Josué Campanhã: Liderança e planejamento

Expert no assunto e autor de 12 livros, ele já falou para 300 mil em 20 anos e dirigiu organizações estaduais, nacionais e internacional

Falar em Josué Campanhã é falar em liderança e planejamento. Expressões que se fundem com o seu nome devido ao seu importante trabalho desenvolvido nesta área em todo o Brasil. Reconhecido como visionário, inovador, sonhador e idealista, ele se diz apaixonado por liderança, não gosta da rotina e avisa que se não quiserem que algo cresça, então não o chamem para liderar.

Nesta entrevista, mostra como um olhar clínico e capaz de enxergar tanto as coisas macros como as pequenas, as distantes de longo prazo como as próximas, pode mudar o rumo de uma organização, igreja e até mesmo de uma vida. Ele também se destaca por sua capacidade de navegar em diversas áreas, abrindo um leque fantástico de oportunidades para quem está disposto a ser um vencedor.

Ter os dons de liderança, administração e ensino bastou para o senhor executar projetos impactantes e divulgar suas publicações ou foi preciso adquirir habilidades para desenvolver seus planos?
Podemos e devemos aperfeiçoar os dons para fazer as coisas com mais desenvoltura e espontaneidade. Tenho o dom de ensino, mas fui fazer Teologia; tenho de liderança, mas fui fazer bacharel em Administração de Empresas. Isso nos tira do amadorismo e obviamente nos leva para o campo profissional.  Ter somente o dom seria como o jogador de futebol que quer chutar, defender, correr. Ele quer jogar bola, não importa como, mas o jogador profissional foi o que se preparou e sabe a hora de correr, de chutar, de esperar, de passar para o outro e sabe também como fazer isso.

O senhor deu várias guinadas na vida pessoal, profissional e ministerial. Poderia nos contar passo a passo como se deu essa trajetória de carreira brilhante?
Comecei liderando adolescentes em igreja local pequena e isso me despertou o chamado irresistível de Deus. Então fui estudar Teologia aos 17 anos e, aos 21, fui consagrado e liderei por cinco um ministério de juventude em São Paulo e depois a Juventude da Convenção Batista Brasileira, somado aos treinamentos de líderes com congressos que reuniam cerca de 20 mil pessoas.

Depois, fiz o processo inverso, vim para igreja local e de 1996 a 2002 trabalhei com ensino na Primeira Igreja Batista de Vitória. Nesse mesmo período fiz Administração, e me aventurei a escrever livros. Depois fui ser missionário da Sepal, onde estamos há quase 10 anos; e nos últimos oito anos fui o diretor-executivo e agora estou deixando a diretoria da Sepal, mas permaneço como missionário. Eu diria que foram três importantes guinadas que dei na vida, e depois uma  organização interdenominacional e internacional com missionários em 11 países.  Tudo isso me proporcionou muita emoção e experiência.

Se está deixando a diretoria-executiva da Sepal, é possível que seja para realizar outro grande plano. Quais os seus projetos para este ano e futuro na área de liderança, planejamento e ensino? Estou focado agora em um projeto que foi o que me levou para a Sepal por causa da minha paixão por liderança. Montei um projeto que chamo  de Centro de Treinamento, mas que tive que congelar para poder administrar a Sepal e fui o primeiro brasileiro a ser diretor dessa organização. Mas, depois de oito anos, chegou o momento em que eu deveria decidir entre começar um novo projeto para os próximos cinco anos na Sepal ou retomar o Centro de Treinamento de Líderes. Entendi ser o momento de focar neste projeto pessoal com dois objetivos básicos. Um deles é influir na capacitação de liderança na Igreja brasileira, que cresceu, explodiu, mas está com uma liderança muito rasa. Para isso, já sei que tenho trabalho para os próximos 20 anos.

Outro objetivo é a capacitação de liderança da Igreja para fora, ou seja, para o mundo  corporativo, mas com a linguagem da Igreja. Estou também iniciando um outro braço desse mesmo projeto, que é influir com valores bíblicos a liderança empresarial de um modo geral.
Quero ajudar os líderes que cresceram na Igreja a refletir esses valores e aplicar lá fora. O líder não cristão e que tem poder de influência precisa ser influenciado com valores do Reino de Deus.

Como pretende implantar o Centro de Treinamento e por onde vai começar?
Estou começando um projeto piloto com uma empresa de RH em São Paulo e que vai se multiplicar para outras empresas; vou usar algumas peças como cursos, palestras, inclusive em CDs.

Quero oferecer um curso sobre planejamento de vida, como equilibrar vida e trabalho de modo a deixar um legado, não apenas dar uma palestra sobre motivação. Quero refletir algo para longo prazo dentro da posição estratégica que cada um ocupa, mostrando que tipo de diferença ele pode fazer.

Tenho dois grandes alvos neste ano. Um deles é começar o processo de credenciamento de pessoas que vão ministrar os mesmos cursos que estou ministrando porque não vou conseguir atender a todos os convites e nem estar em todos os lugares, por isso quero criar uma rede que caminha comigo. E de outro lado quero produzir alguns materiais novos, que chamo de guias de multiplicação para esses cursos que já tenho em formato de livros que publiquei com este objetivo.

Quem quiser ministrar o livro vai participar de um treinamento comigo e terá o guia, CDs , Power Points etc.

Qual a principal dica para quem quer começar um 2013 de vitórias?
Primeiro, é preciso ter um sonho, porque os planos só sistematizam os sonhos. Se não se sabe aonde quer chegar, qualquer plano é bom e pode ou não dar certo.  Depois de sonhar, é preciso planejar, mas não planos somente para este ano, mas de longo prazo, com uma parte a ser executada neste ano.  Então vejam que parte devem fazer neste ano e entrem em ação para executar. Resumindo, a dica é Sonho, Plano e Ação.

O senhor consegue mensurar o público  que já atingiu com suas publicações, cursos e palestras?
Numa estimativa de um balanço anual de cursos oferecidos com duração de cinco ou seis horas, participaram cerca de 30 mil pessoas nos últimos 20 anos, e 300 mil assistiram a minhas palestras com duração de uma hora e meia. Escrevi 12 livros nas áreas de liderança, planejamento e discipulado.

O senhor se prepara cada vez que vai ministrar um curso ou palestra ou já está tão acostumado que funciona quase automaticamente?
Me preparo para dar as palestras. Eu diria que em termos de metodologia é muito semelhante o preparo para dar palestras à elaboração de um sermão para pregar em igreja . São 12 ou 13 horas de preparo com pesquisas, reflexão, tirando deduções, levantando o cerne da palestra e definindo que verdade quero transmitir, como usar os exemplos e ilustrações para ministrar por cerca de 50 minutos. Descubro primeiro a verdade que quero transmitir para que a pessoa ouvinte saiba o que fazer depois de ouvir a palestra. Precisamos criar empatia com o público usando objetos, vestimentas que tenham sintonia com o assunto tratado e que vão prender o público. É preciso criar um link para falar as pessoas.

Num planejamento de vida, quais o aspecto e a área que mais merecem nossa atenção e que poderão conduzir as demais?
Na verdade, finanças, família, lazer, trabalho, seja o que for, devem ter a mesma prioridade. Um passo anterior a essas áreas são a disciplina e a persistência.  E importante pensar que agora tenho que fazer isso ou aquilo e essa disciplina vai puxar a persistência, porque um plano não se executa em dois meses, geralmente.

Sugiro que utilizem o mesmo sistema da tabela de jogos de um campeonato de futebol. Ela vai afunilando, ou seja, é o mata-mata com oito times, depois quatro, depois dois, que vão disputar a final. Você pode fazer isso com as áreas da sua vida, cada uma delas representa um time de futebol, comece eliminando pensando o que e mais estratégico, multiplicador e duradouro. Vai chegar o tempo em que saberá onde precisa focar atenção e investimento prioritário, mas lembre que esta eliminação é temporária, pois isso não significa que os outros jogos, que são as áreas da vida, serão jogadas fora. Significa apenas que você estabeleceu prioridades, pois ninguém consegue fazer várias coisas  com o mesmo nível de qualidade.

Qual o sistema mais acertivo para se fazer planejamento para uma igreja crescer?
Ter uma visão. Percebo que tem muitas igrejas que não sabem para onde estão indo e essa falta de visão as leva à mesmice. Temos parâmetros bem claros hoje no Brasil, 80% das igrejas não têm mais de 150 membros e por falta de visão param neste patamar; mas  alguns rompem isso: algo em torno de 10% rompem a segunda escala e passam dos 300 membros, mas estacionam  nela e assim vai até que um percentual bem pequeno passa dos 500 ou 1.000 membros.  Isso é fruto da falta de visão, que faz com que as igrejas não cresçam, e não é diferente em um negócio, empreendimento.

A segunda parte é a obediência, observe os modelos de crescimento, como igrejas em células, com propósito, crescimento natural ou qualquer outro. Pense que não é o modelo que faz crescer mais ou menos, mas a visão que se tem. É como se Deus dissesse assim:
“Meu filho, você está andando comigo? Então agora escolhe o modelo de igreja que você quer e vou abençoá-lo em qualquer um deles, do mesmo jeito”.

A Igreja pode se basear em princípios profissionais para cumprir seu papel ou isso a faria perder o senso espiritual e orientação bíblica?
Eu diria que a decisão não é por um ou outro, mas por um e outro, ou seja, precisamos tanto do aspecto profissional quanto do espiritual. Tem alguns princípios básicos de administração que a Igreja jamais deveria quebrar. E há um grupo de princípios bíblicos que nenhuma regra de administração explica. Vamos tomar como exemplo o orçamento da igreja. Fazer orçamento é uma regra importantíssima de administração, mas a igreja também faz orçamento de fé e inexplicavelmente atinge ou até ultrapassa, mas isso não elimina a necessidade de se planejar os gastos. E existem princípios bíblicos que se conjugam com princípios administrativos que basta a igreja saber dar o equilíbrio entre os dois.

A cada ano, a profissionalização dos serviços na Igreja se tornam mais evidentes e necessários e novos cargos têm surgido, tais como Diretoria Executiva, Controladoria, Consultoria e outros. Qual a sua visão sobre esta nova fase da Igreja?
Creio que a Igreja cada vez mais precisa disso, porém se formos lá na Igreja primitiva, vamos ver que isso já existia. Em Atos 6, os apóstolos estão pregando e a Igreja crescendo, mas surge um problema que se caracteriza como movimento do Espírito, mas também uma decisão administrativa. As viúvas estavam desassistidas e tomam a decisão administrativa, pois não bastava ignorar a questão, precisaram escolher sete homens com determinado perfil definido para atuarem nesta área. E os apóstolos delegaram a função.

De lá para cá, não mudou nada, só sofisticou. Se um pastor está focado em alguma coisa e surge uma determinada necessidade, ele pode contratar alguém ou delegar a um membro de forma que o problema seja resolvido. Entretanto, ressalto que é preciso saber que cada igreja é um caso diferente. Tem igreja com 1.000 membros com um pastor liderando como se ela tivesse apenas 100 e concentra as decisões para si tratando-a como igreja pequena. Por outro lado, tem igreja com 100 membros cujo pastor quer dar a ela uma estrutura de igreja de 1.000 membros.

Não podemos ter um profissionalismo só pelo profissionalismo, precisamos de pessoas cheias do Espírito Santo, que amem o ministério, que não priorizem o salário pelo salário. Há três mil anos, Moisés deu para Jetro os mesmos conselhos de liderança: que fosse competente e resolvesse o problema. Atualmente, quem quer operar o som da igreja não adianta apenas estar cheio do Espírito e não entender nada de som e também não basta  saber tudo de som e não entender a obra como um ministério de serviço e amor a Deus.

Ainda nesse aspecto liderança, o que mais chama sua atenção no comportamento de Jesus Cristo?
O discipulado que Ele fez com os 12 homens nos quais Ele mais investiu, antes de dar o bastão pra eles e dizer “agora vocês são líderes e apóstolos”. Ele focou no discipulado, esse foi o diploma de formatura, ser discípulo para depois sair ao mundo discipulando. O que realmente importa quando a gente quer seguir Jesus? Que tipo de ajuste Ele quer fazer na sua vida?

É verdade que o povo,  o público ou a igreja têm a cara do seu líder, ou seja, se identificam tanto com sua postura que passam a ter o mesmo comportamento e conceitos?
É verdadeiro especialmente para os que ficam longo tempo em determinado local . Fiz diversos estudos e sempre vi que acabam caindo nesse princípio, um líder bagunçado financeiramente, normalmente, terá a igreja e organização financeiramente bagunçadas.
Meu assunto mais apaixonante é liderança, e não família, mas tive que escrever um livro sobre família por causa de liderança, pois  ao dar consultoria para empresas e igrejas,  o que me intrigava e que seis meses ou um ano depois a pessoa ia embora, eu fazia planos a longo prazo  e depois o líder ia embora e o trabalho parecia perdido.

A partir disso, descobri um princípio valioso, que os planos de sua empresa ou igreja nunca serão melhores que os planos da sua vida pessoal e família. Se quer ter bons planos, comece por você e sua família, e isso dará a cara da organização ou igreja que você lidera.

O líder deve mostrar que é de carne e osso ou pode demonstrar suas limitações e problemas para seus liderados?
Sou de uma geração que aprendeu que o pastor não devia abrir nada, pois o que dissesse poderia ser usado contra ele no tribunal mas depois aprendi que este é um grande erro, precisamos ser transparentes, de carne e osso, não para confessar pecados do púlpito de uma igreja, mas ter um grupo para quem prestemos contas e compartilhemos limitações e fraquezas. Minha preocupação era perder autoridade caso falasse disso, mas é exatamente o contrário, porque as pessoas se identificam com o líder e tira a aureola de santo. Podemos fazer isso sem tentativa de expressar falsa humildade mostrando nossas fraquezas.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

 

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