Liberdade para a fé

Mesmo não vivendo em um país onde há perseguição religiosa, ser cristão no Brasil não é tarefa fácil. Bombardeados por todo tipo de preconceito, seja no trabalho, na escola, na faculdade, em casa ou na vizinhança, muitas vezes os cristãos são criticados e ouvem piadinhas sobre a sua crença. Ser contrário ao aborto, ao homossexualismo, à idolatria e à imoralidade, por exemplo, tem levado evangélicos a ser alvo de discriminação.

Por outro lado, atitudes radicais de uma minoria cristã levam parte da população a ver com maus olhos toda a comunidade evangélica. Em nome de Deus, atacam literalmente quem discorda dos ensinamentos bíblicos e geram repulsa em quem está ao redor.

Recentemente, esse aspecto foi exposto em mídia nacional. Em horário nobre, a Rede Globo veiculou na novela Duas Caras cenas de um grupo que se intitula evangélico e que atacou um homossexual, uma ex-viciada em drogas e um jovem, que vivem na trama um triângulo amoroso.

Quando soube que os três haviam comprado um colchão king size, a líder do grupo de “cristãos”, Edivânia, se alterou e saiu com a Bíblia nas mãos atrás do trio, instigando o povo contra os “pecadores”. Jogou até pedra na ex-viciada e ainda pegou uma faca e rasgou todo o colchão. O personagem homossexual reagiu gritando: “Pecado é ter preconceito”. No capítulo seguinte, os dois rapazes que haviam sido cercados e quase linchados pelos “cristãos” foram salvos pelo líder da comunidade local, que chegou de arma em punho.

Na realidade, o preconceito de evangélicos contra homossexuais que a novela queria mostrar gerou um debate inverso. A reação do povo evangélico foi imediata. Aumentaram o número de sites na internet criticando o núcleo religioso de Duas Caras. O autor da novela, Aguinaldo Silva, recebeu duras críticas em seu blog e também pela televisão. Já a Rede Record exibiu programas atacando a trama da Globo. A revista Veja também publicou uma matéria sobre o assunto.

O pastor Araúna Santos, membro da Primeira Igreja Batista de Vitória, avaliou os capítulos e disse que essa dramatização pode ser reflexo do comportamento de uma minoria que se diz evangélica, mas que na realidade carrega apenas o rótulo, não tendo, de fato, os princípios cristãos no coração e na mente.

“O fanatismo religioso tem sido criticado severamente pela população em geral. Alguns ‘cristãos muito religiosos’ manifestam comportamentos intolerantes para com aqueles que não pertencem a seus grupos doutrinários. Essa realidade confessional tem proporcionado elementos favoráveis a críticas e reflexões pouco positivas sobre o cristianismo. Comportamentos estereotipados e fanáticos são objeto de comparações não agradáveis e até jocosas, identificando igrejas e crentes com subculturas e alienações socialmente demonstráveis.

Precisamos aceitar a verdade que afirma a existência de fanatismo e suas conseqüências – intolerância e presunção – nas relações de trato entre evangélicos e não-evangélicos. É preciso haver respeito mútuo de crenças e opiniões. Esse é o caminho para a convivência benéfica”, declarou.

Discriminação na pele

Se por um lado os cristãos têm sido rotulados em mídia nacional de preconceituosos, por outro há inúmeras situações vividas no dia-a-dia dos evangélicos que mostram a discriminação aos que seguem a Cristo. Manter-se fiel ao cônjuge, à namorada, não “colar”, não mentir, preservar-se sexualmente para o casamento e tantas outras realidades fazem muitas vezes cristãos serem classificados diariamente de “bobos”, “crentinhos”, “caretas” etc.

O ministro de música Léo Ribeiro, 24 anos, da Assembléia de Deus de Aribiri, em Vila Velha, por exemplo, passou a ser chamado de “pastorzinho” por seus colegas de sala de aula simplesmente porque disse que sexo seguro não era camisinha e sim o casamento. “Isso foi no 2º grau, mas até hoje ouço piadinhas quando encontro meus colegas”, contou.

Já a missionária da Jocum (Jovens com uma Missão) Fabiana Tostes, 28 anos, membro da Igreja de Nova Vida, em Goiabeiras, Vitória, foi alvo de crítica dentro da própria família. Depois que parentes saíram de um supermercado sem pagar um produto, ela retornou ao estabelecimento e fez o pagamento. Quando voltou para casa e contou o que tinha feito, ouviu que era “crente boba”.

O pastor Julio Brotto, da Igreja Batista de Itacibá, em Cariacica, chegou a ser impedido de entrar em três hospitais em municípios diferentes da Grande Vitória para evangelizar. “Pastor tem liberação para entrar em hospitais a qualquer momento, mas nessas ocasiões fui impedido e em uma delas tive que acionar a polícia. Fiz a visita acompanhado por policiais”, disse.

A pedagoga Josefina Aquino Simões, 42 anos, membro da Igreja Apostólica Missionária, em Soteco, Vila Velha, viu o filho de 14 anos viver o drama da discriminação. Ele passou a ser rotulado de homossexual pelo simples fato de não ter aceitado sentar numa roda para ver fotos publicadas em uma revista pornográfica. “Ele ficou triste, mas deu o testemunho dele e hoje já conseguiu levar um dos colegas para a igreja”, contou a pedagoga.

Como e quando se posicionar

O grande questionamento é quando e como se deve reagir às palavras discriminatórias contra evangélicos. Usar constantemente a Bíblia para rebater as provocações não é o mais recomendado, e sim o testemunho. “Para não passarmos por pedantes, radicais, fanáticos, temos que mostrar pelos nossos atos que somos pessoas que partilhamos o amor. Às vezes, como cristãos, somos taxados de forma discriminatória porque, para nos justificar, usamos sempre o não. Não pode isso, não pode aquilo. Só falamos do que está errado, do que é ‘proibido’. Dessa forma, quem está ao nosso redor vai nos isolar e fazer propaganda anti-cristianismo”, alertou o pastor Irineo Koch, diretor da rádio Novo Tempo.

No trabalho ou na escola, quantos evangélicos já começaram debates árduos sobre temas bíblicos polêmicos, os quais, na maioria das vezes, não vão servir para engrandecer o nome de Cristo? Ao contrário, muitos do grupo saem criticando o posicionamento do cristão por ser “radical”.

“Os evangélicos muitas vezes se esquecem de que eles são os primeiros a produzir os embates. Já ouvi pessoas dizendo: ‘fui demitida ou chamada à atenção pelo patrão porque estava evangelizando no trabalho, mas Jesus disse que seríamos perseguidos’. Ora, o trabalho não é lugar de evangelizar, e sim de trabalhar. A pessoa evangeliza mais sendo um bom empregado do que gastando o tempo para discutir assuntos bíblicos que muitas vezes não levam a lugar algum. Bons profissionais terão apoio de seus patrões para criar momentos de estudos bíblicos, por exemplo, na hora do almoço, como já ocorre em muitas empresas”, orientou o pastor Julio Brotto.

Segundo o reverendo Max Wenzel Eler Louzada, da Igreja Presbiteriana de Serra-Sede, todo cristão verdadeiro está sujeito a ser alvo de preconceito: “Não creio em crente não discriminado. Creio em crente humilde para não revidar a discriminação e orar pelo discriminador com amor. Jesus foi rejeitado, assim como inúmeros de seus profetas no passado. Cristo nos fala que seríamos perseguidos, maltratados e humilhados por sermos cristãos. Não dá para negar isso”.

Um dos freis mais conhecidos da igreja católica, Francisco de Assis, que viveu no século XIII, é lembrado muitas vezes por uma frase que resume bem como deve ser o comportamento de um cristão: “Pregue o Evangelho sempre e, quando necessário, use palavras”. “Nós temos que ter sabedoria ao nos depararmos com certas situações. Às vezes é, sim, preciso se posicionar, mas às vezes é melhor ficar quieta. Deus não precisa de advogado”, declarou a missionária Fabiana Tostes.

O pastor Araúna orienta que o comportamento da igreja tem que ser como o de Cristo. Na frente de Pilatos, por exemplo, Jesus se manteve sem questionar, sem brigar, sem esbravejar, assim como no momento da crucificação (Lucas 23 e 24). Cristo tinha como característica a bondade e a mansidão e, sabendo da incredulidade do povo, clamou por Deus ao morrer: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem”. No entanto, irritou-se quando entrou no templo em Jerusalém e viu mercadores usando a casa de Deus para comércio. Sua reação foi expulsar todos do local.

Muito do que Jesus Cristo fazia ou deixava de fazer era motivo de crítica, principalmente por parte dos religiosos judeus, por causa de seus preconceitos e tradições. “É preciso estar convicto do que se é e de sua missão, prosseguindo a trajetória de vida cujo objetivo é a glória de Deus, agradando-Lhe em tudo, e não aos homens (Efésios 1:3-14). Jesus suportou contra si mesmo toda a oposição dos pecadores (Hebreus 12:1-4), calado, tolerante, compassivo, na maioria das vezes. E recomendava: ‘Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que eles vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai que está nos céus (Mateus 5:16)”, ressaltou o pastor Araúna.

Cristão não pode errar?

Da mesma forma que os evangélicos de fato são tantas vezes criticados por se manterem fiéis aos ensinamentos de Cristo, são ainda mais severamente julgados quando cometem qualquer ato errôneo. Pelo mais simplório erro, ou pecado, será alvo de uma enxurrada de acusações, como: “Ele não é crente, como fez isso?”, “Que crente, que nada”.

Essa reação deve ser considerada normal, considerando que a Bíblia já exortava que estamos vivendo nas trevas, mas temos que ser luz. Em um ambiente totalmente escuro, se você estiver com um simples palito de fósforo aceso, vai ser o centro da claridade, o local e a pessoa mais visada. Todos vão ver seus movimentos, observar os seus olhares, as suas reações. Assim é no dia-a-dia, seja no ambiente profissional, familiar ou de amigos.

Para o nome de Cristo não ser manchado, o melhor é admitir o erro, confessar o problema e se submeter a uma disciplina. “A verdade é que nós, cristãos, temos que ser padrão para o mundo. As pessoas esperam isso, mesmo que não digam. No entanto, está cada vez mais difícil encontrar cristãos de fato e o nível de comunhão está cada vez menor. Assim, os frutos são pequenos e o testemunho não é bom”, destacou o pastor Irineo Koch.

O fato de ter “virado moda” tornar-se evangélico agravou ainda mais esse cenário. Levar a bandeira de uma igreja tem gerado inúmeros benefícios para milhares de pessoas, sejam artistas, políticos, empresários, profissionais reconhecidos ou simplesmente interessados em conseguir uma vaga de emprego, por exemplo. Ao longo do tempo, ser rotulado de evangélico virou sinônimo de honesto, sincero, íntegro, fiel, compromissado, dedicado, entre outras tantas qualidades. Mas se passarmos esse número cada vez maior de “cristãos” em uma peneira, quantas pedras preciosas vão ficar?

“Infelizmente, surgiu uma nova moda entre esses que se dizem cristãos. É o gospel que pode posar nu, o gospel que pode ir a boates, o gospel que pode estar em lugares em que Deus condena. É um ‘ser cristão’ mais fácil. Mas ser verdadeiramente um cristão é buscar santidade, ter o caráter de Cristo. O homem é passível de erros, a própria Palavra o discerne assim. É claro que o errar vai manchar o nome de Jesus, mas é preciso reconhecer os erros. O pior é continuar errando”, alertou o pastor Leandro de Oliveira, que é do Ministério Gileade, na Praia da Costa, em Vila Velha.

Ele é um exemplo vivo de pessoa que discriminou e já foi discriminada. Por 25 anos, viveu no pecado do homossexualismo e diz que passou momentos difíceis de críticas duras por parte de cristãos.
“Na verdade, eu tinha horror a crente, porque muitos viravam o rosto para mim. Vivi situações complicadas, mas porque olhavam para o homem, que é falho. Imagina olhar para um homem de 1,93 de altura, travestido de mulher? Era horrível, mas era o que as pessoas viam.

Mesmo depois de convertido, de Deus ter me dado uma esposa e um filho maravilhosos, de ter reconstruído a minha vida, muitos cristãos duvidavam. Deus realmente pode mudar o homem! Enfrentei o preconceito fora e dentro das igrejas. Temos que tirar de nós o preconceito. Nós não temos que impor o que somos ou como agimos, mas temos que mostrar com nossos atos a diferença, e o principal, buscar agradar e alcançar a verdadeira e soberana vontade de Deus”, revelou.

Na vida cristã, o apóstolo Paulo orienta que devemos caminhar sempre pensando em não criar embates: “Abençoai aos que vos perseguem. Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” – Romanos 12. “É preciso reaprender a ser cristão nesse mundo de novas ‘éticas morais’, sem contudo deixar de lado os pilares fundamentais da fé cristã. É preciso ter a consciência de que enfrentamos os demônios e as potestades que dominam muita coisa neste mundo, e não as pessoas. Estas são alvo da salvação, nesta luta contra o mal”, concluiu o reverendo Max Wenzel.

Jesus Cristo chamou de bem-aventurados os que são perseguidos e disse que deles é o reino de Deus (Mateus 5:10). Ser alvo de críticas e preconceito por estar trilhando o caminho do Pai pode gerar sofrimento neste mundo mergulhado no pecado, pode trazer dor, desânimo, mas o Senhor espera que a Sua igreja permaneça firme na fé, mas que também não caia no radicalismo de querer impor à força a sua crença.

[important color=blue title=]Saiba mais!]
Como vencer o preconceito
Josué Campanhã
Editora Vida

A grande omissão
Dallas Willard
Editora Mundo Cristão

Como ser um cristão autêntico
Bill Hybels
Editora Vida

Livre pensar e só pensar
Araúna Santos

Os cristãos no ambiente de trabalho
Peter Wagner
Editora Vida[/important]

Matéria publicada na edição nº 129 da Revista Comunhão

 

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