Mulher: como tornar sua vida menos estressante?

mulher

A mulher de hoje é mãe, esposa, serva, profissional, provedora do lar. Como aliviar a rotina delas?

O perfil atual da mulher brasileira passou por diversas mudanças socioeconômicas nas últimas décadas. Hoje, a população feminina predomina no país, vive mais, engravida mais tarde, acumula mais anos de estudo, lidera as estatísticas de formação profissional e tem sido cada vez mais a responsável pelo sustento no lar. Em três séculos, especialmente nos últimos 50 anos, elas obtiveram conquistas em variados espaços e segmentos. Com as revoluções culturais e a força do movimento feminista no século XX, novas configurações sociais foram surgindo, enfraquecendo o modelo homem provedor e mulher cuidadora.

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Mas elas ainda têm um longo caminho a percorrer, uma vez que esse êxito feminino vem preocupando médicos, psicólogos, pastores, psicoterapeutas, coachs, capelães e educadores por constatarem que as mulheres estão amargando uma rotina que as torna reféns do próprio sucesso.  O novo cenário que se abriu para o universo feminino aponta para uma vida frenética empolgante mas também perigosa, com ganhos promissores e perdas irreparáveis. Ou seja, é um movimento de vida que empurra a mulher para uma situação até mesmo opressora. Elas estão tendo que trabalhar para sustentar a casa. Muitas chegam a passar 20 horas sem ver os filhos, porque têm dupla jornada: trabalham o dia inteiro e estudam à noite.

“Uma mulher consciente de sua relevância exerce influência poderosa na sociedade. Caso contrário, o futuro que nos aguarda é sombrio”
Walter Sant’Ana Júnior, pastor

Os consultórios médicos e psiquiátricos, gabinetes pastorais e até as áreas das empresas mais equipadas estão cheios de mulheres com depressão, com sentimento de culpa, por conta dessa revolução do mercado de trabalho. A pergunta que esses especialistas tentam responder é: como reduzir o impacto desse fenômeno de ascensão feminina? Como conciliar tantas atividades, já que o mercado econômico não permite se fazer um caminho de volta? Como aliviar a carga da mulher e atender a todos os envolvidos nessa dinâmica que a colocou no patamar de quem responde por quase metade do trabalho formal e ainda representa uma coluna de sustentação no lar? E agora, mulher?

“É desafiador equilibrar exigências da profissão e da família e as demandas de interesse pessoal”
Mônica Oliveira, coach

A psicóloga clínica e psicoterapeuta corporal Viviane Nóbrega Jonas alerta para os sintomas dessa pressão no organismo feminino. “Tal acúmulo de tarefas tem elevado assustadoramente o nível de estresse nas mulheres, afetando todo o seu organismo:  físico, mental, emocional e espiritual. O estresse num primeiro momento atua de forma constitucional e benéfica para o corpo. Todo um funcionamento de pressões, batimentos cardíacos e metabolismo, operando de forma harmônica num contínuo de ataque e fuga. Nesse acúmulo de demandas, vai se fixando uma forma única e repetitiva para se lidar com todos os desafios e acontecimentos próprios da vida. Essa repetição leva ao comprometimento do organismo com dor e sofrimento.”

Para não frear o ritmo, é  comum a mulher buscar estratégias que a impeça de perceber os alarmes. A partir daí, se inicia uma outra organização, que é fazer resistência.  Eu aguento! Isso significa fazer mais. E o corpo começa a se entortar, comprimir, endurecer. “Experimente, no meio do turbilhão que é a vida, fazer uma respiração consciente que lhe traga para o momento, o aqui e agora. Pergunte-se: como estou fazendo o que estou fazendo? Como me uso para fazer o que faço? Traz alegria?
É leve para mim? Como meu corpo sente? Essa conversa íntima consigo mesma ajuda a trazer para a consciência o modo como me relaciono com as coisas, tarefas, acontecimentos, no desempenho das funções e afetos”, diz.

E se, novamente, não se percebe ou sente, começa a entrar no último estágio do estresse, que é o esgotamento. Aquilo que era um alerta agrava-se e dói. Os sinais tornam-se agudos. Quando está atenta e percebe que algo não está bom, não está gostoso ou prazeroso, ela tem a oportunidade de alterar algo. “Afaste do coração a ansiedade e acabe com o sofrimento do seu corpo, pois a juventude e o vigor são passageiros” (Ec. 11:10).

Liberdade sem culpa
Patrícia_Pina
“Além do cansaço, nos sentimos culpadas. Isso é amenizado quando temos apoio da família. Meu esposo, Pr. Thiago Silva, é bastante participativo” – Patrícia Pina, psicóloga

O conceito de mulher ideal ou mulher dos sonhos aponta para um parâmetro de vida que muitas vezes ela não dá conta ou não aguenta. A referência que a Bíblia faz à mulher ideal é que ela seja sábia, edificando o seu lar (Pv. 31:10-31). Não diz que ela tem que fazer faculdade, pós-graduação, mestrado ou doutorado, ou então, que ela tem que ser dona de casa ou ter trabalho fora.

Na visão do pastor Marlon Silveira Gomes, da Igreja Batista, em Vitória, a pressão que a mulher sofre é tipicamente a definição de Fato Social de Durkhe, um fenômeno que leva o nome de um sociólogo francês defensor da ideia de que isso consiste em maneiras de agir, de pensar e de sentir que exercem determinada força sobre os indivíduos, obrigando-os a se adaptar às regras da sociedade onde vivem. “Mas precisamos ir pela outra mão dessa via, reforçando a singularidade de cada mulher e dando liberdade, sem culpa, para ela escolher o que quer fazer e desconstruir qualquer modelo ou parâmetro de mulher ideal ou mulher do sonho e ainda todo olhar discriminatório sobre suas atividades. Infelizmente algumas mulheres acabam favorecendo o olhar culposo também. Qualquer mulher que na sua posição julgar a outra, que possuir posição diferente, reforçará o peso e aumentará a pressão sobre as demais.

mulher sob pressão
Fonte: Fontes ouvidas na matéria, Portal da Ilha e site do Ministério do Trabalho

Aquela mulher que trabalha não deve pensar que é melhor do que a que não trabalha,
e vice-versa”, exorta o pastor.

Diretora do I’m Coaching – Instituto Internacional de Mentoring e Coaching e membro da Igreja Assembleia de Deus, de Vila Velha, Mônica Oliveira vem utilizando a técnica de facilitar a tomada de decisões em momentos de dilemas na carreira. Segundo ela, a mulher moderna construiu lugar diferenciado na sociedade, o que não existia em gerações anteriores. Porém, esse avanço também trouxe algumas frustrações, tanto por ela ter que compartilhar (pode-se dizer até competir) num espaço quase que exclusivamente masculino, quanto por se sentir culpada por ter que se distanciar um pouco mais da família.

“É altamente desafiador equilibrar exigências da profissão e da família, além das de interesse pessoal. O excesso de tarefas nos leva à autossabotagem, e quando menos percebemos estamos muito mais envolvidas com coisas do que com pessoas. Quando a mulher se deixa levar pela busca incansável por resultados profissionais e cumprimento de tarefas que nunca cessam, deixa de observar que seu relacionamento familiar vai perdendo a qualidade. Tornou-se comum mulheres nas corporações policiais, dirigindo ônibus e caminhões, trabalhando na construção civil ou em postos de gasolina ou como executivas em grandes empresas. Atualmente é raro encontrar um segmento onde não existe uma mulher marcando sua presença.”

 

O que Mônica destaca é o excesso de atividades que sobrecarrega a mente de tal forma que impede uma pessoa de tomar decisões certas. Vale também separar um tempo e buscar profissionais que a ajudem em seu desenvolvimento. “Eu decidi construir um trabalho em torno da vida que desejava ter, e não ter uma vida em torno de um trabalho”, conta. “Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que a roupa?” (Mt. 6:25).

“A necessidade de ser valorizada e promovida é um engano que traz um forte apelo ao seu ego, mas a desvia de seu papel de mãe e esposa”
Eleny Vassão, capelã missionária

“Os homens também têm uma grande parcela de participação nesse posicionamento da mulher, pois muitos são omissos e não assumem seu papel de sacerdotes e provedores da família, transferindo para a esposa responsabilidades que deveriam ser dele.” “Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura” (Cl. 3:19).

Muitas mulheres casadas desconsideram o esposo, perdendo a admiração por eles. Começam a deixá-los de fora de responsabilidades paternas, essenciais na criação dos filhos. “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja” (Ef. 5:22).

Uma mulher humilde, sem competência, pode desenvolver baixa autoestima, permitir que outros a ofendam com facilidade e se tornar uma pessoa amarga. Uma mulher competente, sem humildade, pode permitir que a soberba tome conta de sua personalidade e destrate outras pessoas, incluindo filhos e cônjuge. Mas uma mulher que une humildade e competência consegue ter equilíbrio emocional.

O risco do engano

A necessidade de acertar nas escolhas é um dos maiores pesos que recaem sobre a mulher. Se vai ter filhos agora ou mais tarde; se vai permanecer no mercado de trabalho ou fazer um caminho de “volta para casa”. Outro dilema é se a jornada dupla pode causar um déficit na educação dos filhos, desvios de caráter ou emocionais. Afinal, qual é a prioridade?

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Celene e seu esposo, Pr. Marlon, se adaptaram-se a uma vida na qual ela tem a liberdade de decidir se quer trabalhar

Capelã missionária da Igreja Presbiteriana de São Paulo, Eleny Vassão, depois de experimentar uma vida frenética sendo esposa, mãe, seminarista, capelã hospitalar e administradora na igreja, descobriu o que realmente é prioridade.

 

“A necessidade de ser valorizada e promovida é um grande desejo, um engano que traz um forte apelo ao seu ego, mas a desvia de seu mais importante papel: o de mãe e esposa. E ninguém pode substituí-la de modo eficaz, e nem deve. Há um tempo para cada coisa na nossa vida, e aprendemos a viver plenamente cada uma dessas etapas.”

“O acúmulo de tarefas tem elevado assustadoramente o nível de estresse nas mulheres, afetando seu organismo”
Viviane Nóbrega Jonas, psicóloga clínica e psicoterapeuta corporal

Não se fatigue para ficar rico; não aplique nisso a sua inteligência.  Você quer pôr os seus olhos naquilo que não é nada? Porque certamente a riqueza criará asas, como a águia que voa pelos céus (Pv. 23:4,5). Ensina à criança o caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele (Pv. 22:6).

A psicóloga Patrícia Pina, da Igreja Batista, argumenta: “Nós, mulheres do mundo moderno, nos cercamos de culpa desde o momento que o nosso filho nasce. Quando pensamos no parto, vem a dúvida: será melhor parto normal ou cesárea? O que será melhor para meu filho? Será que ele está sendo negligenciado? Ficará marcado pela ausência da mãe, que tem que trabalhar? É certo que, se a criança cresce respeitadora, saudável, cheia de sucesso, a criação dos pais foi certinha. Agora, se dá errado, se tem algum trauma, a culpa é toda da mãe”, diz.

No consultório, Patrícia atende jovens que foram criados por mães que trabalham fora. “São pessoas íntegras e bem resolvidas. Amam suas mães e são gratas a elas. O sucesso na criação dos filhos não está diretamente relacionado ao fato de a mãe trabalhar fora de casa ou não. Depende de uma família estável e bem resolvida, com uma criação cheia de amor. Nós temos muito mais responsabilidades, principalmente quando a criança é muito pequena. Temos que nos desdobrar para dar conta de tudo e muitas vezes é aí que a culpa aparece. Além do cansaço, nos sentimos culpadas, mas isso pode ser amenizado quando se têm um esposo participativo e uma família que lhe garante apoio. Sou mãe do Pedro, de 2 anos. Voltei aos atendimentos no consultório quando ele estava com quatro meses. Nunca menti para ele ao sair de casa, sempre explico que preciso sair para trabalhar e que depois voltarei para casa e tudo ficará bem. Não podemos chegar em casa e ficar na frente da TV ou ao celular. Precisamos proporcionar um momento gostoso em família.”

O pastor Marlon não acredita em déficit na educação dos filhos. “Se a mulher quer seguir profissionalmente, que assim faça. De que adianta abdicar de tudo e depois oprimir os filhos dizendo: ‘Larguei tudo por causa de vocês’. Isso sim pode causar danos emocionais.” Casado com Aline e pai de Laura e Luisa, o pastor afirma que essa é uma realidade que eles combinaram e se adaptaram, mas que cada família tem a sua configuração, que precisa ser respeitada.

Convite irrecusável

A professora aposentada Marília Pereira Sant’Ana não teve dúvida ao recusar uma excelente proposta, no auge de sua carreira profissional.  “Minha opção pessoal foi trabalhar sempre meio expediente.  Lembro-me de uma ocasião em que recebi uma proposta – financeiramente “irrecusável” – de acumular duas cargas horárias de trabalho. Conversei com meu esposo e, em seguida, chamei meu filho mais velho, que tinha 3 anos. Tentei explicar que eu ficaria mais tempo no trabalho, e ele seria cuidado por uma outra pessoa, mas que isso proporcionaria comprar muitos brinquedos e tênis novos. Ele me ouviu de cabeça baixa e quieto. No mesmo dia, apareceu com um par de tênis na mão e falou-me: ‘Mãe! Não precisa comprar outro tênis, eu já tenho esse’. Entendi a mensagem, pois também já orava a Deus em relação à decisão. Recusei o convite e não me arrependo da decisão, que se confirmou quando li a frase: ‘Nenhum sucesso na vida compensa o fracasso no lar’. Recebi pressões de pessoas que não entendiam como eu podia recusar proposta tão vantajosa. Mas a verdade é que hoje vejo meus filhos e o equilíbrio, respeito e valores que eles têm”, comemora Marília. Para ela, muitas mulheres precisam fazer o caminho de volta sob pena de vir a perder o referencial de maior valor para a vida humana, que é o recôndito familiar.

“Há muitas experiências, até mesmo de artistas famosas que optam por uma espécie de ‘período sabático’, para se dedicar aos anos iniciais da maternidade. Outras optam pela baixa da carga horária, mesmo que isso resulte em redução salarial, entendendo que o ganho será maior, pois aprenderam com Paulo a confiar de que ‘Deus, segundo as Suas riquezas, suprirá todas as nossas necessidades em glória, por Cristo Jesus’” (Fp 4:19).

mulher sob pressão
Fontes: Portal Brasil, IBGE de 2017 com dados da OMS, ONU e (Pnad 2014).

 

Essa “volta para casa”, entretanto, não pode gerar murmuração futura em que se coloca a culpa em filhos por perdas materiais ou interrupção de realização profissional. Seja qual for a decisão, a psicoterapeuta Viviane pondera que o importante “é a sensação de prazer e contentamento de estar fazendo aquilo, do meu modo, à minha maneira. É sentir-se leve com as escolhas e modos de ser e fazer próprios”.

O pastor Walter Sant’Ana Júnior, da Igreja Batista, na Serra, afirma que a situação hoje prevalecente gera, com certeza, esse déficit na educação dos filhos. “Nunca se falou tanto de crianças hiperativas e com outros transtornos diversos, fato comprovado por especialistas em todo o Brasil, deixando pediatras e educadores apavorados. Muitos pais têm tentado justificar seus fracassos mediante a providência de rótulos psicológicos para ‘explicar’ a rebeldia e a falta de limites e valores de seus filhos.”

Ele aponta o livro “Pais Brilhantes e Alunos Fascinantes”, de Augusto Cury,  que chama atenção para a formação de uma geração denominada DRS (Desprovidos das Regras Sociais), o que é corroborado pelo filósofo Mario Sergio Cortella, que em vídeo compartilha até de um momento em que se viu obrigado a solicitar a uma mãe que se retirasse com sua filha de um restaurante, assinalando que esta não estava preparada para viver em sociedade.

“Muitas mulheres precisam fazer o caminho de volta sob pena de vir a perder o referencial de maior valor para a vida humana, que é o recôndito familiar”
Marília Pereira Sant’Ana, professora aposentada

Nesse sentido social, a igreja tem um papel de alta relevância. Ela, como diz o pastor norte-americano Bill Hybells, “é a esperança do mundo”, é a última fonte de reserva de valores perenes que trazem real saúde à família e à sociedade. “Ministérios de Família bem estruturados seriam um caminho altamente positivo. Já há ferramentas muito úteis para ensinar a lidar com finanças, filhos, marido e esposa. A grande questão é saber de onde vem essa pressão e escapar de uma possível paranoia. Será que essa pressão vem do mercado ou dos anseios pessoais, por uma busca de autovalorização da mulher e do consumismo exacerbado de nossa sociedade onde o ter se torna quase que uma paranoia sem controle? Para ele, uma mulher consciente da relevância do seu papel exerce influência poderosa na saúde de nossa sociedade. Caso contrário, o futuro que nos aguarda é sombrio.

Toda mulher precisa ter clareza de seu propósito de vida e permitir o equilíbrio de papéis dentro e fora de casa. Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito (Rm 8:28).

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