Como definir uma Igreja verdadeira?

Foto: Jackson Gonçalves

“A única Igreja verdadeira é aquela que prega o Evangelho”, diz o pastor Jonas Madureira ao falar que em muitas instituições o amor está se esfriando. 

Os evangélicos brasileiros não sabem bem qual é a sua identidade cristã. Muitos acreditam que uma ou outra denominação espiritualizam demais. Outros, porém, entendem que aquela instituição religiosa ou aquele ministério são carnais demais. O fato é que o amor de muitos está se esfriando.

A Igreja vive uma fase de busca de identidade e nesse contexto aparecem aquelas que são falsas e verdadeiras. É justamente nesse contexto que discute o pastor Jonas Madureira, da Igreja Batista da  Palavra, em São Paulo. Professor de Teologia e Filosofia da Faculdade Teológica Batista de SP ele entende que esse conceito de identidade permeia por uma Igreja que prega o verdadeiro Evangelho.

O líder ministerial conversou com a equipe de Comunhão sobre esse e outros assuntos. Confira!

Um de seus discursos é em relação a Identidade do cristão. De que forma a igreja pode interferir negativamente e ao mesmo tempo positivamente nesta identidade para que as pessoas não sejam escravos de escolhas alheias?

Primeiro precisamos entender o conceito de Igreja, temos as verdadeiras e as falsas.  É natural que as instituições religiosas falsas reproduzem uma falsa identidade e um falso cristão. Nós, crentes em Jesus, entendemos que os sacramentos bíblicos como a ceia e o batismo são fundamentais e normativos para uma Igreja. Além disso, precisam ser administrados de forma correta. Quando a instituição não cumpre com essa determinação que é bíblica, foge do contexto e por isso prega o falso evangelho e consequentemente não gera conversão de almas. As Igrejas verdadeiras reproduzem cristãos verdadeiros. Há que se ressaltar porém que nem todas as igrejas consideradas verdadeiras são saudáveis pois podem estar doentes no sentido de enfrentarem dificuldades em seu contexto, no que tange a evangelização, centralidade da Palavra de Deus, discipulado, Teologia Bíblica sólida e forte. A igreja pode vacilar e perder sua saúde. Uma Igreja saudável não significa que não tenha defeitos, mas pode ter um resfriado. O câncer é mais que um resfriado, ele ameaça a vida de uma pessoa, a mesma coisa acontece na Igreja. A identidade natural é o que define uma pessoa e vai determinar também o nosso estilo de vida. Mas a identidade espiritual, que é o que somos de fato diante de Deus vai interferir no nosso papel dentro da Igreja. Eu não acredito que uma pessoa possa saber de fato quem ela é se não for revelado a ela quem Deus é através do Evangelho. A nossa identidade precisa estar conectada a Deus. E isso tem que ser visto dentro da Igreja. E dentro das instituições existem doenças que ameaçam a vida da igreja, e se elas estiverem muito doentes vão reproduzir cristãos doentes. A identidade de uma  pessoa ou de uma membro de uma igreja vai refletir o estado espiritual de uma igreja.

Quais seriam essas doenças dentro da Igreja?

Igreja que não evangeliza, que não tem foco missionário, nem na multiplicação de seus membros, é centrada em afinidades, em eventos, que não pratica disciplina eclesiástica, não cuida de seus membros, não há supervisão pastoral, não há prestação de contas, que tem uma liderança que não segue o padrão bíblico, que não discípula com base no evangelhoe tem uma teologia frágil para responder as questões do homem moderno. Todos esses elementos são características de uma igreja doente em potencial. Ela pode até ser uma igreja verdadeira, mas se não tiver ensino teológico e doutrinário, os membros da igreja serão carentes de fundamentação. O que eu quero dizer é que eles não conseguem aprofundar o evangelho e irão sofrer por conta disso, principalmente por questões apologéticas, quando uma pessoa, por exemplo, fizer uma pergunta sobre a razão da esperança e a liderança não souber responder. Então, consideramos que são igrejas doentes porque não preparam seus membros. Os novos convertidos são os principais afetados pois já serão formados por um contexto de uma identidade já comprometida.

Qual a importância das Afeições Religiosas para a mente de qualquer cristão?

As afeições religiosas dizem respeito a uma temática abordada por um importante teólogo importante da história moderna, Jonatha Elders, que foi relevante para aquilo que se chamou de o grande avivamento na América colonial na Inglaterra. Ele tinha uma preocupação legítima de falsas interpretações do que seria a verdadeira espiritualidade e verdadeira religião. Isso acaba polarizando entre uma vida cristã extremamente intelectualizada e emotiva. Ou seja, os dois caminhos não representavam a verdeira religião. A mente e o coração do homem não pode. ser meramente uma coisa do conhecimento, do entendimento, mas também das suas inclinações e vontades. É a idéia de que onde há luz e entendimento há o calor e as afeições. Elas acompanham essa inclinação do homem para as coisas de Deus e que faz com que ele não se envolva com as verdades de Deus apenas intelectualmente. Hoje os cristãos acham que para você vivenciar a conversão basta entender o Evangelho, mas não é só isso, é uma experiência de inclinação do coração às coisas de Deus e que começa com a ação do Espírito Santo, porque ele é o agente das afeições, que desperta a vida de um cristão para que ele entenda que a experiência do cristão é também de contemplação da beleza de Deus e todos os seus atributos. Isso mexe com os afetos, que, consequentemente mexem com as vontades e com o coração. Então o Evangelho não diz respeito a amar as coisas que são de Deus e odiar aquelas coisas que não são de Deus. E amar e odiar são afetos e eles não estão negociados com a inteligência da fé.

A frieza espiritual que observamos hoje se integra nesse contexto? Em que sentido?

Essa idéia de que as emoções são mais importantes fez com que muitas pessoas dentro da igreja rejeitassem os afetos. O emocionalismo é que precisa ser banito e não os afetos. Deus é amor e Ele é uma afeição fundante de todas as outras afeições. Todos eles tem seu fundamento no amor e se Deus é amor, Ele também é um Deus afetuoso. As afeições de Deus são inclinações do próprio Deus a si mesmo. Se Ele nos ama é  porque o que nós somos e o que representamos somos o cumprimento da vontade de D’Ele e por isso amor de Deus pelo seus reflete o amor de Deus por si mesmo e pela Sua glória.

De que forma podemos fazer isso?

Precisamos entender que a conversão, a regeneração é uma obra do Espírito Santo, um aspecto elementar de uma experiência afetuosa com Deus, porque ela que vai fazer a gente tremer diante do evangelho, vai fazer a gente chorar diante da história da redenção, vai fazer a gente se comover. Não importa quantos anos de Igreja temos, mas vamos arrepiar a cada vez que a história do Evangelho for contada e aprofundada. Aqueles que não foram tocados pelo Espírito Santo são insensíveis pelo Evangelho. Ao sermos tocados pelo Espirito Santo, temos nosso coração aquecidos. Isso é um sinal da verdadeira espiritualidade. A atração por Deus é mais forte que qualquer coisa neste mundo. Não existem pessoas sem afetos. Ou os afetos estão dirigidos a Deus ou estão dirigidos a algo que não é Deus, ou seja, profano. O cristão é aquele que foi atefado por Deus sem medo e não tem nenhum impedimento para que possa dar vazão a natureza que é amar a Deus.

Qual é o linear do orientar e do impor por parte da família para os filhos?

Tem pessoas que acham que a criação dos filhos é de respondabilidade da igreja e isso é completamente descabido. A Bíblia diz que os filhos devem ser orientados pelo pais, que serão reponsáveis por orientrarem seus filhos nos caminhos do Senhor. A igreja tem o papel fundamental de ensinar os pais, mas a educação é dos próprios pais. Ninguém ensina com discurso e sim com exemplo. Não adianta nada dizer que é crente, mas se seus atos no dia a dia não condizem como cristãos. Os seus filhos vão reproduzir o cristinanismo que você vive e não o que você professa. Ninguém ensina com discurso e sim com a vida. Ninguém aprende sem imitar. O problema é que se os pais não tem padrão cristão para imitiar e seguem padrões mundanos, os seus filhos, por mais que estejam na igreja, vão seguir os seus padrões de vida que não reflete o padrão de Deus. Por isso é tão importante os pais se preocuparem com o discipulado. A salvação da educação familiar está no compromisso que os pais tem de serem discipulados. Por isso insisto em dizer que o discipulado é fundamental. Nem o pastor da igreja pode viver uma vida cristã sem ser discipulado. Jesus não nos deu autorização para vivermos independentes. Ele disse: fazei discípulos.Nenhum cristão permanece cristão sem ser discipulado.

Em seu último livro “Inteligência humilhada”o senhor traz uma reflexão sobre como se relacionam o conhecimento de Deus e os limites da razão humana. A obra teve uma explosão de vendas, foram 5 mil exemplares do livro vendidos em menos de 2 meses. O que atribui para esse número tão expressivo?

A história do livro é interessante porque começou com uma leitura em especial das obras de Agostinho. Eu tinha acabado de ler o livro 10 das confissões e a leitura daquele livro em especial me marcou muito. Quando fui ministrar em uma Conferência no Rio de Janeiro falei sobre a relação da racionalidade da fé e acabei aplicando alguns conceitos que tinha lido no livro. Mas o conteúdo acabou gerando o interesse das pessoas pelo conceito de ‘Inteligência Humilhada’. Quando comecei a trabalhar essa questão da humilhação da inteligência e que a teologia se constitui dessa fragilidade, muita gente ficou curiosa e isso gerou uma buscar das pessoas em querer entender o assunto. A igreja brasileira tem profundas resistências ao trabalho intelectual, mesmo assim, o crente deve colocar sua inteligência a serviço do Reino.

Como buscar no Evangelho resposta às perguntas para a existência do ser humano?

Entendo que o evangelho é a resposta para a pergunta que o homem faz sobre o significado da vida. É o evangelho que responde as questões de ordem íntima: de onde viemos, para onde vamos, qual o significado vida, o que é o belo, o que é a verdade e o que é a justiça. O Evangelho responde essas perguntas centradas na pessoa de Jesus. Ele e sua obra são o centro do Evangelho e constituem o epicentro de toda a revelação de Deus.Toda história da redenção está centrada n’Ele. Nós vamos do passado ao futuro e do futuro ao passado sempre por meio de Jesus, pois Ele é o mediador da criação, da redenção e sobre toda a história. Um cristão não pode ler o mundo e não pode enxergar nada sem Jesus. Ao mesmo tempo Ele não é visto se não for através de Jesus. O evangelho é aquilo que orienta a vida, que dá significado para a vida e faz ela encontrar razão e encontrar uma direção para a peregrinação. Somos peregrinos e  por isso precisamos de teologias, sermões, ensino e direção pois estamos aqui de passagem.

Como definir uma Igreja centrada?

Igreja centrada é aquela que prega o verdadeiro evangelho. Uma igreja que não faz isso jamais terá o recurso sufiente para ser centrada. O Espírito Santo não pode usar uma pregação budista ou de qualquer outra experiência de ensino religioso para alcançar alguém que não seja o Evangelho. Uma igreja centrada está comprometida com a pregação do verdadeiro evangelho. Se estamos numa igreja doente por exemplo, temos a obrigação de ficarmos ali e trabalharmos para que ela seja curada e saudável. Se a igreja for falsa precisamos sair dali o mais rápido possível, pois ela é perigosa e mata. Não dá para ser um agente de mudança em uma igreja falsa. A única igreja verdadeira é aquela que prega o Evangelho. É como uma moeda falsa, é apenas um pedaço de metal.


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