Maurício Zágari fala sobre amor, perdão e eleição

Fotos: Marco Juric

“Votar em alguém só porque ele se apresenta como evangélico é se arriscar a votar em Judas, Ananias ou Safira: um perigo”

“Eu amo gente.” A afirmativa do escritor, editor, jornalista e teólogo Maurício Zágari autentica a prática que permeia o trabalho com pessoas. Em sua prateleira, três prêmios Areté, entregues pela Associação de Editoras Cristãs do Brasil (Asec): “Autor Revelação do Ano” e “Melhor Livro de Ficção”, por “O Enigma da Bíblia de Gutenberg”, e “Melhor Livro de Inspiração, Meditação e Oração”, por “Confiança Inabalável”, ambos da Editora Mundo Cristão. Nesta entrevista, ele fala sobre traduções bíblicas perigosas, a polêmica do voto do evangélico e o processo de escrita. Confira!

Fale sobre sua primeira experiência com Deus.

Não tive uma primeira experiência, no sentido de ter um dia específico em que fui à frente na hora do apelo “aceitar Jesus”. Isso não aconteceu em minha jornada com Cristo. Deus foi falando aos poucos, ano após ano, e continua me conquistando, todos os dias. Minha experiência com Deus se dá no gerúndio: ocorre e se renova todos os dias.

Escritor, editor, jornalista e teólogo. A junção dessas formações facilita a comunicação do Evangelho?

Sem dúvida. Todos somos feitos da soma de nossas experiências mais os dons e talentos que Deus nos concedeu. Como teólogo, adquiri a base que me permite falar do Evangelho de modo bem alicerçado, sem enveredar por heresias ou modismos. Como jornalista, aprendi a absorver conhecimento acadêmico, observar o mundo ao meu redor e traduzir para o leitor em linguagem sintética e compreensível. Como editor, aprendi a direcionar e organizar o texto. Como servo, aprendi a escrever com a finalidade de servir a Deus e ao leitor, e não de exaltar o meu ego.

“Há muitos intelectualmente capazes, com enorme bagagem teológica, que não nasceram de novo”

Como se descobriu escritor?

Comecei a escrever despretensiosamente, no meu blog, somente com o desejo de compartilhar min has reflexões, sem expectativas nem objetivos. Aos poucos, comecei a perceber que pessoas diziam estar sen do abençoadas pelo que eu escrevia. Isso me mostrou que Deus estava me direcionando para essa área. Passar a escrever livros foi algo natural.

Faz um paralelo entre usar a capacidade intelectual e ser instrumento do Espírito Santo?

Há muitos teólogos de extrema capacidade intelectual e profundos conhecimentos acadêmicos, mas sem o coração em Deus. Vivem a teologia como um fim em si mesma. Acabam se tornando ególatras. Quem é usado por Deus precisa se aprofundar intelectualmente, pois isso vai ajudá-lo a compreender melhor o Reino e a proclamá-lo. Mas nem todo intelectual da teologia tem a piedade indispensável para quem é usado por Deus. A realidade é que há muitos intelectualmente capazes, com enorme bagagem teológica, que não nasceram de novo.

Qual sua avaliação sobre os mercados editorial e gospel?

O mercado editorial cristão no Brasil é excelente. Produz todo tipo de literatura de qualidade, sobre os mais variados assuntos e para os diversos tipos de leitor. Estamos muito bem servidos. Já o mercado gospel, como o entendo, produz bastante coisa desnecessária e, muitas vezes, com foco apenas no dinheiro, o que é lamentável.

Qual o propósito da Bíblia Sagrada “Na Jornada com Cristo”, lançada recentemente?

A Bíblia Sagrada “Na Jornada com Cristo” é a primeira com a tradução Nova Versão Transformadora (NVT), a melhor que há no Brasil hoje, com textos adicionais. A Editora Mundo Cristão convidou a mim e ao editor Daniel Faria para escrevermos estudos que transmitam as doutrinas fundamentais do cristianismo numa linguagem coloquial, gostosa de ler, que todos conseguem entender. Quem ler os textos, as perguntas e as demais seções da Bíblia Sagrada “Na Jornada com Cristo” conhecerá todo o arcabouço da teologia sistemática. Ferramenta maravilhosa para membro de igreja que nunca se aprofundou no estudo da teologia cristã. Sem dúvida, é a melhor Bíblia de estudo ao novo convertido, e recomendo-a também para o ensino na Escola Dominical e debate em pequenos grupos. “Muitas religiões sincréticas fazem mandingas ‘em nome de Jesus’ e dizem o que Deus não diz”

Como se dá seu contato com os leitores dos seus livros?

Costumo me relacionar com meus irmãos e minhas irmãs que acompanham meus escritos por todos os meios que posso. Amo gente. Amo estar com pessoas e compartilhar bons momentos com elas. O Reino de Deus é um reino de relacionamentos. Por isso, me relaciono pelo Facebook, pelo Instagram, por meu blog, em igrejas onde prego e palestro e onde mais Deus me permite esbarrar com os amados irmãos e irmãs que me acompanham pela literatura.

Tem um rebanho para cuidar?

Não. Tenho amigos e irmãos, a quem posso aconselhar e com quem compartilho questões da vida e da fé, como um amigo batendo papo. Não sou um pastor no sentido institucional do termo, nem tenho a pretensão de ser. Minha jornada pessoal me levou a entender que não é isso o que Deus tem para minha vida.

Destaque pontos fundamentais entre seus livros que mais emocionaram você.

Já foram publicados nove livros de minha autoria. Pela Editora Mundo Cristão: “Perdão Total”, “O Fim do Sofrimento”, “Confiança Inabalável”, “Na Jornada com Cristo”, “Perdão Total no Casamento”, O Enigma da Bíblia de Gutenberg”, “Sete Enigmas e um Tesouro”, e “O Mistério de Cruz das Almas”. E, pela editora Luz e Vida, “A Verdadeira Vitória do Cristão”. E escrevi estudos e comentários da Bíblia de Bíblia Sagrada “Na Jornada com Cristo”, em parceria com o editor Daniel Faria, experiência fantástica. “Perdão Total” foi um livro marcante, pela repercussão e pelos resultados que gerou.

A primeira tiragem, 5 mil exemplares, esgotou em três semanas. Hoje está em sua quinta impressão e vendeu 15 mil exemplares. É muito significativo receber relatos de quem conseguiu perdoar e se perdoar após a leitura da obra. A segunda obra que destaco é a Bíblia Sagrada “Na Jornada com Cristo”. Emocionante escrever textos adicionais para o principal livro já escrito, que transmitem os princípios mais importantes do cristianismo ao leitor, em linguagem simples. Uma Bíblia para quem não tem bagagem teológica acadêmica, mas quer crescer no conhecimento da fé.

As diferentes traduções representam risco à autenticidade do teor inspirado por Deus?

No Brasil, há três traduções em linguagem mais atual e acessível: NTLH, NVI e NVT. A NTLH não preserva o texto original, uma liberdade muito grande na tradução que afeta sua credibilidade. Por essa razão, não a uso para nada. A NVI tem muitas questões polêmicas e passagens questionáveis. Uso a NVT (Nova Versão Transformadora), sem dúvida alguma a melhor tradução bíblica em português. Não há absolutamente nenhuma correlação entre usar uma linguagem mais atual e interferir na autenticidade.

É uma questão apenas de clareza. A Bíblia foi inspirada por Deus para ser um livro compreendido por quem o lê. Não existe nenhuma razão para se preservar uma tradução antiquada e incompreensível, com o uso de palavras que ninguém mais fala ou compreende (como “porfia” ou “rubicundo”), estruturas que caíram em desuso (como a mesóclise) e pesos e medidas que as pessoas não compreendem (como côvados e metretas). No caso da NVT, a fidelidade aos originais em grego, hebraico e aramaico é total, e você tem clareza na hora de ler. Recomendo que adquiram a Bíblia NVT e a comparem com as traduções arcaicas, como a ARC e a ARA.

A Igreja cumpre seu papel de pregar o Evangelho corretamente?

Para responder a essa pergunta, primeiro teríamos de definir o que você chama de “Igreja”. No Brasil de hoje, as milhares de manifestações da chamada “Igreja evangélica” são absolutamente distintas. Estamos falando dos calvinistas? Ou dos neopentecostais? Ou dos adeptos da Missão Integral? De qual denominação? Cada grupo doutrinário ou denominacional tem agido de maneira individualizada, o que não nos permite falar sobre uma Igreja única. Parte desses grupos tem cumprido sua missão: uns, com ênfase no evangelismo, outros no discipulado, outros no ensino acadêmico, e por aí vai. Muitos desses grupos não são de fato Igreja de Cristo, mas uma expressão caricata do real ajuntamento cristão. Igrejas que seguem a teologia da prosperidade e a confissão positiva, por exemplo, usam a Bíblia e o nome de Jesus para praticar algo que não é cristianismo. Muitas são religiões sincréticas que fazem mandingas “em nome de Jesus” e dizem o que Deus não diz.

“A grande dificuldade da maioria das pessoas é compreender que amar não significa concordar. Tampouco significa fazer o que o outro faz”

Comunhão é a plataforma da família cristã. Como manter um casamento sem que um dos cônjuges se anule e como evitar conflitos?

Perdoar e se arrepender diariamente. Esse é o único caminho, como demonstro em meu livro “Perdão Total” no Casamento”. Não acredito em fórmulas mágicas ou em “sete passos para um casamento feliz”. O casamento é um projeto de vida a dois, a ser construído dia a dia, com grandes doses de renúncia pessoal e entrega ao ser amado. Biblicamente, somente uma jornada conjugal trilhada com perdão e arrependimento diários supera
conflitos familiares.

Existe algum método para se chegar ao melhor candidato à presidência da República? Candidatos cristãos devem ter nossa preferência?

É muito fácil se apresentar como cristão sem o ser de fato. Em minha opinião, um candidato apenas se dizer cristão fala muito pouco a seu respeito. É preciso ver os frutos de suas palavras e ações. A história recente de nossa vida política nacional nos apresentou políticos que nominalmente eram evangélicos, mas que acabaram sendo presos em acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e absurdos semelhantes, na esfera executiva e na legislativa. Temos visto péssimos exemplos de comportamento e posicionamento público de supostos evangélicos que ocupam cargos nos poderes Executivo e Legislativo.

Precisamos analisar alguns aspectos a fim de escolher um candidato, principalmente as propostas de governo e o que a pessoa fez no passado. Votar em alguém só porque ele se apresenta como evangélico é se arriscar a votar em Judas, Ananias ou Safira: um perigo.

Como os cristãos deveriam se posicionar acerca dos falsos líderes que estão na TV, na política ou na Igreja?

Primeiro, não seguindo os tais. Segundo, denunciando-os, alertando os irmãos acerca deles. Terceiro, orando por eles. E, se possível, instruindo-os, a fim de que se convertam e encontrem o caminho da verdade. A apologética cristã deve ter como objetivo alertar a Igreja contra os lobos em pele de cordeiro e admoestar os falsos profetas, levando-os ao arrependimento, ao abandono da mentira e à sua salvação. Porém – e aqui está o nosso erro –, isso não deve ser feito como a Igreja tem feito, com ódio, fúria, agressividade. A defesa da fé deve ser feita com mansidão e paciência, sem ser de modo briguento e mediante a instrução, e não a ira, conforme Paulo claramente nos ensina em 2 Timóteo 2:24-26.

Por que você afirmou que amar o próximo pode nos custar caro?

Escrevi isso referindo-me ao fato de que as pessoas, em sua maioria, não estão preparadas para compreender o amor bíblico em toda a sua extensão e, menos ainda, a colocá-lo em prática. Em muitos ambientes do nosso meio evangélico – apaixonado por modelos, patotas e rótulos preconcebidos –, amar o próximo fará de você um proscrito. Se está realmente disposto a amar o próximo como o samaritano da parábola amou – isto é, como Cristo ama –, saiba que será isolado e rejeitado. Vão chamá-lo de adjetivos nada elogiosos, farão piadas e deixarão de convidá-lo para almoçar. E isso simplesmente porque muitos não entendem o que é o amor bíblico e o confundem com caricaturas bizarras de seu amor imaginário. Faça o teste: quando você demonstra publicamente amor pelos arminianos, será rejeitado pelos calvinistas, e vice-versa. Se demonstra amor pelos pentecostais, os cessacionistas o desqualificarão, e vice-versa. Se ama sem censuras os cristãos com ideologias políticas de direita, os de esquerda o rotularão, e vice-versa.

Se, por amor às ovelhas de Cristo, for pregar numa igreja neopentecostal, será xingado de “herege” para baixo. Se, por amor à Igreja de Cristo, for pregar aos presbiterianos, será qualificado de “crente frio” e “sorveteriano”. Se, por amor, tratar com carinho um cantor de música gospel, será ofendido por quem só canta hinos antigos. Se ama um católico romano à vista de todos, vão chamá-lo de ecumênico. Se ama um umbandista, vão chamá-lo de desviado. Se ama um homossexual, vão chamá-lo de apóstata. Se ama aquele pastor complicado, vão chamá-lo de liberal. E assim por diante. A grande dificuldade da maioria das pessoas é compreender que amar não significa concordar. Tampouco significa fazer o que o outro faz. Muito menos ser conivente com práticas equivocadas ou pecaminosas de pessoas a quem você dá amor.


O que vem por aí

Em novembro, será publicado o livro que talvez seja o mais importante da trajetória de Maurício Zágari: “Perdão Total na Igreja”, uma obra que o levou a entrevistar mais de 50 pessoas que se consideram feridas na igreja ou pela igreja, além de teólogos, pastores e psicólogos. Trata de pessoas feridas que, por conta disso, abandonaram a vida de fé ou continuaram na comunhão, mas com traumas profundos na alma e nas emoções. “Para escrever esse livro, usei minha experiência como jornalista, a fim de investigar o problema, e como teólogo, no intuito de propor o caminho bíblico da cura e da restauração desses irmãos e irmãs que, lamentavelmente, foram machucados no ambiente eclesiástico.”


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