Mães, mulheres que surpreendem

Elas não resistiram aos apelos da maternidade e enfrentaram o dilema de equilibrar atenção aos filhos e profissão


Tudo ia muito bem com Léia e Rosilene até o dia em que descobriram que estavam vivendo um período mágico, uma experiência única que mudaria suas vidas para sempre. Elas estavam grávidas. Funcionária pública promovida ao cargo de gerência nos Correios, com bom salário e futuro promissor, Léia Cunha via, a cada dia, novas oportunidades se abrindo em sua carreira profissional.

E não foi diferente com a empresária bem-sucedida Rosilene Magri Araújo, que atuou como telefonista e secretária de uma estatal até montar sua empresa no ramo de delicatessen, no Centro de Vila Velha, o que lhe exigia dedicação de até 12 horas diárias. Essas mulheres não se conhecem, mas têm algo em comum: enfrentaram o dilema de decidir entre o tempo para os Filhos ou a profissão. Elas escolheram abrir mão dos seus sonhos profissionais pelo prazer de serem mães em tempo integral.

Léia e Rosilene viveram o “drama” que atinge mães em todo o mundo quando encerram os nove meses de gestação e precisam fazer escolhas. Se investem no trabalho, acham que estão falhando como mães. Se priorizam a família, sentem a culpa por deixar a profissão em segundo plano. A chegada de um bebê parece ter dividido a vida delas em antes e depois da maternidade.

“Trabalhava com prazer, mas preocupada com o depois, com a volta da licença a maternidade. Não sabia se iria conseguir voltar e deixar minha filhinha com outra pessoa. Quando tive que voltar ao trabalho, não foi fácil. Chorava, sentia um vazio muito grande e a sensação que abandonava minha filha toda manhã. Não estava feliz. Questionava-me até que ponto o dinheiro valeria a pena. Tinha dinheiro, mas não tinha satisfação. Descobri que o que iria me fazer bem era estar perto da minha filha. Tomei a decisão, larguei o emprego para cuidar da minha filha. Hoje, Rebeca, com três anos, é a razão da minha vida e sei que Deus irá me honrar por essa decisão”, conta Léia.

Rosilene, logo que ficou sabendo da gravidez, começou a se preocupar. “Pensei em como seria a minha rotina de mãe. O que eu poderia manter na minha vida e do que eu deveria abdicar para seguir o que a Palavra de Deus nos diz a respeito das nossas responsabilidades como mãe. Entendi que não podia delegar essa função a outras pessoas. Por isso, entrei em acordo com o meu esposo, abrindo mão da minha vida profissional em favor da dedicação exclusiva aos papéis de esposa e mãe”, resume.

Aparentemente na contramão da decisão de Léia e Rosilene está a mestranda em Literatura Roberta Simões, formada em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com especialização em Linguísticas, Literatura, Língua Portuguesa e Educação Infantil, e que já planeja iniciar outra especialização em Direito Educacional e Gestão Escolar. O que faz para dar conta das filhas ainda pequenas e da carreira, é a própria Roberta quem conta.

“Quando voltei ao trabalho, minha filha era levada até onde eu estava para ser amamentada nos horários programados. Antes de o momento acontecer, achei que não daria conta do recado, porém, quando esse momento chegou, ocorreu tudo bem, mesmo porque tive ajuda de meus pais e do meu marido. Durante a semana, independente do horário que eu for dormir, preciso acordar às 6 horas da manhã. Às vezes, as meninas não conseguem dormir direito, daí preciso cuidar delas durante a madrugada. Mesmo assim, eu me levanto às 6, arrumo minha filha de 7 anos para levar para escola; levo minha bebê, Alanis, de 10 meses, para casa de minha mãe e sigo para o trabalho, pois tenho um compromisso com a empresa, com as pessoas e comigo mesma.

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Faço questão de almoçar com elas todos os dias, buscá-las à noite e passear nos finais de semana”, narra Roberta. Quando questionada sobre as perdas que terá por dedicar boa parte do seu tempo ao trabalho, Roberta não hesita. “Não vejo nenhuma perda em relação a ser mãe e profissional, pois a cada etapa da convivência com as crianças, adquiro mais experiência e confirmo como esse amor é incondicional. Acho muito importante esse contato, que pode até ser curto, mas o sorriso e carinho que recebo delas mostram que consigo conciliar bem esse tempo”, explica Roberta.

Três mulheres com tudo o que o mundo feminino lhes reserva, e ainda alcançaram uma esfera desse universo que as tornaram ainda mais mulher: são mães… indispensáveis e extraordinárias. É por isso que Léia, Rosilene e Roberta são exemplos de que fora do mercado de trabalho ou mantendo-se nele, a verdade é que nenhuma delas resistiu aos apelos da maternidade.

Mulher de ontem e de hoje

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que a participação das mulheres na população ocupada tem aumentado, gradativamente, ao longo dos últimos 10 anos, e elas continuam a representar maioria ativa no mercado, principalmente nas áreas de educação, saúde, vendas do comércio, serviço social e administração pública. Com salários variando de R$ 956,00 a R$ 2.291,00, são cada vez mais presentes no orçamento da casa, além de dedicarem em média 26 horas semanais com serviços domésticos. Nesse contingente, muitas não têm sequer a opção de trabalhar ou cuidar da casa e dos filhos, pois precisam custear as despesas.

Enquanto Rosilene, Léia e Roberta puderam, ao concluírem o período de licença a maternidade, optar entre trabalhar ou dedicar-se aos filhos, a outra parcela do público feminino enfrenta outro tipo de dilema: não há chance de negociação, são obrigadas a voltar ao trabalho para ajudar no orçamento familiar ou mesmo para continuarem exercendo o papel de chefe de família. Essas mulheres fazem parte do grupo “sem escolha”.

Esse perfil de mulher cada dia mais presente no mercado de trabalho dribla as multitarefas domiciliares. Prova disso são os dados da Fundação Carlos Chagas revelados na pesquisa “Mercado de Trabalho 2007”, que analisou esse papel num período de 30 anos: com o acréscimo de 32 milhões de trabalhadoras entre 1976 e 2007, as mulheres desempenharam, nesse prazo, um papel muito mais relevante do que os homens no crescimento da população economicamente ativa.

Desde a década de 70, a participação feminina no mercado de trabalho tem apresentado uma espantosa progressão. Em 1970 apenas 18% das brasileiras trabalhavam; em 2007 eram 52,4%, ou seja mais da metade das mulheres trabalhando. Elas têm permanecido no mercado de trabalho cada vez por mais tempo: se em 1970 apenas 19% e 15% das mulheres com idade entre 40 e 49 anos e 50 e 59 anos, respectivamente, estavam atuantes, em 2007 as taxas de atividade nas mesmas faixas etárias eram 70% e 53%.

No entanto, o trabalho feminino não depende tão somente da demanda do mercado e das suas qualificações para atendê-la, mas também de uma articulação complexa de características pessoais e familiares. A presença de filhos, a sua posição no grupo familiar – como cônjuge, chefe de família etc e a necessidade de prover ou complementar o sustento do lar são fatores que estão sempre presentes nas decisões das mulheres de ingressar ou permanecer no campo profissional.

Tradicionalmente, os efeitos da maternidade na vida profissional das mulheres eram evidenciados, até a década de 70, pela diminuição das taxas femininas de atividade a partir da idade de 25 anos, quando os filhos eram ainda pequenos. A partir de meados dos anos 80, entretanto, uma reversão dessa tendência vem se consolidando, indicando que a atividade produtiva fora de casa tornou-se tão importante para as mulheres quanto a maternidade e o cuidado com os filhos.

Estando ou não no mercado de trabalho, todas as mulheres são donas de casa e realizam tarefas. Nos afazeres domésticos, os homens gastam, em média, 10,3 horas por semana, e as mulheres, 26 horas. Dados como esses provam que a visão bíblica da mulher virtuosa de 3 mil anos atrás, registrada em Provérbios 31, também se aplica às mulheres de hoje. Distantes no tempo e próximas no perfil, elas apresentam características semelhantes: são empresárias, independentes para pensar e tomar decisões, suprir a sua casa; gestoras dos negócios, conseguem administrar desde a própria casa até grandes empresas. E mais: estão gerindo funções altamente qualificadas sem abrirem mão do casamento, maternidade, serviços domésticos e trabalho secular.

O pastor Hernandes Dias Lopes afirma que o mundo acadêmico e profissional vem sendo conquistado por mulheres de modo significativo e que há muitos casos em que as mães não têm chance de escolha e precisam arcar ou ajudar no orçamento familiar. Entretanto, ele vem percebendo que depois de um longo período crescendo em várias áreas profissionais, muitas mulheres vem tomando um caminho inverso.

“Elas precisam ser reconhecidas no seu profissionalismo porque a Bíblia as valoriza para isso também, porém observo que elas estão pouco a pouco abdicando ao trabalho no período em que os filhos ainda estão pequenos para retornarem ao mercado profissional posteriormente. Isso é positivo porque existem coisas urgentes e coisas importantes. O trabalho pode ser urgente, mas a família é mais importante. Não há dúvidas de que a educação tem sido terceirizada e isso traz danos a família. Como resultado temos filhos crescendo sem limites, sem disciplina, temos o aumento da violência dentro das escolas e nas ruas”, ressalta.

Pedagoga, mestranda em Pediatria na área de investigação científica da saúde da criança e do adolescente, Simone Tenório de Carvalho reforça essa tendência. “Eu percebo um fenômeno sutil acontecendo, da importância da retomada do exercício da maternidade integral como esforço para a formação de uma sociedade mais justa e equilibrada. Na comunidade virtual que administro, as mães buscam informações sobre a maternidade e a primeira infância”, relata Simone.

O presidente do Ministério Família Debaixo da Graça, pastor Josué Gonçalves, defende o retorno da mãe em tempo integral. Ele afirma que a missão mais sublime da mulher é ser mãe e nenhuma outra se compara a essa. “O Salmo 128 coloca o homem no mercado de trabalho e a mulher no interior da casa exercendo sua maternidade. Toda vez que os princípios bíblicos são alterados, a fatura vem. Por isso muitos pais já estão colhendo os resultados de uma escolha feita equivocadamente, porque filhos não se perdem na rua e sim em casa e isso traz prejuízos irreparáveis”, disse o pastor Josué Gonçalves.

Hernandes Dias acrescenta um dado surpreendente. Segundo ele, biblicamente e diante de Deus, cabe ao homem, ao pai, a educação dos filhos e não à mãe. “Os homens são os responsáveis por educarem os filhos e responderão por isso diante de Deus. As mães estão sendo cobradas por não cumprir uma tarefa que não é delas. O livro de Efésios 6:4 deixa claro essa missão do homem na educação dos filhos. Neste trecho, a expressão pai se refere aos pais homens especificamente”, explica.

Insubstituíveis

Alguns sinais no comportamento e na saúde são evidentes nas crianças que não convivem diariamente com a mãe. A pedagoga Simone Tenório alerta para a obesidade infantil e, com ela, o diabetes e a pressão alta, o diagnóstico de crianças hiperativas e a sobrecarga de medicações igualmente perigosas, a falta de controle em relação à educação e estabelecimento de limites, a ansiedade infantil e a depressão infantil.

Para Simone, as conquistas da mulher no mundo acadêmico e no mercado de trabalho representam ganho e perda. “O ganho, no que se refere ao seu reconhecimento e a possibilidade de mostrar os seus talentos. A perda é como essa emancipação feminina está sendo conduzida: muitas mulheres simplesmente estão terceirizando o cuidado dos seus filhos e se dedicando quase que exclusivamente ao seu trabalho. Se pudéssemos dar voz às nossas crianças, certamente elas optariam por passar mais tempo com suas mães”, afirma Simone.

O pastor e psicólogo Erasmo Vieira afirma que o papel de mãe é tão indispensável quanto insubstituível. “A segurança e a socialização da criança passam pela presença dela. Segundo Jean Piaget, quando isso não acontece, a criança pode sofrer em algum grau, prejuízos emocionais e mentais. Eugene McDanald diz que a aceitação incondicional do filho pela mãe é o processo que desemboca em saúde, em autoaceitação, e que capacita a criança para usar suas forças e habilidades para o desenvolvimento físico, mental e emocional. Muitas vezes, por isso, o tratamento psicológico de crianças se dá com os pais”, afirma o psicólogo.

Erasmo reforça dizendo que Deus, para realizar a redenção da humanidade, utiliza a figura materna para a vinda de Seu Filho ao mundo, numa demonstração do valor da maternidade para o cumprimento dos seus planos entre os homens.

Com um nível de instrução cada vez mais elevado e, consequentemente, mais presentes no mercado de trabalho, elas surpreendem no dia a dia. É por isso que Rosilene, Léia e Roberta são exemplos de mulheres que compõem um quadro belo que consegue unir delicadeza e força, conquistas e lutas, decisões e escolhas. Nesse universo estão os filhos das que não resistiram aos apelos da maternidade.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.