O mau que é bonzinho

Palmas para a Globo. Eles conseguem fazer as coisas de tal forma que todo final de novela é esse frisson nacional!! Se a novela acabasse no domingo, teríamos que mudar o horário do culto, pois é possível que as igrejas ficassem vazias. Não sou de acompanhar novela.

Primeiro porque não gosto. Percebo que a novela “emburrece” as pessoas. Quanto mais vemos novela, mais nos tornamos incapazes de pensar ou agir com sabedoria. Alguém já disse que novela é subcultura, pois uma cena que poderia ser descrita em poucos minutos e todo mundo entenderia com muita facilidade, é espichada em muitas e muitas horas, semanas, meses… Das duas, uma: ou eles acham que o público é burro e tem que falar bem devagar para entendermos, ou ficam nos enrolando mesmo. Segundo porque não tenho tempo para perder.

Temos coisas mais importantes na vida. Por isso ver novelas é algo meio nojento misturado com fedorento.  Mas por pior que seja, lá no fundo (bem no fundo mesmo) há sempre algo que merece um pouco de nossa atenção. E nessa novela que acabou não foi a questão homossexual nem o bloco evangélico que me assustou. O que me assustou foi ver que o “bandido” não é mais bandido, nem o “mocinho (ou mocinha)” não é mais o bonzinho. Antigamente toda história tinha sempre dois lados bem definidos: os bons e os maus. Você assistia a uma novela e sabia desde o princípio quem eram os “bons” e os “maus” e geralmente torcíamos para que os bons vencessem no final. Mas hoje isso acabou.

Os bons podem ser maus e os maus de vez enquanto são bons, de tal forma que não se sabe mais quem é quem. Os “bons” usam as mesmas artimanhas dos maus para se dar bem e (o pior) torcemos para que eles vençam, mesmo usando meios antiéticos.
O profeta Isaías experimentou algo parecido no início de sua vida profética, quando percebeu que o povo de Israel estava sem rumo, sem direção.

Deus então envia uma série de “ais” (alertas) e, entre estes, o 4º “ai” diz exatamente o seguinte: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridão, luz e da luz, escuridão; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5:20). Em outras palavras, invertem completamente os sentidos, deturpam os padrões; alteram a direção. Como isso não é novo, não deveríamos nos assustar, mas o que assusta hoje não é a inversão, mas é a simbiose do mal com o bem.

É ver que nossos referenciais estão cada dia mais maleáveis e sujeitos a muitas variações. Se podemos ser bons e maus ao mesmo tempo, pelo menos comportamentalmente não há absolutos. Passamos a definir o que é certo ou errado. Quais são os limites? Ninguém sabe, ou ninguém quer se preocupar com isso. Tenho até medo de perguntar aonde vamos parar. Não sei. Me parece que o objetivo é confundir, desestabilizar, descaracterizar, tornar tudo relativo, deixar que cada um defina o que é certo ou errado. Cada pessoa está se tornando seu próprio deus, com toda capacidade de dizer o que quer e como quer. Finalmente  ietzsche está com a razão, estamos conseguindo matar Deus! Vade retro!

Pr. José Ernesto Conti

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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