No limite do silêncio

É atrás de portas fechadas que ela acontece, e de maneira silenciosa. Trata-se da violência doméstica, que no Brasil tem-se ampliado de forma assustadora. Pesquisas indicam que a violência doméstica é um problema global que ocorre entre indivíduos de todas as idades e nacionalidades, níveis sócio-econômicos e em famílias de todo tipo de formação, religiosa ou não-religiosa. Verificou-se que o índice geral de incidência foi semelhante em comunidades urbanas, suburbanas e rurais.

Hoje, no país, uma criança é assassinada a cada dez horas. Em seis anos, de 2000 a 2005, o Ministério da Saúde registrou 5.049 homicídios de meninos e meninas com idades até 14 anos. Somente em 2005, 662 vítimas desta faixa de idade, foram mortas por agressão, e estes números incluem bebês. Em 2002, 90 foram assassinados. Dados do Fundo das Nações Unidas (Unicef) revelam que entre os casos de violência contra crianças no país, 96% são de violência física, e que 64% dos casos de abuso sexual são cometidos por familiares.

Mas o que leva um familiar a cometer um ato violento contra crianças? A doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo e pesquisadora dos temas relacionados à criança e adolescente em situação de violação de direitos, Edinete Maria Rosa, explica que são muitos os motivos, porém o mais citado pelos pais é a preocupação com o futuro.

“Para evitar desvio de comportamento, inserção nas drogas e na criminalidade, pais partem para a agressão. Eles estão menos tolerantes às manifestações de liberdade e de contestação dos jovens, ou porque estão atarefados, ou por medo do desvio latente. Vivemos uma situação de ‘tolerância zero’. Pais precisam entender que a criança é um ser em plena dependência de um adulto e os pais são os primeiros responsáveis por lhes fornecer uma educação sadia e protetora. Crianças pequenas não têm a plena consciência de seus atos”, assegura.

A pesquisadora relata que tanto a violência física, quanto a sexual, podem começar cedo. “Já atendi criança que sofreu violência física grave (inclusive com perigo de morte) com apenas três meses e outra que começou a sofrer violência sexual com quatro meses de idade. As mães violentam mais que os pais, pois são as mais responsabilizadas e cobradas na educação dos filhos”. Disse ainda que alguns pais justificam a violência apoiando-se na Bíblia.

“Inclusive a violência sexual. Tive contato com vários casos em que o argumento usado foi o legítimo papel de pai ou de mãe apoiado na Bíblia. Antes, a obediência ao pai significava a obediência a Deus. Depois da era cristã, o entendimento mudou e as próprias atitudes de Jesus mostravam que o tratamento aos mais pequeninos deveria ser diferente. Uma criança que vive em constante ameaça e violência crescerá entendendo que o mundo e as pessoas são maus. Sentirá dificuldade em relacionar-se e, na vida adulta, poderá reproduzir o ciclo de violência. Pais que violentam perdem a oportunidade de viver relações prazerosas com seus filhos, de crescimento mútuo”.

O apóstolo Paulo refere-se à Igreja como a “família da fé”, que funciona como uma comunidade familiar, oferecendo aceitação, cuidado, compreensão e conforto a todos, especialmente aos que foram feridos de alguma forma pela vida. “Lamentavelmente, a violência doméstica pode ocorrer em muitos lares cristãos. Algumas mulheres, mesmo sem querer, descontam na criança o problema que estão passando. Acho que a mulher deve pedir orientação aos pastores e não guardar para ela o sentimento ruim. Acredito que a mãe que é verdadeiramente cristã põe em prática o ensinamento de Cristo, que é amar. E os maridos, por sua vez, devem amar a mulher, como também Cristo amou a Igreja. Ser violento não está dentro dos propósitos de Deus”, afirma Marlene Ferreira Lira, pastora da Igreja Quadrangular de Cobi.

A família e a violência

O segredo para vencer o avanço da violência na família, segundo o pastor Edson Miranda, da Igreja Evangélica Catedral dos Milagres, é um bom relacionamento entre pais e filhos. Ele acredita que o segredo de um lar sem violência é o envolvimento positivo dos pais na vida dos filhos, educando-os dentro dos padrões divinos, observando suas amizades e sendo exemplo para seu filho e família.

“Paulo admoesta os pais, em Efésios 6:4, a não provocarem a ira dos filhos, mas a criá-los na disciplina e no temor do Senhor. Dá a orientação aos pais que provocar a ira dos filhos é irritá-los. E criá-los no temor do Senhor quer dizer dar a correção e disciplina adequada sempre que for necessário. Temos um adversário sagaz, que todos os dias tenta mudar o padrão da família que Deus criou. A única solução é que cada homem e mulher se esforce para viver na sua família os ensinamentos de Cristo com autenticidade. O sentido cristão da vida fará sempre com que o amor, o diálogo, obediência, carinho, compreensão, felicidade, fidelidade, tempo para a família, respeito e a palavra de Deus sejam normas para a vida em família”.

A Bíblia mostra que a marca que distingue os cristãos fiéis é a qualidade de suas relações humanas na igreja e na família. Aquele que é servo e imitador de Cristo ama e aceita, anima e edifica os outros, em lugar de maltratar. Entre os seguidores de Cristo, não há espaço para a tirania e o abuso e a igreja precisa ajudar aqueles que sofrem de violência. “A igreja tem que cumprir o seu papel e deve ter coragem de investir, não somente em posses, mas sim em pessoas que precisam de Jesus”, destaca o pastor Celso Godoy, diretor do Ministério de Missões Urbanas da Igreja Batista do Romão. “Atuo numa comunidade em que há violência de todos os jeitos. Compreendo que Jesus chama seus discípulos a mostrar respeito e interesse pelo bem-estar dos outros, a aceitar homens e mulheres como iguais e a reconhecer que cada pessoa tem direito ao respeito e à dignidade”, conclui Godoy.

Vítimas estão entre zero e 19 anos

Pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) concluiu que em vinte e dois anos (1980 a 2002) houve aumento de 383% no número de homicídios envolvendo vítimas de 0 a 19 anos. Seus desdobramentos apontam que, na faixa entre 15 e 19 anos, o homicídio foi cometido por arma de fogo e que quanto menor a idade, menor é o uso deste tipo de arma. Em idades até quatro anos as crianças foram assassinadas por sufocamento, armas brancas (facas) ou estrangulamento. Em ranking estadual, o Espírito Santo é o quarto Estado em casos de homicídio no Brasil.

Casos de abuso sexual contra menores também estão crescendo. Trata-se de “uma violência silenciosa” segundo a coordenadora do projeto Sentinela (instituição de amparo às vítimas de abuso sexual), Adriana Leandro dos Santos. Ela conta que 80% dos casos de abuso sexual no Espírito Santo são realizados por pessoas da família ou amigos próximos. Alerta que “a violência intra-familiar é difícil de ser diagnosticada, pois é erguido um ‘muro’ de silêncio e a vítima não fala por medo do agressor ou culpa. As conseqüências psicológicas são devastadoras. Muitas crianças acham que o problema é com elas e que elas estão fazendo algo errado, por isso não contam nada para ninguém”, relata.

A cada 15 segundos, uma mulher é agredida no país

A violência contra mulheres também é silenciosa e tem crescido de maneira surpreendente. A cada 15 segundos uma mulher é agredida no país. Em 2006, uma pesquisa do Ibope e do Instituto Patrícia Galvão revelou que 51% dos brasileiros conhecem uma vítima de violência doméstica. Na Grande Vitória, foram 6.259 casos em 2007. O município que registrou o maior número de ocorrências foi o de Vila Velha, com 2.179, seguido de Cariacica, com 1.447; Vitória, 1.374 e Serra 1.259. Em 2008 já foram 2.344 ocorrências. Vila Velha lidera também os números deste ano, contabilizando 873 ocorrências. Os números são da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) obtidos por meio das Delegacias da Mulher (DEAM) nestes municípios.

A delegada Stael Blackman descreve que depois da instituição da Lei Maria da Penha (Lei 11.340) as mulheres ficaram mais seguras para denunciar. “Elas sabem que os seus agressores serão punidos. Antes, a pena era de oferecer cestas básicas e serviços à comunidade. Hoje, o agressor pode ser autuado em flagrante”, frisou.

Ainda com base na Lei Maria da Penha, foi criada em 2007 a primeira Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher no Estado. Ela está localizada no Fórum da Serra. “Esta vara já começou com 800 processos, oriundos de outras varas criminais”, relata a juíza Hermínia Azourry. Nos quatro primeiros meses de funcionamento, registrou mais de 1.550 processos. “É a primeira do Estado, sendo a segunda a ser instalada no Brasil. Quando a mulher é violentada, ela deve procurar a delegacia da mulher; logo será instaurado um inquérito policial que, a seguir, segue para a Vara. A mulher agredida perde sua auto-estima, sentindo-se incapaz de sair daquela prisão e do seu algoz. É necessário que outras comarcas da capital instalem esta Vara Especializada para que a mulher possa ter mais espaço nas suas conquistas e viver o exercício de sua cidadania”, concluiu.

Na capital, 70% dos casos de violência doméstica que chegam à justiça são de violência física, e o restante, violência moral – calúnia, injúria e difamação. O defensor público da Vara Criminal de Vitória, Eduardo Salume, descreve que em cada região os números são diferenciados. Alerta que existe violência doméstica não apenas entre cônjuges, mas também de filhos contra mães, filhos contra pais e vice versa, principalmente onde existem pais alcoólatras e filhos drogados. Quanto ao perfil, relata que, na Defensoria Pública, é raro aparecer uma pessoa escolarizada, bem como raro saber-se qual é a religião. Mas afirma que, entre religiões, os casos estão divididos por igual. “Há católicos e evangélicos em percentuais semelhantes. Mas vale ressaltar que a violência doméstica é mais um caso sócio-cultural do que religioso”. Eduardo frisa que hoje 60% da violência doméstica é denunciada pela vítima. “Antes, menos de 10% era denunciado”.

Matéria publicada na edição nº 129 da Revista Comunhão

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