Nos 500 anos da Reforma: falta reformar o coração

A mola mestra da Reforma Protestante foi a necessidade de pôr o coração humano de volta em seu devido lugar; desconectá-lo do interesse pelas riquezas, motivador das indulgências; afastá-lo da ânsia por poder temporal; desligá-lo das ambições materialistas, entre outras necessidades.

Ao resgatar a justificação pela fé somente e os demais solas, estava-se mirando a pureza da vivência do Evangelho de Cristo no coração humano. Distantes do Evangelho resgatado pela Reforma, distantes do coração segundo Deus.

Jesus disse que Seus discípulos seriam reconhecidos pelo amor ao próximo (Jo 13:35; cf. 1Jo:3-10), amor que precisa ser demonstrado pela replicação do fruto do Espírito (Gl 5:22-23). Sem essas características ou a busca arraigada por elas, somos néscios ou farsantes e precisamos passar urgentemente pela reforma do coração. Porém, larga fatia da Igreja tem dado as costas para virtudes como mansidão, paciência e amabilidade e abraçado a agressividade como suposta “virtude” aceitável, ignorando o padrão bíblico (Ef 4:2).

As redes sociais permitiram, como nunca antes, a livre manifestação do pensamento. Mas inumeráveis cristãos têm usado esses espaços para mostrar o seu lado mais briguento, com ataques verbais a quem deles discorda. E isso é grave (Pv 3:31). Vemos todos os dias agressões, chacotas e ofensas entre calvinistas e arminianos; pentecostais e cessacionistas; ortodoxos e adeptos da missão integral; pedobatistas e credobatistas; e por aí vai.

Esse comportamento agressivo se reproduz também na postura de certos líderes com ateus, militantes gays e outros discordantes, quando a orientação bíblica é: “Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão” (Gl 6:1; cf. Cl 4:6; Mt 5:22). Agredir quem discorda de nós “em defesa do Evangelho” é absurdo.

Se os cristãos agressivos não passarem pela reforma do coração, teremos igrejas cheias de “defensores da sã doutrina” odiosos, ofensivos, ferinos, debochados, sarcásticos, verborrágicos, negativamente críticos e agressivos. Outro absurdo (Ef 4:29-32; Tt 3?2). A importância do domínio próprio é clara: “O tolo mostra toda a sua ira, mas o sábio a controla em silêncio” (Pv 29:11; cf. Gl 5:20; Ef 4;25-27).

“É da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos” (1Pe 2:15), por isso, precisamos encorajar os cristãos agressivos a não devolver mal com mal, a não usar palavras torpes, a ser pacificadores; em suma, a ser imitações de Cristo. Como disse Paulo: ‘Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão os que se lhe opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento, levando-os ao conhecimento da verdade’ […]” (2Tm 2:24-26).

É nosso papel pregar insistentemente o Evangelho do manso Cordeiro e do Príncipe da Paz, até que – queira Deus – os cristãos agressivos consigam contemplar a verdade e se convertam da destrutiva prática da agressividade “em nome de Jesus” para o transformador e libertador Evangelho da paz.

Maurício Zágari é teólogo, escritor, editor e jornalista. Tem nove livros publicados e é um dos autores da obra Uma nova Reforma (Editora Mundo Cristão)