A luta contra um gigante

A dor instalada no coração da família do aposentado Jessé Barbosa Rodrigues não sara mesmo um ano após a morte do filho Gleidson, aos 33 anos. “O crack levou meu filho à morte. Um sofrimento que não tem tamanho. Aceitar o que aconteceu é muito difícil, parece que ele ainda vai entrar por aquela porta sorrindo”, falou Jessé. Trabalhador, casado e com um filho, Gleidson se tornou dependente químico ao começar a cheirar cola por volta dos 14 anos. Para a família, fiéis da Igreja Adventista em Rio Marinho, Vila Velha, foi uma situação difícil de encarar. “Começou com incentivos de colegas, mas ele seguiu anos a fio sendo poliusuário até chegar a usar crack – foi aí que ele se afundou de vez”, disse o pai.

Gleidson foi internado três vezes para tratamento, mas não tinha forças para deixar a droga. Sob efeito da substância química, agrediu a esposa e foi preso. A família sofreu e ainda sofre ao lembrar as histórias envolvendo o filho e tenta se reerguer todos os dias, apesar das marcas.O drama da família de Jessé é o mesmo de tantas outras que estão sofrendo ao lutar contra um gigante chamado crack. De um lado a família que chora, luta; de outro o dependente que não consegue deixar o vício; e, no meio, o poder público, que busca mecanismos para combater o tráfico e conscientizar a população sobre os malefícios das drogas.

Os indicadores de consumo só crescem no Brasil. Dado recente divulgado este mês pelo Conselho Internacional de Controle de Narcóticos, entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que o consumo de cocaína no Brasil, por exemplo, mais que dobrou em menos de 10 anos e já é quatro vezes superior à média mundial.

Em 2005, a entidade apontava que 0,7% da população entre 12 e 65 anos consumia cocaína no país. Ao fim de 2011, a taxa chegou a 1,75%. De acordo com os dados da ONU, o consumo brasileiro é bem mais alto que a média mundial, de 0,4% da população.
A média brasileira também supera a da América do Sul, com 1,3%, e é mesmo maior que a da América do Norte, com 1,5%. Ainda segundo a pesquisa, a maconha continua sendo a droga mais consumida na América do Sul, por cerca de 14,9 milhões de pessoas. O número é 4,5 vezes o total dos usuários de cocaína. Mais uma vez mais o Brasil é destaque.

Em terras capixabas, as drogas dominam o Estado e atingem quase 100% das cidades – tendência nacional confirmada na pesquisa da Confederação Nacional de Municípios. Dentre as 4.400 cidades

“Muitos dependentes que abordamos já forma evangélicos. A maioria vê a igreja com um agente repressor. A Igreja tem muita dificuldade de dialogar com jovens”. – Carlos Salvador, pastor e terapeuta

brasileiras pesquisadas, 89,4% indicaram que enfrentam problemas com a circulação de drogas em seu território e 93,9% com o consumo. O uso de crack é algo comum em 90,7% dos municípios e estima-se que 30 mil pessoas usem especificamente essa droga no Espírito Santo. Para surpresa de muitos, ou não, um número expressivo de jovens envolvidos com drogas já conheceram a Palavra de Deus em algum momento de suas vidas. É o que afirma o pastor e terapeuta Carlos Salvador. Com mais de 20 anos de experiência em trabalhos nos projetos Vem Viver e Crescer, ambos de amparo aos dependentes, ele argumenta que a Igreja tem perdido seus jovens para as drogas.

“Os motivos são variados. Mas a maioria vê a Igreja com um agente repressor. A Igreja tem muita dificuldade de dialogar com os jovens, de tratar temas como drogas, sexualidade, relacionamento com os pais. Os jovens querem ser ouvidos
dentro da Igreja e dentro de suas famílias”, falou o pastor.

Câncer social
O crescimento do consumo de drogas, principalmente entre os jovens, tem levado a sociedade a clamar por ações de conscientização e combate a esse verdadeiro câncer social. Mas especialistas afirmam que o trabalho deve começar dentro dos lares. O Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgado ano passado, mostra que 28 milhões de pessoas no Brasil têm algum familiar dependente químico.

