Igreja sinfônica: uma proposta transformadora

Com o objetivo de estimular a reflexão sobre alguns dos principais pontos que dividem a Igreja de Cristo e apontar caminhos para o diálogo, a editora Mundo Cristão lança o livro: “Igreja Sinfônica: Um chamado radical pela unidade dos cristãos”. Prefaciada por Augustus Nicodemus, a obra apresenta uma visão factual, clara e sem rodeios das dificuldades e limitações que o Corpo de Cristo enfrenta em suas relações, em pleno século XXI.

Com linguagem acadêmica e teor teológico, o texto foi escrito por sete autores das mais variadas linhas doutrinárias e organizado pelo pastor Pedro Dulci, que desafia os fiéis a atuarem de maneira significativa para a promoção da unidade da Igreja.

Como surgiu a ideia de abordar este tema?
O livro não é fruto de uma abstração teórica feita isoladamente em um gabinete intelectual. Algumas pessoas não sabem, mas todos os envolvidos fazem parte do Movimento Mosaico. Tal movimento iniciou-se em Goiânia, mas hoje já tem alguma dimensão nacional. Não somos uma aliança de igrejas, uma fraternidade de teólogos, nem uma sociedade de especialistas. A única coisa que fazemos é um trabalho relacional, isto é, cultivar relações na sua maneira mais específica: na intimidade, no subjetivo, invisível às lentes das redes sociais ou da espetacularização da comunhão. E fazemos tudo isso porque cremos na unidade do Espírito Santo, conforme Efésios 4. Nosso esforço está na manutenção da unidade do Espírito, pelo vínculo da paz.

Como o Movimento Mosaico atua?
Há quase cinco anos estamos nessa empreitada, cuidando das relações entre irmãos (pessoas que estão em Cristo), mas que perderam o prazer na companhia dos seus outros irmãos. E ao longo desses anos, fomos testemunhando alguns fenômenos recorrentes no interior da Igreja de Cristo que faziam com que os irmãos simplesmente desistissem de crer na unidade do Corpo. Geralmente esses problemas envolviam dificuldades na relação entre gerações (mais velhas e mais novas), problemas advindos de posições políticas diferentes, o surgimento de preferências teológicas que não comprometiam o núcleo da fé – e até mesmo o surgimento de heresias no meio da Igreja.

Cada uma dessas questões fez com que chegássemos à conclusão de que era necessário começar a fazer a Igreja, em uma dimensão maior ainda e pensar na possibilidade da unidade. Cremos em uma unidade pelo esforço relacional, que luta para conscientizar os nossos irmãos que nada, além do Senhor Jesus, pode ser o critério para eu chamar alguém de “meu irmão”.

A figura inicial do livro é de uma orquestra e do processo envolvido em uma apresentação pública. Qual a relação dessa analogia com a ideia central da obra?
Através de nossas viagens pelo Brasil e da comunhão com vários irmãos de tradições teológicas, localidades e perspectivas missionais diferentes, entendemos que o nosso país não é carente de pessoas competentes no Reino de Deus. A Igreja é rica de talentosos músicos que são os melhores do mundo em seus respectivos instrumentos. Entretanto, a maioria desses preferem tocar sozinhos. E quando são colocados para tocar juntos, não estão na mesma afinação – e as vezes nem tocando a mesma música. Não temos dimensão de pluralidade, de expressões multiformes da ação de Deus no mundo. Não temos consciência de todo, apenas de parte. E a melhor imagem que encontramos para representar essa situação da Igreja é a de uma orquestra. Que tem os melhores instrumentistas, mas precisam também ouvir os comandos do Maestro que está sempre apontando para uma única melodia construída com as notas e timbres de diversas pessoas diferentes.

O que “Igreja Sinfônica” busca responder?
O livro procura responder uma carência em material bibliográfico a respeito da unidade da Igreja, que valorize a diferença e a pluralidade de expressões litúrgicas, teológicas, culturais e artísticas, sem abrir mão de um núcleo mínimo de confessionalidade, que é a própria condição dessa unidade – Cristo revelado nas Escrituras. Trata-se de uma proposta de unidade por vias relacionais, subjetivas e invisíveis. Nosso esforço foi o de manter a coerência da pluralidade e mostrar que, além de totalmente possível, essa é a forma como as Escrituras nos ensinam.

O fato de o livro ter sido escrito por sete autores de diferentes tradições teológicas pode ser considerado um exemplo de que é possível ter essa unidade?
Exatamente. Não faria nenhum sentido esse livro ter sido escrito por uma pessoa só – mesmo que fosse uma espécie de “representante do Mosaico”. A pluralidade de autores é fundamental para entender que o próprio projeto do livro já prova o que ele propõe: o trabalho a partir da relação, a frutificação em uma plataforma extremamente relacional. Isso explica por exemplo, porque só temos homens no livro. Algumas pessoas nos acusaram de machistas por não incluirmos mais textos escritos por mulheres. Poderíamos muito bem fazer isso, pois no Mosaico existem várias mulheres teologicamente competentes e que mandam e desmandam no movimento. Entretanto, seria uma manobra muito mais preocupada com o politicamente correto do que a expressão genuína de uma amizade de sete homens que estão conversando sobre isso o tempo inteiro. Foi um livro escrito a 14 mãos! Todos deram palpites e tudo isso é para mostrar que a unidade é possível – ela não é romântica, não é fácil, não é simples, mas é totalmente possível no poder do Espírito Santo.

A Igreja Primitiva, com todas as lutas e perseguições que enfrentava, conseguiu sem grandes construções de templos, clero ou seminários, viver em harmonia por meio da mensagem da cruz. O que mudou de lá para cá?
Não somos, de maneira alguma, saudosistas de um passado que não nos é mais acessível. Querer defender hoje modelos institucionais de igreja, práticas ministeriais ou exemplos de vida do primeiro século é incorrer em um anacronismo grave – e perigoso. Do que lemos da Igreja Primitiva nas Escrituras, muita coisa mudou. Existem ali princípios que são inegociáveis e imutáveis. Entretanto, o trabalho de contextualização, de aprofundamento de questões teóricas e práticas, como também de elaboração de novas posturas e ideias que respondam problemas típicos de nossos dias, é algo que não podemos nos ausentar da responsabilidade. Em sua época, o apóstolo Paulo não tinha condições de se preocupar com o moderno diálogo entre ciência e religião. Ele nos forneceu compreensão sobre a criação do ser humano, sobre os efeitos totais da queda e a rica possibilidade de redenção em Cristo. A tarefa de contextualizar e aplicar cada um desses princípios em filosofias, tecnologias, teorias educacionais e práticas culturais é nossa.

Então, de que forma a Igreja Primitiva pode inspirar a Igreja Contemporânea?
Em sua fidelidade à doutrina dos apóstolos e na comunhão dos santos. O livro todo do Apocalipse, por exemplo, foi escrito para lembrar à Igreja de Cristo em todos os tempos, de que uma das marcas do período em que vamos passar entre a primeira e a segunda vinda de Cristo é a do sofrimento e a da perseguição de nossa fé – em todos os níveis, sejam eles físicos ou meramente intelectuais. E recorrentemente o apóstolo João lembra que o que se espera dessa Igreja é que ela se mostre fiel. Em última instância, o que interessa é se conseguimos manter nossa fidelidade ao Senhor Jesus, tendo muitos ou poucos membros, sendo prósperos ou carentes. Jesus dirá para os seus que eles foram “servos bons e fiéis” ou infiéis. Nesse sentido, a fidelidade da Igreja Primitiva – vivendo dias terríveis em um Império idólatras, passando por privações e dificuldades que hoje nós nem conseguimos entender – precisa inspirar nossa vida cristã diária, nosso esforço pela unidade e fidelidade da Igreja até que Cristo volte.

