Limites que preparam filhos para a vida

Cada criança é única e não vem com manual de instruções. É dentro do lar que se começa o aprendizado para a vida com limites que formarão o adulto do futuro


Criar filhos não é uma tarefa fácil, mas educá-los é um desafio, pois exige dos pais dedicação e ações que vão moldar o caráter da criança e formar adultos.

bem -sucedidos e preparados para enfrentar os desafios do mundo. Acontece que muitas vezes os pais “se esquecem” de seus papéis dentro da família e tornam a missão trabalhosa com erros que podem ser irreversíveis na personalidade dos filhos. Alguns “jogam a tolha”, terceirizando tal tarefa para a escola, igreja, empregados ou parentes.

O fato é que ninguém nasce preparado para ser pai ou mãe, mas é possível assumir essa missão destinada por Deus e acertar. Afinal “filhos são herança do Senhor e o fruto do ventre o seu galardão” (Salmos 127:3).  Primeiro ponto que os pais não devem ignorar é que os filhos precisam de disciplina. Disciplinar significa: educar, treinar, amar, ensinar e também dizer não. Quando os pais entendem esse significado, eles ampliam a  percepção e consciência de suas responsabilidades.

A Bíblia é um manual de disciplina. O livro de Provérbios contém vasta instrução para ajudar os pais na educação dos filhos, com mais informações sobre como treinar a criança, do que em todos os livros sobre psicologia infantil existentes. Enfatiza a questão da disciplina e não coloca de lado a correção. “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe” (Pv 29:15). É no lar, sob a orientação e supervisão dos pais, e não nos ambientes terceirizados, que as virtudes e qualidades de caráter são desenvolvidas (Dt 6:7). Salomão mostra em Provérbios 4 e 5 as instruções que recebia de seus pais ainda na tenra idade.

“Limites são para toda a vida. São eles que definem e organizam a vida em comunidade. Nós mesmos como adultos temos de respeitar limites de velocidade, de ingestão calórica, de liberdade de expressão. Porém, quando esse controle é feito sempre por mecanismos externos, caracteriza-se um estilo de vida transgressor”, destaca o diretor da Universidade da Família, pastor Dinart Barradas.

Pais devem dizer não!

Os tempos modernos têm levado os pais a se ausentarem por longos períodos do lar, isso por conta de que tanto o homem, quanto a mulher são atuantes no mercado. Mas isso não deve interferir em seu posicionamento firme de educadores.

A autora de obras relevantes para a orientação dos pais e para educação de crianças e adolescentes, como “Educar Sem Culpa”, “Encurtando a adolescência”, Tania Zagury, filósofa e mestre em Educação, foi a pioneira na discussão dos limites na educação no Brasil, sempre com o objetivo de fazer com que os pais percebam que seu principal papel é o de formar cidadãos, pessoas capazes de pela postura ética, transformar a sociedade, o que é fundamental para evitar a marginalização dos jovens.

Em seu primeiro livro, “Sem Padecer no Paraíso”, a especialista em Educação relata a tirania dos filhos. A obra é resultado de uma pesquisa feita em 1989, trabalhada com 160 pais. Esse estudo foi direcionado justamente para verificar o que estava mudando na relação com os filhos. Avaliou-se que até os anos 60 o processo de educação era baseado na repressão e autoritarismo dos pais. Posteriormente houve uma tendência à liberalização, filhos foram mais compreendidos, tendência positiva que acabou conduzindo à falta de limites. Em “Limites Sem Traumas”, Tania relata que os problemas ocasionados da década de 60 para cá ocorreram por conta de uma série de enganos e distorções sobre a nova forma de relacionamento familiar. O livro cita que pais recorreram à moderna pedagogia e psicologia e perderam o rumo – querendo tanto acertar que por vezes, erraram.

Limites fazem a diferença

Qual é a importância dos limites? Cris Poli, educadora e apresentadora da versão brasileira do Supernanny alerta que as crianças devem estar preparadas para esses limites a partir da primeira infância. A importância do “não” e do estabelecimento de limites é fator organizador na formação da personalidade. Desde um ano de idade, aproximadamente, a criança precisa aprender a ouvir a palavra “não” e os pais a pronunciá-la.

As crianças passam pela “fase do negativismo”, na qual  falam quase compulsivamente a palavra “não”, testando sua força diante da autoridade do adulto, pai ou mãe, sempre experimentando até onde podem chegar e até onde os pais as deixam ir.

Um bom começo, segundo a Supernanny, é o estabelecimento de horários já nos primeiros  anos de vida.“Cumprindo esse primeiro passo quando crescer e tiver seus 2 anos,a criança entenderá bem o que é disciplina. Para isso, os pais devem deixar a culpa de lado e entender que o papel de educar é deles somente, não da avó, da igreja e nem da escola. Essas instituições devem ser parceiras na educação”.

Pais devem passar momentos de qualidade com os filhos, seja para amá-los ou repreendê-los. “Muitas crianças ficam tempo integral na escola enquanto os pais trabalham e só os veem no fim do dia. Quando os pais chegam em casa, muitas vezes, elas os encontram  cansados, e eles, para evitar a dor de cabeça, se tornam permissivos. Não sabem dizer não.

Negam-se à atividade de educar, de pôr limites. Isso é um erro”, diz.

Para a Supernanny, nunca é tarde para começar a educar.  “Nunca é tarde para restabelecer o controle dos filhos. Eles devem entender como a casa funciona. Pais não devem ter medo de dizer não. É muito mais fácil dizer sim do que não. O ‘não’ implica se colocar em posicionamento firme e aguentar as birras para conseguir as coisas. Se não forem orientadas e colocados os devidos limites, essas crianças repetirão a forma de conquistar as coisas na vida adulta. Portanto, nunca é tarde para ensinar”.

A jornalista e escritora Chirlei Wandekoken, que já tem filhos de 22 e 18 anos, destaca a dificuldade que teve em criar filhos e estabelecer limites. Ela admite que errou muito na educação deles. “Com o primeiro errei bastante, era muito nova e não havia no mercado nenhum manual de educação de filhos. Mimei com força e os avós paternos também. Hoje ele é mais dependente. Já com a segunda eu mudei drasticamente. Coloquei limites e a criei para enfrentar a vida, ser forte, não mimei. Hoje, quando comparo as duas formas de educação, penso que errei nas duas, isso é óbvio, mas acho que acertei mais na segunda forma de educar. Deveria ter na escola uma disciplina sobre Educação de Filhos”, testemunha a mãe.

Acertar é o que pretende a advogada Heloisa Amorim, mãe de Mariana de 2 anos. Ela conta que, somente após experimentar a maternidade, foi possível entender seus pais. “Confesso que educar uma criança é uma tarefa muito difícil. Passo o dia inteiro fora e tenho que deixar a Mariana com minha mãe. Graças a Deus que eu e ela temos boa sintonia”, disse Heloisa.

Importância dos pais no lar

No livro “A Fé Começa em Casa” (Editora UDF), Mark Holmen aponta que uma pesquisa feita com jovens americanos destacou quais são as maiores influências religiosas sobre esse público. O resultado foi que não somente mãe e pai formam os dois primeiros lugares da lista, como também eles são três vezes mais influentes do que qualquer programa da igreja.

Mas a educação nos dias de hoje concorre diretamente com agentes externos: internet, TV e filmes. Alia-se ao problema a ausência da mãe e a inversão dos papéis no lar. Jean Piaget, um dos mais importantes pensadores do século XX, ressalta o papel da mãe na instrução dos filhos. Para ele existem quatro grandes períodos no desenvolvimento das estruturas cognitivas da criança que estão relacionados à afetividade e à socialização da criança. Em dois deles é fundamental o papel da mãe: inteligência sensório-motora (até aproximadamente os 2 anos) e inteligência simbólica ou pré-operatória (dos 2 a 7-8 anos). A ausência da figura materna é responsável pela falta de habilidade social e a dificuldade de lidar com as emoções. Esse comportamento é presente em um grande número de crianças dos nossos dias.

O pastor Dinart lamenta a liberação da mulher para o mercado de trabalho, que culminou na sua ausência do lar, trazendo danos à formação histórica dos filhos. “Não sou contra o trabalho da mulher, mas contra seu afastamento do ambiente doméstico. A mulher apresentada como virtuosa em Provérbios 31 era produtiva, mas ao mesmo tempo era presente (Pv 31:27)”, argumenta.

Os pais devem exercer autoridade sobre os filhos quando são pequenos, devem transferir para eles ao longo da infância os valores e princípios que vão nortear a vida e, aos poucos, irem transicionando da autoridade para a influência relacional, que será basicamente o padrão relacional quando chegarem os anos da adolescência.

“Sem limites entramos no que Salomão chama de ‘criança entregue a si mesma’ e que causa vergonha à sua mãe. Por outro lado a paternidade autoritária, centrada em regras, anula a personalidade dos filhos, levando-os à ira, o que lhes causa desânimo na fé (Col3:21)”, conclui Dinart.

A igreja como parceira na educação

O pastor Ozenir Correa frisa que em Israel todo homem ensinava uma profissão ao seu filho e orienta que pais devem preparar os filhos. “Esse foi o caso de José ao ensinar Jesus o serviço de carpintaria”. Para ele, a igreja é um ente de comunhão da família e deve proporcionar essa união. “Instituímos um congresso chamado ‘Conectando Gerações’ a fim de minimizar as distâncias entre pais e filhos. Trata-se de um movimento cristão que visa a unir pais e filhos biológicos e espirituais com o propósito de levantar uma geração que tenha a santidade como estilo de vida, oferecendo assim um avivamento sustentável e preparando a igreja para a volta de Cristo”.

Nas palavras de George Barna, diretor do Barna Research Group e autor de vários best-sellers como “O Poder da Visão” e “Transformando Crianças em Campeões”, a igreja é complementar à educação dos filhos, age em parceria.

Mas quando a igreja assume as responsabilidades da família, ela estimula uma dependência nociva da mesma em relação à igreja. Cabe à igreja o papel somente de auxiliar e dar suporte à educação dos filhos de seus membros, pois a responsabilidade religiosa é dos pais. Deve ser fonte de treinamento para o exercício de uma paternidade bíblica e responsável.  Mas o mais importante, seja em casa ou na igreja é o  exemplo. Uma peça fundamental que serve para motivar crianças e adolescentes a permanecerem na igreja, e nos caminhos de Deus. “Ensina a criança no caminho em que deve andar e, ainda quando for velho, não se desviará dele”, Provérbios 22:6, lembrem-se disso papais.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita