Mãe 6 em 1

Elas se desdobram em multitarefas todos os dias e buscam constantemente maneiras para não desistirem e serem fortes no cumprimento de seus papéis

*Por Sânnie Rocha

As multifunções atribuídas a uma mãe tornam seu desafio nada fácil neste mundo moderno e atribulado, que exige o bom desempenho nos compromissos profissionais, sem deixar de lado os papéis de esposa e dona de casa. Acrescenta-se a isso, quando cristã, a necessidade fundamental de atender à demanda de serva de Deus, fazendo-se presente na comunidade onde congrega e passando aos filhos a herança bíblica que lhe foi dada pelo Pai. A mulher contemporânea abraça essas muitas tarefas, mas é praticamente impossível não se sentir cansada e com medo de sucumbir, temendo não ser ter êxito na preservação de sua fé e, principalmente, na salvação pessoal e de sua família. Isso é natural quando se ama.

A importância da figura materna para o Senhor está muito bem descrita nas histórias de diversas personagens bíblicas. Joquebede, por exemplo, preferiu correr o risco de deixar Moisés à deriva no meio de um rio a entregá-lo nas mãos dos egípcios. No final das contas, conseguiu salvar o filho, além de torná-lo um servo de Deus. Outra “heroína” de destaque é Ana, que pranteou aos pés de Deus por uma gravidez. Ao ter sua bênção atendida, manteve-se firme e, conforme o prometido deixou o pequeno Samuel no templo com o profeta, longe dos seus cuidados, para que o Pai o usasse com grande poder.

Francielle Reis Orechio Simões, mãe de três filhas, Isabela (11), Mariana (8) e Manuella (2), casada há 16 anos, conta como vê a história de Ana. “Lembro, que quando eu era criança, ficava pensando como ela conseguiu deixar Samuel no templo, pois eu tinha a minha mãe em casa, e isso era surreal para mim. Mas quando foquei a parte que ela fazia uma túnica para ele todos os anos, tecia recordando-se dele e imaginando o tamanho que estaria, constatei que o amor era constante. Samuel tinha certeza e confiança nisso”, conta.

Transpondo esse relato das Escrituras para a sua vivência, ela acredita que as filhas precisam ver também a sua presença na ausência, enquanto trabalha durante todo o dia. “O amor move tudo, e a dor é suavizada. A vontade de estar sempre pertinho das minhas filhas é constante, mas elas precisam sentir e acreditar no meu amor, mesmo que eu não esteja 24 horas do lado delas. Minha família é minha prioridade nesta vida. Está bem claro para mim, mas preciso me esforçar para que elas e meu marido saibam disso. É um exercício diário e imprevisível, pois as necessidades virão, e temos que estar a postos. Almoço em casa e as levo à escola. Esse tempinho que passamos juntas é essencial para manter o relacionamento mãe e filhas, funciona como um ajuste fino e resolvemos muitas questões. Para isso, temos que manter o foco, quase não sobra tempo para inventar problemas”, explica.

Cris Poly, apresentadora do reality show “Supernanny” e autora do livro “Pais Admiráveis Educam pelo Exemplo”, orienta que tudo é uma questão de organização para que as mães não enlouqueçam com as multitarefas a seu cargo. “É preciso definir as prioridades. Organização para poder analisar todas as atividades da família (pais e filhos) e estabelecer os horários e a ordem delas. E nesse processo é relevante definir quais são as atividades prioritárias, urgentes, importantes e secundárias. Dá trabalho, mas é importante esse entendimento. O tempo livre para se dedicar aos filhos está entre as prioridades”, reflete.

Foi pensando assim que Lorena Vasques Nunes Legait, jornalista, decidiu largar tudo o que fazia no quarto mês de gravidez para se dedicar a Esther (1), sem dor e sofrimento. Vivendo com o marido na França, ela percebeu que o melhor era optar por doar todo o seu tempo à filha. Arrependimento? Nenhum. No Brasil, ela congregava na Igreja Batista, mas hoje participa da Eglise Evangélique de Pentecôte de Sarre-Union, onde atua liderando o louvor. “Jesus nos ensinou tantas coisas há 2 mil anos; e nos tempos modernos, para mim, não alteraram em nada. Não precisamos nos adaptar ao mundo, precisamos amar e obedecer a Deus, só isso. Todas essas coisas (ser sábia, ter fé, orar, amar, ser bom, etc.) também valem hoje e continuarão valendo até a volta de Cristo, apenas temos que aprender a ouvir aquilo que Ele preparou para cada uma de nós. Ser mulher atualmente é ainda mais complicado quando se está sozinha num país que não é o seu, onde não tem absolutamente ninguém para ajudar”, conclui.

