Natal é solidariedade, comunhão e confraternização

Foto: ilustrativa

Para que o futuro possa ser melhor é preciso plantar agora as sementes de amor fraterno.

As festividades de final de ano trazem à tona um clima diferente. As pessoas se tornam mais solícitas e ficam mais suscetíveis a emoções que muitas vezes não se permitem ter durante o restante do ano. Muito além das ornamentações das lojas e do movimento frenético nos shoppings, é Natal. Momento de reflexão, de confraternização, mas também de mudança nas atitudes capazes de promover um Natal diferente e que se prolongue para o ano inteiro.

Provocadas pela convivência e comunhão com a família e com os amigos, as pessoas são tomadas no final do ano por sentimentos de solidariedade e fraternidade, mais especificamente no Natal se tornam mais solícitas, mais participativas e preocupadas com os semelhantes. Mesmo que essa atitude seja momentânea, esse clima precisa ser melhor aproveitado como uma chance de desenvolver e ampliar, especificamente na igreja, um padrão de atitude renovado, assumindo de maneira mais ampla a responsabilidade de cuidar daqueles menos afortunados.

“As pessoas nesta época do ano têm mais momentos de comunhão, seja com a família, seja com os amigos. No restante do ano as pessoas se isolam muito, não só dos parentes, mas até do convívio na igreja. A melhor forma de exercitar a solidariedade, a fraternidade, a comunhão e o serviço aos outros é não se isolar”, explicou o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Vitória, João Paulo Auler. E continuou: “Já está culturalmente implícito que no Natal você tem que fazer alguma coisa pelo próximo. Nem sei se isso sempre resulta de espiritualidade. É mais uma convenção social. Basta pensar no Natal dos Correios, quando milhões de pessoas se dispõem a realizar os sonhos dos presentes das crianças que enviam cartinhas para o Papai Noel”.

Ainda para João Paulo, o que as pessoas precisam é incorporar esse modo solidário de viver no restante do ano. “Depende de muito ensaio, porque a correria do cotidiano faz com que nos esqueçamos dessas atitudes. O amor de Deus por meio de nós cristãos quer ser expressado durante o ano todo”.

Investindo no outro

Grupo de Desbravadores, adolescentes da igreja adventista, presenteiam crianças atendidas pelo Centro Adventista de Desenvolvimento Comunitário (CADEC) com brinquedos. Pensando numa forma de manifestar este amor ao próximo, o casal Rosilene Trindade e Mateus Roberte Carias se mobiliza em prol de idosos. Eles são membros da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV), e Rosilene conta que na igreja essas atitudes de solidariedade são estimuladas. “Mesmo que as pessoas se façam presentes nesse momento de festas, elas precisam saber que presentear, dar carinho, fazer agrados é necessário durante todo o ano”, disse Rosilene.

Para o casal esse tipo de atitude significa um investimento. “Aquele que de alguma forma contribui está investindo nas pessoas, na divulgação da mensagem do Evangelho e conseqüentemente no Reino. A própria Palavra de Deus diz que melhor é dar do que receber”, falou Rosilene. “A forma de contribuir não importa, às vezes, a pessoa não tem bens materiais para doar, mas pode contribuir fazendo uma visita, dando um abraço, fazendo companhia. Compartilhando aquilo que elas têm. É preciso pensar nas necessidades diárias”, lembrou Mateus contando que eles costumam fazer visitas duas vezes por mês no Asilo dos Velhos de Vitória.

Para se ter uma idéia de como esse tipo de atitude tem significado na vida de Mateus e Rosilene, eles começaram a vida a dois de uma maneira diferente. O convite de casamento deles seguiu para os convidados com uma lista de necessidades das casas lares de crianças mantidas pela IEBV, que foi prontamente suprida pelos participantes da celebração. “Aquele que de alguma forma contribui está investindo nas pessoas, na divulgação da mensagem do Evangelho e conseqüentemente no Reino. A própria Palavra de Deus diz que melhor é dar do que receber”
Rosilene Trindade, da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV)

Multiplicando o investimento

Se o exercício da solidariedade é importante, a mobilização tem um caráter ainda mais importante neste momento. Iniciativas promovidas pelas igrejas e entidades mantidas por elas tomam uma proporção ainda maior, quando alcançam um número superior de pessoas. A Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), por exemplo, realiza todos os anos, desde 1994, o Mutirão de Natal.

