Jorge Nishimura, fundador da Universidade da Família

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Jorge Nishimura fundador e atual presidente da Universidade da Família (UDF).

A entidade que oferece 20 cursos por meio de quatro organizações parceiras: Family Foundation International, Growing Families International, Crown Financial Ministries e o Christian Men’s Network. Os cursos mais conhecidos da UDF são “Educação de Filhos a Maneira de Deus”, “Veredas Antigas”, “Finanças”, “Hombridade” e “Mulher Única”. Nesta entrevista, Jorge conta como concilia a vida de empresário do gigante Grupo Jacto, uma empresa familiar do ramo de agronegócios criada por seu pai em Pompéia, São Paulo, e de líder ministerial. Com essa caminhada, Jorge diz ter aprendido o valor da família para a constituição de uma sociedade justa e entendeu que seus princípios espirituais não precisam caminhar distantes de sua rotina empresarial. Conciliando conflitos, ajudando a restaurar relacionamentos e transformando vidas, ele pôde, e consegue, a fortalecer sua própria história.

Como o senhor conheceu os ministérios parceiros da Universidade da Família?
Tudo começou com minha nomeação, junto com minha esposa, Marta, para sermos os diretores nacionais do ministério Married Ministries International (MMI). Através do MMI, passei a ter contato, durante os eventos internacionais, com outros ministérios. O Family Foundation International (FFI), por exemplo, conheci nos Estados Unidos em uma dessas conferências. Depois veio o Growing Family, que conheci por intermédio do meu irmão que estava visitando um amigo nos Estados Unidos. Com o Crown, fomos pessoalmente conhecer os fundadores, e conseguimos também desenvolver a parceria. Já com o Christian Men’s Network (CMN) veio por outra origem: foi uma conexão que tivemos com eles, uma vez que a UDF já era um ministério conhecido e se tornou mais fácil conseguir essas parcerias.

O senhor já havia, antes de fundar a UDF, realizado os cursos que hoje são oferecidos? Qual foi o impacto deles em sua vida?
Nós participamos do curso “Casados para Sempre” antes mesmo de começar o ministério. Esse curso chegou à nossa igreja em Pompéia, em 1986, e, no ano seguinte, eu e minha esposa participamos dele. Começamos a liderar o grupo por um período de cinco anos. E quando a gente lidera, acaba sendo trabalhado junto com os participantes, porque uma das características do curso é a transparência. À medida que damos o curso é como se fôssemos um aluno dentro da sala e, cada vez que fazíamos, éramos impactados em algo novo. Na realidade, no começo desse trabalho, eu e Marta estávamos em uma fase complicada, em um período muito difícil e conflituoso. Mas o fato de ter conflito não nos impedia de liderar o curso e, de certa forma, fomos liderando e curando o nosso casamento ao mesmo tempo. Foi uma experiência muito gratificante. E em termos de relacionamento de família, temos que encarar todos os conflitos e dificuldades continuamente. As pessoas às vezes acham que fazer um curso de casal vai resolver os problemas do casamento delas, mas o que eu advogo e defendo é que nós temos que estar continuamente trabalhando nosso casamento ao longo do tempo. Se você olhar estatisticamente os divórcios, vai perceber que os primeiros 14 anos de casamento são os mais críticos. E não adianta falar que um curso vai resolver, porque os conflitos vêm continuamente, então sempre participar de cursos, retiros de casais, seminários, ler e conversar tudo isso é necessário para que consigamos cruzar essa fase mais crítica do casamento. Nós precisamos trabalhar continuamente os assuntos relacionados à família, porque não é problema de conhecimento, é problema de relacionamento. E relacionamento não é coisa da cabeça, é coisa do coração, e essas coisas precisam ser desenvolvidas e trabalhadas.

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Que avaliação o senhor faz do casamento hoje?
Eu tenho visto a situação dos casamentos com muita preocupação. Acredito que estamos vivendo um momento crítico da nossa sociedade, porque a estrutura familiar está bastante enfraquecida. Antigamente, as pessoas tinham todos os seus problemas, tinham seu comportamento inadequado, mas a família permanecia, sem se desfazer. Hoje, estamos vivendo um momento em que a facilidade e a falta de persistência têm desestabilizado as famílias. Se nós olharmos hoje, talvez a grande maioria dos problemas que vivemos esteja relacionada à desestruturação das famílias em nosso país. A desestrutura familiar abre uma porta muito grande para esses desastres sociais que temos hoje. Se fizermos uma análise, perceberemos que realmente há um problema de desestrutura familiar e ausência de Deus. A presença de Deus fortalece as relações, e a ausência de Deus enfraquece as relações.

Nesse contexto de desestruturação familiar, quais são os objetivos da Universidade da Família?
Nosso grande objetivo é ajudar a fortalecer e restaurar as famílias. Nós trabalhamos no fortalecimento da relação conjugal e também com relação à paternidade e educação de filhos. E, hoje, tenho a impressão de que vivemos em uma sociedade em que os pais, apesar de serem pessoas mais instruídas, não estão educando seus filhos de forma adequada. É por isso que temos tanta rebeldia e tantos problemas com a juventude. Com relação à área financeira, encontramos desequilíbrio, que acaba também desestruturando as famílias e, por isso, também damos instrução de como viver uma vida saudável financeiramente. Algumas pesquisas atuais dizem que 80% das pessoas que se divorciam citam as finanças como uns dos problemas que levaram ao divórcio. Então, a área financeira tem um peso muito grande na relação familiar.

Embora sediada em Pompéia (SP), a UDF está presente em muitos Estados brasileiros. Como a UDF está organizada em sua estrutura?
Os nossos parceiros são as igrejas. O que nós fazemos é oferecer às igrejas o nosso material. Quando elas têm interesse em qualquer um dos nossos cursos, nós capacitamos os líderes, de forma que possam atuar em sua comunidade. Todos os nossos líderes são voluntários e são eles quem aplicam o curso. O nosso trabalho é treinar as pessoas. O que fazemos de fato é encontrar um bom curso, e desenvolvemos e adaptamos esses materiais, formatamos e fazemos nosso protótipo. Quando sentimos que está pronto, modelamos e o transformamos em um curso, com material, manual do líder e todas as informações. Parte do nosso papel é o desenvolvimento do material, da metodologia, da parte escrita, dos vídeos, áudio e tudo o que precisar. Com isso pronto e acertado, nós vamos multiplicar. Treinamos líderes multiplicadores e essas pessoas começam a treinar outras pessoas. Nós entregamos à igreja todo o treinamento e o material necessário, de forma que ela, através de voluntários, alcance comunidade e ofereça os cursos.

Nestes 19 anos, quantas pessoas passaram pelos cursos da Universidade da Família?
Estamos chegando em torno de 800 mil pessoas que já passaram pelos nossos cursos. Naturalmente, o impacto é maior, porque quando você alcança um casal, o beneficio é para a família toda.

A UDF atua em quatro frentes: Veredas Antigas, Educação de Filhos, Finanças, Hombridade e Mulher Única. Qual a proposta de cada uma delas?
O Veredas Antigas tem vários desdobramentos, como o “Aliança”, que é o curso para casais, e o curso “Romance à Maneira de Deus”, sobre namoro. É um dos poucos ministérios que conhecemos que trata das coisas do coração. Muitas vezes, trabalhamos muitas coisas do lado cognitivo, do conhecimento, e o Veredas Antigas é um trabalho para o coração das pessoas, que envolve feridas emocionais, coisas relacionadas ao medo, à ira, à vergonha. O Crown trata de finanças, e as pessoas tendem a achar que finanças não têm correlação com a fé, mas na Bíblia há 2.350 versículos que tratam basicamente de dinheiro e finanças. As pessoas não têm noção de como lidar com as coisas do dinheiro, e vemos muito sofrimento, pressão, dor nessa área. Além do curso de finanças, temos o guia de carreira, chamado “Yes”, que vem para ajudar os adolescentes com relação ao futuro profissional. No Growing Families são três materiais: “Educação de Filhos à Maneira de Deus”, “Como Criar Seus Filhos” e “Alcançando o Coração do Adolescente”. Todos eles são direcionados aos pais. O Christian Men’s Network (CMN) é outra série extremamente importante, porque o que percebemos é que os homens, de certa forma, estão se esquivando bastante de suas responsabilidades, de sua liderança e de seu papel. E o CMN vem para levantar a hombridade, não para transformar o homem em “machão”, mas em um homem que corresponde a suas responsabilidades. O curso “Mulher Única”, que integra o CMN, tem sido uma ferramenta tremenda para levar as mulheres a entender seu papel.

Há interligação entre todos esses temas?
Na realidade, todos esses temas estão relacionados. O assunto de família está totalmente conectado a tudo, uma coisa faz parte da outra. Se você tem um problema em casa, brigou com a mulher ou teve um problema com o filho, o seu desempenho no trabalho começa a cair, e, ao contrário, se você não está bem na empresa, brigou com o chefe, muitas vezes leva esse problema para dentro de sua casa.

A UDF também é editora. Essa atuação veio para complementar o trabalho da Universidade?
Como nós temos os cursos, começamos a ficar desejosos de adicionar alguns materiais complementares. Então, fomos adicionando alguns livros e hoje estamos nos esforçando no desenvolvimento de materiais para serem suporte para os cursos que oferecemos. Por essa razão é que para nós a editora passou a ser o quinto ministério, com a tarefa de disponibilizar esses materiais para as pessoas de forma mais aberta e ampla. E há uma capilaridade muito maior, pois podemos levar um conhecimento para as pessoas que não fazem o curso.

Além de presidir a UDF, o senhor também é presidente do Conselho de Administração do Grupo Jacto. Conte um pouco sobre essa sua experiência profissional e como consegue conciliar o trabalho ministerial e a rotina empresarial.
A empresa foi fundada pelo meu pai em 1948, e nós, filhos, estamos à frente do negócio há 30 anos. Como presidente do Conselho, não tenho um papel de executivo, eu não sou a pessoa que toca o dia a dia da empresa. No Conselho Administrativo eu acompanho a evolução dos negócios, mas não na direção deles. E a minha demanda não é do dia a dia, ou a curto prazo, e isso permite que eu tenha certa flexibilidade para fazer outras coisas. É bastante pesado esse acúmulo de funções, não é muito simples, já que as empresas têm uma demanda razoável, e o ministério também. Mas é interessante porque eu não enxergo o mundo compartimentado, eu creio que a influência dos valores espirituais dentro da organização é importante, e o aprendizado das coisas de gestão da empresa é útil para a UDF.

O senhor aplica os ensinamentos da UDF na empresa? E, ao contrário, como sua experiência no Grupo Jacto lhe ajuda a conduzir a UDF?
Na realidade, eu me tornei presidente do Conselho de Administração trabalhando justamente na harmonização da família. Você sabe que toda empresa tem conflitos e, às vezes, são conflitos complicados de se equacionar. Por causa do trabalho que eu vinha desenvolvendo na UDF, de acertar conflitos entre casais, eu trouxe para dentro da empresa esse conhecimento, esses princípios espirituais. Sempre fui uma pessoa que trabalhou essa questão dos relacionamentos entre os irmãos. Trabalhamos a área do perdão, porque numa empresa, não conseguimos conviver pacificamente se não soubermos perdoar um ao outro, termos paciência, que é uma virtude espiritual muito grande, sermos uma pessoa íntegra. Em toda minha evolução na empresa, tive que lidar com muitos momentos tensos, mas nunca usei de má-fé, e sempre tentei ser íntegro nas minhas atitudes. E essas coisas vão criando confiança dentro do grupo e, assim, me tornei o presidente do conselho, a posição mais elevada dentro da organização, pela via dos valores e princípios de relacionamento, até mais do que pela carreira profissional. Acho que cheguei a essa posição por conseguir ser um pacificador na família, esse foi o lado do ministério ajudando no lado da empresa.

Que relação o sucesso nos negócios tem com o fato de ter uma vida fiel aos princípios espirituais?
Em nossa empresa, prezamos os valores e princípios. Existe um versículo que diz que “o salário do pecado é a morte”. Isso significa que toda vez que violamos um principio há uma consequência destrutiva e danosa dentro da organização, e toda vez que cometemos uma transgressão dos princípios espirituais, estamos semeando dentro da organização as sementes de destruição. Então, para nós, a importância de manter os valores é que, ao fazer isso, não trazemos essa semente para dentro da empresa. E é muito interessante, porque muita gente acha que não dá para fazer negócio sem coisas ilícitas. Eu tenho uma certeza tão absoluta de que esse é caminho de morte, e não de vida. Portanto, se as pessoas fazem coisas ilícitas em uma empresa, a vida dessa organização é curta. E nós estamos muito mais preocupados em ter uma vida longa. Entendemos que para ter continuidade, a preservação dos valores, da integridade da organização e de seus líderes é fundamental. Temos sido abençoados, a empresa tem crescido e estamos conseguindo manter um bom ambiente dentro da organização, e temos colhido frutos.

O que podemos esperar da UDF para os próximos anos?
O que mais enche o nosso coração de alegria é ver os resultados extraordinários de nosso trabalho. As pessoas passam pelos cursos e vemos a transformação de vidas. Na UDF, os cursos têm gerado um grande impacto na vida de quase todas as pessoas. Não digo de todas porque isso depende muito da vontade da pessoa e da abertura que ela dá para isso. Mas esse resultado nos enche de alegria. Temos a expectativa de, nos próximos anos, alcançar 100 mil pessoas anualmente, através de nossos cursos. Até agora, temos trabalhado em parceria com as igrejas, além dos livros, que vão a qualquer lugar, mas temos desenvolvido materiais que serão utilizados para alcançar escolas, como, por exemplo, prevenção de abuso infantil, além do “Yes Guia de Carreira”, e um sobre bullying que ainda será lançado, mas isso ainda está bem no início, são experiência que vamos fazendo.

Gostaria de deixar uma mensagem para o leitor de Comunhão?
Gostaria de dizer que não existe nenhuma possibilidade de construir uma sociedade forte sem que tenhamos uma família forte e sadia. A estrutura básica de sociedade começa dentro da família, então, a nossa paixão é poder ver famílias sendo restauradas, e uma parte do nosso trabalho é ajudar as famílias que estão desestruturadas, e também trabalhar no lado preventivo, de realmente levar as famílias a serem mais estáveis.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita