Missionários no dia a dia: Qual a melhor estratégia para levar o evangelho nos tempos atuais?

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A Igreja tem hoje o desafio de conscientizar os crentes de sua missão e desfazer o mito de que missionário é aquele que viaja.

Como saber se sou ou não um missionário para qualquer um que cruzar o meu caminho, no dia a dia? Essa é uma pergunta que acompanha muitos crentes que vivem em dúvida quanto à sua missão de testemunhar onde estiver. Alguns questionamentos podem ser feitos a si mesmo, como se estivesse conversando com a própria alma e consciência. Para saná-las, a Palavra de Deus esclarece. É convertido, nascido de novo (Jo 3:5)? Ama o próximo e sente paixão pelas almas (Mc 12:31)? Crê naquilo que prega (Rm 10:17)? Dá testemunho de vida (At 1:8)? É obediente e comprometido (II Tm: 2:15)?

Essas são algumas evidências do verdadeiro missionário que não precisa cortar os ares, cruzar oceanos ou percorrer milhares de quilômetros de estrada para viver com um outro povo, amá-lo e adaptar-se ao seu contexto para evangelizá-lo, correndo perigos. Esse tipo de paradigma para os que se sentem chamados para a obra está perdendo espaço para um novo e desafiador sentimento, cada vez mais forte na mente e no coração de quem vive com a alma nas nuvens e os pés no chão.

Coragem para enfrentar diferenças e viver experiências nunca antes imaginadas é a proposta de agora para quem tem uma vocação enxuta e deseja testemunhar e ser uma bênção para qualquer um que atravessar o seu caminho, na roda de amigos, no trabalho, na vizinhança, na escola ou no ônibus, consciente de que o missionário começa sua tarefa exatamente no lugar onde está pisando.

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“Para fazer missões, não precisamos ir muito longe” – Karoline Sartorio Monteiro, comerciante

“Trabalho numa escola e sei que onde estou existem muitas necessidades e que posso testemunhar”, diz a pedagoga da Escola Estadual Almirante Barroso, Silvana Pinheiro. “Para fazer missões, não preciso ir muito longe, faço isso no meu dia a dia”, conta a comerciante Karoline Sartorio Monteiro. Para endossar essa verdade, um exemplo de quem já esteve dos dois lados é a missionária Nívia Santos, que viveu muitos anos em outro continente e agora faz missões locais: “Aprendi também que todos nós, cristãos, somos missionários onde estivermos.”

Essas três mulheres sentem um amor tão grande pelo próximo que, para dar vazão à sua paixão e produzir frutos para a salvação, não precisam fazer mudanças radicais no ambiente onde vivem e convivem. Essa ideia desfaz o conceito glamouroso de que missionário é somente aquele que está servindo em lugares distantes e culturalmente diferentes de onde moramos.

“O missionário precisa aprender a identificar onde Deus está agindo e reconhecer as portas que Ele está abrindo” – Marcos di Giacomo Rodrigues, missioário

Para saber se temos a vocação para pregar onde estamos, basta responder a duas perguntas: eu me sensibilizo pelas pessoas que me cercam ou estou esperando um chamado sobrenatural para ir a campos distantes? Quem é o meu próximo a quem devo testemunhar? “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10:13-14).

A Palavra de Deus é recheada de exemplos. O evangelista Filipe foi um missionário cristão do século I e um dos 70 discípulos da época. Era um homem que pregava para aqueles que ninguém queria pregar; cumpriu seu papel por onde passava e em diversas ocasiões, começando sempre por onde estava até ser enviado a outras cidades, conforme registro bíblico em Atos 8:40. Ele era um crente comum e, embora tenha sido citado diversas vezes em Atos, não deve ser confundido com o outro Filipe (apóstolo).

Seu jeito de fazer missões revela que nossa incumbência é pessoal e regionalizada. E que, somente depois de comprovar a obediência ao chamado para testemunhar onde estamos e para qualquer pessoa, é que nos tornamos aptos para outras experiências no campo missionário. Filipe pregou em Jerusalém e Samaria até receber a ordem de Deus dada por um anjo para que fosse para o deserto de Gaza e, em seguida, Cesareia. Por onde passava, anunciava o Evangelho (vers. 40 b).

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De dentro para fora

Não podemos começar a testemunhar pelos confins da terra. A palavra de Jesus foi clara: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra”. Isso significa que “até” indica término, fim, e não o começo da caminhada. É preciso começar por Jerusalém, que representa o cotidiano de onde vivemos. Do que adianta ganhar o mundo inteiro se nossos amados familiares e amigos forem para o inferno? Eles são nossos primeiros campos de atuação.

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É o que o pastor e missionário Josenildo Müller chama de estilo de vida. “Por onde um filho de Deus passa, faz com que qualquer pessoa seja impactada pelo amor de Jesus que habita e se manifesta nele. Essa é a sua Jerusalém. Ou seja, onde você estiver fisicamente, não importa o que esteja fazendo, ali é sua Jerusalém”, orienta.

Karoline Sartorio Monteiro, 18 anos, congrega na Igreja Evangélica Moriah, em Vila Velha (ES), e trabalha no comércio, também no município. Ela é um exemplo de vocação enxuta, nascida na alma e na mente, pois faz questão de testemunhar onde está, especialmente no ambiente profissional. “Para fazer missões, não precisamos ir muito longe. Se olharmos para o nosso lado, veremos pessoas necessitadas desse amor, e levo isso a sério. Devemos aproveitar a oportunidade com os que Deus coloca pertinho de nós. Tenho tido muitas experiências no trabalho, onde vejo que existem pessoas sofrendo. Recentemente tive a oportunidade de conversar com umas das companheiras de trabalho, e ela disse que realmente precisa acertar a vida dela e buscar mais de Deus e que precisa de Jesus!”, conta a jovem, que atua no ministério de música de sua igreja, mas que vem se destacando como missionária local.

Assim como ela, antes de se destacar como evangelista, Filipe também ocupava o cargo de diácono da igreja de Jerusalém (At 6:1-6). Acredita-se que, por ser um judeu helenístico, ou seja, que falava o grego, tenha desempenhado um papel importante na ligação entre a igreja de Jerusalém e as regiões vizinhas, o que demonstra que qualquer habilidade pessoal, profissional ou eclesiástica que se exerça no contexto onde se vive pode ser usada por Deus para facilitar a chegada da mensagem de salvação aos que precisam. E certamente há muitos deles por perto.

Turistonários, não!

A palavra pressupõe uma conotação a respeito de algo muito sério. O pastor Josenildo Muller afirma que, de fato, há muita gente fazendo turismo em nome de missões. “São os famosos ‘turistonários’, que no dia a dia não têm a mínima sensibilidade para com os perdidos à sua volta, mas que, quando aparecem as tais ‘viagens missionárias’, lá estão eles prontos para ‘fazer missões”, descreve.

Josenildo Müller
“Onde você estiver fisicamente, não importa o que esteja fazendo, ali é sua Jerusalém” Josenildo Müller, pastor e missionário

A pedagoga Silvana Pinheiro afirma que há pessoas que, com certeza, Deus convoca para a obra em tempo integral em outras terras e que deixam seus familiares, cidade e trabalho para se dedicarem a esse chamado. Entretanto ela faz um alerta. “Mas isso traz uma áurea para quem está vivendo mais integralmente para a pregação do Evangelho. Isso é uma distorção no entendimento do próprio Evangelho. Isso não torna essas pessoas mais importantes no Reino de Deus ou mais dedicadas do que aquelas que estão vivendo nas suas realidades cotidianas e ligadas no que a gente atribui a uma vida secular. Onde estivermos, somos canais do Reino de Deus, no dia a dia, nas suas realidades profissionais, da sua vizinhança, realidades familiares, e é para isso que todos nós somos chamados, para vivenciar isso nas mais diversas situações. Trabalho numa escola e entendo que onde estou existem muitas necessidades. Entendo que cada ato meu pode ser uma ação abençoadora de serviço para aquela comunidade, seja com os professores, seja com os alunos, seja com as suas famílias. Ali eu tenho uma missão com os meus amigos e familiares. Vivo uma vida normal com os valores do Evangelho”, declara Silvana.

Karoline tem experimentado o Evangelho que mexe com suas pernas e braços, tirando-a da zona de conforto por causa do amor que sente pelo próximo. Com a igreja, tem feito um trabalho de acompanhamento com muitas famílias do bairro, nas ruas, orando nas casas. “Nosso principal objetivo não é levar o nome ou divulgar o nome da igreja, e sim divulgar o nome de Jesus! Nos últimos meses fizemos muitos trabalhos sociais, como o sopão para os moradores de rua com a entrega de uma palavra e de um louvor. Fizemos trabalhos em orfanatos e em bairros carentes levando a alegria que vem de Deus. Não preciso viajar para encontrar ótimas oportunidades de ser uma missionária”, explica.

O pastor Muller explica que a palavra “testemunha” é a tradução de “martus”, do grego, de onde deriva a palavra “mártir” em português. “Martus” significa alguém que tem um testemunho (uma prova) que esclarece e evidencia uma verdade. Isso vai desde o aspecto histórico de alguém que presenciou um acontecido, passa pelo contexto legal no qual alguém, diante de uma Corte, apresenta fatos que provam a verdade, e chega ao seu ápice que é o morrer por uma verdade.

Dicas de leitura

 

livro-O-Evangelho-MaltrapilhoO Evangelho Maltrapilho
Brennan Manning
Editora Mundo Cristão

 

 

 

livro-a-igreja-local-e-missoesA Igreja Local e Missões
Edson Queiroz
Vida Nova

 

 

 

Missões: Estratégias para Evangelizar
Daniel Mastral e Isabela Mastral
Ágape

 

 

 


 

“Nosso envolvimento e dedicação não são a uma causa batista, presbiteriana, pentecostal ou a um ministério em particular. Minha Jerusalém é o meu dia a dia, por onde eu passar ou estiver; minha Judeia é onde o Espírito me convoca a intervir, a partir de Jerusalém; minha Samaria é algum grupo de excluídos em que o Espírito conta comigo para atuar na sua inclusão no processo de redenção, e meus confins da terra são alguma expansão do reino além-fronteiras, onde o Espírito quer enviar alguém e conta comigo como parte do envio”, orienta o pastor.

Se conseguirmos ser testemunhas onde estamos (Jerusalém), então poderemos partir para Judeia (cidade próxima), Samaria (povo excluído, marginalizado), até os confins da terra (nações e mundo). Ou seja, missões se fazem de dentro para fora.

Eles voltaram!

Muitos missionários, depois de passarem boa parte da vida em campos distantes, entenderam que deveriam regressar para continuar a obra na sua terra natal. Sentiram-se compelidos por uma força de Deus para o mesmo trabalho, porém de volta para casa.
Nívia Santos e seu esposo, William, atuaram na África do Sul, mas retornaram de lá há quase quatro anos. Atualmente estão no sertão de Pernambuco, na cidade de Arcoverde.

Antes mesmo de ir para ‘terras distantes’, eu já era missionária. Eu já entendia a minha missão de anunciar o Evangelho a partir de onde eu estava. Se eu não me disponho a partir de onde estou, como irei me dispor para ir a qualquer lugar que Deus mandou? Aprendi também que todos nós, cristãos, somos missionários onde estivermos. O ir para um outro país, além de ser um chamado específico para aquele momento de minha vida, tinha a ver com disponibilidade. Houve um tempo em que ‘missionário’ era só aquele que ia para terras distantes, mas hoje entende-se que missão se faz em qualquer lugar! Como disse alguém, ‘onde há uma vida sem Cristo, ali é um campo missionário’. Hoje também trabalhamos com nossa profissão. Sou professora da rede municipal, e o meu esposo é psicólogo da Funase (Fundação de Atendimento Socioeducativo)”, conta Nívia.

Silvana-Pinheiro
“Trabalho numa escola e entendo que onde estou existem muitas necessidades”
Silvana Pinheiro, pedagoga

A família missionária formada por Marcos di Giacomo Rodrigues, sua esposa, Eunice, e os dois filhos, David e Sarah, viveu grandes desafios longe e perto de casa. “Todo missionário precisa aprender a identificar as necessidades de cada bairro, cidade, estado ou país. A necessidade de falar não é somente aos que estão na miséria financeira ou da fome, pois a miséria também se encontra nos países ricos em áreas emocionais, intelectuais ou espirituais. Onde há falta de Deus, há necessidade de se falar dEle. O missionário precisa aprender a identificar onde Deus está agindo e reconhecer as portas que Ele está abrindo. Para ser mais específico, Deus quer que entendamos onde ele quer que estejamos trabalhando”, narra.

Marcos, a mulher e as duas crianças viveram seis anos na África do Sul, na Cidade do Cabo, trabalhando com povos de língua portuguesa. Tiveram muito contato com brasileiros, lusitanos e refugiados de Angola e Moçambique. Seu ministério abrange projetos de música, esporte e ensino de línguas cujo objetivo é criar relacionamento com as pessoas e, assim, compartilhar o Evangelho.

“Passados esses seis anos, entendemos que Deus queria que voltássemos para o Brasil. Chegando aqui, Ele nos direcionou a implantar o nosso projeto no Espírito Santo, na região das montanhas, com povos descendentes da Itália. Moro em um bairro chamado Vivendas, no município de Domingos Martins, mas congrego na Igreja Batista de Venda Nova, que fica a 15 quilômetros. Como as cidades são muito próximas, conseguimos alcançar as pessoas não apenas de um município, mas também de toda a região. Por meio da igreja, implantamos o ‘Natal Luz’. Através da arte e da cultura, Deus tem nos dado a graça de quebrar barreiras da cultura e da religião. Já temos desempenhado esse projeto aqui no Brasil há cinco anos e meio”, comemora.


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