Liberdade Religiosa x Diversidade

As diferenças entre as religiões podem ser uma barreira ao desenvolvimento humano? A fraternidade e o respeito pleno às mais diversas crenças são possíveis?

A diversidade de crenças é uma das características mais marcantes da humanidade. Cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo, budismo e espiritismo são algumas das principais religiões entre as mais de duas mil que estimam-se existir no mundo, conforme o Relatório Internacional de Liberdade Religiosa de 2005. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identifica cerca de 10 religiões principais.

Com essa multiplicidade, tornou-se complexa a relação entre os povos, abrindo espaço para a intolerância ante a fé alheia, demonstrada em diversos momentos da história da humanidade.

Para estudiosos, tudo começa com Abraão, na saída de sua terra, assim como Deus orientou (Gn 12), quando ainda se chamava Abrão. Judeu, encontrou nas terras onde foi se alojar com sua mulher, Sara, pessoas que além de proprietárias daquela área não tinham a mesma convicção religiosa.

“Abrão sai de uma terra desabitada e vai para uma terra que já era ocupada. Isso, com certeza, começou a gerar os conflitos políticos como nos dias de hoje; confrontos que misturam motivos religiosos, sociais, políticos e econômicos. Além disso, dentro da família judaica tradicionalmente há rivalidade”, explica o professor doutor em Ciências da Religião da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Edebrande Cavalieri.

A primeira disputa veio a acontecer quando Abrão toma a serva egípcia Hagar a pedido de Sarai, até então estéril, para ter um filho. Ela dá à luz Ismael, uma criança que nasce sob uma profecia de hostilidade entre irmãos trazida por um anjo de Deus (Gn16:11-12).

Segundo Cavalieri, o momento histórico marcante do conflito é quando Deus muda o nome de Abrão para Abraão e de Sarai para Sara, dando ao casal o filho Isaque já na sua velhice, prometendo multiplicar a sua descendência. É com o nascimento de Isaque que Ismael é renegado pelo pai, e novamente há profecia de que, assim como seu irmão, de Ismael seria feito um grande povo (Gn21:17-20).

“E ele dá origem aos árabes, que são semitas, do mesmo tronco familiar dos judeus; é o filho da escrava rejeitada que origina o islamismo. É o filho da guerra que nasceu de Hagar. Começa a briga entre os irmãos, entre o filho desejado e o filho rejeitado por Abraão a pedido de Sara, que não quer mais a presença da outra família”, explica.

Cristãos x Muçulmanos

Essa também é a visão do diretor de Comunicação e Liberdade Religiosa da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista, o pastor Rafael Rossi. Há muitos aspectos, ressaltou, que unem cristãos e muçulmanos, mas falta em ambos uma forma de compreender as questões culturais de cada um com o objetivo de obter o compromisso de fraternidade. Ele frisa que, assim como hoje existem muçulmanos dizimando cristãos, houve momentos em que cristãos também exterminaram muçulmanos.

“Abraão, nosso exemplo de fé (Tiago 2:23), é a base para o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Para os muçulmanos, os cristãos também são descendentes de Ismael. Para cristãos e muçulmanos, Deus criou todas as pessoas e é o nosso Pai. A história registra sete cruzadas de cristãos e muçulmanos entre os séculos VI e VII. Outras cruzadas foram apagadas pela história cristã, porque crianças foram enviadas para lutar. Um ponto fundamental para a liberdade religiosa é a admissão de que nunca poderemos receber os seres humanos como irmãos, a menos que reconheçamos que temos o mesmo Pai”, explica.

Professora doutora de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Lidice Meyer Pinto Ribeiro explicou que, mesmo que um muçulmano possa se tornar amigo de um cristão, ele sempre terá a intenção de converter este à sua religião, e vice-versa. Isso é motivo de conflito porque, para o muçulmano, não existe alternativa religiosa além do islã.

“Dessa forma, a presença de missionários em países islâmicos é sempre vista como uma ameaça à Umna (comunidade universal islâmica), pois a conversão ao cristianismo altera o equilíbrio da sociedade como um todo. Daí o fato de missionários permanecerem incógnitos nos países muçulmanos. A revelação de sua verdadeira identidade é um risco de morte para o missionário e um risco social para a comunidade islâmica”, explica.

Quando as diferenças sobre as crenças religiosas são muito grandes, essas questões necessitam ser resolvidas por meio do diálogo. Caso isso não aconteça, elas podem se converter em sérios obstáculos para a convivência social pacífica. Lidice destaca que “precisamos trabalhar para compreender os muçulmanos, capacitar-nos a viver celebrando o que temos em comum e respeitando as diferenças uns dos outros. É fundamental aprender modos de agir consistentes com a convicção de que os islâmicos são nossos irmãos humanos”.

Praticantes do islã no Espírito Santo se reúnem na Ufes todas as sextas-feiras. Nesses encontros, alguns cristãos, tanto católicos quanto protestantes, têm participado para conhecer mais dos muçulmanos. O líder da comunidade em Vitória, HadiKhalifa, é da Líbia, e explica que o Alcorão, livro sagrado do islã, tem muitas passagens que contam os mesmos trechos descritos na Bíblia.

Eles consideram que as suras, como são chamadas as seções do livro, foram reveladas ao profeta Maomé (em árabe Mohamed). A fundamental diferença entre o cristianismo seria a crença de Jesus como salvador da humanidade. Para eles, Jesus é um profeta, assim como Maomé o foi, apesar de o Alcorão também apontar que Maria concebeu através do Espírito Santo.“O islã não é isso que essas pessoas fazem no mundo. É uma religião linda, que prega o amor às outras pessoas. O profeta Mohamed em nenhum momento prega o assassinato de pessoas. Ele prega o amor de Alá (Deus) e não essa guerra que os extremistas têm praticado”, salienta Hadi.

Religião x Política

As questões da intolerância religiosa pelo mundo atualmente e em muitos momentos da história, como opinam os especialistas de forma unânime, ultrapassam as questões religiosas e culturais e, na maioria dos casos, têm relação política e econômica também.

O professor Edebrande Cavalieri comenta que a intolerância religiosa se torna aguda durante a Reforma Protestante. “Existem atas redigidas por um grupo de seguidores de Martinho Lutero em reuniões com um representante do papa Leão X para tentar uma conciliação. Lutero estava preso num castelo, entre 1539 e 1540, e as partes foram costurando um acordo em todos os pontos doutrinários, até que chega ao primário pontifício do papa, o poder papal.Então o acordo emperra na questão política”.

Mas como pregar para todas as nações conforme Deus estabeleceu em Sua Palavra (Mt 28:19-20) sem ferir a liberdade religiosa de todas as outras crenças? O pastor Rafael Rossi sugere que sejamos como Paulo (I Cor 9:19-23), que fez tudo pelo Evangelho. “Temos um desafio mundial, que é apresentar as mensagens e a vida de Cristo como solução para o problema do pecado. E é inegável que pregar o Evangelho apenas na rua onde moramos já é um grande desafio. No bairro, o desafio é ampliado. Na cidade, no Estado e no país, a complexidade só aumenta, até chegar ao alvo deixado por Jesus, todo o mundo. As barreiras culturais são grandes, e o texto de Coríntios é a chave sobre essa contextualização”.

“Paulo viu que a mensagem do Evangelho deve ser aplicada a todo ser humano e em toda parte do mundo. No entanto, a grande questão é: como? Tantas religiões e cultura tornam qualquer proselitismo mais complexo. Creio particularmente que na proclamação final do Evangelho, que de fato acontecerá, deverá ser feito um trabalho especial pelas classes de pessoas até aqui negligenciadas.

Deus espera que Seus mensageiros tomem interesse especial por esses povos. Alguns princípios são fundamentais na pregação do Evangelho em seu cumprimento profético. A mensagem não deve ser diluída. O Evangelho precisa ser pregado por completo e não podemos deixar de lado as doutrinas. Nessa aproximação cultural, toda a mensagem deve ser ensinada. Não adaptamos a mensagem nem omitimos aspectos da verdade, mas adaptamos os meios pelos quais levamos a mensagem do Evangelho”, defende.

A ordenança de evangelização deve ser cumprida, segundo a professora da Mackenzie Lidice Meyer, mas o destino final de cada um está nas mãos de Deus. Por essa razão, a aproximação deve ser apenas dentro daquilo que a Bíblia fala, todos conhecerão a Jesus até a Sua volta, mas nem todos O aceitarão. “A única forma de aproximação ocorre pela via cultural. A imersão do missionário na cultura facilita a sua aceitação na sociedade islâmica. Mas é impossível acreditar que as duas religiões, cristianismo e islamismo, possam conviver pacificamente um dia, pois ambas se declaram possuidoras da verdade eterna e ambas defendem o direito de evangelizar para trazer o outro para a salvação de sua fé”, declara.

Liberdade de expressão

Com o ataque ao jornal “Charlie Hebdo”, outra questão entrou na pauta diária, a liberdade de expressão. Até onde vai esse limite, já que também existe a liberdade religiosa, que precisa ser respeitada?

Pessoas foram às ruas para dizer que “são Charlie”, mas muitos também se manifestaram não concordando com a postura dos chargista em ofender o islã, o cristianismo e os judeus. Para eles, a democracia também está em respeitar as convicções alheias, mas nem por isso agredir ou eliminar o outro é a forma correta de conduta, tanto que o jornal continua a publicar as charges com a imagem de Maomé.

“A arte não precisa apelar para determinadas formas de desrespeito. Quando se faz isso, o artístico perde sua razão de ser, porque a arte como atividade humana cultural essencial tem que transcender as particularidades, tem que expressar a universalidade, senão deixa de ser arte e vira particularidade. Devemos caminhar para o respeito rigoroso de todas as partes, caso contrário não conseguiremos acabar com a intolerância em todos os sentidos. Que a minha forma de expressar não seja uma agressão ao outro e às coisas mais sagradas. Todas as religiões têm seus símbolos sagrados, você pode não acreditar neles, mas é obrigado a respeitar. A democracia não é um espaço de liberdade absoluta, ninguém tem liberdade absoluta, ela se limita à existência do outro; a coexistência é característica fundamental da democracia e da liberdade, quer seja de expressão ou religiosa”, explica Cavalieri.

Professor doutor em Comunicação do Centro Universitário Adventista, Luis Fernando Assunção pondera que é preciso muita sensibilidade e responsabilidade para tratar de assuntos relacionados à religião, porque a liberdade de expressão não pode ser tolhida, no entanto, ela não deve atacar pessoas gratuitamente.

“Isso deve ser pensado principalmente quando se tem um veículo de grandes proporções nas mãos. É preciso saber se isso contribui para a paz e a tolerância entre os povos. Isso também não quer dizer que temos que aceitar ações como a dos extremistas de matar pessoas por conta do que acreditam. Tudo é preciso ser discutido pelas vias legais”, ressalta ele.

De qualquer forma, depois do atentado às torres gêmeas, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, os especialistas acreditam que surgiu a necessidade de o Ocidente estabelecer uma forma de diálogo com extremistas islâmicos, mas não tem havido sucesso.

“Quem vai fazer mediação política com os extremistas islâmicos? Eles não aceitam os governos dos Estados Unidos e da Europa, não aceitam diálogo com o papa. E a cada dia aumenta o número de praticantes do islã mundo afora. Quando estava apenas em Israel, ninguém se preocupava. Começaram a atingir as grandes potências e falaram apenas em ataque terrorista, mas é uma questão política. Qualquer revide acarreta em uma nova batalha. Esse é o desafio da humanidade no século XXI”, destaca o professor Edebrande.

O desafio é mostrar àqueles que ainda creem que podem inserir na vida das pessoas a religião que acreditam sem ferir a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 2001, que afirma: “Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

O Brasil já teve uma única religião oficial – o catolicismo –, com a Constituição de 1824, que perdurou até a Proclamação da República. Até então, só eram permitidos templos católicos. O clero católico fazia parte do funcionalismo do Estado. É claro que eram praticadas outras religiões, mas os seus professantes sofriam discriminação e só podiam realizar seus atos religiosos em particular, no espaço privado, e não em lugares públicos.

Com a República, o Brasil se tornou um Estado laico, isto é, deixou de ter uma religião oficial e se separou da Igreja. O artigo 5º, inciso VI, diz que: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a sua liturgia, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva”.

Com tudo isso, o que não devemos esquecer é o compromisso cristão com a pregação da Palavra, o “Ide” (Mc 16:15) que Jesus orientou, sem ignorarmos o caráter profético de toda essa guerra, que está prevista na Bíblia (Mt 24:3-14). Ainda assim, é preciso garantir que os direitos sejam preservados em qualquer lugar do mundo e, como bem disse o professor Edebrande, esse é o novo e talvez o maior desafio para a humanidade.

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.

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