Os dados foram levantados em 23 capitais brasileiras. Foi a primeira avaliação em âmbito nacional focada nas famílias de dependentes. Mesmo sofrendo com problema, metade das famílias ouvidas na pesquisa sequer ouviu falar dos Centros de Atenção Psicossociais (Caps Álcool e Drogas) – um caminho simples e rápido para buscar ajuda. O efeito da droga é devastador para o usuário e para a família dele.

A vendedora M.S.A.,moradora de Vila Velha e membro da Assembleia de Deus, já saiu no tapa com um traficante por vender crack para seu filho, de 21 anos, que está pelas ruas da Grande Vitória, envolvido num cobertor sujo, dormindo nas calçadas com um único pensamento na cabeça: como conseguir a próxima pedra.

 

“Só quem vive sabe o tamanho da dor de ver seu filho caído numa calçada totalmente entregue a essa droga! Criei meu filho com amor, tudo o que pude dar para ele eu dei, trabalhei dia e noite para manter meus filhos na escola, estudando música, inglês, alimentando-se bem, servindo a Deus. No final do ensino médio ele começou a ficar diferente, se isolar, sumir de casa, vender objetos e largou o estágio. Vivo desesperada, saio à noite procurando-o para conversar, dar comida. Já o internei quatro vezes, ele tenta, fala que quer, mas não consegue ficar sem o crack”.
M.S.A. conta que tem dias que parece perder as forças até para orar. “Já gritei perguntando ‘por que, Deus?’ Mas é fruto da fraqueza, do desespero. Não perco a fé, meu filho depende do crack, mas eu dependo de Deus! Sei que o Senhor vai mudar essa situação”.

Outro caso comovente é o da comerciante Edna Ribeiro, membro da Igreja Quadrangular do Bairro da Penha, em Vitória. O filho, de apenas 19 anos, é “funcionário” do tráfico no Morro da Penha e usuário de maconha. Chegou a ser preso, mas antes estudava, trabalhava e concluiu o ensino fundamental.

A alegria de ir para a igreja com a filha mais nova, de 12 anos, não é a mesma sem o jovem. A luta de Edna para tirá-lo do tráfico é baseada na oração e no diálogo.“Apesar de estar nesse meio, ele é um bom filho. Conversamos claramente sobre tudo o que acontece; ele afirma que sabe que faz algo muito errado, mas não se afasta desse meio. Parece que a sensação de poder que o tráfico dá envolve esses meninos de forma sobrenatural. Acredito ser obra do inimigo”, falou a mãe.

Em meio às noites de choro e preocupação, Edna se fortalece na fé em Deus para que um dia seu filho volte a ter uma vida normal e feliz. “Sem a força espiritual que tenho vinda de Deus e o apoio dos irmãos em Cristo, não sei o que já teria acontecido comigo. Sofri, tive forte depressão, ainda sofro. Mas creio que meu milagre virá, não vou morrer sem ver se cumprir na vida do meu filho as bênçãos de Deus”.

Papel da família
A postura das mães que relataram suas histórias diante da escolha do filho é positiva, segundo o psicólogo Elizeu Borlotti, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e diretor do Centro Regional de Referência em Crack e outras Drogas.Para o especialista, não importa qual o envolvimento do jovem com as drogas, o papel da família é o do diálogo, acima de tudo.

“Todos os pais têm medo que seus filhos se envolvam com drogas, no entanto, quando isso ocorre não é hora de achar culpados e sim assumir uma postura. É muito importante procurar grupos de ajuda como Al-Anon, Nar-Anon, Amor Exigente e até mesmo nas igrejas que frequentam”. A história de Jessé, Edna e M.S.A. levanta uma discussão sobre como prevenir o problema. Nos diais atuais, com tamanho avanço no consumo de drogas, é importante que os pais estejam com a atenção redobrada em relação aos filhos. “Vale acompanhar de perto crianças e adolescentes, suas atividades, emoções, amizades e mudanças de comportamento. Isso deve ser feito como uma forma de participar da vida deles, não como um controle e interferência nas suas ações. O diálogo e a reflexão devem ser a base do relacionamento entre adultos e crianças e jovens”, disse Borlotti.

O psicólogo observa que a saúde mental dos pais tem importante influência no modo de criação dos filhos. “Os chamados fatores de risco podem estar na própria pessoa, advindos de sua família. Esse comportamento interfere no desenvolvimento da pessoa de uma forma integrada a outros fatores, como relações na escola, entre amigos, no trabalho etc. e não isoladamente”.

São exemplos de fatores de risco: autoestima baixa, ansiedade, insegurança, falta de afeto, pais (ou responsáveis) que usam drogas lícitas, ilícitas e medicamentos, relações autoritárias na família, ambiente escolar desmotivador, falta de disciplina, fácil acesso às drogas, publicidade incentivadora do consumo, para citar alguns.

Borlotti cita que crianças educadas com clareza de valores com a família e a sociedade são menos vulneráveis ao uso de drogas. “É importante criar os filhos de maneira pró-social, ou seja, incentivar no esporte, nas boas relações entre amigos e parentes, estimulando a autoestima, ensinar os filhos a fazer escolhas com responsabilidade, a lidar com frustrações”.Os pais devem buscar se informar sobre as drogas para poderem conversar com os filhos de forma aberta e não preconceituosa. As oportunidades surgem no convívio, como ao assistir a um noticiário ou ao conversar sobre algum fato que envolveu o uso de drogas na vizinhança ou na família. O diálogo ajuda a família a se conhecer melhor e criar umambiente mais saudável, no qual os fatores protetores da família sejam fortalecidos.

Meu filho usa drogas, e agora?
O passo inicial é aceitar o problema. Parece fácil, mas não é para muitos pais, que costumam achar que a droga só atinge a família do vizinho. É importante não partir para o confronto. “Brigar com o filho não ajuda. Deve-se questionar que tipo de droga o filho usa, desde quando e, a partir daí, traçar uma linha de ação para ajudá-lo.Muitas vezes trata-se de um uso passageiro, fruto da curiosidade, e um diálogo aberto pode ser decisivo na sua continuidade ou não”, falou o psicólogo Elizeu Borlotti. A família deve se informar sobre dependência química. “Tem que ler, informar-se sobre esse problema para lidar com as negações, as recaídas. É um processo doloroso que deve ser encarado com equilíbrio e determinação”, completa.

O usuário precisa reconhecer que é dependente e necessita de ajuda. Em seguida, o passo é buscar o tratamento contra a dependência química, a busca de alternativas à droga – que pode ser pela fé ou por um novo propósito na vida – e o apoio comunitário e clínico (da igreja, dos amigos, dos grupos especializados) para manter a pessoa longe do mundo das drogas.

Para dependentes de drogas, a saída não é fácil. A fé é uma ferramenta poderosa que está retirando muitos jovens do mundo das drogas e do crime. As igrejas evangélicas despertaram para esse público há muito tempo, antes mesmo que o poder público. Mas, segundo o pastor Carlos Salvador, precisam e podem fazer mais. “Precisamos de mais campanhas, ações nas comunidades, palestras nas escolas para conscientizar os jovens no local que ele vive, usar a estrutura da igreja para isso, eventos esportivos e sociais que atraiam e orientem a população”.

Milhares de pessoas já foram resgatadas e hoje são homens e mulheres restaurados graça ao trabalho de Centros de Recuperação Evangélicos. É a Igreja de Cristo trabalhando para reduzir as estatísticas e fortalecer as famílias.

O pastor Carlos Salvador pede que as igrejas apoiem Centros de Recuperação. “Muitos vivem no aperto financeiro e carecem de estrutura para atender um número maior de usuários. As igrejas podem ajudar, direcionando um recurso mensalmente para esse trabalho que é tão importante e tem feito a diferença em muitas vidas resgatadas da prisão que é as drogas”, concluiu.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.