Músicas que formaram a identidade da Igreja

Dificilmente pessoas que se converteram há cerca pelo menos 20 anos não têm uma canção de hinários tradicionais que marcaram sua vida.

Hinos entoados em apelos feitos por pregadores da Palavra dentro dos templos e nos cultos ao ar livre nas praças impactaram a vida de milhares de evangélicos pelo Brasil. Canções que emocionaram, trouxeram reflexão, impulsionaram a decisão por Cristo e, a partir delas, passaram a ser um registro histórico e também sentimental da caminhada cristã.

Mesmo aqueles que nasceram em lar cristão têm na ponta da língua hinos antigos como “Mais perto quero estar”, escrito por Sarah Flower Adams (1805-1848). Esse, no caso, é considerado o hino cristão mais conhecido no mundo. Walter Gomes de Souza, aposentado, tem três hinos marcantes, todos do Cantor Cristão: 259, da conversão; 407, do batismo e 360 que representa até os dias de hoje sua fé em Deus.

“Lembro tanto desses hinos que até me emociono. No caso do meu batismo, que foi no rio lá na minha cidade natal em Água Doce do Norte, me marcou demais. Lembro como se fosse hoje a canção ‘ditoso o dia em que aceitei do meu Senhor a salvação, a grande paz que eu alcancei perdura no meu coração'”, entoou Walter, membro da Igreja Batista da Glória, Vila Velha.

Lembrança tão marcante quanto a da professora Marta Regina Oliveira Tavares de Jesus, membro da Igreja Batista de Lagoa de Carapebus, Serra. O hino 396 do Cantor Cristão “Cegueira e vista” representa sua conversão, que aconteceu na adolescência.

“Eu tinha vergonha de tomar a decisão publicamente, mas o Espírito Santo falava ao meu coração. Ao ouvir um testemunho de uma pessoa que relutava também, essa canção me mostrou quão grande foi o sacrifício de Jesus. Na ‘cruz onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus’. Hoje dou testemunho sobre minha conversão e esse hino ainda tem marcado outras vidas”, disse.

História

A música sempre desempenhou um papel importante na história da igreja cristã. Na Idade Média, tanto os hinos como a Bíblia não alcançavam o povo já que o latim era o idioma oficial das missas. Na época da Reforma esse cenário muda. Martinho Lutero e Calvino traduziram a Bíblia, fazendo com que a Palavra pudesse chegar às pessoas. Nesse processo, compositores surgiram para unir a música devocional ao culto protestante, com isso os hinos eram facilmente entoados e memorizados pelas pessoas. Nessa época, os hinos ajudaram os crentes a terem uma intimidade maior com Deus.

O trio “oração, cânticos e palavra” tornaram-se o pilar da doutrina protestante. Lutero deu liberdade a uma grande criatividade no que se referia à música e cânticos espirituais, o que incentivou o seu uso na vida dos fiéis. A produção musical começa, então, a ter um caráter de adoração. No século XIX, surgem os “Grandes Hinos Clássicos”, integrantes de hinários protestantes tais como Salmos e Hinos, Cantor Cristão, Harpa Cristã, Hinário Presbiteriano, Novo Cântico, Hinário para o Culto Cristão, entre outros.

Depois da Bíblia, os hinários passaram a ocupar um lugar de importância na vida do crente. É a mensagem bíblica apresentada a partir de experiências profundas vividas com Deus, destacadas de forma harmoniosa e impactante. “Quando reflito em cima de uma letra como Rude Cruz, por exemplo, me emociono. A melodia perfeita cria uma conexão com o divino”, revela o maestro Wanderley Rocha, ministro da Assembleia de Deus do Aribiri, Vila Velha.

Folheando os hinários, encontramos informações de autores de hinos das mais variadas nacionalidades e épocas, denotando estilos, origens e datas diferentes. De acordo com o ministro de música da Igreja Batista Praia do Canto, Vitória, Almir Rosa, os hinos são importantes na formação musical das igrejas. “O hinário praticamente era a única fonte das atividades musicais eclesiásticas.

A história dos hinos relatada pelos hinólogos mostra a importância dos seus compositores e autores. Dentre muitos, ressalto aqui, ‘Castelo Forte’ e ‘Sou feliz’ como parte dessa herança. Não podemos desprezar tão grande legado”. O maestro Wanderley Rocha destaca que os hinos são uma herança preciosa para a igreja e devem ser valorizados. “São canções muito bem feitas, tanto em letra e melodia, com fundamentação bíblica. Elas refletem a identidade da igreja de Cristo”.

Perdendo espaço

Atualmente, os cânticos ganharam muito espaço nos cultos e caíram no gosto dos evangélicos. Para o ministro Almir Rosa, hoje é possível mesclar cânticos e hinos, facilitando a participação de todos, contemplando todas as faixas etárias. Wanderley Rocha diz que no culto a Deus tem espaço para tudo, louvores e hinos.

É possível inovar nos arranjos, por exemplo, investir mais em coros, ensinar a congregação a gostar do clássico. “Observo que com o baixo uso dos hinos, muitos corais têm morrido nas igrejas, quase não se vê mais coros, o que é lamentável, pois é uma oportunidade que muitos crentes têm de servir a Deus com a música, mas não encontram espaço dentro das igrejas”, disse. O resgate da música tradicional nas igrejas passa pelo pastor que a lidera. É a opinião do maestro Wanderley Rocha. “O pastor é o líder, tem que ser sensível ao resgate das músicas e manter na igreja o espaço para o clássico e para o novo”, completou.

O cantor e compositor André Valadão acha que os hinos perderam espaço nos cultos, mas que essa realidade pode ser mudada. Quando gravou um CD de Clássicos Cristãos teve o objetivo de resgatar essas canções. “Existe hoje uma nova geração de crentes que não conhece a história dos hinos na igreja. Eles romperam barreiras, fazem parte da realidade da igreja e não podem ser esquecidas de forma alguma. Infelizmente, os hinos perderam um pouco de espaço nos cultos, mas basta mudar o formato musical e arranjos dos hinos, apenas isso, a profundidade de suas letras não podem ser esquecidas”.

Outro cantor que também resgatou os hinos da Harpa Cristã em um CD foi Mattos Nascimento. Ele lamenta que as igrejas tenham aderido às músicas comerciais, em sua maioria.

“Valorizar os hinos é valorizar a história da igreja. Muitas canções antigas marcaram minha vida e contribuíram para minha formação. O povo de Deus encarece de talentos inspirados na palavra bíblica e indivisível”.

A música tem o poder de aproximar a criatura de seu criador, de trazer à memória palavras de fé e esperança. Quantas vezes, quanto tomados por pensamentos tristes, o trecho de um hino nos faz reanimar e confiar em Deus?

“Os hinários devem ser usados em todas as ocasiões de culto, não apenas pela congregação, mas também entre crianças e jovens e na devoção particular”, considerou o maestro Wanderley Rocha. Os hinos tradicionais são um marco para a igreja cristã e, assim como no passado ajudaram a formar a identidade da igreja, ainda hoje são atuais e podem ser veículos de louvor, adoração e encorajamento para o povo de Deus.

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.


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