“Deus me colocou aqui com um propósito”

Jacqueline Moraes é a primeira mulher a chegar à cúpula do poder capixaba. Foto: Arquivo Comunhão

É a declaração da primeira mulher a chegar a cúpula do poder do Espírito Santo, Jacqueline Moraes. Como vice-governadora “pretendo deixar o legado de ser mulher, ser gestora e ser política”

Por Priscilla Cerqueira

As eleições 2018 reproduziram, mais uma vez, a faceta masculina com a qual a política no Brasil é conduzida. Em apenas um único Estado, uma mulher foi eleita governadora: Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte. E no restante do país, em seis Estados elas estão ocupando o cargo de vice-governadoras. Jacqueline Moraes (PSB), do Espirito Santo, integra este seleto grupo.

Negra, vinda de periferia e evangélica, da Igreja Cristã Filadélfia, em Novo Horizonte, Cariacica (ES), ela é a primeira mulher a chegar à cúpula do poder capixaba. “Não sabia que Deus iria me surpreender de uma tal forma, que fosse me deixar uma história escrita como a primeira mulher eleita como vice-governadora do Estado. E Ele é tudo na minha vida”, declarou.

Reconhecida por atuar como ativista dos direitos sociais e defensora da classe feminina no Estado do Espírito Santo, nesta entrevista exclusiva à Comunhão, ela abre o jogo de sua vida, sua trajetória política, suas expectativas, o que pretende deixar e o que pensa do futuro do Brasil. Confira!

Como começou sua trajetória política?

Após nos receber no Palácio da Fonte Grande, visitou a redação de Comunhão e destacou ter uma nobre missão: “cuidar do social e das mulheres”. Reconhecida por atuar como ativista dos direitos sociais e defensora da classe feminina, nesta entrevista exclusiva à Comunhão, ela abre o jogo de sua vida, sua trajetória política, suas expectativas, o que pretende deixar e o que pensa do futuro do Brasil. Confira! 

Deus me colocou aqui com um propósito, então, peço ao Senhor que é o dono da vida, que me dê saúde, energia, força e capacidade para fazer pelo social e lutar pelas mulheres do Espírito Santo, pois essa é a bandeira que sempre carreguei.

Comecei minha trajetória com os ambulantes, quando trabalhava em barraquinhas no Centro de Vitória (ES). Ali conheci meu esposo e iniciamos um movimento em busca de melhorias para a categoria. Depois fui líder comunitária por duas vezes, tentei participar com o meu marido em duas eleições, mas não conseguimos, e continuei me envolvendo com os trabalhos da comunidade. Fui presidente da Associação dos Moradores do Bairro Operário, de Cariacica (ES), onde morava, e como líder reivindicava as coisas que me incomodavam. Tudo o que tinha para discutir relacionado à melhoria do bairro, eu estava à frente para debater e lutar. Sempre fui ativista nesta causa e acreditava na mudança, mesmo com pouca escolaridade. Através da associação, conheci vereadores, prefeito e, nessa convivência, senti a necessidade de buscar minha formação. Então, conclui o EJA (Educação de Jovens e Adultos), fiz supletivo do ensino médio e entrei para a faculdade de Direito, que irei concluir esse ano. 

O diferencial na sua jornada de vida é o trabalho com a comunidade. Conte-nos como foi a construção desse trabalho?

Com certeza. A minha ligação com a associação de moradores e a busca incessante por melhorias no bairro foi tão intensa que me tornei candidata à vereadora e ganhei a eleição. Foi isso que me fez notória na política. Eu acredito muito nos movimentos sociais, é por eles que vou continuar lutando. A política é um instrumento de ampliar a sua capacidade de fazer. Eu tinha e tenho até hoje ânsia de fazer acontecer. Tenho muita fé que tudo vai dar certo. Deus me colocou aqui com um propósito. Então, peço ao Senhor que é o dono da vida, que me dê saúde, energia, força e capacidade para fazer pelo social e lutar pelas mulheres do Espírito Santo, pois essa é a bandeira que sempre carreguei.

Em pouco tempo a senhora passou de vereadora para vice-governadora. Como tem sido lidar com desafios de amplitude muito maior?

Ainda não temos essa dimensão total, mas o meu trabalho será de interlocução com a população, através das associações e entidades. Também sei que tem um trabalho de gestão muito grande. Nosso foco é trabalhar de forma inovadora para os resultados acontecerem. Para isso, vamos fazer articulação das políticas públicas, com um relacionamento direto com as comunidades e entidades sociais. Temos recebido esse desafio do governador, pois sabemos que nesses lugares e até mesmo na igreja existem pessoas realizando projetos sociais sem ter recursos financeiros e o fazem de forma voluntária. O Estado poderá potencializar isso por meio de mecanismos legais. Não vamos ignorar o social. A minha missão é cuidar do social e das mulheres. Vamos trabalhar de uma forma integrada para articular as políticas para elas.

De que forma pretende ajudar o governador Casagrande nessa difícil missão de administrar um Estado que recebeu a nota A do Tesouro Nacional?

Em 2014 quando o Casagrande deixou o governo, o Estado foi nota A e manteve esse índice. Os últimos governos se preocuparam com a gestão fiscal do Estado e nós temos o desafio de manter essa nota. O que nos preocupa é a transparência, pois caímos nossa posição de 1ª para 14ª nesse ranking. Mas com trabalho vamos buscar um resultado melhor para o Estado.

Primeira mulher a ocupar um cargo de vice-governadora na história do Estado do Espírito Santo. O que isso representa para a sua vida?

Vou contar um testemunho que serviu muito para a minha vida e foi através de um artigo que li na Comunhão, que narrava sobre uma folha seca de palmeira no deserto sem água, que não tinha mais serventia. Me fez pensar sobre o legado que podemos deixar e que vai servir para mudar a vida de alguém. Refleti nisso e fiz a oração para o Senhor sobre o que vou deixar do meu legado. Só que não sabia que Deus iria me surpreender de uma tal maneira que me deixaria uma história escrita como a primeira mulher eleita como vice-governadora do Estado. Não dá para explicar essa emoção e responsabilidade. Cresci ouvindo da minha família e das pessoas que me cercavam que eu era uma líder nata, e essa liderança já era um dom que via como divino. Sou assim desde a minha infância. Nunca me conformei com a injustiça. Até cheguei a pensar que pudesse ser advogada para defender as pessoas, mas Deus me levou para a política e me surpreendeu. Quando o Renato Casagrande me escolheu pelo meu trabalho e trajetória, isso me trouxe um grande impacto. Vim para agregar com ele por conta da representatividade feminina. E nós temos uma pegada para o social. Embora a política nos tire do convívio familiar e da zona de conforto, eu a encaro como missão e ainda amplio o meu patamar de alcance.

O meu desejo é que a classe feminina olhe para a política como missão, que as mulheres desejam estar inseridas na sociedade e manifestem o desejo de participar do pleito eleitoral para lutar por aquilo que acreditam

No Brasil há uma governadora e seis vices. E nesse seleto grupo, a senhora se destaca pelas ações junto às comunidades periféricas. Qual marca pretende deixar enquanto mulher e representante de um segmento da sociedade tão necessitado de políticas públicas?

A política é um ambiente em que as mulheres não gostam muito de participar porque a tira da zona de conforto. Vejo muitas delas empoderadas, mas sem coragem para fazer o diferencial na política, que é onde mais precisamos. Desejo que as mulheres olhem para a política como missão, que manifestem o desejo de participar do pleito eleitoral para lutar por aquilo que acreditam. Foi assim que começou a minha corrida, quando assumi a Secretaria de Mulheres do Partido Socialista Brasileiro (PSB/ES). Esse índice de mulheres ocupando um lugar na política no Brasil é muito pequeno. A representatividade feminina precisa melhorar. Pretendo deixar um legado de ser mulher, ser gestora e ser política. Sei que posso melhorar, mas a cada dia sinto que estou mais preparada para enfrentar os desafios.

O que falta para mulher conquistar a representatividade que merece? Que estratégias deveriam ser adotada para essa inclusão?

Falta mais engajamento. Uma ação que criei em setembro do ano passado, quando liderava a Secretaria de Mulheres do PSB/ES foi a Campanha ‘Não seja laranja’. A intenção foi aumentar a participação efetiva das mulheres na política e mostrar a elas a importância de não aceitar o comparecimento no processo eleitoral apenas como laranja. Iniciativas como essa ajudam a melhorar nossa representatividade na política. Esse desejo de entrar para a política pode começar na liderança comunitária e no conselho de escolas. A partir daí pode surgir o desejo de disputar um cargo como vereadora, depois deputada, e assim vai. Mas não basta apenas participação, elas precisam se colocar. Por isso é tão importante para mim estar neste cargo. É isso que vamos construir no nosso legado: mulher, gestora e política. Nós somos capazes, nós podemos estar lá e nós vamos ocupar esses lugares.

A senhora sempre deixou clara sua fé cristã. Como foi seu encontro com Deus?

Me converti aos 16 anos, quando participei de um Congresso numa igreja evangélica em Cariacica (ES). Na ocasião, assisti uma coreografia encenada que dizia que era ‘grande a seara e poucos são os trabalhadores’. Naquele momento fui tocada pelo Espírito Santo, senti vontade de estar no meio deles e nunca mais deixei de frequentar a igreja. Há 28 anos, fiz a melhor a escolha da minha vida, que é estar ao lado de Deus. Passei por várias dificuldades e mesmo assim, nunca abandonei a minha fé. A cada tempestade, Ele sempre me fortaleceu. Nesses anos todos de convertida, tenho muitas experiências das maravilhas que o Senhor fez na minha vida. Uma vez, por exemplo, quando enfrentava muitos problemas financeiros, tinha um estoque de sombrinhas para vender. Então fui trabalhar como camelô na Festa dos Colonos, em Santa Maria de Jetibá (ES), mas o dia estava ensolarado e, por isso, achei que ninguém compraria o produto. Mas para a minha surpresa, a chuva caiu com intensidade e acabei vendendo todo o estoque que tinha. Tudo o que vivi e alcancei até hoje foi Deus que me proporcionou. Ele é tudo na minha vida. 

Como pretende atuar frente aos trabalhos sociais nas igrejas e na defesa de políticas de inclusão social?

Deus prepara o nosso caminho para falarmos com autoridade daquilo que conhecemos. Entendo que o maior campo voluntariado está na igreja, pois é onde as pessoas fazem com amor, pelo Reino, para cumprir o que diz a Palavra de Deus. No entanto, muitas instituições religiosas ainda não entenderam que têm um papel importante no campo social. Precisam ultrapassar os muros e abrirem suas portas para a comunidade. As vezes os Templos têm salas ociosas que poderiam estar sendo usadas para ofertar cursos, por exemplo, para pessoas mais carentes no bairro que são inseridas. Através de mecanismos legais do Estado, pretendemos potencializar a realização de cursos nas instituições religiosas, principalmente trabalhos voltados às crianças e aos jovens. Vamos fazer a nossa parte e as instituições religiosas serão nossas parceiras.

Na visão de governo, o Estado não é diferente da Igreja, pois tem o papel de cuidar e ofertar políticas públicas de qualidade para todos, sem olhar nenhum tipo de credo.

Como fica o seu posicionamento enquanto evangélica e tendo que administrar um Estaco laico?

A Igreja tem as suas defesas religiosas e os seus estatutos que precisam ser respeitados.

Por exemplo, ela pode ser contra o homossexualismo, porque a Bíblia condena, mas precisa acolher quem o pratica. Na visão de governo, o Estado não é diferente da Igreja, pois tem o papel de cuidar e ofertar políticas públicas de qualidade para todos, sem olhar nenhum tipo de credo. Mas, em relação às leis que regem o Brasil, elas serão discutidas pelo parlamento, que é representativo.

Como cristã, aumenta a responsabilidade com o que falar?

Os evangélicos ficaram um bom tempo sem participar da política, pois era vista como coisa do ‘diabo’. Então, muita gente votava sem nenhum critério. Mas hoje passamos a enxergar a política com o olhar mais de missão, como instrumento para ampliar os debates. Mas se começarmos a debater sobre coisas que não dizem respeito a política pública, perdemos o foco. Por isso é tão importante prestarmos atenção no que dizemos. Como representantes do Estado, precisamos ter uma postura ética, debatermos aquilo que é prioritário a todos, vigiar o que falamos e mantermos foco apenas no que seja importante, aquilo que realmente compete ao nosso papel como gestor.

Como a senhora vê a relação entre política e religião no Brasil hoje?

Eu vejo o Brasil de forma tencionada, ou seja, pessoas que defendem a direita ou a esquerda, e simplesmente ignoram tudo o que você faz pelo social e toda a sua visão de ética, de moral e de transparência. Acho que essas bandeiras precisam ser rompidas e se discutir aquilo que é realmente prioridade e relevante. Temos de pensar no que é justo e legal. Muitas discussões no campo religioso são pano de fundo.

Qual a sua perspectiva a respeito do futuro do Brasil?

A minha palavra é de Esperança, primeiro em Deus, que tem mudado a história do nosso país a cada dia; depois no Brasil e no povo brasileiro, que é resiliente e lutador. Eu quero e sonho que o país dê certo, pois todos sairemos ganhando. 


Leia mais

Forças militares no Sul comandado por uma mulher
Mulheres de fé
A esposa excelente

Aproveite as promoções especiais na Loja da Comunhão!