Limites: prepare seus filhos para a vida

Disciplina e limites são essenciais para a educação das crianças. Pais que impõem regras mostram que estão preocupados com o futuro dos filhos

Educar uma criança nunca foi tarefa fácil. Saber dosar o que pode e o que não pode rende pelo mundo milhares de livros, artigos, vídeos, estudos, palestras… Como não ser repressivo ou permissivo demais com o filho? Se no passado esses questionamentos já davam o que falar, nos dias atuais estão ainda mais em voga, sobretudo com o excesso de trabalho dos adultos e a consequentemente não participação deles tão costumeiramente na educação de sua prole.

Saber o momento certo, e até o tom certo, de dizer “não” para uma criança, acompanhar o seu desenvolvimento a fundo, conhecer seus sentimentos e não transferir responsabilidades, terceirizando a educação, são atitudes básicas na criação dos filhos, e que vão fazer toda a diferença lá na frente. Quando se colocam limites nos pequenos, demonstra-se uma preocupação não apenas com o presente, mas também, e principalmente, com o futuro deles.

“Acredito que, se os pais se atentassem para colocar limites nos filhos, teríamos menos alunos rebeldes nas escolas, e os policiais teriam menos problemas nas ruas, por exemplo”, pastor Josué Gonçalves

O Pr. Josué Gonçalves, líder do Ministério Amo Família, terapeuta familiar, escritor e conferencista internacional, avalia que haveria menos problemas na sociedade se houvesse mais disciplina em casa, e destaca a frase que o Pr. Marcos de Souza Borges, o Coty, prega: “Excesso de carinho e proteção sem limites e disciplina são iguais à delinquência”.

“Acredito que, se os pais se atentassem para colocar limites nos filhos, teríamos menos alunos rebeldes nas escolas, e os policiais teriam menos problemas nas ruas, por exemplo. Uma das razões de termos hoje adultos rebeldes é porque na infância faltou disciplina. A Bíblia é bem clara sobre a importância da correção quando em Provérbios 23:13 diz: ‘Não retires a disciplina da criança’.

A Bíblia diz que Deus repreende e castiga os filhos que Ele ama. Temos que agir também assim”, frisa o Pr. Josué Gonçalves. Qual a dosagem correta dessa disciplina é o que todos querem saber, e é o que mais gera debate. Mas é consenso o pensamento de que sem regras, limites e disciplina não há educação eficaz. “Nós, pais, somos os anfitriões do mundo para as crianças. Estamos apresentando o mundo para elas. E o mundo não funciona só com ‘sim’.

É preciso chegar ao equilíbrio. Se a criança for educada na permissividade, vai achar que pode tudo – por exemplo, furar fila. Mas se impuser o ‘não’ demais, pode se tornar agressiva”, alerta a pedagoga e especialista em Terapia Sistêmica Alessandra Paganoto.

Uma das orientações essenciais que ela fornece para que se chegue ao ponto certo nessa disciplina é não deixar a criança sem entender o motivo da proibição imposta. “É importante dizer ‘não’, porém, devemos fazer com cuidado. Às vezes ele está carregado de autoritarismo.

É preciso explicar para a criança o porquê dele. E isso requer dos adultos mais envolvimento, porque você vai ter que olhar para a criança e falar os argumentos”, acrescenta Alessandra.

Idade certa

E quando os pais devem começar a aplicar a disciplina? Há uma idade em que os pequenos já passam a entender a correção? A Bíblia dá várias orientações sobre isso, quando em Provérbios 29:15 cita: “É bom corrigir e disciplinar a criança. Quando todas as suas vontades são feitas, ela acaba fazendo a sua mãe passar vergonha”. E novamente em Provérbios está escrito: “Não retires a disciplina da criança”, desta vez no capítulo 23, versículo13.

A psicóloga clínica Betânia Dini afirma que, diferentemente do que muitos pensam, até os bebês já devem saber que há regras e limites. No entanto, a disciplina deve sempre ter pesos diferentes para cada faixa etária.

“A idade ideal para se começar a disciplina é desde sempre. O próprio dia a dia do bebê, com rotinas e regras, já são os primeiros limites que a gente começa a estabelecer. Há pais que acham que só porque o filho é criança não é preciso ficar corrigindo toda hora. Mas crianças não são apenas crianças. Elas são na verdade projetos de adultos. A forma como você lida com seus filhos enquanto ainda crianças é a forma com que eles vão lidar com a sociedade, com Deus, com regras”, observa.

As orientações são partilhadas pela gestora na área de tecnologia educacional Kellen Camargo Kohler, mãe de Isabela, de 10 anos, e Kauã, de 8. Casada com Luiz Arlindo Kohler, ela consta que os temperamentos dos filhos são diferente, mas a educação é a mesma.

“Deus nos deu um privilégio, que é o de criar os nossos filhos, e isso é uma grande responsabilidade porque você vai moldar o caráter deles. A criança não vai encontrar o caminho sozinha”, Kellen Camargo Kohler, com seu esposo Luiz e os filhos, Isabela e Kauã

“Deus nos deu um privilégio, que é o de criar os nossos filhos, e isso é uma grande responsabilidade porque você vai moldar o caráter deles. A criança não vai encontrar o caminho sozinha. Somos nós, como pais, que vamos ter que mostrar. E os limites vêm desde bebê. Você precisa dizer ‘não’, mostrar que está errado e que pode machucar, por exemplo, mas sempre educando com muito amor”, detalha Kellen, que congrega com a família na Igreja Adventista Espaço Novo Tempo, na Praia da Costa, em Vila Velha.

O que deve sempre ficar claro para os pais é que os filhos sempre os verão como espelho, como modelo. Desse modo, não adianta tentar ensinar a criança a não gritar, se essa instrução vem com um “não grite” em som estridente.

“Nós, pais, somos modelos para os nossos filhos. Eles nos copiam. Como é que no momento em que vamos exercer a autoridade e aplicar a disciplina nós perdemos o controle? Como vamos ensinar domínio próprio, autocontrole?”, questiona Betânia Dini.

Tempo de qualidade

Corre-corre no trabalho. Incontáveis atividades domésticas. Preparo de refeição para os filhos. Leva e traz de crianças na escola e outras aulas. Dar banho. Colocar para dormir. Se observarmos essa rotina na contagem do cronômetro, talvez muitos pais possam ser surpreendidos com uma realidade: falta tempo para educar os filhos.

O dia a dia é repleto de atividades que levam as famílias de um lado para o outro, sem parar. O ritmo acelerado faz com que sobrem compromissos, mas faltem relacionamento e tempo para conhecer, entender, educar, disciplinar. O problema é que, se um desses tópicos faltar, a corrente se quebra.

“Eu trabalho demais. Não tenho tempo para ficar brincando ou disciplinando toda hora o meu filho.” Essa é uma das principais desculpas listadas pelos pais que são confrontados com uma verdade: faltam limites no seu filho. Mas o argumento é logo derrubado quando se entende que não é quantidade de tempo que se exige, mas sim qualidade do tempo.

“Infelizmente, o cuidado das crianças foi sendo terceirizado e a compensação dos pais vem através de presentes, como brinquedos, celulares e tablets”, Marinalva Antônia da Silva, psicóloga

A psicóloga Marinalva Antônia da Silva, pós-graduanda em Terapia Cognitivo Comportamental, dá um exemplo: “Tem mães que passam o dia inteiro em casa com os filhos, mas ficam o tempo todo nas atividades domésticas, e as crianças ficam soltas. Já outros pais só têm uma hora livre com o filho por dia, mas aproveitam para sentar no chão e brincar, ler com o pequeno, cantar. Há qualidade no tempo. A criança sente e vai respeitar quando tiver que ser corrigida porque aqueles pais a conhecem de fato”.

Um outro problema que pode surgir com essa distância dos pais no dia a dia é a decisão de crianças, e mais tarde dos adolescentes e jovens, de ir buscar o que precisam com pessoas que não têm bom exemplo para mostrar.

“Enquanto os pais pensam estar suprindo os filhos daquilo que eles mais precisam, dando conforto, status e bens, os filhos estão clamando por atenção, aceitação, valorização e amor. Se aquilo que eles tanto precisam e buscam não é dado em casa, buscam aprovação dos seus pares, amigos, pois querem se sentir importantes para alguém e parte de algum grupo. Passar pouco tempo de ‘qualidade’ com os filhos é melhor que nenhum tempo”, orienta o pastor Marcelo Giovenardi, que ao lado sua esposa, Briane, é fundador do Ministério SOS-Família.Eles são da Primeira Igreja Batista em Goiabeiras, em Vitória.

Educação terceirizada

Com a falta de tempo dos pais, a tarefa de dar limites e educar as crianças frequentemente recai nos ombros de instituições que não deveriam ser o foco principal dessas responsabilidades, como escolas, igrejas e até televisão e internet.

A psicóloga Alessandra Paganoto salienta: “É muito cômodo colocar o filho numa boa escola e achar que está tudo resolvido. É preciso acompanhar o desenvolvimento da criança”.

A também psicóloga Marinalva Antônia da Silva explica que cada instituição tem seu papel social na educação da criança, e são todas muito importantes, mas os ensinamentos dos pais são a base para os filhos.

“Infelizmente, o cuidado das crianças foi sendo terceirizado, e a compensação dos pais vem através de presentes, como brinquedos, celulares e tablets. Essa é uma realidade cada vez mais comum.  O que mais chega aos consultórios é a falta de limites dos filhos.
Muitos pais não impõem limites e depois reclamam que a criança não está aprendendo nada na igreja e na escola”, comenta.

A Bíblia diz em Salmo 127:3 que os filhos são herança do Senhor e devem ser preparados como flechas para serem lançadas pelos pais no alvo. O tiro não é certeiro na primeira tentativa. É preciso muito treino, disciplina e dedicação para alcançar o objetivo. Não exercer essa responsabilidade de educação e cuidado dada por Deus é desprezar a herança que o Pai nos deu: os filhos.

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