Maldição hereditária é real?

A garantia de Deus é que estar ao lado de Cristo nos assegura uma vida em liberdade

Vez por outra nos deparamos com casos de famílias marcadas por dificuldades ou mesmo tragédias que se repetem em duas, três ou mais gerações. E então, com frequência esses acontecimentos em série são justificados como madição hereditária. Mas ela existe mesmo? Filhos podem ser responsabilizados pelos pecados de pais ou avós? O que diz a Palavra sobre isso?

Há um relato a respeito de um homem que embarcou no cruzeiro dos seus sonhos, mas passou todo o período dentro do navio comendo apenas os biscoitos de água e sal que havia levado de casa. Foram vários dias sem experimentar nenhuma das refeições que estavam garantidas no seu pacote. Até que um funcionário atencioso perguntou por que ele estava abrindo mão desse benefício, uma vez que já havia pagado por tal. O homem então confessou que não leu o manual da viagem e ninguém havia lhe explicado; sem ter todas as informações, não sabia que poderia estar tirando melhor proveito daquela experiência.

Guardadas as devidas proporções, essa história pode ser uma fonte de entendimento e solução para o temor à maldição hereditária. Apesar de ainda ser um tema muito debatido entre cristãos, há consenso sobre a autoridade da morte de Cristo para libertar o salvo de todo mal, porque o preço dos pecados já foi pago na cruz, conforme está escrito em Isaías 53:5: “Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados”. Portanto, desfrutar dessa liberdade está garantido a quem já recebeu Jesus. Está incluso no “pacote”. Por que, então, há cristãos que vivem aprisionados aos pecados de seus familiares e acreditam estarem sob maldição?

Maldição Hereditária existe?

Pastor da Igreja Monte Sião de Linhares (ES), Jucimar Ramos lembra que, em Êxodo 20: 4-5, Deus promete visitar a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta gerações daqueles que se encurvassem diante de imagens. Para o líder ministerial, essa seria  a principal confirmação da existência de maldição hereditária.

“É preciso ficar claro que as maldições não são quebradas automaticamente quando uma pessoa recebe Jesus Cristo e é salva da condenação eterna. Salvação e libertação são dois princípios diferentes” – Pr. Francisco Carlos de Oliveira Jorge

O mesmo texto é citado pelo pastor Valdeir Contaifer, missionário da Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira que plantou a igreja no Vale do Amanhecer em Goiás. Ele também menciona um trecho do livro de Ezequiel. Nessa passagem, há uma declaração ao povo responsabilizando individualmente cada pecador.

“Sempre houve crendice quanto ao fato de que a maldição seguiria os descendentes do ofensor. Por exemplo: em Ezequiel 18, tratando da responsabilidade pessoal da escolha pelo pecado ou pela obediência a Deus, a profecia mostra surpresa no fato de que existia em Israel um ditado dizendo que, se os pais tivessem comido uvas verdes, os dentes dos filhos sentiriam os efeitos. E a profecia afirma que esse ditado seria retirado do povo de Deus e, então, no verso seguinte é enfatizado que tanto a vida do pai quanto a do filho pertencem a Deus e que ‘a alma que pecar, essa morrerá’. Mais adiante, no verso 23, a Palavra de Deus continua mostrando o coração misericordioso do Criador e ensina que não tem o Senhor prazer em que alguém seja punido com a morte em sua perversão, mas, sim, que se converta e viva”, explica.

O texto de Ezequiel 18 também aponta, no versículo 20: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele”.


O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE MALDIÇÃO:
  • A Favor
    Êxodo 20: 4-5
  • Contra
    Ezequiel 18:20
    Jeremias 31:30-31
    João 9:2-3

Deus avisa que fará uma nova aliança com Seu povo em Jeremias 31 e anula novamente o dito das uvas verdes: “Naqueles dias não se dirá mais: ‘Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram’. Ao contrário, a cada um morrerá por causa do seu próprio pecado. Os dentes de todo aquele que comer uvas verdes se embotarão” (versículos 30 e 31).

Antes de curar um cego de nascença, Jesus foi questionado: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (João 9: 2-3).

Casos de maldição hereditária?

Viviane Ferreira é membro da 1ª Igreja Batista de Copacabana, no Rio de Janeiro, e experimentou a liberdade em Cristo aos 13 anos, mas na infância acompanhava a mãe em rituais religiosos e oferendas a orixás. “Eu acreditava que aquelas entidades poderiam definir o bem e o mal na minha vida.

Depois que me converti, apesar de não servir diretamente aos espíritos, em uma situação, no início da minha caminhada com Cristo, minha mãe incorporou em nossa casa. Foi a última vez que isso aconteceu. Recusei-me a falar com ele, e o espírito disse que quebraria as minhas pernas. Mantive minha posição. Nunca quebrei as pernas. Após a minha conversão, minha mãe não manifestou mais espíritos, apesar de muitas vezes eu perceber que havia algo estranho com ela”, conta Viviane, que se casou com um rapaz cristão e com ele teve a filha, Ana Clara. A menina se decidiu ao lado de Cristo aos 9 anos e se batizou. Com essa nova história na família, Viviane tem razões para crer que não há maldição sobre sua casa: “Depois que me converti, toda a maldição foi quebrada e Jesus levou sobre a cruz”.

O missionário Valdeir Contaifer, que também é autor do livro “Fazendo Discípulos no Mundo em Trevas”, acompanhou alguns casos durante seu ministério e compartilhou as experiências de transformação dessas vidas com Comunhão:

Suicídio – “Uma senhora tinha em sua família alguns casos de suicídio. A avó e uma tia haviam se suicidado, e sua mãe morreu em circunstâncias não muito esclarecidas, a ponto de a família acreditar que a maldição do suicídio a havia atingido. Muito deprimida, ela procurou aconselhamento comigo e os pensamentos de morte a cercavam. Ela tinha certeza que não podia escapar dessa maldição hereditária, por isso uma prima a encaminhou para mim. Logo percebi que ela estava convicta de um destino amaldiçoado. Em vez de tentar convencê-la do contrário, apresentei Jesus Cristo ao seu coração sofrido. Falei de Raabe (Js 6) quando estava num povo que se fez inimigo e fora julgado por Deus, mas que por sua fé e escolha de dedicar sua vida a Deus foi poupada. Sua família também foi salva e ainda fez parte com sua descendência da genealogia de Jesus Cristo. Eu lhe disse: “Jesus pode transformar a sua vida, perdoar seus pecados e mudar totalmente a sua história escrevendo um destino para Ele e para a vida com Ele”. Ela creu, foi salva, e o espectro de morte saiu dela”.

Divórcio – “Uma família acumulava uma quantidade significativa de divórcios. E um homem dessa família já sabia que seu casamento não iria demorar muito. Também o aconselhamento bíblico foi eficaz. Li com ele o texto sobre a maldição do ‘rolo voante’ em Zacarias 5: 1-4. O texto mostra que a maldição age em nome do zelo de Deus passeando pela terra e discernindo os pecadores, fazendo com que sejam julgados. Convidei aquele homem para orar comigo e confessar seus pecados, buscar a purificação por Jesus Cristo e santificar-se de forma a estar no agrado de Deus. Observe que, do ponto de vista bíblico, o que traduzimos como maldição é o mesmo que punição, assim a solução está na bênção do perdão dos pecados. E se a pessoa estiver em concerto com Deus, andando na retidão do Senhor por ter sida por Ele redimida, por que temer?”

Possessão demoníaca – “Acompanhei um caso em que a pessoa era possuída por demônios porque seu pai e seu avô também eram possessos por um espírito que levava o mesmo nome mítico daquele que agora se manifestava em sonhos. Um clássico tipo de maldição hereditária. O homem nos procurou, temendo que seu filho também fosse dominado. Esse homem, embora vizinho de nossa igreja, nunca se decidiu por Jesus. Mas preguei o Evangelho de Cristo ao seu filho, conforme me pediu. E o menino se tornou um crente e ainda hoje é um rapaz livre do mal.”

E o cristão? Pode viver sob maldição?

O pastor Francisco Carlos de Oliveira Jorge, da Igreja Evangélica Resgate, em Vila Velha (ES), acredita que conversão e libertação são coisas diferentes. “Sabemos que as maldições já foram quebradas por Cristo Jesus na cruz do calvário. Por meio de Sua morte e ressurreição, Ele se fez maldição em nosso lugar para nos garantir a salvação (Gl 3:13). Por isso, a quebra de maldições está ligada à confissão de pecados e iniquidades.

“Se a pessoa estiver em concerto com Deus, andando na retidão do Senhor por ter sido por Ele redimida, por que temer?”  – Valdeir Contaifer

Pecados necessitam do perdão da cruz, assim como as maldições precisam da libertação da cruz. É na cruz, que, pela fé, lançamos nossos pecados e maldições. Porém é preciso ficar claro que as maldições não são quebradas automaticamente quando uma pessoa recebe Jesus Cristo e é salva da condenação eterna. Salvação e libertação são dois princípios diferentes”, declara o pastor.

Segundo ele, a libertação pode ocorrer em uma única ministração ou através de um processo: “Mesmo depois de convertidos, muitos cristãos continuam convivendo com antigos problemas. Ignoram que, além da salvação, o Senhor Jesus nos deu o direito de sermos livres das maldições e de receber as bênçãos que Deus prometera por meio de Abraão” (Gn 12:3b e 17:6).

Para alcançar plena libertação e tomar posse das bênçãos prometidas por Deus, quem se converte a Cristo Jesus deve rejeitar todas as maldições em sua vida e na vida de seus familiares, pedindo ao Senhor que as remova”.

Pastor Jucimar concorda e acrescenta que, quando Mateus fala da grande comissão, a ordem é fazer ‘discípulos de todas as nações, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado’”. “Portanto, faz parte do Evangelho aprender o que está à nossa disposição, o que foi dado a nós.

Alguns cristãos não aprenderam, não entenderam e não tomaram posse do que já é deles. Jesus resolveu tudo naquela cruz, mas é preciso saber a verdade, é preciso crer na verdade e se comprometer com a verdade para receber o que foi pago. O segredo é ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’”, defendeu.

Influência do meio

Na avaliação do psicólogo e pastor Milton Monte, maldição hereditária é heresia. Para ele, a solução ao mal, seus temores e aprisionamentos são a conversão somada a um discipulado forte que ajude a pessoa a desenvolver um novo comportamento.

Vale lembrar a influência sobre indivíduo do que é dito e reafirmado dentro da família e o impacto que isso tem sobre quem ele é. “A personalidade é a soma de nossa genética, de nossa educação familiar e social, e de como reagimos às experiências de vida, portanto nossa forma individual de interpretar os fatos e a capacidade de decidirmos.

Isso significa que influências fortes podem ter mais impacto na formação de um indivíduo com menor força de decisão, e vice-versa. Não é uma conta que dá para fazer no lápis, mas o meio é um componente fundamental da formação de nossa personalidade e forma de crer, sim”, esclarece Monte.

“Alguns cristãos não aprenderam, não entenderam e não tomaram posse do que já é deles”
Pr. Jucimar Ramos

Diante de todas as questões sobre o tema, o pastor Valdeir é enfático em dizer que o ideal é apontar para Jesus Cristo, alvo de toda a revelação bíblica.

“Sabemos que a Lei em Deuteronômio 21:23 diz que é ‘maldito o que for pendurado no madeiro’, e em Gálatas 3:13 é usado essa passagem para dizer enfaticamente que ‘Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo ele próprio maldição em nosso lugar’. Portanto, podemos afirmar, assim como em João 3: 14-15, que do modo como Moisés levantou a serpente no deserto, o Filho do Homem, nosso Senhor Jesus, também foi levantado ‘para que todo o que nEle crê tenha a vida eterna’. O crente não precisa temer heranças espirituais das más escolhas de seus pais ou de outros familiares e não deve se apegar ao medo das maldições, porque por Cristo e Seu sacrifício na cruz do calvário já é um vencedor”, encerra.

O que diz a Bíblia

A primeira questão a ser considerada sobre maldição hereditária é o que a Bíblia diz, enfatiza o pastor presbiteriano José Ernesto Conti, do Ministério Água Viva, no Estado do Espírito Santo. “Deus não é a fonte das maldições.

Quando o povo estava para possuir a terra prometida, o Senhor faz uma proposta: ‘Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal. Os céus tomo hoje por testemunha contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição’ (Dt 30: 15,19). Na verdade, se observarmos o texto, o Soberano não estava dizendo que dEle partiria bênção ou maldição e que é sob nossa opção fazer essa decisão. Se isso é verdade (eu escolho), o pecado não causou a morte do homem, e Deus mentiu para Adão. Tiago 3:11 pergunta: ‘Acaso pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso?”. A Bíblia deixa claro que quem produziu a maldição foi o pecado, e não Deus. A decisão foi tomada por Adão e na linguagem de Paulo (Rm 5) atingiu toda a raça humana.

Conti avalia que Deus nos sugere que, mesmo sendo pecadores, deveríamos de alguma maneira escolher a obediência, desafio que somente os santos são capazes, pois isso traria alívio às nossas vidas. Mas, enfatiza que Deus não pode nos obrigar a obedecer.

“Repetindo: Deus diz ‘O obedecer produzir bênção; o desobedecer (natural para o homem pecador) o mantém no caminho do inferno’. Na verdade podemos dizer que estar sob ‘maldição’ é o estado natural do ser humano, seja pai, seja filho, seja sogra. E usando a linguagem de Paulo em Romanos 3:23, essa maldição não é hereditária, mas sim pessoal e intransferível (todos pecaram).

Então vamos deixar claros dois pontos: os pecadores estão e sempre estarão debaixo da maldição. Os salvos estão e sempre estarão libertos, pois não foi para isso que Cristo morreu por nós? Confirmando: ‘Foi para a liberdade que Cristo nos libertou’ (Gl 5:1). O próprio Cristo afirmou que ‘Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livre’ (Jo 8:36).”

À luz da Palavra, infelizmente o ser humano, afetado pelo pecado (salvo ou não), sofre as consequências da nossas fraquezas, que resultam em vários distúrbios, sejam psicológicos, sejam mesmo através de doenças, explica Conti. “Esses distúrbios devem e podem ser tradados pela psicologia ou pela farmacologia alopática.

Há casos em que o aconselhamento pastoral tem uma componente importante no equilíbrio sócio-comportamental de pessoas, daí sua importância como método de tratamento. Há ainda a ação direta de Deus em curar e aliviar dores não só da alma, como também do corpo. Mas, como dissemos acima, todas essas ‘patias’ são natural do ser humano pecador e não de um Deus que amaldiçoa”.

O pastor traz fundamental desfecho ao assunto: “Lembre-se que Deus nos criou para viver na plenitude da sua bênção, e não na masmorra da maldição. Quem trouxe isso foi o pecado”.



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