Graça: que diferença faz para sua vida?

Foto ilustrativa

Doutrina essencial da fé cristã, a graça é tratada nas Escrituras Sagradas desde o Antigo Testamento.

O entendimento que se tem a respeito da graça é determinante para o comportamento dos servos de Deus.

No fim da Idade Média, a doutrina da graça perdeu espaço para a crença e a prática das penitências difundidas pela Igreja Católica. A Reforma Protestante surgida no século XVI na Alemanha, promovida por Martinho Lutero, João Calvino e outros, foi uma reação contra a excessiva valorização das boas obras em detrimento do significado da graça de Deus para a vida do ser humano.

Desde então, a doutrina da graça virou objeto de estudo. Uma das principais referências sobre o assunto até os dias de hoje é o apóstolo Paulo. Ele fez dela um dos temas principais de suas pregações e escritos, tanto que chegou a afirmar: “Sou o que sou pela graça de Deus”.

De acordo com o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, o termo (no hebraico, hçn) para favor ou graça é uma palavra cognata do acadiano ençnu, hananu, “conceder um favor”, do ugarítico hnn, “ser gracioso, demonstrar favor” (UT, 19.882) e do árabe hanna, “sentir solidariedade, compaixão”.

Hçn (favor, graça, encanto etc.) ocorre 69 vezes no Antigo Testamento, das quais 43 aparecem na frase “achar favor aos olhos de”, sete com o verbo “dar” e três com o verbo “alcançar” (Et 2:15,17;5:2), restando 14 usos independentes do termo.

O termo grego para graça no Novo Testamento é charis, usado também para graciosidade, amabilidade, favor, graças e gratidão. Há variações de (charisma), “presente oferecido de boa vontade”; “mostrar favor ou bondade”, “dar como favor”, “ser gracioso para alguém”, “perdoar”, “dotar de graça”. O Novo Testamento usa o termo 155 vezes, principalmente nas epístolas de Paulo, onde aparece cem vezes.

Graça é presente, prova de amor. Há muitos relatos nas Escrituras que ilustram a graça de Deus na vida de mulheres e homens. Um dos exemplos mais notáveis é o de Mefibosete, filho de Jonatas e neto de Saul. Jonatas foi o amigo mais íntimo de Davi, com quem fez um pacto de lealdade (1 Sm 18:3).

Mefibosete tinha cinco anos de idade (2 Sm 4:4) quando lhe chegou a notícia das mortes de seu pai e de seu avô. Apavorada, sua ama fugiu com ele, na tentativa de escondê-lo. Por causa de uma queda durante a fuga, Mefibosete ficou aleijado de ambos os pés. Anos mais tarde, depois da estabilização do reino, Davi procurou beneficiar as pessoas da casa de Saul, por amor a Jonatas. Ao inquirir se ainda havia alguém, o rei foi informado sobre Mefibosete e o convidou para viver no palácio.

No encontro com Davi, Mefibosete foi agraciado. Davi lhe disse: “Não temas, porque usarei de bondade para contigo, por amor de Jonatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu comerás pão sempre à minha mesa” (2 Sm 9:7).

Sentindo-se miserável e inútil, Mefibosete respondeu: “Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu?” (2 Sm 9:8). Mesmo assim, o filho de Jônatas passou a fazer suas refeições sempre à mesa do rei (2 Sm 9:13).

Assim como aconteceu com Mefibosete, a graça de Deus se manifesta a seus filhos, mas por meio de Cristo. Deus os amou quando ainda eram distantes de Sua presença, como descreve Romanos 5.8: “Mas, Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

Graça que vem da cruz

O escritor e pregador conhecido mundialmente, John Stott, traça em seu livro denominado “A Cruz de Cristo”, Editora Vida, o sentido da cruz para a humanidade.

Ao cair em pecado, o homem experimentou suas amargas conseqüências. Naquela condição, não havia nada que pudesse fazer para modificar a sua situação. Se não fosse a intervenção divina, a humanidade estaria condenada a uma miserável existência.

Para o ser humano, perdido, era impossível fazer algo para se salvar. Mas Deus providenciou um presente divino para humanidade: Jesus. “Quando Cristo entregou-se para morrer em nosso lugar, Ele pagou o preço que nenhum ser humano poderia pagar em favor de outro pecador. Em Efésios 1:7 está escrito que, segundo a riqueza da graça de Deus, nós temos a redenção através do sangue de Cristo”, falou o Pr. Cândido Ferreira de Souza Júnior, da Igreja Missionária Manancial, em Vila Velha.

John Stott destaca Paulo como aquele que bem soube definir o valor da cruz para a vida dos crentes. “Paulo definiu seu ministério como a pregação de Cristo crucificado. Ele declarou que a cruz era a própria essência da sabedoria e do poder de Deus. Tão convicto estava desse fato que havia deliberadamente decidido, como disse em Coríntios, renunciar à sabedoria do mundo e, em vez dela, a nada conhecer entre eles senão a Jesus Cristo, e este, crucificado”.

O pastor Cândido Jr. descreve que somente quem se vê na condição de perdido pecador pode compreender o valor do sacrifício de Jesus e do amor de Deus. “Através do prisma da cruz de Cristo, o homem passa a enxergar o quanto Deus nos ama. Um exemplo da graça de Deus é manifestada exatamente no momento da crucificação. O ladrão se viu perdido, indigno do céu. Mas ele cria no Messias e nEle depositou sua esperança de vida eterna. O ladrão e todos nós não merecemos o presente que Deus nos deu. Temos que olhar para a cruz de Cristo e enxergar que o favor de Deus por nós representa a nossa reconciliação com Ele. Sem a graça de Deus ao nosso dispor, estaríamos condenados”.

Viver pela graça e o peso da Lei

Há quem pense que “viver pela graça” é uma vida liberada. Pensamentos assim fazem muitas pessoas terem uma vida cristã inconsequente, fora dos preceitos bíblicos.

O mesmo Paulo que diz “estamos debaixo da graça e não debaixo da lei” (Rm 6:14), diz que “toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (II Tm 3: 16,17).

No tempo de Paulo, não existia ainda o Novo Testamento. Logo, a expressão “toda escritura” se refere à história – o Antigo Testamento. O que Deus inspirou é santo, bom, justo, fiel e válido para hoje e para sempre.

Paulo, que era judeu, exemplifica que a graça de ser salvo deu a ele a experiência do novo nascimento em Cristo, ou seja, a natureza do pecado que habitava nele deu lugar ao Espírito de Deus, não estando mais sob o jugo da natureza pecadora que separa o homem de Deus.

O fato de ser salvo pela fé no sangue de Jesus não torna a lei inválida. Jesus disse em Mateus 5:17: “não pensais que vim revogar a lei ou os profetas, não vim para revogar, vim para cumprir”.

“Em Jeremias 31:31 está escrito que a nova aliança que Deus firmaria com a Casa de Israel (povo eterno) não era uma aliança sem lei, e sim restabelecimento da lei tirada das tábuas de pedra e colocada nos corações”, disse o pastor Cláudio Almeida, da Igreja Evangélica Missão Shekinah, em Vila Velha.

O pastor Claudio destaca que apesar de a humanidade ter sido salva pela maior graça, que foi o sacrifício de Jesus, precisa da lei para se conduzir e orientar. “Não existe país ou qualquer instituição sem normas. Uma comprovação de como Jesus veio completar a lei é a responsabilidade que temos como servos. Quer um exemplo? Na lei de Moisés, era pecado o adultério (Dt 5:18); Jesus disse: ‘Se olhar para uma mulher com uma intenção impura, no coração, já adulterou com ela’ (Mt. 5:28)”.

A lei é prática. Provê orientações morais, éticas, familiares e de qualidade de vida válidas para os dias de hoje. Provérbios diz: “Filho meu, atenta para as minhas palavras, aos meus ensinamentos inclina os ouvidos, não os deixe apartarem-se dos teus olhos, guarda-os no mais íntimo do teu coração, porque são vida para quem os acha e saúde para o corpo” (Pv 4:20-22).

Quem desconsidera o que Deus deseja de seus servos vive o que o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer definiu como “graça barata”. Ele popularizou esse termo a partir de seu livro “Discipulado”, escrito em 1937 e publicado pela Editora Sinodal em 2004.

Logo nas primeiras páginas, ele faz um alerta dizendo: “A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja. Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz de Cristo e sua ressurreição”.

Há 74 anos, Dietrich Bonhoeffer falava do “evangelho das facilidades”, que levava muitas pessoas a uma vida superficial diante de Deus. Uma realidade presente em muitas igrejas na era moderna e que destoa dos ensinamentos bíblicos.

Um exemplo é o entendimento do que é pecado, como descreve o pastor Glalter Garcia Justo Rocha, da Igreja Presbiteriana de Itaparica, em Vila Velha. “Creio que a melhor forma de combatermos o barateamento da graça de Cristo é um compromisso cada vez mais explícito com o Evangelho. Não existe separação entre pecado e pecador. Em nenhum momento a Bíblia fala que haverá condenação de pecado e absolvição de pecador. Não há como servirmos a Deus com a mente e isso não estender-se ao corpo. Qualquer proposta que se oponha a isto pode ser chamada de tudo, menos de graça”.

A leitura isolada e descontextualizada de textos bíblicos agrava a situação. “Só é possível mudar essa realidade em nossas igrejas a partir de um estudo sistemático das escrituras, entendendo que não há divisões na Bíblia entre o ensino do Velho e do Novo Testamento. Não se podem fazer leituras isoladas. Tudo é palavra de Deus”.

Bonhoeffer contrasta a graça barata com a graça preciosa, pela qual, segundo ele, deve-se lutar: “A graça é o chamado de Jesus Cristo, que leva o discípulo a largar suas redes e segui-lo. Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-la sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós”.

O que é viver pela Graça?

“É viver de acordo com o que Jesus deixou de ensinamento para nós. É buscar a cada dia estar mais perto d’Ele, é viver em santidade em meio ao mundo, onde tudo ocorre para nos afastar da presença de Deus. Viver pela graça é ter fé mesmo em meio aos momentos mais difíceis. Viver pela graça é confiar somente e deixar Deus à frente, nos dando as coordenadas”
Dayanne Cardozo Lima, comerciária

“Para mim, viver pela graça é experimentar diariamente o reinado dEle sobre nossas vidas. Como seminarista, e por ter aceitado o chamado de Jesus para minha vida, tenho experimentado dia após dia o cuidado e a graça de Deus. Porque para muitos viver da graça de Deus pode parecer algo muito louco, mas é isso que Deus espera de nós. Que possamos viver verdadeiramente a graça dEle em nossas vidas”
Matheus Freitas Caboclo, publicitário, seminarista

“É viver em eterna gratidão, ser totalmente rico no amor de Deus. A graça de
Deus é o que nos constrange e nos faz deleitar em Seus braços e descansar. É
pela graça que somos salvos e isso não vem de nós. É dom de Deus”
Eliane de Almeida M. Rodrigues, secretária

“Entendo que viver pela graça de Deus é admitir minha incapacidade carnal de agradar a Cristo. É buscar auxílio diariamente no Espírito Santo e na Palavra para que eu possa viver conforme agrada a Deus, renegando as paixões mundanas e vivendo de forma sensata, justa e piedosa”
Thiago Teixeira de Moraes Camponez, educador físico

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.

Aproveite as promoções especiais na Loja da Comunhão!