Maurício Soares e a campanha #TrocoLikesPorStreams

“Temos que promover um grande esforço para que o consumo de música digital no segmento cristão siga um nível semelhante ao que vemos no mercado secular”

Com 30 anos de carreira, o entrevistado desta edição de Comunhão é conhecido no meio cristão e também no secular. Publicitário e palestrante, Maurício Soares é diretor de A&R da Sony Music no segmento gospel. Sempre com ideias inovadoras, já contribuiu para a reestruturação e o crescimento de empresas como MK Music, Line Records e Graça Music.

Para alavancar ainda mais a distribuição nas plataformas digitais de streaming, ele acaba de criar a campanha #TrocoLikesPorStreams. O profissional fala, entre outros assuntos, sobre as ações que serão desenvolvidas, evolução do mercado e estatísticas. Confira.

O consumo de música vem sofrendo mudanças radicais nos últimos anos. LP, K7, CD, DVD… E agora áudio streaming por intermédio da internet. No público secular, percebemos bastante envolvimento com essa nova ferramenta. O público cristão se comporta da mesma forma? Por quê?
A indústria fonográfica talvez seja um dos segmentos de negócios que tenham vivenciado o maior número de transformações do planeta. Estou completando 30 anos de mercado e vivi intensamente algumas dessas mudanças, começando com a transição entre o vinil e o CD. Hoje vivenciamos a segunda onda digital, na qual o download passa a ser substituído pelo streaming. Alguns poderão me questionar sobre a transição entre o formato físico e digital. Para esses, posso afirmar categoricamente que o formato físico ficou no passado. Particularmente estou focado no digital nos últimos cinco anos, sendo que de maneira ainda mais efetiva a partir de 2015.

Respondendo à última parte de sua pergunta, infelizmente o público cristão demorou ou está demorando a perceber essa mudança. E geralmente colocamos uma responsabilidade grande no próprio público consumidor por esse atraso, mas posso garantir que as gravadoras do segmento são as maiores responsáveis por esse delay. Afinal, demoraram demais a mudar o foco no sentido da produção e do consumo digital. Por essa falta de atitude e visão, os artistas também não perceberam a necessidade de se reinventarem e, no fim, o público manteve-se à margem das transformações. Agora temos que promover um grande esforço para que o consumo de música digital no segmento gospel siga um nível semelhante ao que vemos no mercado secular.

Vimos há algum tempo um movimento de retorno dos LPs. O streaming é um caminho sem volta?
As pessoas costumam confundir os movimentos, entendendo que o consumo de LP traz a possibilidade de um retorno consistente do formato. O mercado de LPs é um nicho, jamais irá funcionar como consumo de massa. É uma tendência, quase um modismo, e essa questão está relacionada ao conceito de memória afetiva, ou seja, às lembranças musicais formadas até os 20 anos de idade em cada indivíduo. Já o streaming chegou revolucionando e potencializando o consumo de música em escala global. Sim, é um caminho sem volta e, como profissional do mercado fonográfico, nossa dúvida é quanto ao próximo formato, porque neste momento não enxergamos um modelo tão completo e adaptado de consumo de música. Dizemos que, quando o indivíduo tem acesso às plataformas de áudio streaming, o seu jeito de interagir com a música torna-se absolutamente diferente.

Ouça a entrevista com Mauricio Soares


O que é a campanha #TrocoLikesPorStreams, que foi lançada durante a Expo Cristã?
Como respondi na sua primeira pergunta, o público cristão no Brasil demorou (e segue demorando!) a entender a mudança no formato e na proposta de consumo de música através dos aplicativos de áudio streaming. Em 2011 e 2013, Damares estava no top 10 de venda de discos no Brasil entre todos os artistas, cristãos e seculares. Por muitos anos, ela esteve entre os cinco artistas mais importantes da Sony Music no Brasil.

Com o advento da transição entre físico e digital, houve uma grande mudança no perfil dos artistas em termos de performance de vendas e relevância. Ou seja, o digital provocou uma reviravolta absurda, dando espaço para muitos jovens artistas e revertendo por completo o perfil dos principais artistas do mercado. Nomes como Fernandinho, Aline Barros e a própria Damares, entre os artistas do segmento gospel, tiveram seus números e resultados modificados dentro desse universo digital. Por exemplo, em razão dessas mudanças, se antes tínhamos artistas gospel no top 10 ou mesmo no top 20 ou 30 em vendas no Brasil, atualmente não temos sequer um deles entre o top 200, ou seja, saímos do topo da lista para figurar abaixo do top 400 ou 500.

A hashtag #TrocoLikesPorStreams surgiu em um de nossos treinamentos digitais com artistas do cast da Sony Music, e isso aconteceu antes da Expo Cristã. Durante a feira, algumas gravadoras reuniram-se, e surgiu o desejo de fazermos algo no sentido de chamar a atenção do público evangélico para a questão dos streamings. Ressalte-se que a campanha não é em prol do consumo de música digital, mas especificamente do consumo pelos aplicativos de áudio streaming, ou seja, Deezer, Spotify, Apple Music e Google Play. Depois dessa primeira reunião, outros encontros estão acontecendo e muito em breve uma campanha nesse sentido será lançada.

Desde o lançamento da campanha, já temos números? Como tem sido o envolvimento do público?
Na verdade, não lançamos oficialmente a campanha. Durante a Expo Cristã lançamos as bases do que deverá acontecer nos próximos meses. Historicamente as gravadoras do segmento não têm muita proximidade uma com a outra, e isso trouxe ao longo dos anos uma série de prejuízos para o segmento como um todo. A campanha #TrocoLikesPorStreams é uma ação desenvolvida pela própria Sony Music e em pouco tempo chamou a atenção do mercado. A campanha desenvolvida em conjunto pelas gravadoras será lançada oficialmente em novembro.

Dias atrás, tivemos uma primeira reunião de trabalho e ali elaboramos todas as próximas ações. Estiveram presentes representantes da Universal Music, Som Livre, Graça Music, Sony Music, Mess Entretenimento e Central Gospel. As gravadoras Oni Music, Canzion e Musile Records também já aderiram ao projeto, ou seja, temos uma grande representatividade entre os players do mercado gospel nacional e nada impede que mais algumas outras empresas se juntem a nós nos próximos meses. Além dessas companhias, Spotify e Deezer já demonstraram total interesse em participar e apoiar o projeto. Então, creio que estamos diante de um movimento histórico e que irá promover uma mudança significativa no consumo de música gospel no país.

Qual o papel dos artistas da Sony Music nessa campanha? Como está a adesão?
Em primeiro lugar, o artista precisa ser um usuário contumaz das plataformas digitais. A Sony Music vem investindo na capacitação e no treinamento dos artistas do cast ao longo dos últimos três anos, e vemos claramente o quanto essa iniciativa fez e está fazendo a diferença para o próprio artista e para a sua performance no mercado e com o público. Para a campanha, temos adesão e participação de todos os principais artistas do cast de cada gravadora envolvida, e isso trará um alcance fantástico ao projeto, afinal, se somarmos todos os artistas, estimamos que estes possuam mais de 400 milhões de seguidores em suas redes sociais, portanto, falaremos com um público muito grande.

O YouTube é um concorrente direto do streaming? Vocês desenvolveram alguma ação especial para esse canal?
Vamos começar definindo melhor os conceitos. O YouTube é uma importante plataforma de consumo de música e principalmente de divulgação, atuando na área de vídeo streaming. YouTube e Vevo são as principais plataformas de vídeo streaming, e Spotify, Deezer, Google Play e Apple Music são os maiores players na área de áudio streaming. A campanha #TrocoLikesPorStreams, como já disse anteriormente, é focada em incentivar o consumo de música pelos aplicativos de áudio streaming.

Em 1999, a receita do mercado musical era de US$ 21 bilhões. Naquele mesmo ano, o segmento entrou em colapso (por causa da pirataria, do YouTube…) e, teve seu ponto crítico, em 2014, quando faturou somente US$ 3,1 bilhões. Qual o cenário dos três últimos anos?
Em 2015, houve crescimento na indústria fonográfica mundial após décadas de declínio. Naquele ano, o mercado global cresceu 3,9%; no Brasil, o aumento foi de 10,75%, ou seja, praticamente três vezes acima da tendência mundial. Já em 2016, a queda das vendas físicas foi tão acentuada que influenciou o resultado global do mercado e, nesse ano, o mercado manteve-se estável. Para 2017, estima-se que o mercado tenha um crescimento superior a 5%, sendo que no Brasil estima-se um avanço da ordem de 3% a 5%, mesmo com toda a crise do país. A expansão do mercado fonográfico deve-se unicamente às questões digitais. Se expurgássemos as vendas físicas, o mercado cresceria em torno de 60% a 75% ao ano, algo incrível!

Há dados nacionais comparativos entre as vendas digitais e físicas?
No Brasil, estamos convivendo em 2017 com 96% de vendas digitais, contra apenas 4% de vendas físicas e, neste último caso, basicamente representadas pelo CD. O mercado de LPs no Brasil é bem segmentado e não tem relação com a frontline (lançamentos) e sim, com produtos de catálogos. Nesse caso, a memória afetiva tem sim relação direta, mas ainda assim é um mercado de nicho. Não há uma única grande gravadora investindo nesse formato, nem Brasil nem em qualquer outro país pelo mundo.

O que vem pela frente?
Espero que o mercado gospel no Brasil descubra e se engaje o quanto antes no ambiente digital. Particularmente, estimo que hoje nem 5% do público evangélico brasileiro esteja integrado ao novo ambiente digital, especialmente aos aplicativos de áudio streaming. Portanto, quando esse enorme público consumidor for inserido nesse novo contexto, teremos números absurdos e muito positivos pela frente! Meu empenho pessoal é para que esse público, de mais de 60 milhões de consumidores diretos e de outros tantos milhões de brasileiros, entenda o quanto antes o consumo de música digital. Quanto menos tempo tivermos para a inserção desse público consumidor, melhores resultados teremos.

Quais as perspectivas para a música digital?
Para o alto e avante! As possibilidades são ilimitadas. Tenho dito que nunca na história da música vivenciamos um momento tão incrível e tão intenso. O alcance da música gospel brasileira sobre diferentes públicos, ampliando consideravelmente as fontes de receita, traz uma responsabilidade enorme aos artistas e gravadoras do segmento. Estamos diante de um desafio, mas ao mesmo tempo de possibilidades infinitas. A questão é apenas definir o período de tempo para que essa transformação aconteça de fato entre nós.

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