O ministério público de Jesus foi essencialmente relacional. Como seguir este exemplo?
Talvez esse seja um dos pontos mais delicado e importante sobre a possibilidade da unidade da Igreja. Ela só pode ser empreendia nos moldes ensinados por Jesus: relacionais. Não tem como viver unidade intelectual, institucional ou até mesmo pessoal, sem relacionamentos. O Mosaico não defende utopias do tipo “o fim das denominações”. Antes o contrário, valorizamos a especificidade de cada tradição que se organiza em torno de uma denominação, e acho que precisaríamos saber transitar melhor entre elas – se o que há de forte nas igrejas históricas é a teologia, então vamos abrir as pontas para as igrejas pentecostais e contemporâneas. Unidade não é sinônimo de uniformidade, mas de unanimidade – termos o mesmo ânimo, a mesma consciência, a mesma disposição.

E isso é impossível sem relacionamentos. No compartilhar intencional de vidas para a glória de Deus temos tudo o que precisamos para reformar o mundo.

O senhor crê que é possível que os evangélicos de diferentes segmentações vivam em unidade e paz?
É inadmissível que as diferentes segmentações (denominacionais, teológicas, litúrgicas e culturais) não vivam em unidade e paz. Pessoas que deixam de reconhecer como sendo seus irmãos aqueles que pensam diferente precisam investigar se são filhas do mesmo Pai. Na maioria dos casos, as histórias de divisões são ocasionadas por pontos periféricos. Muito raramente uma denominação racha por sua liderança questionar a dupla natureza de Cristo, a suficiência da fé para salvação ou qualquer outro tópico presente no Credo Apostólico e nos primeiros concílios ecumênicos da Igreja. Geralmente as divisões acontecem por intrigas familiares, preferências pessoais, egos não tratados ou pontos litúrgicos periféricos. Tudo isso apenas denuncia nossa incapacidade de insistir na relação com os diferentes, de trabalhar pela comunhão do irmão, pelo simples fato de ele ter a mesma fé em Cristo e de isso ser suficiente.

Também é possível que uma família cristã tenha amizade com um casal mulçumano que mora na mesma rua, por exemplo?
Sim, é totalmente possível. Entretanto, é preciso diferenciar que não estamos mais falando da unidade da Igreja, mas procurando desenvolver uma ética ou uma concepção de sociedade civil de um ponto de vista cristão, no qual o pluralismo (inclusive religioso) é pensando e vivido da maneira que isso glorifique a Deus.

Quais são os principais desafios da Igreja de Cristo no Brasil neste século?
Temos o desafio de construir uma forma cristã de viver no mundo. Isso significa que precisamos de compreensões realmente cristãs de como lidar com a família, Estado, educação, arte, ciência, tecnologia, cultura e entretenimento. Precisamos mudar a forma de como encaramos a missão e o testemunho. Devemos treinar, sustentar e enviar nossos membros para o mundo, preparados para o testemunho holístico do Evangelho. Outro desafio é o discipulado verdadeiro, no qual os mais velhos e mais experientes se relacionem com os mais novos para testemunharem corretamente sua fé. Isso se trata de compartilhar diariamente a vida com as pessoas.

Deixe uma mensagem para os leitores da Revista Comunhão.
Leiam o “Igreja Sinfônica”, mas não procurem belos insights ou frases de efeito arrebatadoras. O livro é simples, escrito em linguagem acessível. Desafie-se a si mesmo em crer que aquilo que está escrito ali não é romântico ou utópico. Desafie-se a aplicar as sugestões aos problemas locais que você enfrenta. Precisamos crer que a unidade do Espírito é real, e nos empenharmos em mantê-la por um único meio: o vínculo da paz.

Ficha técnica
Título: Igreja sinfônica
Subtítulo: Um chamado radical pela unidade dos cristãos
Autores: Carlos Henrique de Paula, Guilherme de Carvalho, Guilherme Franco, Igor Miguel, Marcos Almeida, Pedro Dulci e Rafael Balestra
Organizador: Pedro Dulci
Editora: Mundo Cristão

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita