Não andeis ansiosos

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A ansiedade é considerada o mal da era pós-moderna. É a preocupação exagerada com o futuro e muitos teólogos afirmam que é sinônimo de falta de fé no que Deus pode fazer.

Mãos trêmulas, boca seca, palpitação no coração, fala apressada, dificuldade para dormir, suor, problemas no estômago. O simples fato de pensar no que vai ter que fazer amanhã ou nos projetos para o futuro faz muita gente suar frio e se apavorar. A ansiedade é um sentimento muito corriqueiro no dia-a-dia das pessoas e poucos se arriscam a dizer que não são ansiosos. Confessam que sofrem antecipadamente por um trabalho de faculdade que têm que entregar uma prova que vão fazer, a reunião que precisam preparar, as aulas de música e de idioma pela manhã dos filhos, as contas a pagar, a reforma que é preciso fazer na casa, os móveis que já passaram da hora de mandar para o marceneiro, a consulta marcada com um médico, a cirurgia que vão ter de se submeter.

Psicólogos e psicanalistas afirmam que a ansiedade é quase que inerente ao ser humano, mas para muitos pastores e teólogos esse é um sentimento que se contrapõe à fé em Deus. Afirmam que se preocupar demais com o futuro mostra falta de confiança no que o Pai pode fazer na vida de Seus filhos.

Jesus Cristo, no sermão que é considerado os mais lindos da história, em Mateus 6, exortou: “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E pelo que haveis de vestir, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?”. Se Deus se preocupa com aves e plantas, está atento ainda mais aos anseios do homem. E ainda acrescenta: “A ansiedade é um ato de incredulidade.Ficamos ansiosos porque duvidamos que Deus é poderoso suficiente para cuidar da nossa vida. Onde a ansiedade se instala, a fé não tem mais espaço”.

O pastor José Bruno, da igreja Assembléia de Deus em Santa Marta, Vitória, tem quase 33 anos de ministério pastoral e conta que já acompanhou de perto muitos irmãos com problemas de ansiedade, seja na família, na escola ou no trabalho. Segundo o pastor, na ansiedade patológica, ou maléfica como ele define, a origem do sofrimento é o pecado, a causa é espiritual. Citando I Pedro 5:7 (Lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós), ele explica que é preciso viver plenamente ao lado de Cristo para fugir dessa preocupação exagerada com o futuro.

“Quando o apóstolo Pedro nos orienta lançar a ansiedade, é aquela que prejudica, que atrapalha a nossa dia-a-dia. Hoje temos um padrão de vida melhor que o de nossos pais, mas também temos trabalhado mais, estudado mais e se divertido menos. Atualmente, as pessoas só se casam depois que têm casa, faculdade, mestrado, se tiverem plano de saúde, quando comprarem um carro. Nós buscamos isso para não ficarmos de fora da sociedade, mas essa auto-cobrança faz gerar a ansiedade”, disse.

A psicóloga, psicoterapeuta e terapeuta de família Rosane Castilhos, da Igreja Batista da Mata da Praia, em Vitória, explica que o mundo atual gera uma sociedade ansiosa. “Alguns pesquisadores dizem que o simples fato de vivermos na sociedade contemporânea já é um fenômeno suficiente para que nos tornemos pessoas propensas a uma vida agitada, causada pela competitividade acirrada, consumo desenfreado, violência, economia instável e outros componentes da vida moderna. Infelizmente, viver ansiosamente passou a ser uma condição do homem moderno”, disse.

No entanto, ela ressaltou que há dois tipos de ansiedade: a natural e a patológica. A primeira não precisa ser tratada, pois é controlada pela própria pessoa, por exemplo, quando vive uma expectativa de algo que vai acontecer, como o resultado de uma prova, o primeiro encontro amoroso para um adolescente, o diagnóstico de uma doença, os preparativos para o casamento, a chegada de um filho, a mudança de emprego, etc. Nesses casos, segundo Rosane Castilhos, logo que a situação se resolve, a pessoa retoma seu estado normal, tanto fisicamente como emocionalmente. “A ansiedade não é 100% ruim, se for essa do tipo natural. Ela é inerente ao ser humano. É aquilo que o move e que faz com que ele busque solucionar a situação, aliviar a tensão”, destacou a psicóloga.

Já os estados de ansiedade patológica (anormal) se configuram em síndromes de ansiedade e requerem tratamentos específicos. Eles têm como característica a forte intensidade e a longa duração do estado de angústia, que faz com que a pessoa fique incapaz de lidar com a situação. “Ao invés desse sentimento contribuir para a pessoa enfrentar e resolver o problema, ele atrapalha, dificulta, bloqueia”, explicou.