Para conseguir cumprir as prioridades, Camila Doche Martins dos Santos, mãe da Thayla (1), escolheu trabalhar meio período para cuidar da menina. “Trabalho todos os dias, mas não sigo um horário integral. Tento ao máximo dar toda a atenção a minha filha quando estou em casa, sempre mantendo a sua rotina, porque acho muito importante esses momentos que passo com ela. Gosto de brincar, levar para passear e tomar sol! Senti uma pequena dificuldade em conciliar o meu tempo como mãe, trabalho e funções na igreja. Ficou tudo muito corrido, mas tento adequar porque ela é um presente de Deus na minha vida e não pode ser usada como escudo para me desviar ao chamado que o Senhor tem para mim. Pelo contrário, incluo-a nas atividades que exerço na igreja com as crianças, e isso acaba sendo um prazer”, relata.

Helena Tannure, pastora, conferencista, mãe de quatro filhos e autora do livro “De Clara a Sofia”, em que retrata os desafios da maternidade, explica que a Palavra de Deus declarada sobre a mulher é de “ajudadora idônea”, aquela que presta socorro e é apta, capaz, competente e moralmente correta, mas sem fazer disso um papel doloroso, e, sim, cheio de amor. “Essa é a Palavra criadora de Deus sobre a mulher. E, nos tempos modernos, o que devemos é tirar o foco da competição com os homens. Devemos simplesmente ser. Na ânsia de se libertar da opressão e do abuso, a mulher do século XXI está indo para outro extremo, o que acaba gerando outras dores. Precisamos reencontrar o equilíbrio entre o que podemos fazer e quem devemos ser”, alerta.

Errar é natural
Marina Slaytor escreveu com o marido, Gregory Slaytor, o livro “A Melhor Mãe do Mundo”. Na obra, ela explica que cometer erros na maternidade é algo natural, mas é preciso ter a certeza de que a característica feminina mais importante no cumprimento dessas responsabilidades é a sabedoria, ensinando os princípios bíblicos por meio do amor. “Primeiramente, perfeição nunca deve ser a meta; amor e sabedoria, sim. A perfeição ilude todas as mães, o amor não. Não quero que entendam isso como uma razão simplista, mas uma grande verdade reveladora! Paulo escreveu em I Coríntios 13:13 ‘Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor’. Nós temos dado o grande presente para nossas crianças por amá-las e criá-las como discípulas de Deus.  O amor não falha na nossa jornada. Há muitos anos um estudante de graduação estava pesquisando por que filhos com pais cristãos se tornavam cristãos. Esmagadoramente, a única razão para escolherem seguir a Cristo é que eles se sentiam amados pelos seus pais, assim não duvidavam que o Pai Celestial também os ama”, salientou.

Laudiceia Cabral de Souza Santos, membro da Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), está casada há 16 anos e tem três filhos: Thiago (29), Pablo (23) e Heliza (14). Na sua avaliação, é impossível adotar a correria da mulher moderna, caso haja o entendimento do propósito do Senhor. “Para atender a esse chamado, às vezes, é necessário renúncia de si mesma, pois além de ser profissional, sou mulher e esposa, tenho responsabilidade na igreja. Heliza exige bastante minha atenção por estar na adolescência, não posso descuidar. Às vezes planejo algo, e ela tem alguma necessidade ou uma atividade para fazer. Então tento organizar o meu tempo de forma que eu consiga atender às necessidades do meu lar e da minha família, sem negligenciar a obra de Deus.”

Um outro alerta vem da autora do livro “Pais Amorosos, Filhos Felizes”, Jeannie Cunnion. “As mulheres devem tomar cuidado para não se cobrarem demais”, defende. Isso porque “as exigências tiram o foco do amor que é necessário para a felicidade dos filhos”. “O inimigo quer que a gente acredite que temos que ser perfeitos exemplos de mãe para os nossos filhos para que eles prosperem. No entanto, é seguro dizer que inúmeras mulheres na Bíblia também falharam como mães, assim como nós tantas vezes atualmente. Mas o que vemos repetidas vezes nas Escrituras é que o que importava eram a soberania e a graça de Deus, e não um desempenho perfeito ou imperfeito dos pais”, afirma. Serva que tem intimidade com Deus.

É assim que se descreve Karimi Sena, que congrega na Igreja Batista e é mãe de Beatriz (9). Ela trabalha o dia inteiro em uma loja e usa os seus momentos de intercessão sozinha em seu quarto para pedir orientação para criar sua filha dentro daquilo que Ele traçou. “Toda mulher é aquela de Provérbios 31. Ela não tem nome, porque está dentro de cada uma de nós, o que temos que fazer é acessá-la. Não é fácil humanamente falando cumprir todas as nossas tarefas como mães, porém somos seres espirituais, então somente pelo Espírito de Deus conseguimos conciliar”, ressalta.

Assim como Karimi, Lígia Bandeira, da Assembleia de Deus, mãe de Maria Luiza (10), trabalha em um loja, tendo pouquíssimo tempo para a filha. Nesses escassos períodos, porém, tenta se adequar para estar o mais próxima da criança. Como trabalha no departamento infantil da igreja, do qual a menina também participa, Lígia aproveita esses momentos para orientá-la nos caminhos do Senhor. “Ela louva, prega e faz coreografia infantil. Tento estar com ela o máximo possível para ver que estamos juntas num mesmo propósito, que é o de conquistar o nosso coroa. Às vezes, temos que perder para ganhar, e você deixam de lavar sua roupa em um dia de sol, mas ganha em fazer uma visita e saber que Deus estava naquela casa operando maravilhas. Na vida profissional, quando possível, troco os horários da escala para participar dos eventos da minha filha e das coisas da igreja. Quando se tem uma família aos pés do Senhor Deus, tudo vai dando certo”, completa. E é exatamente assim, com base em organização e definição de prioridades, que Cris Poly aconselha todas as mães dispostas a cumprir seus vários outros papéis. Porém, ela frisa que Deus é o diferencial.

“Nesse processo de maternidade, creio que Deus faz uma diferença enorme. Primeiro porque quando conhecemos a Ele por meio de Sua Palavra, aprendemos como quer que eduquemos nossos filhos. Segundo porque diante das incertezas, das dúvidas, das diferentes fases, dos desafios e das decisões a tomar, podemos orar e buscar a orientação do Senhor. E, com certeza, se buscamos com fé, Ele nos dará o m Fonte: Entrevistados melhor conselho”, assegura.

Características da mãe-amor

• Disponibilidade – Manhã, tarde e noite (Deuteronômio 6:6-7)

• Envolvimento – Interagindo, colocando pontos de vista, pensando e processando a vida juntos (Efésios 6:4)
• Ensinamento – Sobre as Escrituras, a visão bíblica do mundo (Salmos 78:5-6, Deuteronômio 4:10, Efésios 6:4)
• Treinamento – Ajudando o filho a desenvolver habilidades e descobrir seu potencial (Provérbios 22:6)
• Disciplina – Ensinando o temor do Senhor e seus limites de forma consistente, amorosa e firme (Efésios 6:4, Hebreus 12:5-11, Provérbios 13:24, 19:18, 22:15, 23:13-14, 29:15-17)
• Nutrição – Provendo um ambiente de constante apoio verbal, liberdade de falhar, aceitação, afeto e amor incondicional (Tito 2:4, II Timóteo 1:7, Efésios 4:29-32, 5:1-2, Gálatas 5:22, I Pedro 3:8-9)
• Exemplo com integridade – Vivendo de acordo com o que ensina, sendo um modelo com o qual o filho possa aprender “captando” a essência de um viver piedoso (Deuteronômio 4:9, 15, 23; Provérbios 10:9, 11:3; Salmos 37:18, 37)