A justificação pela fé hoje

Muitas vezes a doutrina da justificação pela fé é considerada como algo muito abstrato, desligado da vida cotidiana. E, de fato, as discussões sobre doutrina tendem a ser filosóficas.

Lutero, no entanto, encontrou nela um grande significado para a sua vida e seu tempo. O mesmo podemos fazer os leitores de hoje. Se relacionarmos a justificação pela fé com o contexto de Paulo e com o nosso contexto, descobriremos que é uma grande notícia.

Comecemos por esta pergunta simples: o que significa a justificação pela graça por meio da fé, de acordo com Paulo? Para respondê-la, devemos nos lembrar de duas coisas. Em primeiro lugar, as disputas teológicas a respeito da salvação. Dentro de uma corrente do judaísmo, embora se acreditasse que Jesus Cristo era o Messias, pensava-se que as pessoas se salvariam se fossem circuncidadas e obedecessem à lei de Moisés.

Nessa linha, os gentios eram pecadores e que, por não seguirem a Torá, sua fé em Jesus Cristo era insuficiente. Isso levou Paulo a repensar sua tradição judaica sobre a lei, a justiça de Deus, a eleição e outras questões importantes. Ele escreveu a carta aos Gálatas e aos Romanos explicando bem esse ponto.

O apóstolo, que cresceu em Tarso e pregava aos gentios, pensava que a salvação podia incluir outros povos, pois era pela graça e não por obedecer a lei. A justiça de Deus era diferente da justiça da lei. Portanto, os gentios não precisavam ser circuncidados para alcançarem a salvação. Ao contrário do que acreditavam os judeus, para quem só gentios eram pecadores, Paulo insiste em sua carta aos Romanos que todos os povos e todas as pessoas são pecadores e precisam graça de Deus para serem transformados e se tornarem novas criaturas, filhos e filhas de Deus.

Em segundo lugar, a situação de injustiça do Império Romano era tal que todas as coisas caminhavam para trás, pela “impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça” (Romanos 1:18). As pessoas praticavam a injustiça, roubavam, matavam, eram corruptas. Para Paulo, “não havia uma pessoa justa, nem uma sequer”, todos estavam submetidos a um poder sistêmico pecaminoso. Por essas práticas perversas, o homem estava se destruindo a si próprio e à criação de Deus, mas o Pai não queria isso. Então, ao invés de puni-lo e condená-lo à morte, aplica-lhe a justiça divina, que é a de graça. É uma justiça totalmente diferente à da lei romana e mosaica.

Ou seja: Deus não leva em conta os pecados e transforma o ser humano, através de Sua graça poderosa, em alguém que pratica a justiça misericórdia, como Deus faz com ele ao justificá-lo. E Seu filho, Jesus de Nazaré, é o rosto humano de Deus. Jesus nos ensina como os crentes devem se tornar mais humanos e cuidadosos com seus semelhantes e com a criação que geme, esperando para ser resgatada (Ro 8:22). Paulo diz que, no Evangelho, a justiça de Deus é revelada, e o Evangelho é Jesus Cristo.

A pessoa que é justificada pela fé apresenta uma fé genuína, que é demonstrada por obras concretas (Tiago 2: 14-16). Ela não é corrupta, não mata, não rouba, controla sua língua. Não bate em mulheres nem em crianças, não é racista e é solidária com os necessitados. Se esse comportamento está ausente na pessoa justificada, Tiago diria que sua fé não serve e não a salva (Tiago 2:14). O mundo corrupto de hoje pode ser transformado se nós, os justificados e as justificadas, mostrarmos essa fé genuína e eficaz.

Elza Tamez é professora, doutora, estudiosa e teóloga respeitada internacionalmente. Nascida no México, reside atualmente na Colômbia, onde atua no corpo docente da Universidade Bíblica Latino-americana, em San José. Tem doutorado em Teologia e já recebeu vários prêmios por suas contribuições à Hermenêutica Bíblica Contextual