É o caso do motorista Renato Ferreira de Andrade, 33 anos, que freqüenta a Igreja Evangélica Vida, em Laranjeiras, na Serra. Ele afirma que já foi parar no cardiologista e agora está fazendo tratamento psiquiátrico porque fica ansioso por qualquer motivo. “Se tiver que sair bem cedo para ir trabalhar, por exemplo, eu nem durmo direito à noite. Passo a noite acordado. A minha boca fica seca, a mão gela, o coração dispara. Essa ansiedade me atrapalha muito”, detalhou.

O pastor Edson de Oliveira, que é psicanalista, professor e líder da Igreja Presbiteriana no bairro Aparecida, confirma que a ansiedade pode desencadear problemas sérios de saúde. “A ansiedade não é doença, faz parte do nosso mecanismo de defesa. É sempre bom ter uma ansiedade normal, realística, mas se ela não for tratada pode levar ao desenvolvimento de doenças. A probabilidade de morrer por problemas cardíacos pode ser até quatro vezes maior para quem desenvolver a ansiedade severa”, disse.

Ele ainda destacou algumas causas desse sentimento: “O homem pós-moderno vive na ‘era da ansiedade’ devido as suas incertezas quanto às questões do futuro, por exemplo: a busca desenfreada por uma melhor condição de vida, pressionada pela supremacia do ter sobre o ser, a insegurança vivida pela sociedade, a instabilidade econômica, a crise familiar, os conflitos de valores. A nossa era se caracteriza por extraordinário progresso do conhecimento. Sabemos muito sobre tecnologia, internet, etc., porém muito pouco sobre o amor e os valores indispensáveis para uma vida significativa e satisfatória. Essa inversão de valores causa ansiedade”.

O reverendo Hernandes Dias Lopes, da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, descreve a definição da palavra, que na língua grega significa estrangulamento, e afirma, no texto intitulado “Ansiedade, o estrangulamento emocional”, que esse sentimento gera sofrimento sem razão.

“Ela nos tira o oxigênio, corta o nosso fôlego e nos asfixia. Rouba nossas forças, embaça nossos olhos e tira de nós a perspectiva do futuro. Não administramos o futuro, por isso não podemos sofrer por alguma coisa que ainda está para acontecer. A ansiedade é inútil, pois além de não nos ajudar a resolver o problema amanhã, ela nos enfraquece hoje. A ansiedade é incoerente, pois muitas vezes sofremos hoje por algo que jamais vai acontecer. Ela nos leva a sofrer duas vezes, antes e quando o problema chega”, afirma.

Deus não tem espaço para agir

O pastor Ruy dos Santos, da Igreja do Evangelho Quadrangular em Bairro República, Vitória, é enfático ao afirmar que a ansiedade é falta de fé. “Ela não compactua com a vida cristã. Se você vive ansioso não dá espaço para Deus agir. Ele não tem lugar na sua cabeça. Quando desenvolvemos uma fé sustentável, a ansiedade pode ser algo momentâneo”, declarou.

Ele destacou ainda que o dinheiro, a saúde e os estudos são os principais fatores que levam um homem à ansiedade. “Esse sentimento está ligado a coisas terrenas, passageiras. Assim como a Bíblia cita os frutos do espírito, acredito que a ansiedade é fruto do pecado. Mas a Palavra de Deus diz que os justos viverão pela fé e o justo é aquele que vive debaixo das mãos do Pai, que sabe que todas as coisas pode nAquele que lhe fortalece (Filipenses 4:13). Temos que nos aproximar mais de Deus”, declarou.

Apontada como a doença do século, a ansiedade gera estresse e aparece quando não se vive o presente, apenas pensa-se sobre o futuro. O rei Davi, que passou por grandes tribulações na vida, aprendeu que se deve descansar em Deus quando o assunto é o futuro. Em Salmo 37, ele afirma: “Deleita-te também no Senhor e ele te concederá o que deseja o teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele e ele tudo fará”. Já no Salmo 40, declara: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor”.

Para viver no centro da vontade de Deus é preciso entender que o Senhor é dono de todas as coisas, e que sempre cuidou, cuida e cuidará de seus filhos. É preciso viver o hoje, agradecer pelo ontem e pedir orientação pelo amanhã. Não devemos abandonar os planejamentos, apenas precisamos depositá-los nas mãos do Pai e seguir o que Ele nos ensina.

A ansiedade é uma intromissão na providência de Deus e o melhor a fazer é trocar essa preocupação com o futuro pela confiança no Senhor, depositando nEle o que o nosso coração deseja: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças” – Filipenses 4:6.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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