Esse mutirão é na verdade uma gincana entre os jovens adventistas que são levados a mobilizar outros em torno de si, pela causa assistencial. O evento surgiu no Rio de Janeiro e alcançou o Brasil. O encerramento do Mutirão de Natal deste ano, quando serão divulgados os dados de todo o país, acontecerá no dia 20 de dezembro, no Ginásio do Clube Álvares Cabral e será transmitido pela TV Novo Tempo.

Para se ter uma idéia da magnitude que esse tipo de ação pode tomar, apenas a Igreja Adventista Central de Vitória arrecadou 62,5 toneladas de alimentos, que beneficiarão instituições como asilos, orfanatos e abrigos, ou irão diretamente para famílias.

Voluntários organizam em mutirão doações para moradoresdesabrigados do bairro Guaranhuns, em Vila Velha. A gincana acontece sempre no segundo semestre. Teve início em 1994 na Igreja Adventista no Rio de Janeiro, quando o casal Marli e Sérgio Azevedo escreveram as regras de competição que hoje acontece em igrejas adventistas de todo o Brasil. O movimento envolve mobilização, arrecadação e distribuição. Os pastores mobilizam suas igrejas e os jovens vão envolvendo outras pessoas, ampliando essa rede de solidariedade.

As arrecadações também acontecem em dinheiro, calculando o preço da cesta básica que equivale a um peso em alimentos. Esse dinheiro é guardado numa conta bancária específica que permite que durante todo o ano esse “presente de Natal” chegue para aqueles que continuam necessitando de ajuda. “Muito do que arrecadamos é recolhido em dinheiro, o que vem em dinheiro é depositado numa conta específica e é com ele que realizamos as compras durante os outros meses para sustentar e ajudar as famílias ao longo do ano. Esse é o objetivo da gincana. Mas como no mês de dezembro o coração das pessoas se abre mais, por causa do Natal conseguimos um volume maior de alimentos”, disse pastor Pedro.

Noutra ação institucional, o Projeto Vida em Ação coordenado por Milton Pereira, que recebe o apoio da Igreja Assembléia de Deus Nova Vida em Itapoã, igreja presidida pelo pastor Eduardo Vieira, entregou recentemente uma casa completamente reformada no bairro Castelo Branco. A primeira casa foi entregue no mês de agosto no bairro Terra Vermelha, de Vila Velha. “O diagnóstico apontou que a casa estava condenada e a criança que mora lá possui vários problemas de saúde que necessitam atenção intensiva da mãe que é viúva, aposentada e a criança necessita de mais de R$ 400 mensais em remédios”, explicou o coordenador.

Durante as chuvas que alagaram bairros inteiros em Vila Velha, os integrantes do projeto também recolheram toneladas de alimentos e muitas roupas e sapatos para os desabrigados.

Independentemente de tragédias, o Projeto Vida em Ação, assim como a ADRA e muitos outros, se mobiliza durante todo o ano e é a segunda casa que os voluntários entregam. Todo o material é fruto de doação e as pessoas que trabalham no projeto são voluntárias. “A família carecia de apoio para iniciar uma nova fase na vida. Todos os que são atendidos pelo projeto passam por uma avaliação feita por assistentes sociais, para notar se existe a necessidade de ajuda ou se é acomodação da pessoa que fica apenas esperando por uma doação”, disse o coordenador.

Para Milton, qualquer pessoa pode se envolver, pois sempre existe algo que precisa ser feito, uma tarefa a ser desempenhada. “Mesmo aqueles que acham que não podem fazer nada são capazes de fazer muito”, lembrou Milton ajuntando que por trás da cesta básica existe uma série de outras necessidades. “Cada um possui uma habilidade e quando nos deparamos com a necessidade do outro superamos nossos limites e descobrimos onde podemos ser úteis”. Na construção da casa, por exemplo, Milton se disse surpreso com a alegria das pessoas dotadas de capacitação profissional superior carregando lixo, retirando entulho, servindo aos irmãos.

Para o Natal, Milton já programa uma “Mesa Farta no Deserto”. Ele está ajuntando seu grupo para uma ação de compartilhar uma ceia com irmãos em um bairro carente que ainda não havia sido escolhido na ocasião da entrevista.

Sementes de solidariedade

Existe um dito popular que afirma que “fazer o bem, faz bem”. Plantar sementes do bem então é muito bom. No ano de 2009, a ADRA implantará o projeto ADRA Júnior, com a finalidade de despertar em crianças o sentimento de solidariedade e a capacidade de pensar ‘o que eu posso fazer pelo meu amiguinho’. “Neste ano para experimentar, promovemos uma arrecadação de brinquedos e levamos as crianças no momento de entregar esses presentes”, explicou pastor Pedro sobre a ação que se desenvolveu no Centro Adventista de Desenvolvimento Comunitário (CADEC).

Para ele, a solidariedade é atitude e a importância desse momento está justamente no que esta atividade pode proporcionar para o restante do ano, que é a retomada desses valores tão exaltados neste momento das festas. “As pessoas têm de pensar: ‘O que eu posso fazer pelo meu semelhante?’. Precisamos estar próximos, colocar nossos irmãos no ombro e reerguê-los, isto é amar o nosso semelhante”. O coordenador do Projeto Vida em Ação, Milton Pereira, e o pastor da Assembléia de Deus Vida Nova em Itapoã, Eduardo Vieira, entregam a casa reformada para Sirley Guimarães

Uma semente cresce, se torna árvore e se multiplica, a semente plantada nesse momento não é só da solidariedade, mas é a semente do Evangelho em ação. “A maior motivação para quem quer realizar esse tipo de atitude é o amor de Jesus no coração. É isso que nos faz abraçar essa idéia e essa causa. Não para ser visto, mas realmente para realizar o bem. O próprio Jesus disse: ‘quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes'”, disse o pastor Pedro referindo-se ao texto do capítulo 25 do livro de Mateus.

“Envolver seus amigos é extraordinário. Dizer para eles que sua igreja tem um projeto lindo, no qual você gostaria que ele se envolvesse é importante. Se todos se importassem realmente uns com os outros nós viveríamos num mundo completamente diferente. As pessoas têm de se conscientizar de que são responsáveis pelo mundo em que vivem”, ensinou pastor Pedro. Ele também lembra que existem muitas maneiras de colaborar seja com talento, com dinheiro, mobilizando amigos. “Se eu estou no mundo para servir preciso me envolver para colocar esse amor em prática”, sentenciou.

“Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo”, está em Marcos 12.31. Essa ordenança do Senhor Jesus deve ser um dos fatores imperativos para a tomada de atitude na mudança de vida. “O amor vertical, a Deus, nos motiva a realizar esta ação de espalhar o amor aos irmãos horizontalmente. É Impossível uma pessoa falar que está vivendo um relacionamento de amor com Deus, se não se preocupa com a necessidade do próximo. Esse amor ao próximo se traduz em querer para o próximo aquilo que eu quero para mim. Eu quero um Natal feliz, quero amor, quero afeto? Então preciso doar isso primeiro”, disse pastor Pedro, que destacou o que está escrito em Deuteronômio 15.11: “Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra”.

Projeto de vida

Fazer o bem deveria ser algo natural, mas hoje segundo os pastores existe a necessidade de motivar isso. As pessoas precisam ser lembradas de que compensa trabalhar pela causa social, compensa se envolver, e que isso até promove felicidade.

Pastor João Paulo propôs que essa atitude de solidariedade se transforme numa meta para o novo ano. “Gostaria que as pessoas pensassem em se comprometer, tendo uma meta: ‘Este ano apesar do meu trabalho, do muito serviço que tenho, apesar do stress, da família, eu vou dedicar tempo para essa causa. Quero acrescentar isso a minha vida neste ano’. As pessoas têm que incorporar esse tipo de gesto ao projeto de vida. Até mesmo para sair da mesmice. Temos de reaprender que fazer algo para e pelo outro é muito mais benéfico do que alguém fazer pela gente. Dar presentes é tão gostoso quanto receber. Existem coisas que parecem pequenas, mas que precisam ser feitas”.

“A gente tem de semear trigo e não ficar colhendo joio. Quanto mais trigo semearmos, mais bondade, mais solidariedade, menos o joio vai aparecer. Quando eu promovo uma boa ação, isso também contagia, podemos interferir no mundo com um aperto de mão, um abraço, um sorriso”, falou.

A lição que os pastores e os entrevistados deixam é a de que cuidando dos irmãos, os cristãos também cuidam do Reino. Quando Jesus veio ao mundo trouxe consigo uma mensagem de paz, amor e esperança de que era possível mudar. Como a vida cristã é oração e atitude, conseqüentemente testemunho, a tarefa de transformar as pessoas continua sendo daqueles que representam o Reino de Deus na Terra. Para que o futuro possa ser melhor é preciso plantar agora as sementes desse amor fraterno.

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.

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