileiro” afetando a teologia (“no final Deus dará um jeito, não precisamos nos preocupar”); igrejas materialistas; secularização das congregações, ausência de unidade entre as denominações; movimento de megaigrejas, que gastam boa parte dos recursos e da energia para manter a própria estrutura; a relação custo x benefício (a clássica questão: o que a igreja local ganha com isso?); carência na formação de missionários; desinformação sobre o que está acontecendo com os missionários no mundo; e o envelhecimento das lideranças de missões no Brasil, que não souberam passar o bastão.

“Paulo já temia que a Igreja se afastasse da simplicidade do ensinamento de Cristo para dar lugar às fábulas. Muitas têm se afastado da essência, de levar o Evangelho que transforma o caráter, a pessoa, e não somente a situação financeira. A mensagem de Cristo não é vir para receber. É vir para se entregar. Só que essa mensagem confronta, e muitos estão atrás de massagens no ego, de ter atendidas suas necessidades, principalmente com essa crise financeira”, explicou Jaciel.

Ele contou que sua igreja mantém outras congregações, com missionários espalhados pelo Brasil e pelo mundo. “Nós temos um missionário na Venezuela, um trabalho de apoio no Haiti, dois missionários no sertão do Piauí, três no norte de Minas, uma no sertão da Bahia. A igreja define o campo com base nos pedidos de socorro que chegam Ainda não sei para onde vou, mas estou à disposição para ir.”

Desafio é a palavra
Aos 18 anos, quando escolhia o caminho que iria traçar para começar sua vida adulta, a missionária Aline Dias, 31, tomou sua decisão. Após orar e pesquisar com a mãe, veio a determinação para se matricular num curso de missões a fim de seguir a carreira nesse campo. Viajou por muitos lugares no Brasil e no mundo. Casou na missão e hoje, com duas filhas, está na África do Sul, aprendendo a língua inglesa e atuando no evangelismo em comunidades carentes. Questionada sobre o que teve de abrir mão para abraçar o chamado, Aline minimiza: “Se eu olhar para as coisas que deixei de fazer ou de terminar ou todos os planos e sonhos de uma jovem de 18 anos que ficaram para trás, eles são muito pequenos se comparados a toda a bagagem e tudo que Deus tem me proporcionado. Não falo de coisas materiais, mas sim daquilo que é eterno, e disso sim eu não abriria mão por nada.”.

Se ser solteiro em missões é difícil, ter uma família, e com crianças pequenas, também não é nada fácil, ainda mais morando em outro continente, com outro idioma e outra cultura. “Desafio é a palavra! Não é nada fácil, mas o que nos motiva e nos mantêm a continuar são o Senhor e a nossa fé. Nunca me arrependi da minha decisão, mas sinceramente já pensamos em desistir. Já tivemos momentos de muitas dificuldades que nos levaram a pensar em desistir, mas a Palavra do Senhor, que é fiel, nos impulsionou a continuar, porque Aquele que começou a boa obra é fiel pra completá-la (Filipenses 1:6).”

Integrante da Jovens com uma Missão (Jocum) Charlene Sirqueira, 28, teve seu primeiro contato com esse engajamento aos 13 anos. “Fui convidada para participar do grupo de discipulado da Jocum. Eu ia à igreja, mas chegava lá, ouvia as histórias e ia para a casa. Mas os missionários começaram a me falar sobre meditar na Palavra de Deus, que o próprio Deus poderia falar comigo. Aquilo era novo para mim. Ganhei um caderninho para escrever meus devocionais. Saíamos para fazer evangelismo e aí, um ano depois, eu já era voluntária e ajudava a outros nesse mesmo projeto. Muitos estrangeiros vinham para a base missionária para ajudar na comunidade, e isso foi gerando no meu coração uma vontade muito grande de fazer parte”, lembrou.

Aos 20 anos, ela resolveu fazer o curso de missões e de lá para cá não parou mais. Já esteve na África do Sul, no Chile, no Equador, em Portugal e na Itália. “Já fui ensinar a Bíblia na floresta equatoriana, em lugares que não havia nem estrada para se chegar. Ensinamos aos indígenas, aprendi espanhol para falar com eles”, conta a jovem, que hoje é diretora do Projeto Gileade, onde ensina a Bíblia para 32 crianças e 15 adolescentes da comunidade de Flexal 2, em Cariacica. Ela também é membro da Igreja Batista de Jardim Camburi, em Vitória.

Compromisso
O comprometimento da igreja local nessa frente é de fundamental importância para a carreira dos que se propõem levar a Palavra. Não faltam relatos de missionários que são abandonados (espiritual e financeiramente) pela membresia e acabam desistindo do chamado, voltando feridos e incompreendidos e, muitos, frustrados com o próprio Deus. Infelizmente, ainda em algumas denominações esse “pescador de almas” não é prioridade. Assim, é o primeiro da lista a ver o sustento cortado quando a igreja precisa economizar e conter gastos.

“Missões são um chamado para todos! Uns precisam ir a lugares que alguns não podem ir e que o povo está morrendo por não conhecer a Cristo Jesus. Outros necessitam ficar e fazer Cristo conhecido em sua área de atuação. Mas aqueles que decidem ir não podem ficar sem a cobertura e o apoio daqueles que ficam; então somos como um corpo que juntos trabalhamos no mesmo objetivo”, disse Aline Dias.

Na Convenção Batista do Estado do Espírito Santo, há uma coordenação para evangelismo e missões que conta com 36 convênios, cada um com sua própria família pastoral, espalhados pelo território capixaba. Há grupos pregando o Evangelho entre os pomeranos e em meio aos índigenas. Para mantê-los no campo, o Programa de Adoção Missionária (PAM) levanta o sustento e faz campanha entre as igrejas. “Batemos a meta (financeira) que estabelecemos para missões. As igrejas têm aprendido sobre a visão de Reino de Deus. E não é só adotar financeiramente, mas também visitar os missionários, orar por eles, escrever e dar o apoio necessário. A obra no campo missionário é feita com perseverança, mas sabemos que quando Deus vocaciona para um trabalho específico, Ele vai suprir em todas as coisas”, comunicou a instituição batista.

No âmbito nacional, a denominação tem, segundo o gerente executivo de comunicação e mobilização missionária, pastor Jeremias Nunes, 673 missionários atuando no país. Destes, 491 estão envolvidos em 437 projetos de implantação de igreja. “Os demais estão envolvidos em projetos como Cristolândias, trabalho com indígenas, crianças”, disse o pastor.

Um número expressivo se comparado a outras agências missionárias, mas apenas um pingo em se tratando do tamanho do Brasil. “O desafio do chamado missionário é o mesmo de sempre, a seara é grande e poucos são os ceifeiros, já dizia Jesus em sua época. Temos 137 tribos indígenas no Brasil sem presença missionária. Tem as comunidades ribeirinhas também, mas nos faltam obreiros qualificados, pessoas vocacionadas que se apresentem para ir.”

Sim, há um preço a ser arcado. Mas não tão caro quanto aquele que já foi pago por cada habitante desta terra. “Nenhum preço é tão alto quando se entende o privilégio de fazer parte da Grande Comissão. Só é sacrifício, dolorido, quando a pessoa não tem a visão correta. Para mim, não faz sentido viver sem isso. Teria uma vida medíocre se não tivesse tomado essa decisão, pois viver bem é viver o propósito de Deus na sua vida”, relata a missionária Charlene.

 

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A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.